{"id":11469,"date":"2026-01-09T22:40:06","date_gmt":"2026-01-10T01:40:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11469"},"modified":"2026-01-09T22:40:17","modified_gmt":"2026-01-10T01:40:17","slug":"o-canto-do-acaua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/01\/09\/o-canto-do-acaua\/","title":{"rendered":"&#8220;O CANTO DO ACAU\u00c3&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA LUTA DAS FOR\u00c7AS VOLANTES CONTRA OS CONGACEIROS\u201d<\/p>\n<p>No mundo \u00e9pico e imagin\u00e1rio do canga\u00e7o, existe uma vasta literatura sobre o assunto, a grande maioria focada em Lampi\u00e3o que mais se sobressaiu na hist\u00f3ria do banditismo nordestino durante cerca de 20 anos, mas existiram outros, como Ant\u00f4nio Silvino, Cassimiro Hon\u00f3rio e \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira que deixaram suas marcas como valent\u00f5es. \u00a0Lampi\u00e3o foi transformado numa lenda na oralidade do povo, no canto exagerado dos repentistas e na boca da imprensa daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>O livro \u201cO Canto do Acau\u00e3\u201d, da professora, jornalista e escritora, de Pesqueira (Pernambuco), Marilourdes Ferraz, n\u00e3o se trata de uma obra acad\u00eamica, mas de muitas narrativas baseadas em depoimentos de testemunhas e nas mem\u00f3rias do seu pai Manoel de Souza Ferraz (Flor), uma fam\u00edlia que passou a vida combatendo os cangaceiros bandoleiros do agreste nordestino desde in\u00edcio dos anos de 1900.<\/p>\n<p>Com sua prosa no formato de conta\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias daquele povo, com pitadas romanescas, ela mostra o outro lado das a\u00e7\u00f5es das volantes que foram, segundo a escritora, combativas, e procura desfazer aquela imagem distorcida de que essas for\u00e7as atuaram com excessiva arbitrariedade e viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o das vilas, chegando a cometer estupros, como relatam escritores.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o nega que houve erros, mas n\u00e3o generalizados, e que eram homens valentes que combatiam com garra, mesmo sem os recursos necess\u00e1rios dos governantes. Ferraz dedica o livro aos combatentes das For\u00e7as Volantes \u201cque entregaram sua mocidade e energia \u00e0 luta contra o banditismo no sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sua obra mapeia os lugares origin\u00e1rios de Pernambuco onde nasceu o cangaceirismo, como Riacho do Navio, Nazar\u00e9, Serra de Uman, Vele do Paje\u00fa, rio Moxot\u00f3, Serra Vermelha, Serra Negra, Campo da Ema, entre outros, que at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX eram constitu\u00eddos de um povo pacato, com vilas, caso da S\u00e3o Francisco, vivendo em prosperidade. As secas, as intrigas familiares, a prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o social, os isolamentos do Nordeste, principalmente, mudaram o panorama, dando lugar \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Marilourdes Ferraz descreve sobre o misticismo nordestino, suas cren\u00e7as, rezas, festejos populares e a verve po\u00e9tica e musical dessa gente, inclusive entre os pr\u00f3prios cangaceiros, como um tal de \u201cCacheado\u201d com seus versos, que tudo indica ter sido o autor de \u201cMui\u00e9 Rendeira\u201d, muito apreciado por \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira e depois pelo pr\u00f3prio Lampi\u00e3o e seus irm\u00e3os Ferreiras.<\/p>\n<p>\u201cNa falta de uma explica\u00e7\u00e3o para os fen\u00f4menos clim\u00e1ticos, os sertanejos entregavam-se como sempre ao misticismo na procura de respostas \u00e0s suas angustiadas indaga\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas pedras de sal eram expostas ao relento na v\u00e9spera do dia de Santa Luzia. Se na manh\u00e3 seguinte estivessem dissolvidas, as chuvas viriam, mas se permanecessem \u00edntegras isto pronunciaria ano de seca. No final do ano, ventos fortes provenientes do Sul indicavam seca. Se no dia de Ano Novo o sol nascesse l\u00edmpido e de repente uma nuvem o encobrisse, haveria boas perspectivas de chuvas na esta\u00e7\u00e3o invernosa. Em \u00e9poca de estiagem ou de seca, o furto da imagem do Menino Jesus de junto da de Santo Ant\u00f4nio podia assegurar um bom inverno e, quando apareciam as chuvas, o Menino era devolvido aos bra\u00e7os do Santo, em prociss\u00e3o, com fogos e c\u00e2nticos\u201d. A pr\u00f3pria ave Acau\u00e3 \u00e9 vista como agourenta, mas ela tem outro canto que traduz esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/DSC_0701.