{"id":11223,"date":"2025-11-07T23:36:22","date_gmt":"2025-11-08T02:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11223"},"modified":"2025-11-07T23:36:32","modified_gmt":"2025-11-08T02:36:32","slug":"o-ciclo-do-gado-e-os-valentoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/11\/07\/o-ciclo-do-gado-e-os-valentoes\/","title":{"rendered":"O CICLO DO GADO E OS VALENT\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Por muitos s\u00e9culos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cru\u00e9is, nas lutas com os \u00edndios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justi\u00e7a, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas cren\u00e7as e suas culturas.<\/p>\n<p>Sobre o flagelo das secas, v\u00e1rios narradores tra\u00e7am cenas de terror. O padre Joaquim Jos\u00e9 Pereira, do Rio Grande do Norte, escreve que, al\u00e9m da seca, apareceu nos sert\u00f5es do Apodi uma tal quantidade de morcegos, que mesmo \u00e0 luz solar, atacavam as pessoas e os animais, j\u00e1 inanidos pela fome. Homens, mulheres e crian\u00e7as eram encontrados mortos e moribundos pelas estradas. Entre os mortos, encontravam-se miser\u00e1veis ainda vivos prostrados no ch\u00e3o, cobertos pelos vampiros.<\/p>\n<p>Frederico Pernambucano de Mello, em \u201cGuerreiros do Sol\u201d, um estudioso do Nordeste e do canga\u00e7o, nos narra que, \u201cquando em fins do s\u00e9culo XVII e ao longo do s\u00e9culo XVIII a necessidade de expans\u00e3o colonizadora empurrou o homem para al\u00e9m das l\u00e9guas agricult\u00e1veis do massap\u00ea, projetando-se no universo cinzento da caatinga, fez surgir um novo tipo de cultura cujos tra\u00e7os mais salientes podem ser resumidos na predomin\u00e2ncia do individual sobre o coletivo\u201d.<\/p>\n<p>O homem passou a ser condicionado pelo cen\u00e1rio agressivo que \u00e9 o sert\u00e3o. Ele experimentou sobreviver atrav\u00e9s das planta\u00e7\u00f5es, mas foi vencido pelas secas. Ent\u00e3o, partiu para a cria\u00e7\u00e3o do gado, criando assim um novo ciclo que fez surgir os valent\u00f5es nas figuras dos cabras, dos capangas, dos jagun\u00e7os, dos pistoleiros e dos cangaceiros.<\/p>\n<p>O escritor Graciliano Ramos escreveu em um dos seus livros que, \u201csendo a riqueza do sertanejo, principalmente constitu\u00edda de animais, o maior crime que l\u00e1 se conhece \u00e9 o furto de gado. A vida humana exposta \u00e0 seca, \u00e0 fome, \u00e0 cobra e \u00e0 tropa volante, tinha valor reduzido \u2013 e pior que isso, o j\u00fari absolve regularmente o assassino. O ladr\u00e3o de cavalo \u00e9 que n\u00e3o acha perd\u00e3o. Em regra, n\u00e3o o submete a julgamento, matam-no\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, o maior crime no sert\u00e3o naquela \u00e9poca era roubar cavalos e bois. Para o ladr\u00e3o, s\u00f3 restava a morte e de forma sangrenta. Aliados ao misticismo, ao culto da coragem e o apego ao direito de propriedade, os sertanejos estabeleciam um quadro de viol\u00eancia do ciclo do gado.<\/p>\n<p>O viajante holand\u00eas Adriaen Verdonck constatou, em 1630, que na regi\u00e3o pr\u00f3xima ao rio S\u00e3o Francisco, os moradores possu\u00edam muito gado, que era principal riqueza e constitu\u00eda na melhor mercadoria destas terras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das intemp\u00e9ries do tempo e outros fatores adversos, os nordestinos tiveram que enfrentar uma guerra desesperada contra os \u00edndios, os verdadeiros donos daquelas terras, expulsos das zonas litor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Como exemplo, Frederico de Mello nos conta a luta que Teod\u00f3sio de Oliveira Ledo teve que levar a cabo no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII contra as na\u00e7\u00f5es tapuias, dos pegas e dos coremas, para se estabelecer com sua gente nos campos de Pianc\u00f3 (Para\u00edba). Essa guerra chegou a durar mais de 10 anos contra cerca de 10 mil ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O ciclo do gado tamb\u00e9m teve que enfrentar o felino. \u201cA on\u00e7a faz dura guerra a todos os gados do sert\u00e3o\u201d, escreve Fernando Denis, na primeira metade do s\u00e9culo XIX. Esse animal, que atacava os rebanhos, foi exterminado pela bravura dos nordestinos.