{"id":10649,"date":"2025-05-30T23:18:57","date_gmt":"2025-05-31T02:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10649"},"modified":"2025-05-30T23:19:05","modified_gmt":"2025-05-31T02:19:05","slug":"os-compadres-madres-do-sao-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/05\/30\/os-compadres-madres-do-sao-joao\/","title":{"rendered":"OS COMPADRES (MADRES) DO S\u00c3O JO\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Poucos se lembram ou sabem \u2013 nem me refiro aqui a essa nova gera\u00e7\u00e3o \u2013 como era o S\u00e3o Jo\u00e3o na ro\u00e7a onde a principal personagem era a fogueira. Sem ela n\u00e3o existia a festa. As comidas t\u00edpicas extra\u00eddas do milho e da mandioca, o foguet\u00f3rio e o forr\u00f3 eram pe\u00e7as complementares, mas importantes para fechar o ritual da cultura popular.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos forrozeiros para o conhecido arrasta-p\u00e9 no ch\u00e3o batido, que fazia subir aquela poeira das sand\u00e1lias e alparcatas, a fogueira era a alegria que fazia compadres verdadeiros para o resto da vida, mais do que aqueles que batizavam os filhos de outros amigos na igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1 amigo Zezinho, vamos ser compadres de S\u00e3o Jo\u00e3o? \u2013 Indagava todo contente o Jo\u00e3o de Din\u00e1, que consentia com muito prazer e satisfa\u00e7\u00e3o. E a\u00ed Mariazinha, vamos ser comadres? Vamos sim, amiga Joana de Calixto.<\/p>\n<p>Formados os pares, parceiros ou parceiras, l\u00e1 pela madrugada, quando a fogueira era s\u00f3 brasas, come\u00e7ava-se o ritual, se n\u00e3o me engano, de juntos pularem tr\u00eas vezes com uns dizeres numa esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o em homenagem a Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n<p>Pronto, os compadres e as comadres se saudavam e selavam o compromisso at\u00e9 a morte. Era um juramento forte e sagrado entre amigos e amigas. Essas cenas de amizades sempre ficaram em minha cabe\u00e7a, desde quando era moleque e adorava a celebra\u00e7\u00e3o junina.<\/p>\n<p>A crian\u00e7ada tamb\u00e9m fazia essa \u201cbrincadeira\u201d no outro dia quando a fogueira era s\u00f3 cinzas. Nessa era das novas tecnologias, da internet, das redes sociais e dos ritmos bregas estrangeirados, onde o nosso S\u00e3o Jo\u00e3o foi descaracterizado, nem sei mais se existe essa tradi\u00e7\u00e3o cultural na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Lembro quando o dia se tornava noite na data de S\u00e3o Jo\u00e3o e meu pai recebia os convidados com aquele foguet\u00f3rio e abra\u00e7os. Os homens e as mulheres chegavam logo cedo montados em seus animais, jumentos, cavalos, burros, \u00e9guas e mulas. Era aquela sauda\u00e7\u00e3o festeira. Os que moravam mais pr\u00f3ximo vinham a p\u00e9s entre as trilhas e estradas de ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos traziam a canjica, a pamonha, o milho assado e cozido, o beiju, o aipim e outras comidas t\u00edpicas juninas. Ah, n\u00e3o podia faltar tamb\u00e9m a cacha\u00e7a (a pinga), o quent\u00e3o e o licor. N\u00e3o tinha a cerveja, mesmo porque n\u00e3o existia a energia e a geladeira. Era tudo na base do fif\u00f3 e do lampi\u00e3o, ou lamparina, isso para quem possu\u00eda.<\/p>\n<p>Para animar a festan\u00e7a, sempre aparecia um sanfoneiro, um tocador de zabumba e de tri\u00e2ngulo. Al\u00e9m dos casados, compareciam os solteiros e as mo\u00e7as namoradeiras, mas tudo era feito na base do respeito, nada de dan\u00e7a agarradinha de rostos colados. Isso n\u00e3o impedia de surgir um namoro.<\/p>\n<p>&#8211; Olha compadre, sua filha est\u00e1 de olho em meu filho, ou vice-versa. Cuidado com sua cabrita porque meu bode est\u00e1 solto. Os pais ficavam de butuca para os apaixonados n\u00e3o ca\u00edrem no mato e irem \u00e0s vias de fato.<\/p>\n<p>Se acontecesse isso, a donzela ficava mal falada, e o rapaz era obrigado a se casar, no mais tardar no outro S\u00e3o Jo\u00e3o. A vigil\u00e2ncia dos pais ainda era maior quando surgia na festa aquele tipo baiano que se debandou para S\u00e3o Paulo e vinha s\u00f3 passar o S\u00e3o Jo\u00e3o em sua terra natal.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o chegava com aquele molejo e sotaque paulista estrangeirado, com um papo de paquerador que aprendeu na capital, todo se achando de rico, se fazendo de n\u00e3o conhecer as coisas nordestinas. \u2013 Aquele ali \u00e9 metido a besta s\u00f3 porque foi para S\u00e3o Paulo \u2013 cochichava algu\u00e9m para o outro.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, o cabra se fazia de besta e achava as comidas at\u00e9 estranhas. Algumas roceiras caiam na l\u00e1bia do safado. Ai, meu amigo, o \u201cpaulista\u201d estava ferrado na peixeira do pai brabo. Fora isso, tudo era s\u00f3 festa, cantorias, comidas, bebidas e prosas boas at\u00e9 o dia clarear. Como era bom o S\u00e3o Jo\u00e3o na ro\u00e7a entre os compadres e as comadres!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos se lembram ou sabem \u2013 nem me refiro aqui a essa nova gera\u00e7\u00e3o \u2013 como era o S\u00e3o Jo\u00e3o na ro\u00e7a onde a principal personagem era a fogueira. Sem ela n\u00e3o existia a festa. 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