{"id":11437,"date":"2025-12-31T18:14:04","date_gmt":"2025-12-31T21:14:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11437"},"modified":"2025-12-31T18:14:16","modified_gmt":"2025-12-31T21:14:16","slug":"a-folinha-de-arrancar-o-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/12\/31\/a-folinha-de-arrancar-o-dia\/","title":{"rendered":"A FOLINHA DE ARRANCAR O DIA"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Come\u00e7o a pensar no calend\u00e1rio da inf\u00e2ncia, quando mam\u00e3e Cleonice, logo de manh\u00e3 cedo, arrancava todo dia o dia anterior, na folhinha do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, vendida pela Editora Vozes. A folhinha, que existe desde 1940, traz o calend\u00e1rio anual que \u00e9 encaixado na parte inferior da estampa.<\/p>\n<p>Mais tarde, passei a gostar de ler aquelas pequenas folhas soltas onde, n\u00e3o sei como, cabia tanta coisa escrita na frente e atr\u00e1s: um trecho do Evangelho, o santo do dia, fases da lua, frases c\u00e9lebres e como tirar mancha de caju da roupa.<\/p>\n<p>Aquilo, sim, \u00e9 que era calend\u00e1rio, pois o dia era arrancado um a um. Faz bem arrancar o dia de ontem e jogar fora. Hoje, a gente recebe calend\u00e1rios onde cabem at\u00e9 3 meses numa s\u00f3 p\u00e1gina, quando n\u00e3o \u00e9 o ano todo, Nos \u00faltimos tempos, compro todo ano a folhinha do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>\u201cSeu Chico, o senhor tem folhinha?\u201d<\/p>\n<p>Qual n\u00e3o era a satisfa\u00e7\u00e3o de meu av\u00f4 ao pegar na gaveta aquela folhinha da sua loja em Ipia\u00fa, a Casa S\u00e3o Roque, e o fregu\u00eas exclamar ohs! diante dos cachorrinhos, crian\u00e7as e cascatas. As folhinhas s\u00e3o bonitas certamente para tornar os dias mais amenos.<\/p>\n<p>A folhinha caiu de moda. Saiu at\u00e9 da sala pra cozinha. Eu me lembro que se brigava por folhinha: \u201cSeu Manoel, olha l\u00e1, hein? Pode guardar a minha que venho buscar segunda-feira. N\u00e3o posso ficar esse ano sem folhinha\u201d.<\/p>\n<p>Casa com cinco quartos tinha uma folhinha em cada um. A mais bonita ficava pra sala e as que sobravam iam pro corredor ou cozinha.<\/p>\n<p>J\u00e1 um pouco mais crescido, passei a notar que nas folhinhas do quarto da minha tia beata s\u00f3 tinha santo, enquanto as da barbearia s\u00f3 tinha mulher boa. Barbearia, casa de pe\u00e7as e borracharia s\u00e3o lugares danados pra ter calend\u00e1rio de mulher nua e fazendo propaganda de amortecedor ou de pneu. J\u00e1 vi uma barbearia onde setembro era mulher boa e outubro era um girassol. Outubro chegou, j\u00e1 era dia 15, mas a folhinha continuava em setembro, pra n\u00e3o virar a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Os calend\u00e1rios \u2013 ou folhinhas, nome gostoso e cheio de lembran\u00e7as \u2013 tamb\u00e9m servem para marcar os dias perigosos das mulheres, os dias f\u00e9rteis, a famosa tabela. Aquele pequeno c\u00edrculo em volta dos dias j\u00e1 diz tudo.<\/p>\n<p>Folhinha velha n\u00e3o podia continuar na parede nem um dia a mais. Folhinha nova dava azar se colocada antes de primeiro de janeiro.<\/p>\n<p>Dia ap\u00f3s dia, todos iguais. A folhinha traz um pouco de poesia para o cotidiano. Nesse ano-novo, que voc\u00ea receba uma folhinha de cachorrinhos, crian\u00e7as e cascatas.<\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde em 19\/12\/90)<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Come\u00e7o a pensar no calend\u00e1rio da inf\u00e2ncia, quando mam\u00e3e Cleonice, logo de manh\u00e3 cedo, arrancava todo dia o dia anterior, na folhinha do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, vendida pela Editora Vozes. A folhinha, que existe desde 1940, traz o calend\u00e1rio anual que \u00e9 encaixado na parte inferior da estampa. 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