{"id":10557,"date":"2025-04-30T23:40:02","date_gmt":"2025-05-01T02:40:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10557"},"modified":"2025-04-30T23:40:09","modified_gmt":"2025-05-01T02:40:09","slug":"a-rua-e-um-laboratorio-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/04\/30\/a-rua-e-um-laboratorio-humano\/","title":{"rendered":"A RUA \u00c9 UM LABORAT\u00d3RIO HUMANO"},"content":{"rendered":"<p>A grande maioria das pessoas n\u00e3o observa porque vive na correria e preocupada em resolver seus problemas, mas a rua \u00e9 um laborat\u00f3rio humano onde voc\u00ea v\u00ea tipos interessantes, ex\u00f3ticos, diferentes e caricaturais que rendem boas cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Ontem mesmo (quinta-feira dia 30\/04\/25) fui \u00e0s ruas de Vit\u00f3ria da Conquista e constatei cenas comportamentais hilariantes que me chamaram a aten\u00e7\u00e3o. Estive em algumas casas de materiais de constru\u00e7\u00e3o na Patag\u00f4nia apre\u00e7ando umas portas e janelas e depois fui ao centro financeiro, na Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco.<\/p>\n<p>Uma figura folcl\u00f3rica que ronda aquelas imedia\u00e7\u00f5es diariamente \u00e9 o ambulante conhecido como \u201cCalango\u201d que vende facas, canivetes, lanternas e outras bugigangas. Ele n\u00e3o pode me ver que atravessa a rua ou a pra\u00e7a e me cerca para me oferecer seus produtos paraguaios.<\/p>\n<p>Por uma adaga ele me pede 100 reais e depois vai baixando o pre\u00e7o at\u00e9 40 ou 30 reais. Por mais que eu negue sua oferta, ele n\u00e3o arreda o p\u00e9 e me toma um tempo danado. O jeito \u00e9 eu dar as costas e dizer: \u201cJ\u00e1 fui banda mel\u201d. \u00c9 t\u00e3o insistente que continua atr\u00e1s de mim para me convencer a comprar.<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m os pedintes para atanazar sua vida e cenas de mis\u00e9ria que s\u00e3o a cara do nosso Brasil. Por volta das 11 horas, ao lado do Banco do Brasil, onde funcionava o Mercantil, pessoas esmolambadas, andarilhos ou moradores de rua dormiam na cal\u00e7ada. O triste quadro me fez lembrar uma cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Na escadaria do BB sempre tem uma mulher postada, \u00e0s vezes com um beb\u00ea, com a m\u00e3o estendida de uma esmoler faminta. L\u00e1 dentro, os usu\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o nos transmitem a impress\u00e3o de assustados com alguma coisa, uns nas filas, a maioria de idosos aposentados fraudados pelo INSS, e outros fixados nas telas dos caixas, desconfiados e decepcionados com seus saldos em conta no final de cada m\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, a m\u00e1quina encrenca com seu cart\u00e3o e o dinheiro n\u00e3o sai. Aconteceu isso com uma mulher e ela entrou em desespero e p\u00e2nico, berrando de l\u00e1 para o atendente do banco lhe socorrer.<\/p>\n<p>\u2013 Calma, minha senhora, vamos solucionar seu problema. \u201cCad\u00ea meu dinheiro e meu cart\u00e3o, o banco me roubou! \u201d &#8211; Reclamava a cliente. N\u00e3o \u00e9 para menos. J\u00e1 imaginou a burocracia se o caixa registra um desconto em sua grana que ela n\u00e3o recebeu?