{"id":11420,"date":"2025-12-26T23:21:09","date_gmt":"2025-12-27T02:21:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11420"},"modified":"2025-12-26T23:21:21","modified_gmt":"2025-12-27T02:21:21","slug":"cartas-e-oracoes-dos-cangaceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/12\/26\/cartas-e-oracoes-dos-cangaceiros\/","title":{"rendered":"CARTAS E ORA\u00c7\u00d5ES DOS CANGACEIROS"},"content":{"rendered":"<p>Durante o per\u00edodo do canga\u00e7o, que durou praticamente um s\u00e9culo no Nordeste, al\u00e9m dos seus apetrechos que carregavam, como chap\u00e9us de couro de aba dobrada, com estrelas de Salam\u00e3o, cartucheiras, bornais bordados e outros utens\u00edlios de sobreviv\u00eancia no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coron\u00e9is coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas ora\u00e7\u00f5es (de grande valor) para proteg\u00ea-las dos seus inimigos.<\/p>\n<p>As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampi\u00e3o, no auge do banditismo, nas d\u00e9cadas de 20 e 30, eram endere\u00e7adas atrav\u00e9s de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobran\u00e7as (na verdade eram taxas de ped\u00e1gios de prote\u00e7\u00e3o), aos inimigos, com intimida\u00e7\u00f5es e at\u00e9 a oficiais chefes de pol\u00edcia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o portugu\u00eas, considerado por estudiosos como a verdadeira l\u00edngua de Cam\u00f5es e Gil Vicente, Lampi\u00e3o mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: \u201cN\u00e3o acho direito \u00e9 voc\u00eas estarem armados e juntando gente. Isto n\u00e3o est\u00e1 direito. Preciso dar passagem deste lugar e n\u00e3o quero alarme no Cear\u00e1! N\u00e3o sou moleque para andar com hist\u00f3rias erradas\u201d.<\/p>\n<p>Em outra, ele encaminha uma corta para Ant\u00f4nio Mando, onde pede dois contos de r\u00e9is. Espero isto sem falta agora alarmi e n\u00e3o mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, n\u00e3o falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advert\u00eancia: \u201cO Sr. est\u00e1 com Um pe\u00e7oal Em arma contra mim, portanto, quero qui fa\u00e7a como homem, sahia da Rua e mi pegue\u201d. Mais na frente diz que \u201cEu tenho comido toicinho com Mais cabelo\u201d. No final, assina seu nome com vulgo Lampi\u00e3o u terror do Sert\u00e3o. Para o sargento Jos\u00e9 Ant\u00f4nio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.<\/p>\n<p>Corisco tamb\u00e9m endere\u00e7ou uma carta para o padre Jos\u00e9 Bulh\u00f5es, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dad\u00e1 e pedia ao vig\u00e1rio que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel C\u00e2ndido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.<\/p>\n<p>No invent\u00e1rio dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampi\u00e3o: Chap\u00e9u de couro com seis signos de Salom\u00e3o e 55 pe\u00e7as de ouro; pe\u00e7as e moedas de ouro; mosquet\u00e3o mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Ex\u00e9rcito Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; len\u00e7os vermelhos; pistola parab\u00e9lum; luvas; cobertas; an\u00e9is de ouro e prata; \u00f3culos (arma\u00e7\u00e3o de ouro); e um pacote de ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com Lampi\u00e3o foram encontrados v\u00e1rios livrinhos de ora\u00e7\u00f5es onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas ora\u00e7\u00f5es eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narra\u00e7\u00f5es do Antigo e do Novo Testamento.<\/p>\n<p>Com o cangaceiro estavam em seus bornais as ora\u00e7\u00f5es Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia \u00e1gua pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua m\u00e3o; a ora\u00e7\u00e3o do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo conc\u00f3rdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para tr\u00e1s e de tr\u00e1s para frente; a ora\u00e7\u00e3o Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a ora\u00e7\u00e3o De Nosso Senhor Jezuz Christo.<\/p>\n<p>Todas essas cartas e ora\u00e7\u00f5es foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Alagoas, onde se acham ainda as ora\u00e7\u00f5es das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, est\u00e1 muito utilizada por Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o per\u00edodo do canga\u00e7o, que durou praticamente um s\u00e9culo no Nordeste, al\u00e9m dos seus apetrechos que carregavam, como chap\u00e9us de couro de aba dobrada, com estrelas de Salam\u00e3o, cartucheiras, bornais bordados e outros utens\u00edlios de sobreviv\u00eancia no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coron\u00e9is coiteiros e oficiais das volantes, e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11420"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11421,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420\/revisions\/11421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}