{"id":11272,"date":"2025-11-21T23:50:10","date_gmt":"2025-11-22T02:50:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11272"},"modified":"2025-11-21T23:50:21","modified_gmt":"2025-11-22T02:50:21","slug":"meio-de-vida-vinganca-e-refugio-no-cangaco-nordestino-violento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/11\/21\/meio-de-vida-vinganca-e-refugio-no-cangaco-nordestino-violento\/","title":{"rendered":"MEIO DE VIDA, VINGAN\u00c7A E REF\u00daGIO NO CANGA\u00c7O NORDESTINO VIOLENTO"},"content":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das fases end\u00eamica e epid\u00eamica entre os s\u00e9culos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de \u201cGuerreiros do Sol\u201d aponta tr\u00eas caracter\u00edsticas principais do canga\u00e7o nordestino, quais sejam o do meio de vida (o canga\u00e7o profissional), o da vingan\u00e7a e o do ref\u00fagio. Em cada um deles existem suas diferen\u00e7as, como a indument\u00e1ria, porte de armas, comportamento \u00e9tico e dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fora a oralidade, com seus boatos e fal\u00e1cias, muitos estudiosos se debru\u00e7aram sobre o assunto de ordem antropol\u00f3gica, acad\u00eamica e psicol\u00f3gica. A literatura \u00e9 vasta e o tema \u00e9 empolgante porque chamou e ainda chama a aten\u00e7\u00e3o nacional e at\u00e9 internacional atrav\u00e9s de viajantes da \u00e9poca. A m\u00eddia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.<\/p>\n<p>Para Mello, existiram dois grandes fatores de est\u00edmulo ao canga\u00e7o. Um de natureza sociol\u00f3gica e outro de fei\u00e7\u00e3o mesol\u00f3gica, de forma imediata, mas com profundas repercuss\u00f5es sociol\u00f3gicas que foram as lutas de fam\u00edlias e as secas. Estas \u00faltimas acarretaram a prolifera\u00e7\u00e3o do canga\u00e7o profissional. A luta entre fam\u00edlias armou o palco para o canga\u00e7o de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Vamos, ent\u00e3o, ao que mais nos interessa nessa hist\u00f3ria, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que n\u00e3o fique na base superficial das conta\u00e7\u00f5es de casos e causos. A lista de autores \u00e9 enorme e as leituras s\u00e3o fascinantes. A quest\u00e3o precisa ser cada vez mais esmiu\u00e7ada para entendermos melhor o fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>MEIO DE VIDA, VINGAN\u00c7A E REF\u00daGIO<\/p>\n<p>O canga\u00e7o meio de vida foi um tipo de maior frequ\u00eancia, classificado como banditismo de profiss\u00e3o, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansid\u00e3o, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (s\u00e9culo XIX), Ant\u00f4nio Silvino (1897-1914) e Lampi\u00e3o (1916-1938).<\/p>\n<p>O canga\u00e7o de vingan\u00e7a ocorreu com menor frequ\u00eancia, embora suas caracter\u00edsticas de banditismo, mais \u00e9tico, emprestou uma imagem de destaque, principalmente liter\u00e1rio. Sinh\u00f4 Pereira, Luis Padre e Jesu\u00edno Brilhante foram seus principais representantes.<\/p>\n<p>O canga\u00e7o-ref\u00fagio foi um tipo de menor express\u00e3o. Caracterizou-se pela riqueza da estrat\u00e9gia defensiva. Seu maior representante foi \u00c2ngelo Roque, que manteve seu pr\u00f3prio grupo e depois se aliou ao bando de Lampi\u00e3o. Esses bandidos n\u00e3o chegaram a ser chefes e foi um canga\u00e7o de vigor mediano.<\/p>\n<p>Os dois primeiros, o profissional e o de vingan\u00e7a, possuem caracter\u00edsticas discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo r\u00f3tulo de canga\u00e7o. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Tanto Lampi\u00e3o, como Ant\u00f4nio Silvino, entraram no canga\u00e7o com o pretexto de vingan\u00e7a, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como neg\u00f3cio. Numa entrevista jornal\u00edstica a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o canga\u00e7o, Lampi\u00e3o devolveu a indaga\u00e7\u00e3o como outra. Voc\u00ea deixaria um neg\u00f3cio que est\u00e1 dando certo e bons ganhos?