{"id":10580,"date":"2025-05-07T22:51:38","date_gmt":"2025-05-08T01:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10580"},"modified":"2025-05-07T22:52:37","modified_gmt":"2025-05-08T01:52:37","slug":"fascista-sobrio-e-comunista-bebado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/05\/07\/fascista-sobrio-e-comunista-bebado\/","title":{"rendered":"FASCISTA S\u00d3BRIO E COMUNISTA B\u00caBADO"},"content":{"rendered":"<p>In\u00edcio dos anos 60 do s\u00e9culo passado, \u00e9poca da efervesc\u00eancia cultural onde se lia a perder de vista e se discutia de tudo numa pens\u00e3o pobre, tipo corti\u00e7o, situada num velho casar\u00e3o de Salvador nas imedia\u00e7\u00f5es do Pelourinho deteriorado, cheio de putas, ratos e malandros. Naquele antro de perdi\u00e7\u00e3o, estudantes, desempregados, ambulantes e at\u00e9 cafet\u00f5es se misturavam na mesma igualdade social e racial.<\/p>\n<p>As figuras mais bizarras e folcl\u00f3ricas pareciam sair dos livros de George Orwell, Jorge Amado, Alu\u00edsio Azevedo e dos filmes do Cinema Novo de Roberto Pires, Nelson Pereira dos Santos, Alex Viany, Rodolfo Nanni e Glauber Rocha, nosso baiano conquistense. Dia sim e dia n\u00e3o surgiam brigas de \u201carranca rabo\u201d e a dona, uma ex-cafetina de bordel, colocava moral na bagun\u00e7a, quer dizer, mais ou menos.<\/p>\n<p>As noites eram um fuzu\u00ea danado no bar do \u201cZeca Molhado\u201d, e o que mais saia era o chamado cravinho, a cacha\u00e7a misturada porque a cerveja ficava mais cara e demorava de embebedar. Era um puteiro s\u00f3 e as mulheres entravam na roda das conversas que mais rolavam sobre os movimentos das reformas de base do Governo Jo\u00e3o Goulart com os sindicatos.<\/p>\n<p>O Brasil estava fervendo literalmente com as greves camponesas de Francisco Juli\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es dos trabalhadores nas portas das f\u00e1bricas, as revoltas dos marinheiros, os rompantes pol\u00edticos de Miguel Arraes, em Pernambuco, e Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Quem destoava e desafinava do ritmo musical revolucion\u00e1rio era o oportunista de direita Carlos Lacerda, l\u00e1 na Guanabara. Sem o celular na m\u00e3o e essas coisas novas das tecnologias das redes socais, o que mais se fazia naqueles tempos era ler, estudar, questionar, protestar e pesquisar. O pa\u00eds estava pegando fogo, como no pensionato dos malucos, a maioria de duros ou lisos de grana, que vivia de bicos e malandragens.<\/p>\n<p>Na turma dos mulambados, sem eira nem beira, que participava das passeatas do Terreiro, da Rua Chile, avenidas Sete de Setembro e Carlos Gomes, sem falar no Campo Grande, existia um sujeito franzino nordestino de altura mediana e cabe\u00e7a grande que chamava a aten\u00e7\u00e3o pelo seu comportamento estranho, um tanto incoerente e paradoxal. Seu apelido era \u201cQuinta Coluna\u201d.<\/p>\n<p>Outra personalidade ex\u00f3tica era um grandalh\u00e3o negro musculoso que passava quase todo dia na cama, ora na fossa existencial de Sartre, ora vomitando suas teorias mirabolantes de conspira\u00e7\u00f5es de jogar bombas em Bras\u00edlia. Poderia ser classificado como um terrorista se morasse nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ele tinha uma amante por nome \u201cNavalha\u201d de coxas grossas e rabo exuberante que sempre passava por l\u00e1 e fazia aquele alvoro\u00e7o na rapaziada que n\u00e3o podia ver uma mulher, de tanto tempo que ficava seco sem pegar uma para trocar o \u00f3leo. Alguns se viravam como podiam, na base da cultura do jeitinho brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cQuinta Coluna\u201d era nossa maior divers\u00e3o e at\u00e9 \u201ctombamos\u201d o sujeito como patrim\u00f4nio cultural baiano material e imaterial.