{"id":10655,"date":"2025-06-05T00:38:37","date_gmt":"2025-06-05T03:38:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10655"},"modified":"2025-06-05T00:41:06","modified_gmt":"2025-06-05T03:41:06","slug":"o-matuto-e-o-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/06\/05\/o-matuto-e-o-valente\/","title":{"rendered":"O MATUTO E O VALENTE"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Eles vivem a brigar igual a cachorro e gato, mas n\u00e3o se desgrudam um do outro \u2013 comentavam os moleques da rua que temiam os parceiros, um matuto e o outro visto como valente por nome de Jairo.<\/p>\n<p>&#8211; Brigam entre eles, ficam sem se falar por certo tempo, mas ningu\u00e9m se atreve a enfrentar os dois. Um toma as dores do outro na hora do \u201cpega pra capar\u201d. Eu estou fora &#8211; dizia o colega de conversa em tom de medo.<\/p>\n<p>Por volta do final da d\u00e9cada de 50, com uns 11 ou 12 anos, sai da ro\u00e7a a mando do meu pai para morar em Piritiba e fazer o prim\u00e1rio. Antes disso, passei pelas m\u00e3os de v\u00e1rias professoras leigas &#8211; memor\u00e1vel recorda\u00e7\u00e3o da professora Nina &#8211; para aprender o b\u00ea-\u00e1-b\u00e1, mas continuava um analfabeto. Fazia uns garranchos nos pap\u00e9is e lia alguma coisa com dificuldade.<\/p>\n<p>Era um t\u00edmido matuto roceiro magricela que foi residir na cidadezinha rec\u00e9m emancipada na casa do casal Nem\u00e9zio e Maricas. Al\u00e9m de seus dois filhos, eles criavam um rapazola negro pouco mais velho do que eu, que trabalhava como escravo. S\u00f3 tinha direito \u00e0 comida e a uns trocados.<\/p>\n<p>Seu nome era Jairo e me aliei a esta fam\u00edlia sendo o sexto integrante numa resid\u00eancia um tanto apertada. Meu objetivo era estudar e, para tanto, meu pai pagava as despesas e ainda ajudava com quilos de farinha e feij\u00e3o produzidos em sua ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu era um estranho do ninho e, como matuto desajeitado e desengon\u00e7ado, de roupas roceiras (cal\u00e7a curta) comecei a ser v\u00edtima de apelidos e deboches (bullying) na escola e nas ruas entre os outros meninos da cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 sofria bullying (na \u00e9poca ningu\u00e9m sabia o que era isso) como apanhava como saco de pancada. Jairo era um negro magro que tinha um soco de direita, ou de esquerda, n\u00e3o me lembro bem, que derrubava um arm\u00e1rio. Ningu\u00e9m se engra\u00e7ava com ele porque s\u00f3 recebia pancada.<\/p>\n<p>O matuto padecia dia e noite nas m\u00e3os daqueles moleques e ningu\u00e9m o temia. Era s\u00f3 chamar para a briga e ele saia com o rabo por debaixo das pernas como c\u00e3o sarnento, Jairo n\u00e3o, este era o valente respeitado, pau para toda obra.<\/p>\n<p>De tanto apanhar e ser ridicularizado, um dia o matuto deu um estalo maluco na cuca, ou uma sacada, e colocou na cabe\u00e7a que tinha que lutar no bra\u00e7o com o Jairo, o mais valente. Sabia que ia tomar porrada, mas j\u00e1 estava calejado mesmo! N\u00e3o importava a surra. Era por uma boa causa.<\/p>\n<p>Numa roda de moleques, nos jogos de gude e pinh\u00e3o &#8211; a inten\u00e7\u00e3o era que que muitos fossem testemunhas da peleja &#8211; sem motivos, o matuto come\u00e7ou a provocar Jairo com palavr\u00f5es, inclusive de ladr\u00e3o e outros termos politicamente incorreto, para os tempos atuais.<\/p>\n<p>Como morava comigo na mesma casa, a princ\u00edpio Jairo evitou enfrentar o matuto. A molecada n\u00e3o acreditava no que estava vendo. Ningu\u00e9m ousava brigar com ele porque sabia que seu punho era certeiro.<\/p>\n<p>Como Jairo se fez de covarde, o matuto caiu dentro e logo recebeu uma lapada que o deixou no ch\u00e3o. O matuto levantou, sacudiu a poeira e deu nova investida. At\u00e9 que deu uns tapas aqui e acol\u00e1, mas o matuto apanhou feio. Caia e levantava.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o bater mais e sangrar de morte o matuto, Jairo saiu e deixou a turma. Apanhou, mas foi o dia \u201cD\u201d da liberta\u00e7\u00e3o dos bullying contra o maturo.<\/p>\n<p>Em pouco tempo a not\u00edcia correu nas ruas de que o matuto tinha lutado contra Jairo. A partir dali ele passou a ser o segundo mais valente da cidade. Imp\u00f4s respeito e at\u00e9 dava ordens para os outros.<\/p>\n<p>Acabaram-se as sacanagens contra ele. Se um grupo advers\u00e1rio de uma rua resolvesse provocar o matuto, era s\u00f3 Jairo encostar que todo mundo debandava. Se o matuto entrasse num entrevero, Jairo tomava as dores, e vice-versa.<\/p>\n<p>Vez ou outra os dois brigavam e ficavam dias sem se falarem. O mais curioso era que ambos dormiam no mesmo quarto, e um n\u00e3o dirigia a palavra ao outro. Passamos a ser \u201cinimigos\u201d, mas amigos porque um defendia o outro nas confus\u00f5es.<\/p>\n<p>Em jumentos com garotes, \u00e9ramos agueiros (vendedores de \u00e1gua), lenhadores e faz\u00edamos outros servi\u00e7os para Nem\u00e9zio. Naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha energia el\u00e9trica em Piritiba, \u00e1gua encanada e a maioria dos fog\u00f5es era a lenha. Todo lucro ficava para o dono dos jegues.<\/p>\n<p>Foi assim que o matuto encontrou uma sa\u00edda para se livrar das humilha\u00e7\u00f5es dos atrevidos e riquinhos metidos a bestas da cidade. Quando o matuto terminou o prim\u00e1rio foi ser sacrist\u00e3o de padre em Mundo Novo e depois estudar no semin\u00e1rio de Amargosa.<\/p>\n<p>Jairo, o grande amigo valente, j\u00e1 era um rapaz criado, mas n\u00e3o dava para continuar sendo escravo daquele casal que tanto lhe explorou e n\u00e3o lhe deu estudos e bens.<\/p>\n<p>Pobre e sem quase nada, resolveu pegar um pau-de-arara para S\u00e3o Paulo. Tempos depois soube que se meteu em bandidagem na capital paulista e foi assassinado, n\u00e3o se sabe se pela pol\u00edcia, por algum comparsa traidor ou em alguma briga, pois o Jairo sempre foi \u201cpavio curto\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Eles vivem a brigar igual a cachorro e gato, mas n\u00e3o se desgrudam um do outro \u2013 comentavam os moleques da rua que temiam os parceiros, um matuto e o outro visto como valente por nome de Jairo. &#8211; Brigam entre eles, ficam sem se falar por certo tempo, mas ningu\u00e9m se atreve a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10655"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10655"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10655\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10658,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10655\/revisions\/10658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}