{"id":11100,"date":"2025-10-03T23:26:34","date_gmt":"2025-10-04T02:26:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11100"},"modified":"2025-10-03T23:26:46","modified_gmt":"2025-10-04T02:26:46","slug":"entre-o-arcaico-e-o-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/10\/03\/entre-o-arcaico-e-o-moderno\/","title":{"rendered":"ENTRE O ARCAICO E O MODERNO"},"content":{"rendered":"<p>Uma das peculiaridades nordestina \u00e9 o seu misticismo religioso, que ainda perdura at\u00e9 hoje. Os cangaceiros n\u00e3o fugiam disso, mas os tempos foram se modernizando e os sertanejos de um modo geral tiveram que conviver entre o arcaico e o moderno.<\/p>\n<p>Dentro desse quadro, o folclorista C\u00e2mara Cascudo descreve que o sert\u00e3o achava que a chuva vinha do c\u00e9u e o trov\u00e3o era castigo. O sol se escondia no mar at\u00e9 o outro dia. \u201cImperavam tabus de alimenta\u00e7\u00e3o e os card\u00e1pios cheiravam ao Brasil colonial. Mandava-se fazer uma roupa de casimira para durar toda exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Luiz Bernardo Peric\u00e1s, em sua obra \u201cOs cangaceiros\u201d falava que o sebastianismo tamb\u00e9m estava arraigado na cultura oral, tanto de m\u00edsticos como de cangaceiros. O povo do interior achava que algum dia o rei de Portugal, D. Sebasti\u00e3o, sairia das ondas do mar com todo seu ex\u00e9rcito e entraria no sert\u00e3o para salvar os nordestinos das injusti\u00e7as e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>No tempo arcaico, os livros mais lidos eram Lun\u00e1rio Perpetuo, a Miss\u00e3o Abreviada, o Dicion\u00e1rio da F\u00e1bula e o Manual Enciclop\u00e9dico.\u00a0 S\u00f3 homens iluminados liam o Lun\u00e1rio. A Miss\u00e3o tamb\u00e9m foi muito difundida no sert\u00e3o nordestino na metade do s\u00e9culo XIX. Era a principal obra dos beatos, \u201cprofetas\u201d e religiosos leigos.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o, seja a institucionalizada ou popular, utiliza os instrumentos acess\u00edveis do contexto em que est\u00e1 situada. De acordo com Peric\u00e1s, assim, um conjunto de tradi\u00e7\u00f5es solidificadas determinar\u00e1 o sentido do normal, do aceit\u00e1vel, do permitido e do proibido. Os c\u00f3digos morais e as leis n\u00e3o escritas n\u00e3o precisam ser impostos pela for\u00e7a.<\/p>\n<p>No caso do sert\u00e3o, o que se constatou foi uma religi\u00e3o vinda de fora que se imp\u00f4s lentamente por meio da penetra\u00e7\u00e3o dos colonos portugueses e mamelucos e se modificando ao longo do tempo. Qualquer elemento de fora que pudesse p\u00f4r em risco ou aparentar ser uma heresia, era recha\u00e7ado. Um exemplo disso \u00e9 que os sertanejos n\u00e3o aceitaram levar dromed\u00e1rios para o Nordeste. A popula\u00e7\u00e3o se assustou quando levaram esses animais de Argel para o Cear\u00e1 porque vinham acompanhados de \u00e1rabes a car\u00e1ter, inclusive com turbantes. Para os crist\u00e3os, eles eram inimigos hereges.<\/p>\n<p>Em 1894, o mission\u00e1rio escoc\u00eas Henry John e auxiliares chegaram a Garanhuns para pregar o evang\u00e9lio. Eles foram recebidos com resist\u00eancia pelo p\u00e1roco local que convocou a popula\u00e7\u00e3o para perturbar e impedir a prega\u00e7\u00e3o. Num missa, o padre disse aos fi\u00e9is que havia chegado o satan\u00e1s na cidade. Em torno de 200 cidad\u00e3os, carregando fac\u00f5es, foram atr\u00e1s dos mission\u00e1rios, arrebentaram a porta de entrada do edif\u00edcio onde se reuniam, destru\u00edram o p\u00falpito e os bancos da sala de culto.<\/p>\n<p>Nas primeiras d\u00e9cadas republicanas, o imp\u00e9rio permaneceu entranhado nas mentes sertanejas. Em novembro de 1897, um cangaceiro emboscou uma patrulha policial, matou dois soldados e gritou vivas a Ant\u00f4nio Conselheiro e \u00e0 monarquia. Era enorme o respeito dos cangaceiros pelos cl\u00e9rigos e aos santos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Conta Peric\u00e1s que houve casos de padres que benzeram cacetes de jagun\u00e7os antes dos combates. Padre Mac\u00e1rio chegou a ser chefe de cangaceiros. Cangaceiros molhavam seus punhais em \u00e1gua benta e carregavam medalhas com imagens religiosas. O padre Mato Grosso, de Uau\u00e1-Bahia, chegou a dizer que Lampi\u00e3o era um enviado de Deus. Em dezembro de 1929, o \u201crei do canga\u00e7o\u201d deu dia santo e feriado em Queimadas, al\u00e9m de ter batizado crian\u00e7as e realizado casamentos.<\/p>\n<p>Quase todos os cangaceiros importantes diziam ter o corpo fechado. O bandoleiro Cobra Verde garantia que Jesu\u00edno Brilhante tinha o diabo no corpo. Apesar de toscos, os bandoleiros sabiam da exist\u00eancia das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e tinham no\u00e7\u00e3o do ambiente cosmopolita das grandes cidades. Lampi\u00e3o, por exemplo, se apropriava de tudo quanto era novidade, como lanterna el\u00e9trica, capa de borracha, bin\u00f3culo e at\u00e9 garrafa t\u00e9rmica, para melhorar a vida do seu bando. Portanto, eles foram se adaptado ao moderno, bem como a popula\u00e7\u00e3o sertaneja.<\/p>\n<p>Em sua bolsa, Lampi\u00e3o carregava algod\u00e3o, iodo, \u00e1cido f\u00eanico, pin\u00e7a, sonda, gaze e comprimidos. Por outro lado, dependendo do tratamento, preparava ch\u00e1s ou emplastros de pimenta malagueta com casca de angico torrada. O misticismo e o moderno passaram a conviver juntos.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio interessante foi o passeio de carro de Lampi\u00e3o, de Cumbe a Tucano. Ao saber que o padre C\u00e9sar Berenguer era dono de um moderno Ford modelo T, ordenou ao cl\u00e9rigo que levasse ele e mais sete homens at\u00e9 Tucano. Os cangaceiros chegaram a transitar de autom\u00f3vel, em novembro de 1929, de Capela a Nossa Senhora das Dores. Eles trocaram suas armas antigas pelas\u00a0 modernas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das peculiaridades nordestina \u00e9 o seu misticismo religioso, que ainda perdura at\u00e9 hoje. Os cangaceiros n\u00e3o fugiam disso, mas os tempos foram se modernizando e os sertanejos de um modo geral tiveram que conviver entre o arcaico e o moderno. 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