{"id":11198,"date":"2025-10-31T23:24:06","date_gmt":"2025-11-01T02:24:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11198"},"modified":"2025-10-31T23:24:19","modified_gmt":"2025-11-01T02:24:19","slug":"guerreiros-do-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/10\/31\/guerreiros-do-sol\/","title":{"rendered":"&#8220;GUERREIROS DO SOL&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cComo \u201chomem pecu\u00e1rio\u201d, denomina\u00e7\u00e3o da prefer\u00eancia do autor (Frederico Pernambucano de Mello), o sertanejo do Nordeste, ao mesmo tempo que manteve, atrav\u00e9s do isolamento, o idioma do colonizador europeu \u2013 inclusive o uso de termos lusitanamente n\u00e1uticos \u2013 tornou-se, em grande parte, um j\u00e1 sugerido autocolonizador, quer pela necessidade de seguir exemplos de ind\u00edgenas em suas defesas das f\u00farias dos animais trai\u00e7oeiros e de variantes, tamb\u00e9m trai\u00e7oeiros, de clima n\u00e3o-europeu, quer pelo \u00e2nimo de desconfiar um tanto caboclamente de estranhos\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma caracteriza\u00e7\u00e3o do sertanejo feita pelo soci\u00f3logo Oliveira Viana, citado por Gilberto Freire, no pref\u00e1cio da segunda edi\u00e7\u00e3o do livro \u201cGuerreiros do Sol\u201d, de Frederico de Mello.<\/p>\n<p>Em sua descri\u00e7\u00e3o sobre a obra, Freire destaca que, em certa p\u00e1gina, o escritor apresenta um desses tipos de bandido como, em dias de cangaceirismo ortodoxo, indiferente tanto a prazeres de alimenta\u00e7\u00e3o como \u00e0 const\u00e2ncia de conv\u00edvio com mulher, enquanto em atividade absorvente e monossexualmente belicosa. Da\u00ed a presen\u00e7a da mulher, no canga\u00e7o, s\u00f3 se ter feito notar em \u00e9poca diferente.<\/p>\n<p>Na classifica\u00e7\u00e3o sobre formas de cangaceirismo, Pernambucano de Mello, de acordo com Freire, fala do canga\u00e7o meio de vida, ou de profiss\u00e3o; canga\u00e7o de vingan\u00e7a; canga\u00e7o-ref\u00fagio, este caracterizado pelo que chama de \u201cestrat\u00e9gia defensiva\u201d. Quanto as fases do canga\u00e7o, o prefaciador da segunda edi\u00e7\u00e3o, Gilberto de Mello Kujawski, divide em end\u00eamica (final do s\u00e9culo XIX) e a epid\u00eamica, a partir dos anos 1920 que se deu o auge.<\/p>\n<p>Gilberto Freira assinala que o canga\u00e7o no Nordeste \u00e9 tema brasileiro e sob alguns aspectos, transbrasileiro, e n\u00e3o apenas nordestino. Sob perspectiva anglo-americana, Fletcher e Kidder, apontado por Freire, retratam o canga\u00e7o como o tipo mais marcante de sertanejo nordestino, atribuindo-lhe apar\u00eancia de homem bronzeado pelo sol \u2013 e talvez, em alguns casos, pelo sangue amer\u00edndio \u2013 mas de aspecto predominantemente europeu, isto \u00e9, portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Ao se referir ao trajo masculino do sertanejo, Freire afirma que o mais interessante \u00e9 o desenho que apresenta, caracterizado por uma camisa de algod\u00e3o, mais longa que a geralmente em uso pelo homem canavieiro ou o do Recife, e solta por fora das cal\u00e7as, um trajo arcaico.<\/p>\n<p>Sobre as origens do cangaceirismo, alguns estudiosos falam de rixas em fam\u00edlias, favor\u00e1veis ao uso dos chamados cabras em lutas. Diz Gilberto Freire que o compadrio, em conex\u00e3o com estas rivalidades, n\u00e3o pode deixar de ser considerado fator importante, ora de atenua\u00e7\u00e3o, ora de acentua\u00e7\u00e3o, de \u00f3dios entre fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O padrinho, como compadre, afilhado, como protegido, s\u00e3o personagens a ser considerados no familismo sertanejo do Nordeste, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos, e um pouco sobrevivente, ainda hoje, ligado a lutas entre fam\u00edlias rivais: lutas \u00e0s quais n\u00e3o raro associou-se um canga\u00e7o vingador de desentendimentos endog\u00e2micos e, at\u00e9, incestuosos. Lutas em torno de terras, bois e cavalos, orgulhos de av\u00f3s.