{"id":10997,"date":"2025-09-09T22:42:41","date_gmt":"2025-09-10T01:42:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10997"},"modified":"2025-09-09T22:43:50","modified_gmt":"2025-09-10T01:43:50","slug":"quando-se-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/09\/09\/quando-se-morre\/","title":{"rendered":"QUANDO SE MORRE&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 raro, mas vez por outra acontecem xingamentos e vexames em vel\u00f3rios e enterros quando se morre. Predominam o sil\u00eancio e a voz baixa, do cochicho no \u201cp\u00e9 de orelha\u201d. Cada um faz rasgos de elogios ao falecido, mesmo que ele n\u00e3o tenha sido gente boa em vida. Tem os que v\u00e3o de \u00f3culos escuros, inclusive \u00e0 noite, para passar a impress\u00e3o de pesar e sentimento de que at\u00e9 chorou.<\/p>\n<p>&#8211; Este peste cafajeste morreu tarde! Olha a\u00ed esse bando de amantes bandidas, vagabundas e putas chorando em seu caix\u00e3o! Nunca prestou, s\u00f3 vivia nos botecos e n\u00e3o se importava para os filhos. Me deixou \u00e0 mingua. Vale a vingan\u00e7a afiada at\u00e9 na morte.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o brado de uma senhora dona de casa que \u201crodou a baiana\u201d e descarregou sua m\u00e1goa no ato da despedida finita do marido irrespons\u00e1vel. S\u00e3o coisas que acontecem mais nas classes baixas. Entre os rica\u00e7os, tudo \u00e9 hipocrisia e os podres n\u00e3o aparecem, s\u00e3o levados para debaixo do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m aquela hil\u00e1ria cena do b\u00eabado que entra no vel\u00f3rio e faz o maior escarc\u00e9u contra o defunto? Mas tamb\u00e9m tem os parceiros das cacha\u00e7as que abra\u00e7am o caix\u00e3o e revelam segredos do \u201carco da velha\u201d que todo mundo fica passado de vergonha. Uma decep\u00e7\u00e3o para os parentes, \u201camigos\u201d e familiares. A\u00ed, meu camarada, as fofocas se espalham pelas redondezas.<\/p>\n<p>Tem aquele agiota ou credor que aparece com uma bolsa do lado e vai logo na maior cara de pau cobrando a d\u00edvida do morto. Abre os pap\u00e9is de recibos e promiss\u00f3rias (ainda existem?) e mostra para o c\u00f4njuge e filhos. Coisa de louco no mundo do capital onde o dinheiro \u00e9 o deus supremo!<\/p>\n<p>Quando o sujeito \u00e9 t\u00e3o miser\u00e1vel e perverso, como os \u201ccoron\u00e9is\u201d da antiga, rejeitado por todos, os filhos ou a esposa contratavam e ainda contratam as carpinteiras para chorar a noite inteira pela alma do fac\u00ednora que \u201cbateu as botas\u201d. Elas ficam secas por dentro de tanto derramar suas l\u00e1grimas, mas ganham uns trocados para comprar um peda\u00e7o de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelas brenhas do sert\u00e3o nordestino j\u00e1 teve caso de se deixar o caix\u00e3o do defunto na estrada antes de se chegar ao cemit\u00e9rio porque o indiv\u00edduo n\u00e3o prestava e tinha muitos inimigos. Na estrada para o cemit\u00e9rio, os caras d\u00e3o uma parada e sentam no caix\u00e3o para tomar umas pingas pelo defunto.<\/p>\n<p>-\u201cVamos deixar esse \u201ccabra\u201d aqui mesmo na encruzilhada, compadre. Ele n\u00e3o merc\u00ea nossa considera\u00e7\u00e3o. Quem quiser que leve at\u00e9 o final do seu caminho. Esse indiv\u00edduo avarento sempre foi uma m\u00e3o de vaca e ranzinza.<\/p>\n<p>No canga\u00e7o, os chefes cangaceiros costumavam matar soldados \u201cmacacos\u201d e desafetos e ordenar que os corpos n\u00e3o fossem enterrados. Ai de quem ousasse fazer o contr\u00e1rio! Na ditadura esquartejavam e desapareciam com os corpos dos presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Tem o vel\u00f3rio e a morte do pobre, do rico, do bandido, do poderoso pol\u00edtico, do chefe de Estado e das celebridades famosas no mundo das artes que s\u00e3o diferentes uns dos outros, uma prova de que as desigualdades sociais n\u00e3o existem somente durante a vida.<\/p>\n<p>As desigualdades profundas est\u00e3o escancaradas at\u00e9 nos nos cemit\u00e9rios das covas rasas de uma s\u00f3 cruz enterrada na terra e dos t\u00famulos cimentados.\u00a0 Lembra o poeta Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, com seu poema \u201cMorte e Vida Severina\u201d. Ele conta a hist\u00f3ria do retirante e possui um trecho sobre o funeral de um lavrador, onde descreve uma \u201cCova grande\/ Para teu defunto parco\u201d.<\/p>\n<p>Cemit\u00e9rio de rico \u00e9 cheio de obras de artes de pedras preciosas, de m\u00e1rmores, granitos e decora\u00e7\u00f5es. As chamadas \u201ccarneiras\u201d s\u00e3o grandes e sofisticadas com gavetas para abrigar toda fam\u00edlia. Tem locais que se transformam em visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica.<\/p>\n<p>Quem tem interesse em conhecer um cemit\u00e9rio de desvalidos e exclu\u00eddos da sociedade? Pobre quando morre \u00e9 mais um n\u00famero que se vai.\u00a0 Em alguns locais o mato toma conta e se tornam pastagens de animais.<\/p>\n<p>Coisa \u00e9 quando parte um famoso ou famosa. L\u00e1 v\u00eam os depoimentos cheios de chav\u00f5es, adjetivos e superlativos, de inconfund\u00edvel na sua maneira de ser, de cora\u00e7\u00e3o bondoso, generos\u00edssimo, de s\u00f3 vivia de bem com a vida, s\u00f3 sorrisos e alegria, insubstitu\u00edvel e por a\u00ed v\u00e3o os falat\u00f3rios de sempre.<\/p>\n<p>A pessoa de proje\u00e7\u00e3o parece perfeita e santa, sem defeitos e ruindades quando morre. Vai todo mundo para o c\u00e9u e nem passa pelo purgat\u00f3rio. Nada de inferno. Uns v\u00e3o festejar no al\u00e9m, contar causos e piadas, fazer cantorias e rodas de conversas. Outros intelectuais, escritores e poetas v\u00e3o discursar, travar debates acad\u00eamicos, escrever e poetar.<\/p>\n<p>No Brasil existe o costume ou a cultura de somente se prestar homenagem \u00e0 pessoa depois de morta. Enquanto viva, \u00e9 um simples esquecido, mesmo que s\u00f3 pratique o bem e seja um lutador das boas causas. Quando se morre l\u00e1 vem gente querendo levantar est\u00e1tuas, fazer homenagens com mo\u00e7\u00f5es de aplausos e t\u00edtulos. Aparecem mais mentiras que verdades quando se morre&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 raro, mas vez por outra acontecem xingamentos e vexames em vel\u00f3rios e enterros quando se morre. Predominam o sil\u00eancio e a voz baixa, do cochicho no \u201cp\u00e9 de orelha\u201d. 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