{"id":11304,"date":"2025-11-28T22:52:33","date_gmt":"2025-11-29T01:52:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11304"},"modified":"2025-11-28T22:52:43","modified_gmt":"2025-11-29T01:52:43","slug":"as-secas-e-as-agitacoes-politicas-fazem-prosperar-o-cangaceirismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/11\/28\/as-secas-e-as-agitacoes-politicas-fazem-prosperar-o-cangaceirismo\/","title":{"rendered":"AS SECAS E AS AGITA\u00c7\u00d5ES POL\u00cdTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO"},"content":{"rendered":"<p>Por s\u00e9culos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crian\u00e7as, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado. O povo vivia abandonado \u00e0 pr\u00f3pria sorte diante da falta de estrutura e desorganiza\u00e7\u00e3o dos governantes para conter o banditismo.<\/p>\n<p>As secas alimentavam o canga\u00e7o, que se juntava \u00e0s disputas entre os chefes pol\u00edticos e os coron\u00e9is, gerando uma onda de viol\u00eancia e mortes sem precedentes no Nordeste, que por s\u00e9culos viveu isolado. A justi\u00e7a era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os s\u00e9culos XVIII, XIX e at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, \u201cGuerreiros do Sol\u201d descreve esse panorama de mis\u00e9ria, fome, viol\u00eancia e sangue. Para quem n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente v\u00ea at\u00e9 hoje o nordestino como um povo atrasado.<\/p>\n<p>O banditismo viveu seu apogeu nos per\u00edodos de desorganiza\u00e7\u00e3o social, especialmente em raz\u00e3o dos fen\u00f4menos das secas, com destaques para as de 1692, 1723\/27, 1774\/76, 1792, 1844\/45, 1877\/79 (a maior de todas), 1915, 1919\/20, dentre muitas outras.<\/p>\n<p>As secas, ao lado das agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o canga\u00e7o, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as fam\u00edlias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de mis\u00e9ria. As lavouras eram perdidas, o gado morria \u00e0 mingua e os retirantes faziam suas prociss\u00f5es profanas. Era o salve-se quem puder.<\/p>\n<p>Descreve o autor que no coice dessas ocorr\u00eancias, certamente o canga\u00e7o de of\u00edcio se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balan\u00e7o dos efeitos da seca de 1877\/79 (na verdade come\u00e7ou bem antes), Irineu Joffily, em \u201cNotas sobre a Para\u00edba\u201d, lembra que era geral a falta de seguran\u00e7a. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar for\u00e7as para defesa de suas propriedades.<\/p>\n<p>O transporte de g\u00eaneros era dif\u00edcil, Caravanas atravessavam 50 e 60 l\u00e9guas de sert\u00e3o, levando cada homem \u00e0s costas, 40 e at\u00e9 80 litros de farinha, al\u00e9m de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.<\/p>\n<p>Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os ind\u00edgenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e ca\u00edram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse s\u00e9culo repetem-se as depreda\u00e7\u00f5es e assassinatos. As disputas pol\u00edticas incentivavam a prolifera\u00e7\u00e3o da aventura cangaceira.<\/p>\n<p>Paralelo \u00e0 seca de 1844\/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por tr\u00eas estados at\u00e9 a Chapada do Araripe onde tamb\u00e9m aparece os Xio. No meado do s\u00e9culo passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Paje\u00fa de Flores. Durante os s\u00e9culos XVIII, XIX e XX, o Paje\u00fa se tornou numa universidade da viol\u00eancia e do canga\u00e7o. Com exce\u00e7\u00e3o de Jesu\u00edno Brilhante (Rio Grande do Norte), de l\u00e1 sa\u00edram os mais famosos como Lampi\u00e3o, Sinh\u00f4 Pereira, Ant\u00f4nio Silvino, Ant\u00f4nio Quel\u00e9 e tantos outros.<\/p>\n<p>Os membros de os Guabiraba eram irm\u00e3os naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sert\u00e3o pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a cria\u00e7\u00e3o de bandos na d\u00e9cada de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sert\u00f5es nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Para\u00edba.<\/p>\n<p>Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a prote\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Te\u00f3filo, fazia guerra de exterm\u00ednio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta \u00e9poca, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simpl\u00edcio, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Paje\u00fa.<\/p>\n<p>Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expans\u00e3o. Quando os esfor\u00e7os repressores come\u00e7aram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recupera\u00e7\u00e3o devido a desorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as volantes.<\/p>\n<p>O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda hist\u00f3ria do canga\u00e7o, tendo Lampi\u00e3o como principal respons\u00e1vel, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinh\u00f4 Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Entre as agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Frederico de Mello cita a \u2018guerra santa\u201d de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926\/27, o clima social e pol\u00edtico do Cariri, em 1901, com in\u00fameras lutas armadas. As duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX foram as piores.<\/p>\n<p>Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima dep\u00f5e \u00e0 bala o pr\u00f3prio irm\u00e3o Hon\u00f3rio Lima, assumindo o comando pol\u00edtico do munic\u00edpio de Lavras.<\/p>\n<p>Em 1909, os chefes pol\u00edticos de Milagres, Miss\u00e3o Velha, Barbalha e outros munic\u00edpios pr\u00f3ximos re\u00fanem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 \u00e9 assassinado, em Fortaleza, o coronel e ent\u00e3o deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe pol\u00edtico de Miss\u00e3o Velha, Isaias Arruda, \u00e9 assassinado no trem.<\/p>\n<p>Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre C\u00edcero procurava harmonizar os conflitos dos coron\u00e9is que dominavam o Cariri.<\/p>\n<p>O documento ficou conhecido como \u201cpacto dos coron\u00e9is\u201d, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurar\u00e1 depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral pol\u00edtica, terminaria a prote\u00e7\u00e3o a cangaceiros, ou seja, n\u00e3o seriam mais coiteiros.<\/p>\n<p>Nem bem secara as tintas, o Padre C\u00edcero, mentor do pacto, derruba o Governo do Cear\u00e1, em 1914. Os coron\u00e9is fizeram o contr\u00e1rio. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por s\u00e9culos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crian\u00e7as, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentra\u00e7\u00e3o. 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