{"id":10653,"date":"2025-06-04T00:14:47","date_gmt":"2025-06-04T03:14:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10653"},"modified":"2025-06-04T00:14:55","modified_gmt":"2025-06-04T03:14:55","slug":"nordestinos-paulistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/06\/04\/nordestinos-paulistas\/","title":{"rendered":"NORDESTINOS &#8220;PAULISTAS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Oh, minha tia Zeferina, que animal \u00e9 aquele no pasto que fica o tempo todo urrando? E aquela fruta pretinha no quintal? E essa ave toda pitadinha?<\/p>\n<p>&#8211; Deixa de ser metido a besta moleque! Depois que foi para S\u00e3o Paulo fica a\u00ed dando uma de \u201cpaulista\u201d e esquece que \u00e9 um nordestino. Voc\u00ea sabe que \u00e9 um jumento, teu irm\u00e3o, que lhe transportou na cacunda quando menino com carga d\u00b4\u00e1gua, feij\u00e3o e mandioca. A fruta \u00e9 jabuticaba e a ave \u00e9 um saqu\u00ea, galinha africana, Severino!<\/p>\n<p>Pois \u00e9, esse caso eu ouvi h\u00e1 longos anos do seu Gorg\u00f4nio sobre certos jovens que se juntavam aos retirantes pau-de-arara e iam para S\u00e3o Paulo no in\u00edcio para os meados do s\u00e9culo XX fugidos da seca para n\u00e3o morrerem de fome.<\/p>\n<p>Numa simples analogia, S\u00e3o Paulo era como se fosse a terra prometida e o povo nordestino os judeus escravos que fugiram dos fara\u00f3s pelo deserto, guiados por Mois\u00e9s. Nessas retiradas sempre existia um l\u00edder para conduzir os fam\u00e9licos \u00e0 procura de trabalho e dias melhores.<\/p>\n<p>Contavam os mais velhos que, depois de determinado tempo dando duro por aquelas terras estranhas, muitos retornavam para visitar seu torr\u00e3o natal e seus parentes com sotaque paulista, com pinta de rico e se fazia de desconhecido das coisas, dos h\u00e1bitos, das frutas e at\u00e9 dos animais nordestinos.<\/p>\n<p>&#8211; Quase sempre os mo\u00e7os abestalhados vinham de l\u00e1 com um r\u00e1dio movido \u00e0 pilha no ombro, com o som na maior altura, com pose de \u201cpaulista\u201d. Era a maior novidade da \u00e9poca &#8211; me disse certa feita seu Tertuliano.<\/p>\n<p>&#8211; Voltavam com aquela l\u00e1bia de cantadas bregas aprendidas na capital, para conquistar as mo\u00e7as da ro\u00e7a. Muitas se encantavam e ficam mal faladas quando apanhavam barriga. O pai brabo fazia o cabra se casar na ponta do punhal. Outros caiam no mundo depois do assucedido e nunca mais apareciam.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Quando pintava por aqui esse tipo \u201cpaulista\u201d idiota, a fam\u00edlia ficava de sobreaviso e n\u00e3o deixava a filha encostar perto do sujeito, nem dan\u00e7ar com ele num forr\u00f3 \u2013 resmungou o velho Tertuliano, que tamb\u00e9m foi um retirante e gostava de contar casos e causos do sert\u00e3o nordestino e das \u00e9pocas de seguid\u00e3o de rachar o ch\u00e3o, boi berrar de sede na cacimba e crian\u00e7a morrer nos bra\u00e7os das m\u00e3es, muitas delas vi\u00favas de seus maridos vivos que ficavam por l\u00e1 e at\u00e9 arranjavam outra companheira.<\/p>\n<p>Os nordestinos arribavam de pau-de-arara deixando tudo para tr\u00e1s, como nos versos de \u201cTriste Partida\u201d, do poeta maior Patativa do Assar\u00e9, cantada por Luiz Gonzaga. Quando a chuva molhava a terra e as aves voavam o verde da caatinga, os retirantes faziam o caminho de volta para refazer a planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os tempos foram passando, e o interessante \u00e9 que a viagem de retorno, mesmo aqueles que s\u00f3 vinham de f\u00e9rias, visitar parentes ou curtir as festas juninas, era feita de \u00f4nibus e n\u00e3o mais de pau-de-arara.<\/p>\n<p>Por falar nisso, algu\u00e9m aqui j\u00e1 pegou algum \u00f4nibus em tr\u00e2nsito vindo do Sul com destino \u00e0s cidades nordestinas do Cear\u00e1, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Para\u00edba ou outro estado da regi\u00e3o?<\/p>\n<p>Certa feita peguei um de Vit\u00f3ria da Conquista a Juazeiro e foi uma loucura! Tive que suportar a noite toda um cara com um r\u00e1dio na maior altura (agora \u00e9 tudo no celular ligado numa caixa, sei l\u00e1), Dentro do ve\u00edculo sujo voc\u00ea trope\u00e7a ou se bate em tudo quanto \u00e9 bugiganga, missangas, caixas, sem falar em crian\u00e7as chorando.<\/p>\n<p>&#8211; Seu motorista, manda aquele cara baixar ou desligar o som! Cad\u00ea o ar condicionado? Aqui est\u00e1 um calor do inferno! Essa crian\u00e7a n\u00e3o para de chorar \u2013 gritam os passageiros! E o cheiro forte da sujeira?<\/p>\n<p>Uma vez um amigo me contou que passou por essa experi\u00eancia para nunca mais repetir. Atualmente tem gente que traz at\u00e9 drogas nas malas e em caixas falsas de presentes, sem contar que cada um traz sua farofa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, nessa viagem me deparei com alguns desses nordestinos ainda com sotaque paulistano, como se renegasse o Nordeste. Deve ser daqueles que n\u00e3o come mais o cuscuz, s\u00f3 hamb\u00farguer e sanduiche. Quanto ao jegue, \u00e9 at\u00e9 perdo\u00e1vel porque fizeram a malvadeza de matar nosso animal s\u00edmbolo nordestino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Oh, minha tia Zeferina, que animal \u00e9 aquele no pasto que fica o tempo todo urrando? E aquela fruta pretinha no quintal? E essa ave toda pitadinha? &#8211; Deixa de ser metido a besta moleque! Depois que foi para S\u00e3o Paulo fica a\u00ed dando uma de \u201cpaulista\u201d e esquece que \u00e9 um nordestino. 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