{"id":10947,"date":"2025-08-29T23:42:33","date_gmt":"2025-08-30T02:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10947"},"modified":"2025-08-29T23:42:44","modified_gmt":"2025-08-30T02:42:44","slug":"cabecas-decepadas-e-dois-partidos-nordestinos-na-epoca-do-cangaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/08\/29\/cabecas-decepadas-e-dois-partidos-nordestinos-na-epoca-do-cangaco\/","title":{"rendered":"CABE\u00c7AS DECEPADAS E DOIS &#8220;PARTIDOS&#8221; NORDESTINOS NA \u00c9POCA DO CANGA\u00c7O"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0030.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10948\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0030.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0030.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0030-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A maioria das pessoas considera uma barbaridade a decapita\u00e7\u00e3o das cabe\u00e7as de cangaceiros mortos pelas for\u00e7as das volantes e tem suas raz\u00f5es, mas existem explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Do outro lado, o canga\u00e7o, entre final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 1940, fazia o mesmo com os chamados \u201cmacacos\u201d e at\u00e9 esquartejavam impiedosamente. O cangaceiro Ant\u00f4nio Silvino tinha o prazer de sangr\u00e1-los depois de tombados em combate.<\/p>\n<p>Sobre o assunto, veja o que nos diz o pesquisador e escritor Luiz Bernardo Peric\u00e1s em sua obra \u201cOs Cangaceiros\u201d. Depois das lutas, o fardamento dos soldados das volantes (vestimentas parecidas a partir de 1925) ficam em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es, muitas esfarrapadas.<\/p>\n<p>Quando ganhavam os embates, de acordo com Peric\u00e1s, decepavam as cabe\u00e7as dos rivais por eles assassinados. O autor do livro aponta tr\u00eas motivos para a decapita\u00e7\u00e3o do inimigo.<\/p>\n<p>Um deles para demonstrar desprezo e, consequentemente, humilhar o rival. Se o cristianismo defende a inviolabilidade do corpo, a decapita\u00e7\u00e3o seria uma forma de tirar esse \u201cprivil\u00e9gio\u201d dos bandidos. Com a cabe\u00e7a separada do tronco, sua alma estaria perdida. Essa seria uma forma estranha de puni\u00e7\u00e3o. Exemplo claro foi o de Corisco, enterrado inteiro e depois exumado e decapitado. Para alguns, o ato teve como objetivo estudar seu cr\u00e2nio.<\/p>\n<p>Luiz Peric\u00e1s deixa claro que isso funcionava para os dois lados. Ao terminar o ataque a Bet\u00e2nia, os civis pediram a Lampi\u00e3o permiss\u00e3o para sepultar os soldados assassinados. O \u201cgovernador do sert\u00e3o\u201d respondeu que \u201cmacaco\u201d n\u00e3o se enterrava. Para ele, os policiais deveriam ficar por cima da terra para serem comidos pelos urubus. Depois de muita insist\u00eancia, o cangaceiro deu permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Silvino (1897-1914) havia feito o mesmo. Em 1904, ap\u00f3s assassinar o sargento Manoel da Paz, proibiu que o povo de Mogeiro o enterrasse. N\u00e3o poderiam coloc\u00e1-lo num cemit\u00e9rio, j\u00e1 que seria uma profana\u00e7\u00e3o sepultar um \u201cbandido\u201d daquele tipo num lugar sagrado \u2013 disse Silvino.<\/p>\n<p>O segundo motivo era de implica\u00e7\u00f5es mais pr\u00e1ticas. Como era invi\u00e1vel o transporte de cad\u00e1veres e, considerando que era fundamental exibir as provas da elimina\u00e7\u00e3o de muitos cangaceiros procurados, o corte das cabe\u00e7as se mostrava a melhor op\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o em pra\u00e7a p\u00fablica daria mais seguran\u00e7a para o povo de que aqueles indiv\u00edduos n\u00e3o seriam mais amea\u00e7as.<\/p>\n<p>O \u00faltimo motivo \u00e9 que as cabe\u00e7as serviam como trof\u00e9us macabros para os oficiais, que poderiam us\u00e1-las como s\u00edmbolo de suas efici\u00eancias militares. Em \u00faltima estancia, seriam estudadas por cientistas, antrop\u00f3logos e criminalistas, e depois guardadas em museus.<\/p>\n<p>Por outro lado, as cabe\u00e7as terminaram virando moeda de troca com as autoridades. Qualquer bandido arrependido que entregasse a cabe\u00e7a de um cangaceiro para a pol\u00edcia teria seus crimes perdoados pelo governo e ainda ganharia pr\u00eamios e garantias de vida.