<\/p>\n<p>No entanto, Lampi\u00e3o viveu episodicamente per\u00edodos de vingan\u00e7a, como contra o cangaceiro Tib\u00farcio Santos, o Negro Tib\u00farcio, em 1924. Sinh\u00f4 Pereira tamb\u00e9m praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extin\u00e7\u00e3o do canga\u00e7o meio de vida, bem como o do ref\u00fagio, quando o perseguido pela pol\u00edcia se esconde num bando. Por\u00e9m, ainda de forma espor\u00e1dica, existe o de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>O homem da vingan\u00e7a entregava-se por completo \u00e0 miss\u00e3o moral de dar fim aos inimigos de sua fam\u00edlia ou cl\u00e3. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. \u201cSe no primeiro destes, a ades\u00e3o espont\u00e2nea floresce num indiv\u00edduo integrado ao of\u00edcio a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realiza\u00e7\u00e3o pessoal agindo sob coa\u00e7\u00e3o moral irresist\u00edvel, e que em seus gestos revela sua inadapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida que leva\u201d \u2013 assim analisa Frederico de Melo.<\/p>\n<p>Segundo ele, o envolvido na miss\u00e3o de vingan\u00e7a vivia angustiado por sua busca obsessiva. N\u00e3o encontrava na vida do canga\u00e7o os prazeres e atrativos que tanto prendiam o canga\u00e7o meio de vida como amantes desse tipo de exist\u00eancia a seu modo epopeico.<\/p>\n<p>O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necess\u00e1rio e funcional na guerrilha. N\u00e3o h\u00e1 estrelas nos chap\u00e9us dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotogr\u00e1ficos provam isso, com clareza \u2013 aponta Frederico Pernambucano.<\/p>\n<p>Muitos anos ap\u00f3s deixar o canga\u00e7o, Sinh\u00f4 Pereira disse ao Jornal do Brasil, edi\u00e7\u00e3o de 26 de fevereiro de 1969: \u201cEu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cintur\u00f5es de rev\u00f3lver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chap\u00e9us\u201d.<\/p>\n<p>No caso de Lampi\u00e3o, as fotografias se inserem no quadro do canga\u00e7o profissional como neg\u00f3cio. No in\u00edcio se dedicou ao canga\u00e7o de vingan\u00e7a nas disputas contra os Nogueiras e Jos\u00e9 Saturnino, em Pernambuco, e Jos\u00e9 Lucena (matou seu irm\u00e3o ca\u00e7ula Jo\u00e3o Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, \u201cem processo de transtipicidade\u201d.<\/p>\n<p>O Lampi\u00e3o da d\u00e9cada de 30 enfeitava-se dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riqu\u00edssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.<\/p>\n<p>Sinh\u00f4 Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e s\u00f3 permitindo expropria\u00e7\u00f5es em casos de necessidade.<\/p>\n<p>Sobre os vingadores, o escritor Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida falou ser o destino de Jesu\u00edno Brilhante, assassino por vingan\u00e7a, distribuindo os v\u00edveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo Jos\u00e9, porque tentara violentar uma mulher.<\/p>\n<p>Os vingadores dependiam das finan\u00e7as de suas fam\u00edlias que perderam seus bens. Sinh\u00f4 Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. \u201cVendi tudo barato para cuidar da vingan\u00e7a\u201d. Os cangaceiros dos neg\u00f3cios se mostravam pr\u00f3speros e autossuficientes. Viviam na opul\u00eancia. Existem v\u00e1rios exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.<\/p>\n<p>Pernambucano de Mello destaca o n\u00edvel de coes\u00e3o entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deser\u00e7\u00f5es frequentes impunham rotatividade elevada e permanente aten\u00e7\u00e3o de seus chefes para com a atividade de recrutamento.<\/p>\n<p>Sobre esta quest\u00e3o, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um poss\u00edvel regresso \u00e0 vida pac\u00edfica.