{"id":10670,"date":"2025-06-11T00:13:28","date_gmt":"2025-06-11T03:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10670"},"modified":"2025-06-11T00:16:06","modified_gmt":"2025-06-11T03:16:06","slug":"nos-tempos-da-maria-fumaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/06\/11\/nos-tempos-da-maria-fumaca\/","title":{"rendered":"NOS TEMPOS DA &#8220;MARIA FUMA\u00c7A&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Achava bonito ver aquele trem \u201cMaria Fuma\u00e7a\u201d parado na esta\u00e7\u00e3o para o embarque e o desembarque dos passageiros com suas missangas e depois o maquinista da lenha dava dois ou tr\u00eas apitos dando sinal que era o momento da partida. As pessoas se apressavam e cada um ocupava seu lugar. \u00c1s vezes lotava e esvaziava em outro ponto.<\/p>\n<p>A molecada pongava no \u00faltimo vag\u00e3o at\u00e9 um acerto ponto quando come\u00e7ava a acelerar, e o trem ia serpenteando como cobra entre as curvas das serras, cruzando os pontilh\u00f5es, deslizando nas plan\u00edcies, subindo e descendo ladeiras no som do \u201cpotoc-potoc, potoc-potoc\u201d, ou no ritmo do \u201ccaf\u00e9 com p\u00e3o, bolacha n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quando menino era o meio de transporte que mais me fascinava e at\u00e9 hoje guardo marcantes lembran\u00e7as das viagens de Piritiba para Senhor do Bonfim, de l\u00e1 para Salvador, para Rui Barbosa, Itaberaba e Ia\u00e7u.<\/p>\n<p>Passava pelas cidades de Miguel Calmon, Jacobina, Caem, Pindoba\u00e7u, Sa\u00fade, Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves e alguns distritos. As esta\u00e7\u00f5es tinham arquiteturas semelhantes. Recordo das aventuras dos namoros adolescentes, dos casos e causos de passageiros e do balan\u00e7ar pra l\u00e1 e pra c\u00e1, isto h\u00e1 mais de 60 anos.<\/p>\n<p>Como era gostoso viajar \u00e0 noite e apreciar da janela o luar a pratear o sert\u00e3o, e nas esta\u00e7\u00f5es das cidades e povoados ver aquela gente gritando para vender doces, mingaus, pamonhas, canjica, milho assado e cozido, bolos de aipim e frutas. Era aquela algazarra e todo mundo ganhava um dinheirinho.<\/p>\n<p>Nos vag\u00f5es de cargas iam as bruacas dos feirantes, ferros velhos, mercadorias diversas, cereais e at\u00e9 m\u00f3veis de mudan\u00e7as. Vendedores e ambulantes pegavam as feiras em diversas cidades e iam mascateado por aquele mund\u00e3o entre Senhor do Bomfim a Ia\u00e7u, cerca de uns 700 a 800 quil\u00f4metros. Aquela gente praticamente morava no trem, indo e voltando para realizar seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Lembro do Tio Quincas, um m\u00e3o de vaca sovina daqueles que fazia quest\u00e3o de um centavo de tost\u00e3o, casado com a irm\u00e3 da minha m\u00e3e. Ele saia de Bonfim para Piritiba para comercializar arreios, cangalhas, reios, chap\u00e9us, celas, chocalhos, tacas, brides de cavalos e outras bugigangas.<\/p>\n<p>Era gago e num saquinho de pano levava as farofas de frango, rapadura e carne seca que a tia \u201cDitinha\u201d fazia. Quando acontecia viajar com ele, era t\u00e3o casquinha que nem pagava um doce para mim, mal me dava um punhado de farinha. Vez ou outra se entocava na cabine do sanit\u00e1rio para contar o dinheiro da feira enrolado num saquinho. Nem dormia direito com medo de algu\u00e9m lhe roubar.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia muito vacilar porque aparecia uns ladr\u00f5es e vigaristas durante a viagem para afanar os pobres passageiros, a maioria de candangos e at\u00e9 retirantes das secas que iam para as terras das Minas Gerais na divisa de Urandi com Espinosa. E l\u00e1 ia o trem \u201cGroteiro\u201d no seu tic-tac ou toc-toc marrento, soltando sua inconfund\u00edvel fuma\u00e7a, da\u00ed o nome de \u201cMaria Fuma\u00e7a\u201d porque era movido a lenha.<\/p>\n<p>&#8211; Essa cachorra n\u00e3o para de latir! Deve estar com fome ou algu\u00e9m bateu nela! Gritou de l\u00e1 da esta\u00e7\u00e3o da cidade de Caem um senhor em tom zangado porque uma mulher debochava do lugar e ficava rosnando \u201ccaem, caem, caem\u201d, imitando o latido de cachorro. Ali\u00e1s, muita gente fazia isso em tom de goza\u00e7\u00e3o quando passava em Caem. At\u00e9 eu me arriscava a latir. Era s\u00f3 zoeira!<\/p>\n<p>Com aquele fogo todo de mo\u00e7o novo transpirando sexo, gostava das paqueras e vez ou outra agarrava umas namoradinhas. Tascava aqueles beijos calientes. Nunca me esqueci de uma morena linda de nome Laura procedente de Cachoeira.