{"id":11398,"date":"2025-12-19T23:33:20","date_gmt":"2025-12-20T02:33:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11398"},"modified":"2025-12-19T23:33:31","modified_gmt":"2025-12-20T02:33:31","slug":"o-cangaco-cinzento-e-o-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/12\/19\/o-cangaco-cinzento-e-o-verde\/","title":{"rendered":"O CANGA\u00c7O CINZENTO E O VERDE"},"content":{"rendered":"<p>O \u00e1rido cinzento das secas e a quest\u00e3o social de pobreza, num Nordeste por s\u00e9culos isolado, sem lei e sem rei, foram fatores preponderantes para a dissemina\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do canga\u00e7o, se bem que outros, como as intrigas entre fam\u00edlias, o coronelismo e as disputas entre os poderosos chefes pol\u00edticas tamb\u00e9m contribu\u00edram para nutrir este fen\u00f4meno por mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Entre o canga\u00e7o end\u00eamico e o epid\u00eamico, onde Pernambuco foi de longe o celeiro do banditismo, seguido por Para\u00edba, existiram o chamado cinzento concentrado no agreste do sert\u00e3o e o verde na zona da mata mais pr\u00f3ximo do literal onde estavam localizados os engenhos de cana-de-a\u00e7\u00facar, conforme pontua Frederico Pernambucano de Mello, autor da obra \u201cGuerreiros do Sol\u201d.<\/p>\n<p>No cinzento reinou Lampi\u00e3o e seus bandos durante cerca de 20 anos que percorreram sete estados, al\u00e9m de Jesu\u00edno Brilhante e Sinh\u00f4 Pereira no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, mas foi o Ant\u00f4nio Silvino, tipo acabado do sertanejo do Paje\u00fa ressequido, o maior bandido que atuou em \u00e1reas f\u00e9rteis do Nordeste. Em seu primeiro ataque a um engenho a servi\u00e7o de um contratante, no final do s\u00e9culo XIX, foi naquela regi\u00e3o que ele descobriu a galinha dos ovos de ouro.<\/p>\n<p>Outros tamb\u00e9m agiram nesta \u00e1rea dos usineiros, como Rio Preto, Rel\u00e2mpago, o Ferreiro, Cocada, o Andr\u00e9 Tripa e tantos outros. Naquelas \u00e1reas estendiam, em maiores propor\u00e7\u00f5es, as garras do latif\u00fandio, minando a possibilidade de surgimento de uma classe m\u00e9dia e produzindo um proletariado sem condi\u00e7\u00f5es de ascens\u00e3o. Em alguns pontos, o verde se aproximava do cinzento, este empobrecido por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Nesse rol, entre o verde o cinzento, n\u00e3o podemos deixar de citar o Lucas da Feira, que atuou na regi\u00e3o de Feira de Santana, em meio aos dois tipos. Por vinte anos, foi o Lampi\u00e3o da Bahia. Dizem historiadores que ele est\u00e1 para a Bahia como o Cabeleira para Pernambuco. Seu tempo de criminalidade se deu entre 1828 a 1848, ao lado dos escravos Flaviano, Janu\u00e1rio e outros. Foi um t\u00edpico bandido de of\u00edcio. Ap\u00f3s preso, Lucas foi enforcado em 25 de setembro de 1849.<\/p>\n<p>O legista Nina Rodrigues dele fez um perfil um tanto curioso. Era negro canhoto, espada\u00fado, corpulento, rosto comprido, barbado, olhos grandes e ferozes, nariz achatado, boca grande, peito peludo, orelhas pequenas, como tamb\u00e9m os p\u00e9s e as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c0 luz da antropologia f\u00edsica do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX, de acordo com Nina, constatou-se que seu cr\u00e2nio tinha todos caracteres dos negros, mas tamb\u00e9m pertencentes a cr\u00e2nios superiores, com medidas excelentes, iguais \u00e0s das ra\u00e7as brancas.<\/p>\n<p>SEQUESTRO COMO RESGATE E AS ESTRADAS<\/p>\n<p>Quanto ao canga\u00e7o do cinzento, em o Canto do Acau\u00e3, de Marilurdes Ferraz, a escritora destaca que Lampi\u00e3o foi o introdutor do sequestro e resgate, modalidade que fazia uso corrente, tendo por v\u00edtimas empresas multinacionais, como a Standard Oil Company e a Souza Cruz. Segundo ela, Virgulino foi o primeiro cangaceiro a empregar o sequestro como resgate.<\/p>\n<p>Como exemplo, \u00e9 citado o sequestro do escriv\u00e3o de Justi\u00e7a de Capim Grosso, na Bahia. O escritor sergipano Ranulfo Prata diz que o bandido \u201cusa tamb\u00e9m dos processos civilizados dos americanos\u201d. Ele destaca, nos anos 30, o sequestro e resgate do filho de Charles Lindbergh, nos Estados Unidos, pelo imigrante alem\u00e3o Bruno Richard Hauptman, condenado \u00e0 cadeira el\u00e9trica.<\/p>\n<p>O banditismo n\u00e3o foi exclusivo do Nordeste brasileiro. Aconteceu tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, como na Espanha, em Andaluzia, na pedregosa Catalunha, na C\u00f3rsega e Sardenha, na It\u00e1lia. Como relata Frederico, no banditismo espanhol, os primeiros sequestros ocorreram em princ\u00edpios de 1869, na prov\u00edncia de M\u00e1laga, por Alameda y Alora. \u201c\u00c9 o que nos dizem Queir\u00f3s e Ardila, em El Bandoleirismo Andaluz\u201d.