{"id":10490,"date":"2025-04-11T22:58:39","date_gmt":"2025-04-12T01:58:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10490"},"modified":"2025-04-11T22:58:46","modified_gmt":"2025-04-12T01:58:46","slug":"a-guerra-me-fez-bem-e-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/04\/11\/a-guerra-me-fez-bem-e-mal\/","title":{"rendered":"&#8220;A GUERRA ME FEZ BEM E MAL&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Na segunda parte do oitavo cap\u00edtulo do livro \u201cUm Pouco de Ar, Por Favor\u201d, o escritor George Orwell fala do seu personagem George Bowling que participou da I Guerra Mundial e afirmou que \u201ca guerra me fez bem e mal\u201d. Em sua concep\u00e7\u00e3o, o pior \u00e9 o p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabanas de madeira que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais \u2013 a \u201cCosta Sul\u201d, as pessoas costumavam cham\u00e1-la assim, o que me faz imaginar como seria a \u201cCosta Norte\u201d \u2013 onde o vento parece soprar em voc\u00ea de todas dire\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo\u201d.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da sua personagem, o autor da obra detalha em min\u00facias como era a vida nas trincheiras fedorentas onde os soldados se arrastavam na lama e \u201cum cigarro a cada homem era exatamente como alimentar os macacos no zool\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Relata que os homens nas trincheiras n\u00e3o eram patriotas, n\u00e3o odiavam o Kaiser, n\u00e3o ligavam a m\u00ednima para a pequena e galante B\u00e9lgica, e os alem\u00e3es estuprando freiras nas mesas (era sempre \u201cnas mesas\u201d, como se isso tornasse tudo pior) nas ruas de Bruxelas.<\/p>\n<p>A guerra fez coisas extraordin\u00e1rias com as pessoas \u2013 descreveu George Bowling. O extraordin\u00e1rio era a maneira como matava as pessoas e como deixava de matar. \u201cEra como uma grande enchente que o empurrava para a morte e, de repente, atirava voc\u00ea em algum lugar isolado, onde voc\u00ea se pega fazendo coisas incr\u00edveis e in\u00fateis e ganhando dinheiro extra por elas\u201d.<\/p>\n<p>George narra que \u201chavia batalh\u00f5es de trabalho fazendo estradas atrav\u00e9s do deserto que n\u00e3o davam a lugar nenhum, havia caras abandonados em ilhas oce\u00e2nicas para cuidar de navios alem\u00e3es que haviam sido afundados anos antes, havia mist\u00e9rios disso e daquilo com ex\u00e9rcitos de escritur\u00e1rios e datil\u00f3grafos que continuaram existindo anos ap\u00f3s o fim de sua fun\u00e7\u00e3o, por uma esp\u00e9cie de in\u00e9rcia\u201d.<\/p>\n<p>Durante seu tempo na guerra, George revelou que lia todos os livros onde muitos ficaram esquecidos. \u201cEngoli todos como uma baleia que se meteu em uma espicha de camar\u00f5es. Apenas me deleitei com eles. Depois de um tempo, \u00e9 claro, fiquei mais intelectual e comecei a distingu\u00ed-los entre imbecis e n\u00e3o imbecis\u201d.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Eu peguei Filhos e Amantes, de Lawrence, e meio que gostei, e me diverti muito com O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e As Nove Mil e Uma Noites, de Stevenson. Wells foi o autor que mais me impressionou.<\/p>\n<p>Num dos trechos da sua narra\u00e7\u00e3o, George destacou que, se fosse fazer a conta, admitiria que \u201ca guerra me fez bem e mal\u201d. De qualquer forma, aquele ano de leitura de romance foi a \u00fanica educa\u00e7\u00e3o real, no sentido de aprender com livros, que j\u00e1 tive. Isso fez certas coisas em minha mente\u201d.<\/p>\n<p>Ainda sobre a leitura, ressalta que lhe deu uma atitude questionadora, que provavelmente n\u00e3o teria se tivesse passado a vida de uma forma normal e sensata. Ele diz que n\u00e3o foram os livros que lhe deixaram impressionados, mas a horr\u00edvel falta de sentido da vida que levava.<\/p>\n<p>Em 1918, segundo ele, foi um ano sem sentido. \u201cAqui estava eu sentado ao lado do fog\u00e3o em uma cabana do ex\u00e9rcito, lendo romances, e, a algumas centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, na Fran\u00e7a, os canh\u00f5es rugiam, e bandos de crian\u00e7as infelizes, molhando suas cal\u00e7as de medo, estavam sendo empurrados para a barreira de metralhadoras, do mesmo modo que voc\u00ea atiraria um peda\u00e7o de carv\u00e3o em uma fornalha\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; A coisa toda tinha tanto sentido quanto o sonho de um lun\u00e1tico. O efeito de tudo, mais os livros que estava lendo, foi me deixar com um sentimento de descren\u00e7a em tudo. Eu n\u00e3o era o \u00fanico. A guerra estava cheia de pontas soltas e cantos esquecidos&#8230;<\/p>\n<p>\u201cSeria um exagero dizer que a guerra transformou as pessoas em intelectuais, mas, naquele momento, os transformou em niilistas. &#8230; Se a guerra n\u00e3o matou voc\u00ea, certamente fez com que come\u00e7asse a pensar. Depois daquela confus\u00e3o idiota indescrit\u00edvel, n\u00e3o seria poss\u00edvel continuar considerando a sociedade como algo eterno e inquestion\u00e1vel, como uma pir\u00e2mide. Voc\u00ea sabia que era apenas uma confus\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na segunda parte do oitavo cap\u00edtulo do livro \u201cUm Pouco de Ar, Por Favor\u201d, o escritor George Orwell fala do seu personagem George Bowling que participou da I Guerra Mundial e afirmou que \u201ca guerra me fez bem e mal\u201d. Em sua concep\u00e7\u00e3o, o pior \u00e9 o p\u00f3s-guerra. \u201cVoc\u00ea se lembra daqueles hospitais de campanha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10490"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10490"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10490\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10491,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10490\/revisions\/10491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}