{"id":11309,"date":"2025-12-02T23:30:34","date_gmt":"2025-12-03T02:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11309"},"modified":"2025-12-02T23:38:23","modified_gmt":"2025-12-03T02:38:23","slug":"a-malandragem-e-a-burocracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/12\/02\/a-malandragem-e-a-burocracia\/","title":{"rendered":"A MALANDRAGEM E A BUROCRACIA"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Calma, meu amigo, n\u00e3o adianta ficar nervoso, minha fun\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 carimbar, sou apenas um carimbeiro de pap\u00e9is. S\u00f3 recebo ordens l\u00e1 de cima.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o j\u00e1 se sentiu nesta situa\u00e7\u00e3o numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica que exigia e ainda exige uma s\u00e9rie de documentos pessoais para voc\u00ea obter uma escritura, uma licen\u00e7a qualquer, um alvar\u00e1, um requerimento ou uma autoriza\u00e7\u00e3o de compra e venda de um m\u00f3vel ou im\u00f3vel?<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, voc\u00ea fazia e faz tudo certo, na base do passo a passo, com uma pasta de pap\u00e9is debaixo do bra\u00e7o, mas, quando chegava na sala do chefe da reparti\u00e7\u00e3o, ele dizia e diz com seu ar de superioridade, que estava e est\u00e1 faltando o carimbo l\u00e1 debaixo.<\/p>\n<p>O nome disso, que ganhou popularidade, se chama de burocracia, isto \u00e9, um monte de papelada para sacramentar um documento e at\u00e9 se habilitar a um concurso p\u00fablico, ou a um edital.<\/p>\n<p>&#8211; Participa, cara, vai l\u00e1! \u00c9 tudo simples, n\u00e3o existe burocracia! S\u00f3 em falar essa express\u00e3o me d\u00e1 tremedeira. Deve ser trauma incur\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 psic\u00f3logo que resolva.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o que a burocracia encontrou um terreno mais f\u00e9rtil e ganhou mais notoriedade no Brasil por causa da crescente malandragem das pessoas em querer se dar bem em tudo, da maneira mais f\u00e1cil, usando todos os tipos de falsifica\u00e7\u00f5es e tramoias.<\/p>\n<p>Para simplificar mais a vida das pessoas e mudar essa mentalidade de se desconfiar de tudo, foi criado, no \u00faltimo governo da ditadura, do general Jo\u00e3o Figueiredo, o Minist\u00e9rio da Desburocratiza\u00e7\u00e3o, cujo chefe da pasta era H\u00e9lio Beltr\u00e3o (entrevistei v\u00e1rias vezes) que ficava at\u00e9 sem gra\u00e7a ao falar do assunto, mas transmitia um ar de compet\u00eancia. Ele tentava nos convencer que todo brasileiro era honesto, mas n\u00e3o colava mesmo.<\/p>\n<p>Acho que os generais inventaram esse minist\u00e9rio para fazer alguma m\u00e9dia pol\u00edtica ou porque o Beltr\u00e3o ficou sobrando nas listas de indica\u00e7\u00f5es. J\u00e1 imaginou um Minist\u00e9rio da Desburocratiza\u00e7\u00e3o, sem burocracia?<\/p>\n<p>O mais engra\u00e7ado \u00e9 que, naquela \u00e9poca da ditadura, era burocr\u00e1tico e dif\u00edcil entrevistar o ministro da Desburocratiza\u00e7\u00e3o. Ele se apresentava com v\u00e1rios pap\u00e9is, neles escritos seus in\u00fameros projetos e medidas para desburocratizar o pa\u00eds. Ele se expressava com aquele jeit\u00e3o de D, Quixote, prometendo acabar com os moinhos de ventos.<\/p>\n<p>S\u00e3o coisas do passado, mas essa cruel burocracia persiste at\u00e9 hoje como maior entrave na vida dos brasileiros, mesmo com os avan\u00e7os da tecnologia da internet. Siga o passo a passo e, quando se est\u00e1 quase no final, tudo trava.<\/p>\n<p>E os editais culturais? S\u00e3o cheios de leis, itens, cl\u00e1usulas, artigos, par\u00e1grafos, incisos e outras exig\u00eancias que deixa qualquer artista doido, \u00e0 beira de arrancar os cabelos. A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 contratar um profissional de projetos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para deixar tudo bem amarrado e protegido para que n\u00e3o haja fraudes por parte dos mais \u201cespertos\u201d mal-intencionados. S\u00e3o exig\u00eancias dos tribunais de contas &#8211; argumentam os t\u00e9cnicos projetistas dos governos.<\/p>\n<p>Quanto mais burocracia, mais profissionaliza\u00e7\u00e3o das malandragens, caso dos golpistas da internet que sempre conseguem descobrir uma f\u00f3rmula para quebrar segredos e prote\u00e7\u00f5es, naquela base da esperteza do jeitinho brasileiro.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, o termo burocracia nasceu na Fran\u00e7a, no s\u00e9culo XVIII, numa jun\u00e7\u00e3o das palavras \u201cbureau\u201d &#8211; escrit\u00f3rio, mesa &#8211; com o grego \u201ckratos\u201d, de poder, autoridade e governo. No conceito do soci\u00f3logo Max Weber, a palavra tinha o sentido de efici\u00eancia organizacional do Estado moderno.<\/p>\n<p>Na verdade, o termo foi cunhado pelo franc\u00eas Jean-Claude Maria Vincent j\u00e1 com a cr\u00edtica popular pejorativa de lentid\u00e3o e excessos de procedimentos nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>No Brasil, a burocracia ganhou sobrevida no Governo de Get\u00falio Vargas, principalmente a partir de 1936, com uma s\u00e9rie de reformas na busca da profissionaliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, visando privilegiar a meritocracia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 hil\u00e1rio? Na minha concep\u00e7\u00e3o, burocracia \u00e9 um atraso e uma maneira de emperrar a\u00e7\u00f5es, projetos e travar o desenvolvimento do pa\u00eds. Confesso que tenho horror e me d\u00e1 urtic\u00e1ria esta palavra de \u201cbureau\u201d com \u201ckratos\u201d, que quer dizer burocracia.<\/p>\n<p>Prefiro enfrentar um touro na arena. Burocracia \u00e9 como um engarrafamento num tr\u00e2nsito ca\u00f3tico num dia de c\u00e3o, ou de um calor de 50 graus, sem ar condicionado no carro. Sou mais os tempos do fio do bigode, mas a malandragem est\u00e1 solta, meu camarada!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Calma, meu amigo, n\u00e3o adianta ficar nervoso, minha fun\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 carimbar, sou apenas um carimbeiro de pap\u00e9is. S\u00f3 recebo ordens l\u00e1 de cima. 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