{"id":11045,"date":"2025-09-20T01:05:19","date_gmt":"2025-09-20T04:05:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11045"},"modified":"2025-09-20T01:05:27","modified_gmt":"2025-09-20T04:05:27","slug":"o-genocidio-nordestino-durante-o-flagelo-das-secas-e-do-cangaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/09\/20\/o-genocidio-nordestino-durante-o-flagelo-das-secas-e-do-cangaco\/","title":{"rendered":"O GENOC\u00cdDIO NORDESTINO DURANTE O FLAGELO DAS SECAS E DO CANGA\u00c7O"},"content":{"rendered":"<p>Entre os anos de 1877 a 1930\/35 milhares de nordestinos foram dizimados pelo flagelo das secas prolongadas e em campos de concentra\u00e7\u00e3o por falta de amparo do governo imperial e dos presidentes das prov\u00edncias. Levas de mendigos se refugiaram nas capitais, principalmente em Fortaleza, no Cear\u00e1, e l\u00e1 foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, v\u00edtimas de um verdadeiro genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das estiagens que mataram milhares de fome, os sertanejos nordestinos ainda tinham em seu encal\u00e7o os bandidos cangaceiros que extorquiam o povo miser\u00e1vel e ceifavam vidas. Para ficarem livres desse incomodo social, os governantes, no final do s\u00e9culo XIX e nas primeiras d\u00e9cadas do XX, incentivaram e levaram os famintos para os seringais amazonenses onde centenas foram mortos pelas doen\u00e7as da floresta.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de terras nas m\u00e3os dos latifundi\u00e1rios e as violentas disputas pol\u00edticas foram outros fatores que contribu\u00edram para as matan\u00e7as dos pobres sertanejos, apesar da prosperidade e abund\u00e2ncia de dinheiro nos cofres p\u00fablicos de algumas cidades, consideradas como terras \u201cselvagens\u201d, como Canhotinho, Garanhuns e Pesqueira, em Pernambuco.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de jagun\u00e7os e cangaceiros foi expl\u00edcita, culminando em 1917 com o epis\u00f3dio conhecido como a \u201checatombe\u201d, quando um grande n\u00famero de bandoleiros do canga\u00e7o entrou em Garanhuns e massacrou diversos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Quem fala dessa situa\u00e7\u00e3o de horror no sert\u00e3o e agreste nordestino \u00e9 o pesquisador Luiz Bernardo Peric\u00e1s em sua obra \u201cOs Cangaceiros\u201d. Sobre a a\u00e7\u00e3o das estiagens inclementes, ele cita que no Rio Grande do Norte, ap\u00f3s a dizima\u00e7\u00e3o de 70% do rebanho bovino, durante a seca de 1915, o algod\u00e3o atuou como uma for\u00e7a na economia do Nordeste.<\/p>\n<p>Peric\u00e1s considera as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas adversas como poss\u00edveis respons\u00e1veis pela deteriora\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o, fome, aumento da pobreza e consequente incremento nas atividades dos bandidos. No s\u00e9culo XX, de acordo com seu estudo, ocorreram estiagens prolongadas em 1900, 1903, 1915,1916 e 1932, \u201cmas foi no per\u00edodo em que n\u00e3o aconteciam secas que o canga\u00e7o se mostrou mais robusto\u201d.<\/p>\n<p>No ano de 1877, talvez a mais dura seca do s\u00e9culo XIX, houve um incremento nas pilhagens e saques, sobretudo na regi\u00e3o do Cariri. No seu entendimento, grande parte dos roubos e furtos em per\u00edodos de secas era praticada por gente comum, por retirantes e flagelados.<\/p>\n<p>O principal efeito das secas foi o \u00eaxodo para as grandes cidades, inclusive para as capitais das prov\u00edncias. A popula\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1, por exemplo, em 1877, foi reduzida a um ter\u00e7o. No entanto, a capital inchou. Em 1872, Fortaleza tinha 21 mil habitantes. Em 1877 emigraram para l\u00e1 85 mil pessoas. Um ano mais tarde esse n\u00famero ultrapassou os 100 mil. A cidade de Aracati, que tinha uma popula\u00e7\u00e3o de cinco mil moradores, em 1878, chegou a 60 mil.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado da grande estiagem de 1877, chusmas de mendigos percorriam as ruas em busca de algum tipo de caridade. Uma carta de um leitor de \u201cO Cearense\u201d, daquele ano, dizia que o povo est\u00e1 em desespero e logo as pessoas come\u00e7ar\u00e3o a esmolar pelas portas, ou, como \u00faltimo recurso, iniciar\u00e3o a rapinagem\u201d.<\/p>\n<p>Um artigo de \u201cA Opini\u00e3o\u201d, da Para\u00edba, de 11 de novembro de 1877, afirmava que os sert\u00f5es est\u00e3o ficando desertos pela emigra\u00e7\u00e3o para os brejos, impelida pela seca, a procura de recursos para manter a pr\u00f3pria vida; e nos brejos surge a mis\u00e9ria pela superabund\u00e2ncia de emigrantes que de tudo precisam, e nada conduzem.<\/p>\n<p>O mesmo jornal, um m\u00eas depois descrevia que a seca lan\u00e7a consterna\u00e7\u00e3o no seio de todas as fam\u00edlias, e os criminosos e desordeiros roubam o que ainda nos resta, mesmo a honra e a pr\u00f3pria vida. \u201cEm todas as ruas veem-se cad\u00e1veres ambulantes e nus, sem for\u00e7as para implorar uma esmola.