{"id":11030,"date":"2025-09-17T23:27:47","date_gmt":"2025-09-18T02:27:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11030"},"modified":"2025-09-17T23:27:58","modified_gmt":"2025-09-18T02:27:58","slug":"revitalizar-o-centro-e-revitalizar-a-cultura-e-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/09\/17\/revitalizar-o-centro-e-revitalizar-a-cultura-e-a-historia\/","title":{"rendered":"&#8220;REVITALIZAR O CENTRO \u00c9 REVITALIZAR A CULTURA E A HIST\u00d3RIA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>A\u00a0 l\u00f3gica do mercado n\u00e3o pode sufocar a mem\u00f3ria, a arte e a vida coletiva de Vit\u00f3ria da Conquista<\/em><\/p>\n<p>Por Herberson Sonkha<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Este artigo de opini\u00e3o foi motivado pela leitura interessant\u00edssima da mat\u00e9ria do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio, intitulada <strong>\u201cA REVITALIZA\u00c7\u00c3O DO CENTRO DA CIDADE N\u00c3O \u00c9 NENHUMA NOVIDADE\u201d<\/strong>, publicada no site <a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\">www.aestrada.com.br<\/a> em 16 de setembro de 2025, \u00e0s 23h08. Parto dessa abordagem cir\u00fargica imprescind\u00edvel de Jeremias para n\u00e3o apenas reafirm\u00e1-la, como tamb\u00e9m tentar contribuir com essa discuss\u00e3o necess\u00e1ria e urgente para o futuro de nossa cidade.<\/p>\n<p>A recente audi\u00eancia p\u00fablica da C\u00e2mara de Vereadores sobre a revitaliza\u00e7\u00e3o do centro de Vit\u00f3ria da Conquista traz \u00e0 tona um debate antigo, j\u00e1 discutido h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. Como bem lembra Mac\u00e1rio, n\u00e3o se trata de novidade, mas da retomada de um projeto que nunca saiu do plano do discurso ou foi reduzido a arremedos cosm\u00e9ticos: cal\u00e7ad\u00f5es improvisados, interven\u00e7\u00f5es superficiais na Pra\u00e7a Nove de Novembro e nada que toque na ess\u00eancia da vida urbana.<\/p>\n<p>A cidade, como nos adverte Henri Lefebvre em O Direito \u00e0 Cidade (1968), \u201cn\u00e3o \u00e9 uma coisa, mas uma obra; obra de uma hist\u00f3ria, de uma coletividade, de uma vontade\u201d. O centro de Vit\u00f3ria da Conquista n\u00e3o pode ser reduzido a um \u201cshopping a c\u00e9u aberto\u201d para atender consumidores, pois isso reproduz a l\u00f3gica do capital que transforma tudo em mercadoria e esvazia a experi\u00eancia coletiva de viver a cidade.<\/p>\n<p><strong>O centro como espa\u00e7o de mem\u00f3ria e cultura<\/strong><\/p>\n<p>Ao demolirem casar\u00f5es, destru\u00edrem a R\u00e1dio Clube e transformarem patrim\u00f4nio em estacionamento, o que se retira n\u00e3o \u00e9 apenas uma constru\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas camadas de hist\u00f3ria e identidade coletiva. Walter Benjamin, em suas Teses sobre o conceito de hist\u00f3ria (1940), advertia que a modernidade capitalista promove um \u201cprogresso destrutivo\u201d, em que a \u00e2nsia por lucro imediato corr\u00f3i a mem\u00f3ria social. Vit\u00f3ria da Conquista corre o risco de se tornar apenas um entreposto comercial, sem centro hist\u00f3rico, sem alma, sem mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Revitalizar significa, antes de tudo, recuperar a cultura. O fechamento do Teatro Carlos Jheovah, do Cine Madrigal e da Casa Glauber Rocha \u00e9 mais que descaso: \u00e9 sintoma de uma l\u00f3gica economicista que considera a arte in\u00fatil porque \u201cn\u00e3o d\u00e1 lucro nem voto\u201d. Karl Marx j\u00e1 denunciava, em Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos (1844), que a l\u00f3gica do capital reduz o ser humano ao trabalho alienado e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, ignorando suas necessidades essenciais: \u201cA desvaloriza\u00e7\u00e3o do mundo humano aumenta em raz\u00e3o direta da valoriza\u00e7\u00e3o do mundo das coisas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cultura como produ\u00e7\u00e3o de vida<\/strong><\/p>\n<p>A economia marxista ensina que a riqueza n\u00e3o se resume ao lucro privado, mas ao conjunto de bens materiais e imateriais produzidos pela coletividade. A cultura \u00e9 parte essencial dessa riqueza social, pois forma consci\u00eancia cr\u00edtica, constr\u00f3i identidade e fortalece la\u00e7os comunit\u00e1rios. Eric Hobsbawm, em A Era dos Extremos (1994), sinaliza que as cidades floresceram historicamente como espa\u00e7os de efervesc\u00eancia cultural: \u201cSem os centros urbanos, n\u00e3o haveria a vida intelectual, art\u00edstica e pol\u00edtica que moldou a modernidade\u201d.