\u00a0 Quando estava s\u00f3brio era um fascista patriota, de ra\u00edzes nacionalistas, que falava de Mussolini, dos integralistas de Pl\u00ednio Salgado e admirava os discursos dilacerantes do Lacerda. Era como o gay de arm\u00e1rio que quando come\u00e7a a tomar umas, mostra o seu outro lado frescalhado e a rebolar os quadris.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, as discuss\u00f5es terminavam em porrada e tinha um radical de esquerda que arrastava o \u201cQuinta Coluna\u201d at\u00e9 a porta da pens\u00e3o e o empurrava na rua das prostitutas. Depois de um tempo ele voltava mais manso, calado e se encostava l\u00e1 num canto.<\/p>\n<p>O pessoal, no entanto, preservava o cabra porque, afinal de contas, era um folclore ideol\u00f3gico, tipo vira folha, uma metamorfose ambulante ao p\u00e9 da letra. Era s\u00f3 encher a cara de bebida e depois de umas biritas brabas, o fascista virava a casaca, fechava seu punho de valente e come\u00e7ava a fazer discursos comunistas.<\/p>\n<p>Subia nas mesas e, com seu berro forte na garganta, criticava a burguesia, os capitalistas exploradores do trabalho humano; incitava as massas e pregava o marxismo da luta de classe. \u00a0Metia o pau na religi\u00e3o, dizendo ser o \u201c\u00f3pio do povo\u201d.<\/p>\n<p>O socialismo era sua bandeira de sa\u00edda para uma humanidade mais digna e justa. Lenin, Stalin e Mao Ts\u00e9-Tung eram seus her\u00f3is revolucion\u00e1rios. N\u00e3o demorava muito e soltava seus bord\u00f5es de \u201cpovo unido, jamais ser\u00e1 vencido! \u201d, \u201cOper\u00e1rios do mundo, uni-vos! \u201d. \u00c0s vezes, cantava e declamava a Internacional Socialista.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o era que ele incorporava o esp\u00edrito de um grande intelectual fil\u00f3sofo socialista cient\u00edfico do passado, como o Friedrich Engels, a polonesa-alem\u00e3 marxista Rosa Luxemburgo, Ant\u00f4nio Gramsci ou Gyorgy Lukacs. Citava at\u00e9 o anarquista franc\u00eas Prudhon.<\/p>\n<p>O cara virava uma fera, s\u00f3 que depois de s\u00f3brio ficava uma besta quadrada nazifascista. Cada um fazia uma vaquinha para pagar sua bebida e ver o \u201cQuinta Coluna\u201d comunista de primeira rasgar o verbo contra as elites e os capitalistas. Todo mundo fazia uma roda, gritava, animava-o e metia mais pinga quente em sua goela.<\/p>\n<p>S\u00f3 que \u201cQuinta Coluna\u201d se lascou e se ferrou quando entrou a ditadura civil-militar de 1964. Naquela \u00e9poca come\u00e7ou a aparecer agentes federais por toda parte. Eram os Comandos de Ca\u00e7a aos Comunistas. Numa dessas suas bebedeiras de comunista, a federal levou nosso patrim\u00f4nio para o por\u00e3o do Doi-Codi e deixou o \u201cQuinta Coluna\u201d mo\u00eddo de tanta tortura.<\/p>\n<p>Depois de s\u00f3brio, o mo\u00e7o l\u00e1 estava em frente do inspetor carrasco, apoiando o regime, elogiando o patriotismo e batendo no peito que era um deles. A princ\u00edpio, o capit\u00e3o da ditadura n\u00e3o acreditou no que viu, mas depois de umas duas ou mais passagens pela cadeia, deixaram ele para l\u00e1, s\u00f3 que davam uns tabefes e mandavam ir embora.<\/p>\n<p>Investigaram que o nordestino n\u00e3o participava de nenhuma organiza\u00e7\u00e3o comunista, nem de grupo subversivo. Era um inofensivo ao regime. Com esse esquema, o \u201cQuinta Coluna\u201d era o \u00fanico cidad\u00e3o brasileiro daquela \u00e9poca com liberdade de ser comunista e meter o pau na burguesia, pelo menos nas bebedeiras. Vez ou outra ia para o xilindr\u00f3 e depois soltavam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00edcio dos anos 60 do s\u00e9culo passado, \u00e9poca da efervesc\u00eancia cultural onde se lia a perder de vista e se discutia de tudo numa pens\u00e3o pobre, tipo corti\u00e7o, situada num velho casar\u00e3o de Salvador nas imedia\u00e7\u00f5es do Pelourinho deteriorado, cheio de putas, ratos e malandros. 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