<\/p>\n<p>O jornalista Rodolfo Te\u00f3filo, falando do Cear\u00e1, citava que os comiss\u00e1rios, distribuidores de socorros, tinham a ordem de dar uma ra\u00e7\u00e3o ao retirante unicamente no dia da chegada. No dia seguinte, se quisesse ter direito a ajuda, deveria ir \u00e0 pedreira de Mucuripe, seis quil\u00f4metros da capital, carregar pedras. Aquilo era bastante para roubar-lhe a vida &#8211; ressaltava<\/p>\n<p>Escreve Peric\u00e1s que, de abril a dezembro de 1877, cerca de 500 mil flagelados precisavam do aux\u00edlio do governo, que enviou 2.700 contos, uma quantia insuficiente para resolver a quest\u00e3o. Conforme pesquisas da \u00e9poca, a seca de 1877\/79 matou mais de 500 mil pessoas. No per\u00edodo entre 1877 e 1907 houve um desfalque populacional superior a dois milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>As duras condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas de 1915 foram respons\u00e1veis por ceifar a vida de 30 mil cearenses e de expulsar do estado 42 mil flagelados. Aliado a tudo isso, houve um significativo aumento nos pre\u00e7os dos alimentos.<\/p>\n<p>\u201cA popula\u00e7\u00e3o civil, esfomeada, sem ter dinheiro nem condi\u00e7\u00f5es de esperar pela distribui\u00e7\u00e3o da comida, acabava saqueando os armaz\u00e9ns de dep\u00f3sitos. Pol\u00edticos e cangaceiros incitavam o populacho a tomar posse dos alimentos. Alguns cangaceiros davam alimentos em busca de apoio dos sertanejos\u201d.<\/p>\n<p>Segundo dados, de 1869 at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, mais de 300 mil pessoas sa\u00edram do Cear\u00e1, sendo mais de 250 mil para a Amaz\u00f4nia e mais 45 mil para o Sul do pa\u00eds. Por causa da seca, mais de 50 mil retirantes sa\u00edram do Rio Grande do Norte entre 1895 e 1910 para outros estados, inclusive para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o foi outro estado de destino dos retirantes, sobretudo entre 1900 e 1920. Os estados que continuaram mandando mais gente para fora do que recebendo, entre 1920 e 1940, foram Piau\u00ed, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, em geral para o Sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Passeio P\u00fablico de Fortaleza, no ano de 1915, tr\u00eas mil miser\u00e1veis se apinhavam em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es. O jornalista Tomaz Pompeu Sobrinho narra aquela cena como um espet\u00e1culo in\u00e9dito que atraia muitos curiosos. Dizia ele que era um local de promiscuidade e imund\u00edcie aos olhos de milhares de expectadores e exploradores da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Incomodado com a situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel, o presidente da prov\u00edncia determinou que os retirantes fossem transferidos para o S\u00edtio do Alagadi\u00e7o, situado ao lado norte da rua Bezerra de Menezes. O local se transformou num verdadeiro campo de concentra\u00e7\u00e3o de milhares de pedintes, sobretudo de mulheres com seus filhos pequenos ao colo, sujos, nus ou maltrapilhos. O campo se tornou insuficiente, apesar de comportar cerca de oito a nove mil almas.<\/p>\n<p>Como forma de \u201csolucionar\u201d o problema, o presidente resolveu fomentar a emigra\u00e7\u00e3o para os seringais da Amaz\u00f4nia. Ali, o paludismo e o beriberi completavam a obra de destrui\u00e7\u00e3o das miser\u00e1veis v\u00edtimas das secas.<\/p>\n<p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o era desesperadora. Crian\u00e7as desnutridas, enfermidades, cad\u00e1veres empilhados em grande quantidade em caminh\u00f5es, e a ajuda do governo era prec\u00e1ria e ineficiente\u201d. Em 1932, ano de seca intensa, ocorreram a batalha de Mranduba, a pris\u00e3o de Volta Seca e escaramu\u00e7as de cangaceiros com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Para Luiz Peric\u00e1s, uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o pobre n\u00e3o entrava para o canga\u00e7o, mas os cangaceiros atacavam o povo humilde do sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1932, por causa do desespero causado pela dura estiagem e atacados pela fome, Corisco, sete \u201ccabras\u201d e duas mulheres entraram em Mocambo, perto de Pindoba\u00e7u, e saquearam as casas de todos os moradores, comendo tudo que encontraram pela frente. O fen\u00f4meno do canga\u00e7o acabou, mas as secas e a mis\u00e9ria continuam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os anos de 1877 a 1930\/35 milhares de nordestinos foram dizimados pelo flagelo das secas prolongadas e em campos de concentra\u00e7\u00e3o por falta de amparo do governo imperial e dos presidentes das prov\u00edncias. 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