<\/p>\n<p>Diante das guerrilhas ind\u00edgenas, dos fac\u00ednoras poderosos, o nordestino se tornou num homem desconfiado e exposto a emboscadas dos temidos \u201ctiros de p\u00e9-de-pau, ou dos que dormiam na pontaria.<\/p>\n<p>Frederico de Mello cita diversos autores, como C\u00e2mara Cascudo que chama a aten\u00e7\u00e3o para a carta r\u00e9gia de 1701 pela qual os criadores, em diverg\u00eancia com os plantadores de cana e mandioca, viram-se obrigados a procurar no sert\u00e3o terras diferentes das exigidas por essas culturas<\/p>\n<p>Este fator respondeu pelo incremento da interna\u00e7\u00e3o sertaneja ao longo do s\u00e9culo XVIII, tendo que enfrentar temperaturas infernais. A carta r\u00e9gia determinava que o criat\u00f3rio s\u00f3 poderia fundar-se para al\u00e9m de uma faixa de dez l\u00e9guas da costa.<\/p>\n<p>O autor de o \u201cGuerreiros do sol\u201d faz um paralelo sobre o ciclo do gado no Nordeste com a epopeia norte-americana da conquista do Oeste, quando relata que \u201cquanto mais demorada tenha sido a fase cruenta de um processo de coloniza\u00e7\u00e3o, tanto mais duradoura se mostrar\u00e1 a perman\u00eancia de h\u00e1bitos violentos que n\u00e3o mais se justificam\u201d.<\/p>\n<p>O sertanejo sofreu uma estagna\u00e7\u00e3o em sua evolu\u00e7\u00e3o por conta do isolamento em que esteve secularmente relegado. Sobre a quest\u00e3o dos valent\u00f5es, Mello destaca a impress\u00e3o que teve o viajante Henry Koster. Em sua vis\u00e3o, esses valent\u00f5es eram homens de todos os n\u00edveis, cujo servi\u00e7o consistia em procurar oportunidades para lutar. Onde chegavam, nas feiras ou nas festas, eles amedrontavam as pessoas.<\/p>\n<p>Para o escritor paraibano Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, o cangaceiro originou-se da institui\u00e7\u00e3o do guarda-costas, como uma necessidade de defesa das fazendas amea\u00e7adas pelo gentio. Segundo ele, quando o cabra era despedido, sua rea\u00e7\u00e3o era procurar um bando, mas historiadores contestam esta tese.<\/p>\n<p>\u201cO emprego do capanga, do cabra e do jagun\u00e7o fez-se largamente no Nordeste ao longo de todo o ciclo do gado, nas quest\u00f5es de terra, nas lutas de fam\u00edlias e, de modo particular, nas disputas pol\u00edticas\u201d \u2013 descreve Frederico de Mello.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Mello cita, o folclorista C\u00e2mara Cascudo, quando escreve que o sert\u00e3o foi povoado dos fins do s\u00e9culo XVII para o correr do s\u00e9culo XVIII, por gente fisicamente forte e etnicamente superior.<\/p>\n<p>Diz ele que esse nordestino enfrentava os \u00edndios, que n\u00e3o tinha medo de morrer nem remorso de matar. \u201cAs fam\u00edlias seguiam o chefe que ia fazer seu curral nas terras povoadas de paiacus, jandu\u00eds, panatis, pegas, caic\u00f3s, n\u00f4mades atrevidos, jarretando o gado e trucidando os brancos\u201d.<\/p>\n<p>Os sucurus, panatis e os coremas nutriam \u00f3dio contra os portugueses que tomaram seus lugares mar\u00edtimos. Em contrapartida, eles se levantaram em todas as partes contra os sertanejos que n\u00e3o se sentiam seguros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por muitos s\u00e9culos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cru\u00e9is, nas lutas com os \u00edndios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justi\u00e7a, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas cren\u00e7as e suas culturas. 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