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11470\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/DSC_0701.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/DSC_0701.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/DSC_0701-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de como muitos alardeiam, de acordo com o que narra em seu livro, Jos\u00e9 Ferreira, o pai de Virgulino, o Lampi\u00e3o, era um homem pacato que vivia desgostoso por ver seus filhos enveredarem na bandidagem, mas sua m\u00e3e chegava at\u00e9 incentiv\u00e1-los e era, de certo ponto, violenta.<\/p>\n<p>Para fugir daquelas desaven\u00e7as entre seus filhos e o fazendeiro poderoso Jos\u00e9 Saturnino, ele e a fam\u00edlia se mudaram para Alagoas por volta de 1919\/20 onde foi morto. Sua esposa sofreu um AVC quando seu filho mais novo Jo\u00e3o Ferreira foi preso. Outros autores dizem que foi morto por engano pelo tenente Jos\u00e9 Lucena Maranh\u00e3o, um dos maiores inimigos de Virgulino Ferreira e seus irm\u00e3os Ant\u00f4nio (Esperan\u00e7a), Livino (Vassoura) e Ezequiel (Ponto Fino).<\/p>\n<p>Seu pai morreu em 21 de maio de 1921. Os epis\u00f3dios que acarretaram sua morte tiveram lugar em 9 de maio do mesmo ano. Foi o assalto a Paric\u00f4nia por Lampi\u00e3o e seu bando onde roubaram joias, dinheiro e o que n\u00e3o pode ser levado foi destru\u00eddo.<\/p>\n<p>Sob o comando do tenente Jos\u00e9 Lucena, que cercou a propriedade Engenho Velho, no tiroteio foram mortos \u201cSinh\u00f4\u201d Fragoso e Jos\u00e9 Ferreira, baleado quando se dirigia ao curral, conforme registro no cart\u00f3rio de \u00c1gua Branca (Alagoas). Os irm\u00e3os Ferreiras n\u00e3o estavam em casa, mas ficaram revoltados. Lampi\u00e3o teria dito que iria matar at\u00e9 morrer.<\/p>\n<p>Num combate com Jos\u00e9 Saturnino, no munic\u00edpio de Cust\u00f3dia (Pernambuco), Lampi\u00e3o ficou desprovido de muni\u00e7\u00e3o e mandou seu irm\u00e3o Jo\u00e3o Ferreira comprar o material em \u00c1gua Branca (Alagoas), mas o jovem foi preso, conforme relata a escritora. Com Ant\u00f4nio Matilde, os Ferreiras rumaram para \u00c1gua Branca no intuito de arrombar a cadeia e soltar o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>No caminho encontraram com as for\u00e7as e estas, n\u00e3o conseguindo obstar o plano dos cangaceiros, voltaram para a cidade e libertaram Jo\u00e3o Ferreira. Ap\u00f3s esse choque dos filhos, Maria Lopes Ferreira, a m\u00e3e de Lampi\u00e3o, sofreu um AVC e depois veio a falecer.<\/p>\n<p>Marilourdes conta que a briga com Saturnino come\u00e7ou l\u00e1 em Pernambuco por causa do furto de um chocalho, segundo ele, pelos irm\u00e3os Ferreiras. Ele perseguiu os jovens de forma implac\u00e1vel, com requintes de crueldade, \u201cfor\u00e7ando sua ades\u00e3o ao mundo do crime\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte dos pais, os Ferreiras retornaram \u00e0 regi\u00e3o do Paje\u00fa onde se associaram ao grupo de \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira, \u201cda mesma maneira pela qual haviam estado antes sob a chefia dos irm\u00e3os Porcino, em Alagoas\u201d.<\/p>\n<p>Quando esteve sob as ordens de \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira, Lampi\u00e3o ficou temporariamente esquecido, mas voltou a ter notoriedade nacional quando realizou, com seu bando, o assalto \u00e0 resid\u00eancia da idosa baronesa Joana de Siqueira Torres, em \u00c1gua Branca (Alagoas), em 26 de junho de 1922, levando joias e pertences valiosos. Em 22 de agosto do mesmo ano, \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira partiu de Pernambuco, abandonando o canga\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA LUTA DAS FOR\u00c7AS VOLANTES CONTRA OS CONGACEIROS\u201d No mundo \u00e9pico e imagin\u00e1rio do canga\u00e7o, existe uma vasta literatura sobre o assunto, a grande maioria focada em Lampi\u00e3o que mais se sobressaiu na hist\u00f3ria do banditismo nordestino durante cerca de 20 anos, mas existiram outros, como Ant\u00f4nio Silvino, Cassimiro Hon\u00f3rio e \u201cSinh\u00f4\u201d Pereira que deixaram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11469"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11469"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11471,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11469\/revisions\/11471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}