{"id":11196,"date":"2025-10-31T01:11:07","date_gmt":"2025-10-31T04:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11196"},"modified":"2025-10-31T01:13:11","modified_gmt":"2025-10-31T04:13:11","slug":"o-cangaco-nordestino-e-o-urbano-onde-o-povo-vive-no-fogo-cruzado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/10\/31\/o-cangaco-nordestino-e-o-urbano-onde-o-povo-vive-no-fogo-cruzado\/","title":{"rendered":"O CANGA\u00c7O NORDESTINO E O URBANO ONDE O POVO VIVE NO FOGO CRUZADO"},"content":{"rendered":"<p>Numa an\u00e1lise antropol\u00f3gica, existem muitas semelhan\u00e7as entre o canga\u00e7o nordestino dos finais do s\u00e9culo XIX at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, com a evolu\u00e7\u00e3o acelerada do \u201ccanga\u00e7o\u201d urbano. As maiores delas est\u00e3o nas causas do abandono dos governantes e nas injusti\u00e7as sociais que geraram a pobreza e a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Os cangaceiros se autodenominavam de governadores e reis dos sert\u00f5es, enquanto o \u201ccanga\u00e7o\u201d urbano, com seus chefes das principais fac\u00e7\u00f5es de traficantes (PCC e Comando Vermelho), criou um Estado dentro do Outro, com suas pr\u00f3prias leis de dom\u00ednio onde o povo \u00e9 extorquido e se tornou propriedade privada deles.<\/p>\n<p>Tanto num, como no outro, com nuances pol\u00edticas, personagens e caracter\u00edsticas diferentes, de acordo com as mudan\u00e7as do tempo, foi a lacuna do Estado que pariu os dois monstros. O nordestino durou cerca de 100 anos e s\u00f3 se acabou com a uni\u00e3o de for\u00e7as central e estadual. O urbano j\u00e1 ultrapassou a metade desse per\u00edodo e n\u00e3o se sabe quando termina.<\/p>\n<p>Os dois s\u00e3o parecidos em termos de opera\u00e7\u00f5es letais de for\u00e7as policialescas desordenadas, desastradas e agressivas onde a popula\u00e7\u00e3o encurralada \u00e9 a maior v\u00edtima. Quando acossados, os cangaceiros fugiam para dentro da caatinga. Os bandidos do tr\u00e1fico procuram os morros de matas. L\u00e1 atr\u00e1s usavam rifles e punhais. Hoje s\u00e3o armas sofisticadas e potentes.<\/p>\n<p>Sobre estas duas esp\u00e9cies de banditismo daria para se elaborar uma tese acad\u00eamica de mestrado ou doutorado, mas vamos nos ater ao \u201ccanga\u00e7o\u201d urbano, mais especificamente \u00e0 \u00faltima opera\u00e7\u00e3o policial do Rio de Janeiro que matou mais de 100 pessoas, uma carnificina, onde o que mais se viu foi um bate-boca pol\u00edtico entre o governador da capital e agentes do governo federal num pa\u00eds polarizado de ideologias radicais de ambas as partes.<\/p>\n<p>Dizem que esta opera\u00e7\u00e3o foi a mais letal na hist\u00f3ria do Rio de Janeiro, mas outras vir\u00e3o enquanto perdurarem os mesmos m\u00e9todos de viol\u00eancia contra viol\u00eancia, e os governantes se aproveitarem para delas capitalizarem votos e n\u00e3o ocuparem os espa\u00e7os sociais e educacionais invadidos pelo banditismo. O povo vai continuar na linha de fogo e submisso aos comandos das fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De um lado, a extrema direita fascista que nem est\u00e1 a\u00ed para a quest\u00e3o dos direitos humanos e termina alimentando a criminalidade. Do outro lado, uma esquerda com um discurso atrasado, arcaico, bolorento e tamb\u00e9m radical que n\u00e3o mais convence o povo, abandonado ao Deus dar\u00e1. Nesse ritmo, vai perder as elei\u00e7\u00f5es para o nazifascismo.<\/p>\n<p>Ao lado das cenas de terror que paralisaram quase toda capital carioca e foram divulgadas pela m\u00eddia internacional, tivemos os desencontros de informa\u00e7\u00f5es entre os governantes, um acusando o outro, cada um com seu tom pol\u00edtico num territ\u00f3rio de terra arrasada.<\/p>\n<p>Vimos um ministro da Justi\u00e7a, que pouco entende de seguran\u00e7a p\u00fablica, dando uma reprimenda em p\u00fablico em um diretor da Pol\u00edcia Federal, com notas soltas e desconexas. Um governador gaguejando, mentindo descaradamente e atacando o Supremo Tribunal Federal que proibiu opera\u00e7\u00f5es com tanques.<\/p>\n<p>Por sua vez, os comandantes das pol\u00edcias do Rio alardearam que a opera\u00e7\u00e3o foi um sucesso, contando vantagens t\u00e1ticas para exterminar, de qualquer forma, os bandidos (n\u00e3o se sabe ainda do sacrif\u00edcio de inocentes). O espet\u00e1culo de exibi\u00e7\u00e3o para os soldados mortos contrasta com corpos estendidos nas ruas e portas dos hospitais. Tristes imagens para o pa\u00eds e para o mundo.<\/p>\n<p>Apreenderam um punhado de fuzis e alguma quantidade de drogas que pouco fazem falta ao potencial do Comando Vermelho. A grande m\u00eddia marrom capitalista toda vez faz sua parte sensacionalista. As for\u00e7as entraram e retornaram para seus quarteis, deixando a popula\u00e7\u00e3o ref\u00e9m dos traficantes e correndo risco de vida.<\/p>\n<p>Por press\u00e3o, as duas partes se sentaram numa grande mesa de caciques, resultando num encontro fracassado que apenas criou um tal de escrit\u00f3rio de emerg\u00eancia, ou sei l\u00e1 que nome se d\u00e1 a essa palha\u00e7ada. O governo federal remeteu uma PEC ao Congresso Nacional, o pior de todos, onde o ponto maior \u00e9 aumentar as penas ao crime organizado.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 rid\u00edculo para n\u00e3o se dizer hil\u00e1rio, como se o bandido, com uma extensa ficha de criminalidades fosse se intimidar com mais um acr\u00e9scimo de anos na cadeia. Tudo \u00e9 surrealista enquanto os dois lados permanecem se digladiando.<\/p>\n<p>Querem combater o banditismo atrav\u00e9s de leis e decretos, ao inv\u00e9s de a\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas sociais, educacionais, econ\u00f4micas e seguran\u00e7a p\u00fablica permanente, para ocupar o espa\u00e7o que lhe \u00e9 de dever das favelas e devolver ao povo a esperan\u00e7a de vida digna perdida ao longo desses anos de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Dessa forma, enquanto houver essa polariza\u00e7\u00e3o radical, discursos ultrapassados e a falta de uni\u00e3o das for\u00e7as em benef\u00edcio de um povo massacrado pela brutal viol\u00eancia, o \u201ccanga\u00e7o\u201d urbano e as opera\u00e7\u00f5es letais exterminadoras de vidas humanas ir\u00e3o continuar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa an\u00e1lise antropol\u00f3gica, existem muitas semelhan\u00e7as entre o canga\u00e7o nordestino dos finais do s\u00e9culo XIX at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, com a evolu\u00e7\u00e3o acelerada do \u201ccanga\u00e7o\u201d urbano. 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