<\/p>\n<p>Coisa \u00e9 quando voc\u00ea parte para resolver uma quest\u00e3o financeira, l\u00e1 embaixo, com os caixas presenciais! Peguei minha senha de priorit\u00e1rio na entrada e quando passei por aquela porta rolante (antes tem que deixar todos materiais de metais, especialmente o celular) tomei um susto como se tivesse visto almas penadas no purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Bem, a essa altura todos j\u00e1 sabem no que vou falar. A sala estava superlotada que n\u00e3o havia nem mais lugar para sentar (muitos estavam em p\u00e9). Uma coisa de louco, meu amigo, quase todos de celular na m\u00e3o. Tinha um cara que nem estava a\u00ed e falava alto no telefone como se estivesse no quintal da sua casa. Dava para se ouvir tudo, at\u00e9 seu chamego com uma amante ou sua mulher, sei l\u00e1. Est\u00e1 t\u00e3o zonzo que nem parei para escutar tudo.<\/p>\n<p>Passei as vistas no tapume que separa os caixas e s\u00f3 vi dois em atua\u00e7\u00e3o. Pensei logo que s\u00f3 iria sair dali no final da tarde. Uma pessoa andava agoniado de um lado para o outro. Advinha quem era?\u00a0 S\u00f3 n\u00e3o sai imediatamente porque estava com minha esposa Vandilza que aconselhou esperar, visto que j\u00e1 est\u00e1vamos ali.<\/p>\n<p>Ah, meu camarada, ficamos uma hora e nada de chamar minha senha priorit\u00e1ria. Comecei a resmungar e a questionar sobre a lei dos quinze minutos banc\u00e1rios que todo mundo esqueceu e n\u00e3o existe mais aquele sindicato para fiscalizar a medida.<\/p>\n<p>Depois de uma hora de espera fomos embora, espumando de raiva, ainda mais por ter pago quase 10 reais de estacionamento porque aquela zona azul nunca tem vaga. Nem \u00e9 assim t\u00e3o rotativo como num cabar\u00e9 ou num motel. Ufa, que sufoco viver em cidade grande! Era mais de 12 horas e at\u00e9 a fome tinha ido embora. N\u00e3o aguentou tamb\u00e9m esperar. O destino era o caminho de casa, mas, como sou por demais um sertanejo catingueiro teimoso, decidimos passar na ag\u00eancia da Ol\u00edvia Flores.<\/p>\n<p>Logo na fila para pegar outra senha com uma funcion\u00e1ria distinta, me deparei com uma figura esquisita. Um \u201cveiozinho\u201d baixo, barbudo, com um \u201ccal\u00e7aoz\u00e3o\u201d o\u201d e uma camisa sujas folgados, feio como o \u201cc\u00e3o\u201d, conversava como a \u201cnega do leite\u201d. \u201cV\u00e9io\u201d adora prosear em filas e salas de cl\u00ednicas e hospitais para contar hist\u00f3rias da vida.<\/p>\n<p>Ele estava com uma muda de \u00e1rvore de mais de um metro de altura. Entrou conversando alto e sentou bem em frente de um vigilante. Ele n\u00e3o parava de falar e foi logo dizendo ter sido professor do governador Jer\u00f4nimo. Depois emendou outros papos sobre coron\u00e9is de Conquista, citando a fam\u00edlia dos \u201cGum\u00f5es\u201d como os antigos chef\u00f5es brabos que mandavam na cidade.<\/p>\n<p>O \u201cv\u00e9io\u201d parecia mais uma matraca. A funcion\u00e1ria foi at\u00e9 ele e avisou sobre a muda que havia deixado l\u00e1 fora e que algu\u00e9m poderia levar. \u201cVixe, essa planta vale mil reais\u201d! A senhora do banco foi at\u00e9 prestativa e solicitou ao guarda que a colocasse l\u00e1 dentro. Ele estava mais interessado em contar suas hist\u00f3rias, muitas das quais desencontradas e sem fundamento, do que com a muda.<\/p>\n<p>Depois de toda essa labuta, de banco em banco, cortando ruas e travessas entre essa nossa gente conquistense, baiana e brasileira, chegamos em nosso lar mortos de cansados por volta de duas horas da tarde. A maior idiotice do dia foi ouvir o termo \u201cSui\u00e7a Baiana\u201d quando algu\u00e9m se referiu a Conquista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A grande maioria das pessoas n\u00e3o observa porque vive na correria e preocupada em resolver seus problemas, mas a rua \u00e9 um laborat\u00f3rio humano onde voc\u00ea v\u00ea tipos interessantes, ex\u00f3ticos, diferentes e caricaturais que rendem boas cr\u00f4nicas. 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