{"id":10549,"date":"2025-04-26T00:59:31","date_gmt":"2025-04-26T03:59:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10549"},"modified":"2025-04-26T00:59:39","modified_gmt":"2025-04-26T03:59:39","slug":"na-pior-em-paris-e-londres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/04\/26\/na-pior-em-paris-e-londres\/","title":{"rendered":"&#8220;NA PIOR EM PARIS E LONDRES&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9262.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10550\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9262.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9262.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9262-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando comecei a ler o livro \u201cNa Pior em Paris e Londres\u201d, de George Orwell, bateram em mim as lembran\u00e7as dos meus tempos em Salvador nos anos 1970\/71 de dias dif\u00edceis para sobreviver, sem um teto onde morar, sem contar que a fome consumia meu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Havia passado no vestibular para Jornalismo e, para segurar a barra pesada, vivia de uns bicos aqui e acol\u00e1 para comprar um p\u00e3o e uma garrafinha de mel da marca Kall, se n\u00e3o me engano, feito de milho. Eram minhas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, isto quando conseguia uns cruzeiros. Meu desespero n\u00e3o foi maior, com consequ\u00eancias imprevis\u00edveis, porque um amigo me ajudou naquilo que pode.<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o quero retratar esse meu passado ingrato porque quem j\u00e1 atravessou por ele fica com trauma e medo de que um dia tudo venha se repetir. A vantagem \u00e9 que voc\u00ea sai dele com mais for\u00e7as e tudo faz para que n\u00e3o mais ocorra em sua vida. Voc\u00ea, no entanto, n\u00e3o tem mais certeza se suportaria encarar outra fase de pobreza e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Algumas coisas que o autor descreve aconteceram comigo, da\u00ed as tristes recorda\u00e7\u00f5es. Certa vez meu pai enviou um dinheiro suado do seu trabalho para mim por um conhecido \u201camigo\u201d e ele n\u00e3o me entregou a quantia com a desculpa que teria gastado por necessidade. Era um alento ao meu esp\u00edrito. Nesse dia fiquei ainda mais arrasado e aniquilado.<\/p>\n<p>O autor mostra o lado miser\u00e1vel de Paris l\u00e1 pelo final da I Guerra Mundial anos 1917\/18 e inicia pela Rua Du Coq d\u00b4Or, um local de mendigos, ambulantes, brigas, crian\u00e7as perseguindo cascas de laranjas nas pedras do cal\u00e7amento e o fedor azedo das carro\u00e7as de lixo.<\/p>\n<p>Todas as casas eram hot\u00e9is lotados at\u00e9 os ladrilhos com inquilinos, principalmente italianos, poloneses e \u00e1rabes. O seu se chamava H\u00f4tel des Trois Moineaux. \u201cEra um labirinto escuro (me fez lembrar de uma pens\u00e3o no Politeama, em Salvador) de cinco andares, separado por divis\u00f3rias de madeira em quarenta quartos. Eram sujos. A Madame F. era a patronne (patroa). Lembra \u201cO Corti\u00e7o\u201d, de Alo\u00edsio Azevedo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio ele faz uma descri\u00e7\u00e3o das pessoas e dos locais de pobreza. Sem emprego, seus francos foram se acabando e a\u00ed ele recorre ao amigo russo de nome Boris. Os dois unem for\u00e7as no Bairro Coq d\u00b4Or, na mesma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, e quase tudo que eles planejam n\u00e3o dava certo. O Boris havia lutado na R\u00fassia durante a guerra civil e se refugiou em Paris. Chegou a ser gar\u00e7om, mas caiu em desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea descobre o que \u00e9 sentir fome. Com p\u00e3o e margarina na barriga, voc\u00ea sai e olha as vitrines. Outra passagem que me toca quando andava esmo de barriga vazia pela Avenida Sete de Setembro e via e ouvia o tilintar dos talheres nos restaurantes cheios, com farta comida. Aquilo era como se fosse um soco no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea descobre o t\u00e9dio que \u00e9 insepar\u00e1vel da pobreza; os momentos em que voc\u00ea n\u00e3o tem nada para fazer e, estando subnutrido, n\u00e3o pode se interessar por nada.\u00a0 Passa metade do dia deitado na cama, sentindo-se como o jeune squelette (jovem esqueleto) do poema de Baudelaire.<\/p>\n<p>Em um dos trechos da sua obra, Orwell desabafa afirmando que, quando voc\u00ea est\u00e1 se aproximando da pobreza, voc\u00ea faz uma descoberta que supera algumas das outras. Descobre o t\u00e9dio, as complica\u00e7\u00f5es mesquinhas e os prim\u00f3rdios da fome, mas tamb\u00e9m descobre o grande tra\u00e7o redentor da pobreza: O fato de ela aniquilar o futuro.<\/p>\n<p>O Boris, seu amigo, amaldi\u00e7oa o judeu com quem vivia no quarto apertado. Ele confessava ao ingl\u00eas que era uma tortura para um russo de fam\u00edlia estar \u00e0 merc\u00ea de um judeu. Eu que era capit\u00e3o, aqui estou, comendo o p\u00e3o de um judeu.<\/p>\n<p>O russo, ent\u00e3o contou a hist\u00f3ria de um velho judeu que lhe levou uma mo\u00e7a de dezessete anos ao seu acampamento de guerra e lhe cobrou cinquenta francos, s\u00f3 que a menina era sua pr\u00f3pria filha. O judeu! Levou meus dois francos, o cachorro, o ladr\u00e3o! Ele me roubou enquanto eu dormia &#8211; disse Boris, espumando de raiva.<\/p>\n<p>A parte mais forte e que me chocou \u00e9 quando o escritor fala sobre a fome. \u201cA fome reduz a pessoa a uma condi\u00e7\u00e3o totalmente covarde e sem c\u00e9rebro, mais parecida com os efeitos colaterais da gripe do que qualquer outra coisa. \u00c9 como se algu\u00e9m tivesse se transformado em \u00e1gua-viva, ou como se todo seu sangue tivesse sido bombeado para fora e substitu\u00eddo por \u00e1gua morna. A in\u00e9rcia completa \u00e9 minha principal lembran\u00e7a da fome; isso, e ser obrigado a cuspir com muita frequ\u00eancia, e a saliva sendo curiosamente branca e floculante, como uma secre\u00e7\u00e3o espumosa de inseto. N\u00e3o sei a raz\u00e3o, mas todo mundo que passou fome h\u00e1 v\u00e1rios dias percebeu isso\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9265.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10551\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9265.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9265.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DSC_9265-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando comecei a ler o livro \u201cNa Pior em Paris e Londres\u201d, de George Orwell, bateram em mim as lembran\u00e7as dos meus tempos em Salvador nos anos 1970\/71 de dias dif\u00edceis para sobreviver, sem um teto onde morar, sem contar que a fome consumia meu c\u00e9rebro. 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