{"id":10595,"date":"2025-05-13T22:44:23","date_gmt":"2025-05-14T01:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10595"},"modified":"2025-05-13T22:44:41","modified_gmt":"2025-05-14T01:44:41","slug":"se-entrar-nao-coma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/05\/13\/se-entrar-nao-coma\/","title":{"rendered":"SE ENTRAR, N\u00c3O COMA"},"content":{"rendered":"<p>Quem aqui j\u00e1 entrou num restaurante e pediu para visitar a cozinha antes de fazer sua refei\u00e7\u00e3o? \u00c9 bom lembrar que o cliente, como consumidor, tem esse direito, mas ningu\u00e9m exerce essa prerrogativa<\/p>\n<p>&#8211; Aquele patr\u00e3o da peste s\u00f3 faz nos explorar como escravo. Trabalho dez horas por dia numa cozinha apertada e suja, num calor horr\u00edvel de pingar o suor. Faltam panelas, frigideiras e o fog\u00e3o \u00e9 acanhado e velho. S\u00f3 tenho folga para almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>O desabafo \u00e9 da cozinheira Luzia com sua amiga Maria das Dores numa fila de ponto de \u00f4nibus que passou superlotado e nem parou. Elas moram no mesmo bairro, numa periferia e tem muitas coisas em comum, como trabalhar duro para criar os filhos que seus maridos s\u00e3o imprest\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8211; Sei como \u00e9 amiga, fui bab\u00e1 de um menino \u201ccapeta\u201d, cheio dos gostos de uns gr\u00e3-finos e comi o p\u00e3o que o diabo amassou nas m\u00e3os deles. Agora estou sendo cuidadora de um idoso que sofre numa cadeira de rodas. Os filhos s\u00e3o ingratos e nem ligam para ele &#8211; disse \u201cDas Dores\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o nosso \u201cbuz\u00fa\u201d, depois de uma hora de espera e lotado. Vamos penduradas nesse mesmo, no esfrega-esfrega dos tarados fazendo \u201cterra\u201d em nosso corpo, com caras de insolentes &#8211; falou Luzia para sua amiga.<\/p>\n<p>Um \u00f4nibus que carrega gente \u00e9 um laborat\u00f3rio de queixas e de pessoas esquisitas, uns at\u00e9 alegres e falantes que levam a vida numa boa, outros calados, roendo seus sofrimentos e m\u00e1goas. Os jovens modernos de hoje fingem que dormem e n\u00e3o d\u00e3o mais assentos para os mais idosos.<\/p>\n<p>\u00c9 isso a\u00ed, mas nosso assunto mesmo \u00e9 sobre as cozinhas de restaurantes e hot\u00e9is populares a m\u00e9dios, se bem que os mais sofisticados apresentam os mesmos problemas. S\u00f3 t\u00eam fachadas de limpos. As cozinhas de hot\u00e9is ainda s\u00e3o piores e o trabalho \u00e9 estafante.<\/p>\n<p>A maioria deles \u00e9 aquela sujeira e os cozinheiros (ras), lavadores de pratos (os plongeurs em franc\u00eas), gar\u00e7ons e os que exercem outras fun\u00e7\u00f5es auxiliares trabalham diariamente sobre press\u00e3o e vivem estressados para ganhar um sal\u00e1rio m\u00ednimo ou pouco mais que isso, muitos at\u00e9 sem carteira assinada.<\/p>\n<p>&#8211; Minha amiga, aquilo ali \u00e9 um inferno e acontecem coisas horr\u00edveis, especialmente em termos de higiene. A geladeira \u00e9 uma velha enferrujada, a fia\u00e7\u00e3o el\u00e9trica \u00e9 solta e antiga, usam at\u00e9 alimentos enlatados vencidos. \u00a0Na parte de verduras, o dono, um careca gordo, pega os legumes numa xepa de feira livre &#8211; ia conversando Luzia com sua amiga de lutas para passar o tempo.<\/p>\n<p>&#8211; O lavador de pratos \u00e9 um bruto cavalo que xinga o dia todo e briga com todo mundo. S\u00f3 sabe reclamar da vida. \u00c0s vezes chega b\u00eabado e entorna o caldo. Fala palavr\u00f5es e um dia at\u00e9 me chamou de gorda vagabunda.<\/p>\n<p>Certa vez enxaguou o pano de prato numa sopa, para se vingar do patr\u00e3o. Tem vez que deixa as lou\u00e7as gordurentas para lavar no outro dia. A gente convive com ratos e baratas. Ele consegue roubar comida dentro das cal\u00e7as e assim passa na revista.<\/p>\n<p>\u201cDas Dores\u201d ia ouvindo tudo entre uma \u201carruma\u00e7\u00e3o de freio\u201d e outra do motorista, tamb\u00e9m esgotado de tanto trabalhar e ouvir desaforos de passageiros, sem contar os assaltos sofridos com armas em sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m contava suas lamenta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 se compadecia do sofrimento do velho, esquecido pelos filhos que s\u00f3 pensam em ganhar dinheiro, na gan\u00e2ncia do ter e nem pensam na velhice do amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Alguns aparecem l\u00e1 no final de semana, mas demoram pouco tempo. O mundo hoje est\u00e1 virado, minha amiga! Antes os filhos zelavam de seus pais at\u00e9 o final da vida. Atualmente tratam como molambos. Coisa \u00e9 quando t\u00eam bens para herdar, a\u00ed as brigas viram cen\u00e1rios de inferno e ocorre at\u00e9 mortes.<\/p>\n<p>A grande maioria desses restaurantes da capital e cidades m\u00e9dias a grandes, como Vit\u00f3ria da Conquista, apresentam as mesmas cenas de horror, e a coisa engrossa em \u00e9pocas de temporadas tur\u00edsticas e festas de carnaval, caso de Salvador. O trabalhador (ora) \u00e9 explorado, com jornadas estressantes e desumanas. Os clientes comem gato por lebre.<\/p>\n<p>&#8211; Estou nessa amiga h\u00e1 mais de um ano porque n\u00e3o tem outro jeito. Sinto dores pelo corpo todo, falta de ar e pulm\u00e3o polu\u00eddo. Muitas vezes nem tenho vontade de comer quando vejo aquele piso nojento cheio de restos de alimentos \u2013 se queixava Luzia, enquanto chegava em casa morta de cansada e ainda com um monte de coisas para arrumar.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m deve estar indagando sobre a fiscaliza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e trabalhista. Esquece isso no Brasil porque tudo n\u00e3o passa de um arremedo, do faz de conta que o sistema funciona. S\u00e3o poucos os fiscais e ainda existem muitos que aceitam aquele suborno e fazem vistas grossas.<\/p>\n<p>Que se lasquem o trabalhador e o consumidor! Fim de papo, meu amigo e amiga. O restante da conversa \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea fazer suas dedu\u00e7\u00f5es e tirar suas conclus\u00f5es. O sistema \u00e9 bruto e cruel. Quase ningu\u00e9m se importa mesmo. Ningu\u00e9m se interessa em ver como funciona uma cozinha. O neg\u00f3cio \u00e9 comer e tomar umas, comemorar! O resto \u00e9 papo furado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem aqui j\u00e1 entrou num restaurante e pediu para visitar a cozinha antes de fazer sua refei\u00e7\u00e3o? \u00c9 bom lembrar que o cliente, como consumidor, tem esse direito, mas ningu\u00e9m exerce essa prerrogativa &#8211; Aquele patr\u00e3o da peste s\u00f3 faz nos explorar como escravo. 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