<\/p>\n<p>A antropologia urbana de Milton Santos tamb\u00e9m refor\u00e7a essa vis\u00e3o. Em A Natureza do Espa\u00e7o (1996), o ge\u00f3grafo baiano afirma: \u201cA cidade \u00e9 o espa\u00e7o da coexist\u00eancia, da multiplicidade, onde o valor de uso deveria prevalecer sobre o valor de troca\u201d. Ou seja, Conquista s\u00f3 ser\u00e1 plenamente cidade quando a popula\u00e7\u00e3o se reconhecer nela como produtora e usu\u00e1ria, n\u00e3o apenas como clientela de lojas.<\/p>\n<p><strong>A cidade que queremos<\/strong><\/p>\n<p>A Pra\u00e7a Nove de Novembro e a Bar\u00e3o do Rio Branco n\u00e3o podem ser apenas vitrines para carros ou cen\u00e1rios de consumo restrito ao S\u00e3o Jo\u00e3o e ao Natal. Elas precisam ser espa\u00e7os permanentes de express\u00e3o popular: m\u00fasica, teatro, literatura, saraus, dan\u00e7a, exposi\u00e7\u00f5es, feiras culturais. Isso n\u00e3o \u00e9 gasto, \u00e9 investimento social.<\/p>\n<p>David Harvey, em Cidades Rebeldes (2012), \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cO direito \u00e0 cidade n\u00e3o \u00e9 apenas o direito de acesso ao que j\u00e1 existe, mas o direito de mudar a cidade de acordo com o nosso desejo de cora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d. Ao exigir a reabertura dos equipamentos culturais e uma programa\u00e7\u00e3o permanente, os artistas de Conquista, respaldados por quatro mil assinaturas, n\u00e3o pedem favores: reivindicam o direito ao uso social da cidade. \u00c9 uma luta por dignidade e participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Revitalizar \u00e9 resistir ao esvaziamento neoliberal<\/strong><\/p>\n<p>Se a C\u00e2mara e o Executivo pretendem revitalizar o centro de Vit\u00f3ria da Conquista, n\u00e3o podem se limitar a fachadas e cal\u00e7ad\u00f5es. \u00c9 preciso resistir \u00e0 l\u00f3gica neoliberal que transforma ruas em estacionamentos, casar\u00f5es em ru\u00ednas e cultura em mercadoria descart\u00e1vel. Revitalizar o centro significa revitalizar nossa mem\u00f3ria, nossa cultura e nossa identidade coletiva.<\/p>\n<p>Como diria Antonio Gramsci em Cadernos do C\u00e1rcere (1932-1935): \u201cA crise consiste precisamente no fato de que o velho est\u00e1 morrendo e o novo n\u00e3o pode nascer; neste interregno, surge uma grande variedade de sintomas m\u00f3rbidos\u201d. A crise cultural de Vit\u00f3ria da Conquista \u00e9 esse interregno: ou revitalizamos a cultura como nova base de desenvolvimento, ou sucumbiremos a sintomas m\u00f3rbidos do mercado, que reduz a cidade a concreto e vitrines.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria da Conquista precisa escolher: ou um centro vivo, pulsante, cultural e humano, ou um deserto de concreto, sem mem\u00f3ria e sem povo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Herberson Sonkha \u00e9 um homem negro de cor parda, militante social do movimento negro h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. \u00c9 vinculado aos Agentes de Pastoral Negros e Negras do Brasil (APNs) e ao Movimento Negro Unificado (MNU) de Vit\u00f3ria da Conquista, al\u00e9m de ser filiado \u00e0 Unidade Popular pelo Socialismo (UP). Atua como colaborador do Movimento Coletivo \u00c9tica Socialista (MCOESO), \u00e9 poeta, compositor, escritor e militante da cultura no Movimento Cultura Conquista. Recentemente passou a integrar a constru\u00e7\u00e3o coletiva do Sarau A Estrada. Atualmente \u00e9 pesquisador marxista do N\u00facleo de Estudos e Pesquisa em Trabalho, Pol\u00edtica e Sociedade (NETPS\/Uesb) e graduando em Economia pela Uesb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0 l\u00f3gica do mercado n\u00e3o pode sufocar a mem\u00f3ria, a arte e a vida coletiva de Vit\u00f3ria da Conquista Por Herberson Sonkha[1] Este artigo de opini\u00e3o foi motivado pela leitura interessant\u00edssima da mat\u00e9ria do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio, intitulada \u201cA REVITALIZA\u00c7\u00c3O DO CENTRO DA CIDADE N\u00c3O \u00c9 NENHUMA NOVIDADE\u201d, publicada no site www.aestrada.com.br em 16 de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11030"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11030"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11030\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11032,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11030\/revisions\/11032"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}