{"id":10861,"date":"2025-08-11T23:50:41","date_gmt":"2025-08-12T02:50:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10861"},"modified":"2025-08-11T23:50:52","modified_gmt":"2025-08-12T02:50:52","slug":"as-feiras-de-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/08\/11\/as-feiras-de-trabalhadores\/","title":{"rendered":"&#8220;AS FEIRAS DE TRABALHADORES&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ao lado dos feirantes comuns que levavam suas produ\u00e7\u00f5es, como farinha, feij\u00e3o, milho, carnes e verduras para comercializar, pouca gente tem conhecimento do que eram \u201cas feiras de trabalhadores\u201d no Nordeste que aconteceram at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Essas feiras representavam a explora\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel da mis\u00e9ria nordestina pelos senhores de engenhos, coron\u00e9is fazendeiros e at\u00e9 poderosos pol\u00edticos, tudo em regime de escravid\u00e3o expl\u00edcita, n\u00e3o daquela africana do tronco e da chibata que perdurou por mais de 300 anos no Brasil.<\/p>\n<p>Sem trabalho para sustentar suas fam\u00edlias, principalmente em \u00e9pocas de seca, trabalhadores com suas enxadas, foices, machados e outras ferramentas se dirigiam aos povoados, vilarejos e cidades. Um amontoado de esfarrapados oper\u00e1rios, com fome e sede, ficava exposto ao sol ardente como mercadorias \u00e0 espera de que aparecesse um senhor engravatado para contratar seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Essas feiras funcionavam como mercados de compra e venda de m\u00e3o-de-obra barata, s\u00f3 que menos violenta do que nos tempos da escravid\u00e3o, mas n\u00e3o deixavam de ser cru\u00e9is para aqueles famintos que se sujeitavam a oferta de qualquer pre\u00e7o porque n\u00e3o tinham outra sa\u00edda diante de tanta oferta e pouca procura.<\/p>\n<p>Como nos barrac\u00f5es de escravos, os donos de engenhos e os coron\u00e9is transitavam soberanos entre aqueles homens, inclusive crian\u00e7as e jovens, e escolhiam os mais robustos e fortes que aguentavam pegar no pesado por cerca de doze horas de trabalho duro e for\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os mais fracos e aqueles com idade entre os 40 ou 50 anos eram rejeitados por aqueles patr\u00f5es que pagavam uma mixaria aos outros e mal davam um prato de comida, na maioria restos de carne, buchos ou at\u00e9 v\u00edsceras de animais. Essas pessoas dormiam em locais prec\u00e1rios e sujos, sem nenhuma dignidade humana.<\/p>\n<p>Sem servi\u00e7o, muitos caiam no canga\u00e7o e se tornavam bandoleiros, isto \u00e9, partiam para a criminalidade, ou viravam retirantes em paus-de-arara para o sul do pa\u00eds, sobretudo S\u00e3o Paulo onde tamb\u00e9m eram submetidos \u00e0 escravid\u00e3o nas grandes capitais. De um modo geral, o nordestino pobre e miser\u00e1vel tinha uma vida curta em torno dos 50 anos.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o era somente a seca que provocava a retirada dos nordestinos em busca de trabalho em outros estados. Quem tinha uma pequena propriedade se tornava v\u00edtima de grilagem dos senhores poderosos ou era obrigado a vender seu peda\u00e7o de terra para aumentar o latif\u00fandio do \u201ccoronel\u201d e do senhor de engenho da zona da mata.<\/p>\n<p>N\u00e3o como antes, de forma bastante institucionalizada pela pobreza extrema, essas \u201cfeiras de trabalhadores\u201d deixaram seus resqu\u00edcios. Quando ainda moleque na ro\u00e7a do meu pai, muita gente ia \u00e0s feiras t\u00e3o somente para procurar um trabalho, n\u00e3o mais com a enxada e uma foice na m\u00e3o.<\/p>\n<p>As coisas melhoraram bastante com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela \u00e9poca, mas o nordestino catingueiro continua a sofrer e sendo explorado por esses rinc\u00f5es a fora, tanto \u00e9 que ainda existe o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>\u201cAs feiras dos trabalhadores\u201d est\u00e3o hoje camufladas por contratantes de m\u00e3o-de-obra para lavoras, carvoarias e outras atividades. Eles prometem bons sal\u00e1rios e outros benef\u00edcios, s\u00f3 que a realidade \u00e9 bem diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao lado dos feirantes comuns que levavam suas produ\u00e7\u00f5es, como farinha, feij\u00e3o, milho, carnes e verduras para comercializar, pouca gente tem conhecimento do que eram \u201cas feiras de trabalhadores\u201d no Nordeste que aconteceram at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX. 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