{"id":10934,"date":"2025-08-26T23:09:24","date_gmt":"2025-08-27T02:09:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10934"},"modified":"2025-08-26T23:09:33","modified_gmt":"2025-08-27T02:09:33","slug":"o-cangaco-e-o-coronel-so-mudaram-de-vestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/08\/26\/o-cangaco-e-o-coronel-so-mudaram-de-vestes\/","title":{"rendered":"O CANGA\u00c7O E O &#8220;CORONEL&#8221; S\u00d3 MUDARAM DE VESTES"},"content":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea penetra nos estudos sobre o canga\u00e7o no Nordeste vem em sua mente uma vis\u00e3o do faroeste bandoleiro no oeste dos Estados Unidos, ou a guerra entre bandidos milicianos e traficantes nos morros do Rio de Janeiro e outras capitais. Numa an\u00e1lise mais aprofundada, o canga\u00e7o e o \u201ccoronel\u201d s\u00f3 mudaram de vestes no Brasil dos tempos atuais, com armas mais sofisticadas.<\/p>\n<p>Vejamos o que fala o estudioso no assunto, Luiz Bernardo Peric\u00e1s em sua obra \u201cOs Cangaceiros \u2013 ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d. \u201cEm realidade, at\u00e9 mesmo a rela\u00e7\u00e3o das volantes com os fazendeiros era, grande medida, parecida com a dos cangaceiros, guardadas, \u00e9 claro, as propor\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Os poderosos de hoje, pol\u00edticos, chefes do poder, grandes empres\u00e1rios, os corruptos dos cofres p\u00fablicos e outras classes abastadas s\u00e3o os \u201ccoron\u00e9is\u201d de ontem, com vestimentas diferentes. Eles saqueiam povoados, distritos e cidades. Quase sempre est\u00e3o engravatados e exercem influ\u00eancias no eleitorado sem instru\u00e7\u00e3o e at\u00e9 no policiamento.<\/p>\n<p>Peric\u00e1s destaca que crimes com requintes de crueldade eram largamente praticados pelos \u201cmacacos\u201d, como assim chamavam os cangaceiros. At\u00e9 hoje a pol\u00edcia mete medo nos cidad\u00e3os, tratando-os como bandidos nas abordagens contra negros e os mais pobres.<\/p>\n<p>Muitos aceitam suborno e matam inocentes trabalhadores. Tem gente que tem mais pavor da pol\u00edcia do que do bandido. No canga\u00e7o, o povo estava mais do lado dos cangaceiros, considerando-os como her\u00f3is justiceiros, se bem que de forma distorcida.<\/p>\n<p>O autor diz mais ainda que, naquela \u00e9poca (meados dos s\u00e9culos XIX at\u00e9 as primeiras d\u00e9cadas do XX), pequenos donos de terra eram expulsos de suas propriedades e tinham suas fazendas desapropriadas \u00e0 for\u00e7a por \u201ccoron\u00e9is\u201d poderosos, que se apoiavam nas armas oficiais da pol\u00edcia que, muitas vezes, se tornavam amigos e compadres dos caudilhos rurais\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje temos os grileiros de terras, principalmente no Norte e Nordeste, resultando em matan\u00e7as de l\u00edderes que defendem os mais fracos. Nunca se fez uma reforma agr\u00e1ria na hist\u00f3ria do Brasil e a briga por terras \u00e9 constante, com a impunidade dos criminosos, que recebem at\u00e9 a cobertura da Justi\u00e7a que vende senten\u00e7as.<\/p>\n<p>O escritor vai al\u00e9m, \u201cde que a influ\u00eancia pol\u00edtica dos \u201ccoron\u00e9is\u201d ajudava na promo\u00e7\u00e3o de tenentes e capit\u00e3es, dentro da corpora\u00e7\u00e3o e no acobertamento de suas atividades il\u00edcitas. Havia a\u00ed, de modo claro, uma rela\u00e7\u00e3o de promiscuidade entre o poder p\u00fablico e o privado. Uma troca de favores\u201d.<\/p>\n<p>Essa promiscuidade continua a existir, sobretudo entre os pol\u00edticos e chefetes, como o termo de \u201ctoma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1\u201d. Ainda existe o Quem Indica, comumente apelidado pela sigla QI.Quem quiser pode utilizar a palavra \u201cpistol\u00e3o\u201d, que vem de pistola.<\/p>\n<p>Naqueles tempos, quem n\u00e3o quisesse participar desse \u201carranjo\u201d estaria fadado ao fracasso &#8211; assinala Luiz Peric\u00e1s, que cita o caso do tenente-coronel Alberto Lopes, respons\u00e1vel pelas volantes baianas, em 1930. Dentre as imposi\u00e7\u00f5es para assumir o cargo, exigiu que os chefes pol\u00edticos locais n\u00e3o interferissem nas opera\u00e7\u00f5es militares organizadas e lideradas por ele, de nenhum modo.<\/p>\n<p>Essa exig\u00eancia foi fatal para o tenente. Perdeu a vida numa encruzilhada pelas m\u00e3os de um chefe regional, justamente por n\u00e3o querer a inger\u00eancia dos \u201ccoron\u00e9is\u201d em suas decis\u00f5es. \u201cEra comum, portanto, que um sargento, cabo ou oficial, comandando uma dilig\u00eancia de ca\u00e7a a cangaceiros (bandidos), desistisse da miss\u00e3o, por causa de in\u00fameros entraves antepostos pelos \u201ccoron\u00e9is\u201d e chefes pol\u00edticos regionais.<\/p>\n<p>\u201cEm per\u00edodos pr\u00f3ximos das elei\u00e7\u00f5es, por exemplo, esses homens poderosos podiam espalhar boatos e fazer intrigas contra determinados oficiais das volantes que, porventura, estivessem criando \u201cproblemas\u201d. Difama\u00e7\u00f5es eram frequentemente difundidas com intuito de retirar de suas \u00e1reas de influ\u00eancia, certos comandantes considerados inconvenientes. Quando o oficial era transferido, a rela\u00e7\u00e3o entre \u201ccoron\u00e9is\u201d e bandidos poderia continuar sem empecilhos\u201d.<\/p>\n<p>Boatos hoje montados por pol\u00edticos poderosos levam o nome bonito ingl\u00eas de \u201cfake news\u201d, ou falsas not\u00edcias para se ganhar um pleito e derrubar o advers\u00e1rio oposto. No mundo do crime e do tr\u00e1fico, ainda perpetua a rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre pol\u00edticos inescrupulosos e bandidos, naquele tempo, cangaceiros do canga\u00e7o.<\/p>\n<p>O soldo das tropas volantes daquela \u00e9poca era, em geral, mais baixo do que ganhava a m\u00e9dia dos cangaceiros bandidos. Traficante hoje pode at\u00e9 ter vida curta, mas ganha bem mais que um soldado e at\u00e9 um oficial, quando ele \u00e9 s\u00e9rio e honesto.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o e a desonestidade estavam presentes nas corpora\u00e7\u00f5es. Uma das formas do soldado ou oficial completar seu sal\u00e1rio era roubar os pertences dos cangaceiros ap\u00f3s os combates. N\u00e3o s\u00e3o todos, mas muitos policiais usam dessa pr\u00e1tica em abordagens e apreens\u00f5es il\u00edcitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea penetra nos estudos sobre o canga\u00e7o no Nordeste vem em sua mente uma vis\u00e3o do faroeste bandoleiro no oeste dos Estados Unidos, ou a guerra entre bandidos milicianos e traficantes nos morros do Rio de Janeiro e outras capitais. 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