<\/p>\n<p>Depois de uma troca de olhares apaixonantes fomos para o final de um dos vag\u00f5es. Nos travamos nos beijos e no mexe-mexe, mas na hora de bem-bom, o trem descarrilhou. Com medo de morrer, me desvencilhei da menina e cometi o desatino de pular fora dos trilhos. Por sorte, n\u00e3o me arrebentei todo numa ribanceira.<\/p>\n<p>Ficamos nos correspondendo com cartas de amor e depois de anos nos encontramos em Salvador, mas, como estudante pobre \u201clascado\u201d, n\u00e3o possu\u00eda condi\u00e7\u00f5es financeiras para continuar o namoro. Nem tinha grana para dar uma sa\u00edda, tomarmos umas geladas e fazermos uns chamegos. Tempos dif\u00edceis!<\/p>\n<p>Certa feita, como estava sem grana, entrei no trem sem comprar a passagem. Ficava de olho no guarda sisudo com aquele quepe picotando os bilhetes. Ocorre que ele me pegou no flagra e a\u00ed o bicho pegou feio. O cara me levou para o vag\u00e3o dele e queria me deixar na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o antes de chegar em Piritiba, sem minha malinha de couro.<\/p>\n<p>&#8211; Quebra um galho a\u00ed, seu guarda! Sou pobre estudante e estou sem dinheiro nenhum, nem para comprar um engano para o est\u00f4mago.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sou nenhum macaco, seu moleque, para sair por a\u00ed quebrando galho &#8211; respondeu o guarda. Comecei a chorar. Ele era um dur\u00e3o, mas compadeceu da minha situa\u00e7\u00e3o, mesmo me deixando de castigo em sua cabine at\u00e9 chegar em Piritiba. Passou o tempo todo me dando aquele sab\u00e3o e que nunca mais fizesse aquela molequeira.<\/p>\n<p>Bem antes de viajar, quando fazia o prim\u00e1rio em Piritiba, praticamente n\u00e3o perdia uma chegada de trem na esta\u00e7\u00e3o. Sempre estava atrasado e, enquanto esperava, ficava encantado s\u00f3 em olhar aquele ferrovi\u00e1rio de farda no toc-toc do tel\u00e9grafo.<\/p>\n<p>Ficava invocado com aqueles sinais no dedo da m\u00e3o. Quando o \u201cbicho\u201d apitava era s\u00f3 alegria. Ia mais para pegar as malas dos passageiros, ganhar uns trocados para comprar gudes e gibis. Assim virei carregador de malas.<\/p>\n<p>\u00c9, meus amigos, mas, infelizmente, tudo acabou quando as companhias e o governo federal resolveram parar com os trens de passageiros. Todo patrim\u00f4nio se transformou em destro\u00e7os de ferros velhos. O tempo se encarregou de destruir as esta\u00e7\u00f5es. S\u00f3 restaram as saudades.<\/p>\n<p>O sucateamento come\u00e7ou no Governo de Get\u00falio Vargas, no in\u00edcio dos anos 50, e prosseguiu com Juscelino Kubitscheck quando decidiram dar prioridade \u00e0s rodovias e atender as demandas das montadoras de autom\u00f3veis. \u00c9 o Brasil com seus projetos tortos jogando nosso dinheiro no ralo.<\/p>\n<p>Aqui na Bahia muitas linhas foram desativadas, como de Alcoba\u00e7a a Nanuque, em Minas Gerais, de Salvador a Contendas do Sincor\u00e1, passando por Cachoeira e S\u00e3o Felix, de Salvador para Senhor do Bomfim e de l\u00e1 para Urandi, sem falar a Nazar\u00e9-Jequi\u00e9, constru\u00edda em 1927.<\/p>\n<p>O nome trem tem sua origem do franc\u00eas \u201ctrainer\u201d, de puxar ou arrastar; do latim trahere, train, conjunto de vag\u00f5es, carruagens puxadas por vag\u00f5es ou por animais. Em Portugal \u00e9 c\u00e2mbio.<\/p>\n<p>O primeiro trem surgiu na Inglaterra, em 1804, como locomotiva e, nos Estados Unidos, em 1827, onde essas m\u00e1quinas desbravaram o Oeste e chegaram a ser recebidas a bala pelos fazendeiros que reagiam ao progresso e n\u00e3o aceitavam cortar suas terras. Os filmes de faroeste contam muito dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No Brasil a primeira linha de 14, 5 quil\u00f4metros foi constru\u00edda em 30 de abril de 1854 entre Porto de Mau\u00e1 e Fragoso, no Rio de Janeiro, por iniciativa do empres\u00e1rio Irineu Evangelista de Souza, conhecido como Bar\u00e3o de Mau\u00e1. Historiadores tamb\u00e9m falam da ferrovia Mau\u00e1 &#8211; Petr\u00f3polis ao Porto de Estrela, em 1952, na Baia de Guanabara, com o nome de Baroneza, autorizada por D. Pedro II.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Achava bonito ver aquele trem \u201cMaria Fuma\u00e7a\u201d parado na esta\u00e7\u00e3o para o embarque e o desembarque dos passageiros com suas missangas e depois o maquinista da lenha dava dois ou tr\u00eas apitos dando sinal que era o momento da partida. As pessoas se apressavam e cada um ocupava seu lugar. \u00c1s vezes lotava e esvaziava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10670"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10670"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10673,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10670\/revisions\/10673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}