{"id":11377,"date":"2025-12-16T23:59:33","date_gmt":"2025-12-17T02:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11377"},"modified":"2025-12-17T00:01:18","modified_gmt":"2025-12-17T03:01:18","slug":"no-pais-das-doacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/12\/16\/no-pais-das-doacoes\/","title":{"rendered":"NO PA\u00cdS DAS DOA\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o que seja contra a dar algo de material \u00e0s pessoas mais carentes ou um prato de comida a quem est\u00e1 passando fome. N\u00e3o \u00e9 isso, mas essa \u201cfebre\u201d de doa\u00e7\u00f5es, onde o Brasil se tornou no pa\u00eds do dar, no sentido assistencialista, n\u00e3o significa inclus\u00e3o social, ou ascens\u00e3o de classe de quem vive na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Pode-se dar o nome de caridade ou solidariedade para com o pr\u00f3ximo, atitude que, culturalmente, tem um toque de religiosidade. Existe aquele tipo de doa\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea que ocorre em determinadas circunst\u00e2ncias, como em casos de trag\u00e9dias quando v\u00edtimas perdem seus bens e o de \u00e9poca, como final de ano, nas costumeiras campanhas de Natal.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo se ouve muito o \u201cfa\u00e7a uma pessoa feliz\u201d, dando um brinquedo para uma crian\u00e7a, ou alguns itens aliment\u00edcios para a ceia da noite. Quem recebe sente aquela sensa\u00e7\u00e3o de felicidade, s\u00f3 que passageira, porque depois o beneficiado vai continuar se sentindo um lixo exclu\u00eddo socialmente.<\/p>\n<p>\u00c9 como um sonho n\u00e3o realizado. O verdadeiro seria mesmo viver num pa\u00eds igualit\u00e1rio, com oportunidades para todos, onde n\u00e3o mais existissem essas filmagens de campanhas de doa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o mais essa nossa gente sendo usada para muitos pousarem de bondosos e caridosos.<\/p>\n<p>Me desculpem, mas existe muita filosofia barata no que diz respeito a ser feliz nesses bord\u00f5es caracter\u00edsticos das campanhas de doa\u00e7\u00f5es. Nem todos, mas muitos d\u00e3o alguma coisa para ficar bem na fita, ou na imagem, e outros como se fosse uma remiss\u00e3o dos seus \u201cpecados\u201d durante o ano.<\/p>\n<p>Nossa sociedade \u00e9 muito hip\u00f3crita e podre, do tipo que morde e depois assopra. Com seu ego\u00edsmo, de cultura burguesa-capitalista, ela mesmo \u00e9 criadora da pobreza e da mis\u00e9ria e, consequentemente, da viol\u00eancia gerada pelo banditismo. A maioria acha que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d e nem tem consci\u00eancia que foi o pr\u00f3prio sistema que o apoia quem criou o \u201cmonstro\u201d. S\u00e3o benfeitores e algozes ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Dar um objeto ou uma cesta b\u00e1sica por ano n\u00e3o custa muito e serve para se dizer que se sente \u201cfeliz\u201d em fazer o bem a algu\u00e9m necessitado, marginalizado e exclu\u00eddo da sociedade. No entanto, rejeita qualquer pol\u00edtica p\u00fablica de distribui\u00e7\u00e3o de renda. A maioria n\u00e3o quer ver o pobre crescer e entrar como cidad\u00e3o no mesmo ambiente que ele frequenta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, inconscientemente, neste pa\u00eds do se dar, expressa o desejo de que a pobreza jamais se acabe, sen\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 mais aquele momento de \u201cfelicidade\u201d no ato da doa\u00e7\u00e3o e ganhar um lote no reino dos c\u00e9us. Estou salvo por ter feito a minha parte \u2013 assim pensam muitos quando atendem ao apelo da doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde quando me entendo por gente, as \u201cesmolas\u201d s\u00f3 crescem e, junto com elas, aumenta cada vez mais a pobreza e a ignor\u00e2ncia. Nossos governantes, nos \u00faltimos tempos, gastam muito mais com a pol\u00edtica do dar, do que com a pol\u00edtica da inclus\u00e3o do ensinar pegar o peixe.<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es, entidades e corpora\u00e7\u00f5es sempre est\u00e3o nessa linha de frente das doa\u00e7\u00f5es em datas festivas, principalmente em final de ano, para fazerem suas m\u00e9dias e at\u00e9 mesmo mascararem suas imagens de \u201ccaridosos\u201d, quando, na verdade, s\u00e3o o tempo todo excludentes, discriminat\u00f3rias e punitivas contra os pr\u00f3prios pobres. S\u00e3o a\u00e7\u00f5es e comportamentos paradoxais e contradit\u00f3rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o que seja contra a dar algo de material \u00e0s pessoas mais carentes ou um prato de comida a quem est\u00e1 passando fome. N\u00e3o \u00e9 isso, mas essa \u201cfebre\u201d de doa\u00e7\u00f5es, onde o Brasil se tornou no pa\u00eds do dar, no sentido assistencialista, n\u00e3o significa inclus\u00e3o social, ou ascens\u00e3o de classe de quem vive na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11377"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11377"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11378,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11377\/revisions\/11378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}