<\/p>\n<p>De todos os banditismos em outros pa\u00edses, o que mais se assemelhou ao nosso, inclusive com uma gesta po\u00e9tica muito rica de autores nos cantos do jondo ou flamenco, de modo particular na chamada serrana, foi o espanhol da Catalunha e da Antaluzia, onde havia fundos fincados na alma do povo, sistema de coiteiros, relevo acidentado, culto \u00e0 valentia, degolamentos e uma repress\u00e3o ineficiente e corrupta.<\/p>\n<p>No entanto, como diz Frederico de Mello, o maior banditismo rural brasileiro foi mesmo no cinzento das caatingas nordestinas onde encontrou condi\u00e7\u00f5es extremamente favor\u00e1veis \u201ccapazes de endiabr\u00e1-lo em verdadeira praga\u201d.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter epid\u00eamico no semi\u00e1rido, \u201cencontra-se intimamente ligado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es mesol\u00f3gicas e aos processos que presidiram a forma\u00e7\u00e3o da sociedade sertaneja, condicionando o aparecimento de um tipo de homem bem diferente do seu vizinho das regi\u00f5es do litoral\u201d.<\/p>\n<p>Ranulfo Prata descreve tamb\u00e9m o \u00f3dio que o bandido Lampi\u00e3o tinha pelas aberturas de estradas no Nordeste. Em 1929 ele interrompe com amea\u00e7as a constru\u00e7\u00e3o que ia unir Juazeiro a Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria, passando pelo seu predileto esconderijo que era o Raso da Catarina.<\/p>\n<p>Em fins de maio de 1930, nas proximidades de Patamut\u00e9, Bahia, topa com uma turma de obras de estrada, matando um. Fez o mesmo em Mandacaru, na Bahia, com tr\u00eas mortes. Em 1934 ataca, em Sergipe, pelo mesmo motivo, bem como, em 1937, quando uma estrada federal \u00e9 embargada a bala. O jornal A Tarde chegou a noticiar esses fatos.<\/p>\n<p>AS PROPOSTAS<\/p>\n<p>Nos tempos do canga\u00e7o ocorreram muitos fatos curiosos, muitos dos quais relacionados com Lampi\u00e3o. Em sua vida, recebeu muitas propostas para deixar o canga\u00e7o. Em 1922, no in\u00edcio do seu banditismo, Sinh\u00f4 Pereira, ao pendurar seu rifle, o convidou a deixar o sert\u00e3o. Anos mais tarde, vida j\u00e1 arrumada em Minas Gerais, Sinh\u00f4 renovou o convite atrav\u00e9s do seu protetor pol\u00edtico Farnesi Dias Maciel. Lampi\u00e3o tinha at\u00e9 a op\u00e7\u00e3o de ir morar em Mato Grosso.<\/p>\n<p>Em 1924, ferido no p\u00e9 em tiroteio, Belmonte, Pernambuco, recebeu oferta do ent\u00e3o capit\u00e3o Te\u00f3fanes Ferraz Torres para que se entregasse juntamente com seus irm\u00e3os que seriam todos perdoados. Escondido no mato e perdendo sangue, Lampi\u00e3o aceita, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que seus cabras tamb\u00e9m fossem beneficiados. O capit\u00e3o n\u00e3o concorda.<\/p>\n<p>Em 1928, seu primo Sebasti\u00e3o Paulo procura Virgulino no Capi\u00e1, Alagoas, com proposta do tenente pernambucano Arlindo Rocha, para que se entregasse e seria levado sob escolta at\u00e9 o chefe de pol\u00edcia de Recife, Eurico de Souza Le\u00e3o. A proposta era que Lampi\u00e3o abandonasse Pernambuco e fosse para a Bahia. Lampi\u00e3o disse ao primo que falasse ao chefe de pol\u00edcia de que ele n\u00e3o foi encontrado.<\/p>\n<p>Apesar da recusa, dias depois ele foge de Pernambuco e se refugia na Bahia e Sergipe, isto porque o governador daquele estado, Est\u00e1cio Coimbra mandou prender um bando de coiteiros, cortando a rede de prote\u00e7\u00e3o dos cangaceiros.<\/p>\n<p>\u201cAfora uma proposta ardilosa de perd\u00e3o do presidente Vargas, feita pelo tenente Jo\u00e3o Bezerra (seu algoz em 1938), nos primeiros anos da d\u00e9cada de 30, conhecemos mais duas, uma de Aud\u00e1lio Ten\u00f3rio, de 1937, para que abandonasse o sert\u00e3o, e a de Joaquim Resende, com o benepl\u00e1cito do major Jos\u00e9 Lucena (seu maior inimigo). A negocia\u00e7\u00e3o estava em andamento quando ocorreu a morte do cangaceiro. Padre C\u00edcero tamb\u00e9m tentou persuadi-lo de que deixasse o canga\u00e7o e fosse para Goi\u00e1s, isto por volta de 1926\/27.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00e1rido cinzento das secas e a quest\u00e3o social de pobreza, num Nordeste por s\u00e9culos isolado, sem lei e sem rei, foram fatores preponderantes para a dissemina\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do canga\u00e7o, se bem que outros, como as intrigas entre fam\u00edlias, o coronelismo e as disputas entre os poderosos chefes pol\u00edticas tamb\u00e9m contribu\u00edram para nutrir este [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11398"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11398"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11398\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11401,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11398\/revisions\/11401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}