<\/p>\n<p>Com Jos\u00e9 Os\u00f3rio de Faria, o Z\u00e9 Rufino, que alugou servi\u00e7os \u00e0s autoridades baianas, havia um acordo secreto com o governo. Cada cabe\u00e7a era trocada por uma promo\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s 16 combates e 22 decapita\u00e7\u00f5es ele se tornou coronel de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, cidad\u00e3os comuns decapitavam cangaceiros para roubar seus pertences. O sujeito que n\u00e3o fosse sangrado e torturado poderia se considerar um privilegiado. Depois de capturar e interrogar \u201cLavandeira\u201d, o tenente Alencar decidiu sangrar o bandido, mas atendendo a um pedido do soldado, deu um tiro na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0029.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10949\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0029.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0029.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC_0029-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>DOIS \u201cPARTIDOS\u201d<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX e nas primeiras d\u00e9cadas do XX, o Nordeste, sem justi\u00e7a, era uma terra de ningu\u00e9m onde mandavam os coron\u00e9is, fazendeiros e senhores de engenho, se bem que os poderosos s\u00f3 mudaram de vestes e de lugar.<\/p>\n<p>Os pobres e miser\u00e1veis ficavam numa linha de fogo cruzado e s\u00f3 tinham dois \u201cpartidos\u201d para sobreviver, o do canga\u00e7o ou o da volante. Conforme relata Luiz Peric\u00e1s, o governo contratava civis para as for\u00e7as volantes.<\/p>\n<p>\u201cAs tropas volantes, assim, se tornavam tamb\u00e9m uma forma de garantir um emprego e de ascens\u00e3o social para muitos sertanejos. Outros se alistavam por terem recebido amea\u00e7as at\u00e9 mesmo de policiais e tamb\u00e9m para garantir sua seguran\u00e7a contra cangaceiros inimigos\u201d.<\/p>\n<p>A ideia de se perseguir desafetos que cometeram crimes contra suas fam\u00edlias era um dos principais motivos de ingresso nas fileiras policiais. Peric\u00e1s conta que um coiteiro de Lampi\u00e3o, Elias Marques, de Santa Br\u00edgida, depois de entrar em desaven\u00e7a com o \u201cgovernador do sert\u00e3o\u201d ingressou na for\u00e7a policial.<\/p>\n<p>Em alguns casos, quando o sertanejo n\u00e3o conseguia entrar nas volantes, caso do cangaceiro Tenente, decidia ingressar no grupo dos salteadores. \u201cFiapo\u201d, depois de se desentender com Lampi\u00e3o, foi para a volante.<\/p>\n<p>Quando \u201cVolta Seca\u201d foi capturado disse que nunca mais retornaria ao canga\u00e7o. Segundo ele, o jeito seria virar \u201cmacaco\u201d. Tamb\u00e9m ocorria o inverso. Desertores da for\u00e7a p\u00fablica se tornavam cangaceiros, como Ign\u00e1cio Loyolla Medeiros, vulgo \u201cJurema\u201d. Ficou na pol\u00edcia at\u00e9 1922 e depois se incorporou ao grupo de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cCorisco\u201d tamb\u00e9m foi militar, tendo servido no 28\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores do Ex\u00e9rcito, em Aracaju-Sergipe. Ap\u00f3s participar de uma rebeli\u00e3o, em 1924, desertou e mais tarde se tornou cangaceiro. O caso mais conhecido de um militar do ex\u00e9rcito brasileiro a se tornar um cangaceiro foi o de Jos\u00e9 Leite Santana, vulgo \u201cJararaca\u201d, que chegou a lutar na revolta tenentista de S\u00e3o Paulo, em 1924, e tamb\u00e9m esteve no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Um, dos filhos de Ant\u00f4nio Silvino se tornou oficial do ex\u00e9rcito. Certa vez Lampi\u00e3o disse que n\u00e3o havia nascido para a vida de cangaceiro.\u00a0 \u201cSe n\u00e3o houvesse n\u00eago na pol\u00edcia pra manobrar com a gente, eu ainda iria ser soldado\u201d. Joca Bernardo, coiteiro de \u201cCorisco\u201d e delator do paradeiro de Lampi\u00e3o em Angico, recebeu a oferta de cinco contos de reais e uma patente de sargento. Foi enganado e caiu em desgra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria das pessoas considera uma barbaridade a decapita\u00e7\u00e3o das cabe\u00e7as de cangaceiros mortos pelas for\u00e7as das volantes e tem suas raz\u00f5es, mas existem explica\u00e7\u00f5es. Do outro lado, o canga\u00e7o, entre final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 1940, fazia o mesmo com os chamados \u201cmacacos\u201d e at\u00e9 esquartejavam impiedosamente. 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