<\/p>\n<p>Frederico Pernambucano de Mello, o autor de \u201cGuerreiros do Sol\u201d, em \u201cNota \u00e0 Segunda Edi\u00e7\u00e3o\u201d, faz uma descri\u00e7\u00e3o sobre o cangaceirismo, cujos protagonistas, desde os per\u00edodos regencial, imperial e mesmo republicano, enveredaram no desesperado mito brasileiro do viver sem lei e sem rei, com cada homem podendo ser o rei de si mesmo, e ser feliz, de arma na m\u00e3o, contra os valores da coloniza\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/DSC_0314.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11199\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/DSC_0314.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/DSC_0314.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/DSC_0314-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio nordestino de vida dif\u00edcil, de paisagem cinzenta pela seca, do fatalismo religioso embrutecido, do misticismo, desde quando o homem foi empurrado da mata e da terra massap\u00ea para a caatinga e depois para o ciclo do gado, \u201co menino sertanejo muito cedo banha-se em sangue, ajudando o pai a sangrar o boi ou o bode para o preparo da carne-de-sol, cortando o pesco\u00e7o do cap\u00e3o, da galinha, do peru, ou esfolando o moc\u00f3 para a refei\u00e7\u00e3o imediata\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Mello, \u201ca cultura sertaneja abonava o canga\u00e7o, malgrado o car\u00e1ter criminal declarado pelo oficialismo, com as popula\u00e7\u00f5es indo ao extremo de torcer pela vit\u00f3ria dos grupos com os quais simpatizavam, quase como se d\u00e1 hoje nos torneios entre clubes de futebol\u201d.<\/p>\n<p>Nesse quadro, entrava a literatura de cordel que se encarregava dessa celebra\u00e7\u00e3o, capaz de atingir, com um Jo\u00e3o Calangro, Jesu\u00edno Brilhante, um Viriato, um Guabiraba, um Rio Preto, um Cassimiro Hon\u00f3rio, um Andr\u00e9 Tripa, um Vicente do Arraial, um Ant\u00f4nio Silvino, um Sinh\u00f4 Pereira ou um Lampi\u00e3o, abrang\u00eancia especial e intensidades dif\u00edceis de avaliar, tal o volume.<\/p>\n<p>O autor da obra tamb\u00e9m se reporta aos cangaceiros artistas que faziam seus versos e modinhas populares, como o cantador Rio Preto, no final do s\u00e9culo XIX, e o Sinh\u00f4 Pereira, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Cita ainda Jos\u00e9 Baiano e Mour\u00e3o, nos anos 30, e Jitirana nos anos finais, que dividiam a palma da composi\u00e7\u00e3o e da execu\u00e7\u00e3o musical\u00a0 no grupo do capit\u00e3o Virgulino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cComo \u201chomem pecu\u00e1rio\u201d, denomina\u00e7\u00e3o da prefer\u00eancia do autor (Frederico Pernambucano de Mello), o sertanejo do Nordeste, ao mesmo tempo que manteve, atrav\u00e9s do isolamento, o idioma do colonizador europeu \u2013 inclusive o uso de termos lusitanamente n\u00e1uticos \u2013 tornou-se, em grande parte, um j\u00e1 sugerido autocolonizador, quer pela necessidade de seguir exemplos de ind\u00edgenas em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11198"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11200,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198\/revisions\/11200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}