{"id":11053,"date":"2025-09-24T00:11:38","date_gmt":"2025-09-24T03:11:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11053"},"modified":"2025-09-24T00:15:09","modified_gmt":"2025-09-24T03:15:09","slug":"casa-glauber-pode-ser-tombada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/09\/24\/casa-glauber-pode-ser-tombada\/","title":{"rendered":"CASA GLAUBER PODE SER &#8220;TOMBADA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de 20 anos ou mais, quando chefiava a Sucursal do Jornal A Tarde, em Vit\u00f3ria da Conquista, passeia uma grande vergonha e tive que explicar o inexplic\u00e1vel. Confesso que fiquei todo embara\u00e7ado, como diz o tabar\u00e9u ou matuto catingueiro.<\/p>\n<p>Recebi a visita de um amigo-colega de Salvador, um tipo intelectual ativista da cultura e estudioso do cinema que, logo ao chegou \u00e0 cidade, me fez o primeiro pedido de que gostaria de conhecer a casa onde Glauber Rocha nasceu.<\/p>\n<p>Ele imaginava que ali funcionava uma cinemateca, oficinas de audiovisual ou um museu sobre a vida do grande cineasta baiano conquistense Glauber Rocha. Fui obrigado a dizer que n\u00e3o era nada disso e que l\u00e1 ainda morava uns parentes da sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ficou surpreso e come\u00e7ou a fazer uma s\u00e9rie de indaga\u00e7\u00f5es do porqu\u00ea a Prefeitura Municipal ainda n\u00e3o havia adquirido o im\u00f3vel. Dei uma tapeada e contei das dificuldades financeiras, al\u00e9m de que sua m\u00e3e insistia em pedir um pre\u00e7o muito alto ao poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Apesar de tudo e um tanto decepcionado devido a situa\u00e7\u00e3o do local ainda n\u00e3o ser um memorial em homenagem ao filho da terra, que encantou o Brasil e o mundo com seu cinema novo preocupado com as quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas, o amigo insistiu na visita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim sendo, fui l\u00e1 na rua Dois de Julho, bati da porta e me recebeu um senhor ou uma senhora. Apresentei o admirador de Glauber, vindo de Salvador, e falei do seu grande interesse em conhecer a casa e seus c\u00f4modos.<\/p>\n<p>Mesmo sem ser muito receptivo, ele, ou ela, concordou com a visita\u00e7\u00e3o. Ficamos por uns tempos imaginando o menino traquino e irrequieto, como sempre se comportou, correndo entre os quartos, na sala e no quintal. Claro que depois o colega continuou com suas cr\u00edticas sobre a falta de atitude da prefeitura.<\/p>\n<p>Isso foi h\u00e1 mais de 20 anos e a propriedade j\u00e1 estava deteriorada, necessitando de reparos e conserva\u00e7\u00e3o. Passado esse tempo, mesmo depois do im\u00f3vel ter sido comprado pelo executivo (dinheiro do povo), praticamente n\u00e3o recebeu as devidas reformas e corre o risco de ser literalmente tombado, n\u00e3o no sentido de patrim\u00f4nio municipal.<\/p>\n<p>Como disse algu\u00e9m do \u201cEstradeiros da Cultura\u201d, \u201cesse espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 apenas um im\u00f3vel, mas um s\u00edmbolo vivo da hist\u00f3ria de Glauber Rocha, das suas origens e do universo criativo que ajudou a moldar\u201d, com os principais filmes \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d (1964), \u201cTerra em Transe\u201d (1967) e o \u201cDrag\u00e3o da Maldade contra o Santo Guerreiro\u201d (1968) e tantos outros.<\/p>\n<p>Essas obras foram aclamadas e renderam reconhecimento nacional e internacional, inclusive no Festival de Cannes. Glauber foi um dos principais expoentes do Cinema Novo. Seu trabalho ficou marcado por uma vis\u00e3o cr\u00edtica do Brasil e do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Como foi dito, \u201cpreservar a Casa Glauber \u00e9 preservar a ess\u00eancia de um artista que transformou a cultura nacional, trazendo ao mundo narrativas que falam da identidade, das lutas e das contradi\u00e7\u00f5es do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o de Conquista, de forma vergonhosa, deixou de assumir compromisso com a arte e a cultura.\u00a0 Preferiu de maneira brutal assassinar o legado de Glauber, bem como de muitos outros. A pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do tempo est\u00e1 deteriorando a casa atrav\u00e9s de fuligens dos autom\u00f3veis, cupins, insetos e sujeiras que contribuem para rachar as paredes<\/p>\n<p>Nosso amigo Dal Farias nos conta que recentemente passou em frente da casa e observou que existe uma parte enorme de concreto sobre o muro, na emin\u00eancia de cair, ou tombar, podendo at\u00e9 gerar uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Entendo que os nossos artistas em geral, incluindo todas as linguagens, ativistas culturais, todos os movimentos unidos, intelectuais, estudantes e professores devem, acima de qualquer quest\u00e3o, cuidar primeiro da nossa aldeia cultural. Como ela est\u00e1? Transformou-se numa cho\u00e7a abandonada em meio a um matagal.<\/p>\n<p>Ouvi uma not\u00edcia vinda de Brumado, dando conta que l\u00e1, distante 135 quil\u00f4metros de Conquista, seis ou sete vezes maior em popula\u00e7\u00e3o e desenvolvimento econ\u00f4mico, o festival de m\u00fasica popular, com concursos e premia\u00e7\u00f5es, se tornou patrim\u00f4nio municipal. Em Caetit\u00e9, a Casa An\u00edsio Teixeira foi tombada e continua preservada, como a de Jorge Amado, em Ilh\u00e9us. com memoriais e realiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de eventos culturais.<\/p>\n<p>Como conquistense, n\u00e3o de forma biol\u00f3gica, mas como filho adotivo (tenho o t\u00edtulo de cidad\u00e3o), aqui morando h\u00e1 34 anos, me sinto envergonhado e triste por ver tanto descalabro contra a nossa cultura. At\u00e9 quando vamos ficar de bra\u00e7os cruzados, s\u00f3 falando e arrotando teorias com cartas e documentos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de 20 anos ou mais, quando chefiava a Sucursal do Jornal A Tarde, em Vit\u00f3ria da Conquista, passeia uma grande vergonha e tive que explicar o inexplic\u00e1vel. Confesso que fiquei todo embara\u00e7ado, como diz o tabar\u00e9u ou matuto catingueiro. 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