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s origens sociais, o canga\u00e7o profissional vinha de uma origem humilde da classe m\u00e9dia baixa de fam\u00edlias n\u00e3o tradicionais. Os da vingan\u00e7a originavam-se de fam\u00edlias importantes. Sinh\u00f4 Pereira e Luis Padre eram netos do bar\u00e3o do Paje\u00fa e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Imp\u00e9rio. O cangaceiro Cind\u00e1rio pertencia \u00e0 fam\u00edlia Carvalho, do Paje\u00fa pernambucano. O potiguar Jesu\u00edno Brilhante chamava-se Jesu\u00edno Alves de Melo Calado, t\u00edtulo senhorial.<\/p>\n<p>O autor de \u201cGuerreiros do Sol\u201d ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de dura\u00e7\u00e3o no canga\u00e7o, Lampi\u00e3o e Ant\u00f4nio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinh\u00f4 Pereira, vingado, retira-se ap\u00f3s seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo tamb\u00e9m tiveram Cind\u00e1rio e Jesu\u00edno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinh\u00f4 Pereira) ou morre (Jesu\u00edno).<\/p>\n<p>Outro aspecto se refere ao campo de atua\u00e7\u00e3o. Lampi\u00e3o e Silvino percorrem sete a quatro estados da regi\u00e3o ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas pra\u00e7as a explorar. Sinh\u00f4 n\u00e3o foi al\u00e9m de tr\u00eas estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesu\u00edno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Para\u00edba) pelo seu pior inimigo, Preto Lim\u00e3o. Cind\u00e1rio jamais \u201cnavegou\u201d al\u00e9m do seu Paje\u00fa.<\/p>\n<p>O \u00faltimo aspecto analisado \u00e9 a presen\u00e7a de mulheres, mais no sentido existencial. S\u00f3 no canga\u00e7o meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares n\u00e3o-combatentes, mais como vida do homem amado e de valqu\u00edrias, ap\u00f3s a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEm meu tempo n\u00e3o havia mulheres no bando. Mulher s\u00f3 trazia consequ\u00eancias, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ci\u00fames. Ningu\u00e9m andava com mulher\u201d \u2013 afirmou Sinh\u00f4 Pereira. No canga\u00e7o vingan\u00e7a e ref\u00fagio s\u00f3 haviam priva\u00e7\u00f5es. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.<\/p>\n<p>De acordo com Frederico Mello, mesmo no canga\u00e7o meio, as mulheres foram fator de desagrega\u00e7\u00e3o e conflitos internos. Dizem que Lampi\u00e3o, ap\u00f3s se apaixonar por Maria D\u00e9a Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), n\u00e3o foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Bal\u00e3o. \u201cEnquanto n\u00e3o apareceu mulher, Lampi\u00e3o brigava at\u00e9 enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr\u201d.<\/p>\n<p>Depois de Lampi\u00e3o, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o de Dad\u00e1, final de 39\/40, quando Corisco ficou com o bra\u00e7o quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres n\u00e3o combatiam, prestando servi\u00e7os dom\u00e9sticos e procriando. As mulheres assinalam o in\u00edcio do processo de decad\u00eancia guerreira, com uma vida mais sedent\u00e1ria.<\/p>\n<p>O cangaceiro Bal\u00e3o dizia que homem de batalha n\u00e3o pode andar com mulher. \u201cSe ele tem uma rela\u00e7\u00e3o, perde a ora\u00e7\u00e3o, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa\u201d.<\/p>\n<p>Um fato interessante \u00e9 que no auge do canga\u00e7o, entre as d\u00e9cadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, \u00e0quela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes pol\u00edticos. Muitos chegaram a ingressar no canga\u00e7o como meio de vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das fases end\u00eamica e epid\u00eamica entre os s\u00e9culos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de \u201cGuerreiros do Sol\u201d aponta tr\u00eas caracter\u00edsticas principais do canga\u00e7o nordestino, quais sejam o do meio de vida (o canga\u00e7o profissional), o da vingan\u00e7a e o do ref\u00fagio. 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