{"id":10375,"date":"2025-03-07T00:19:48","date_gmt":"2025-03-07T03:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10375"},"modified":"2025-03-07T00:19:54","modified_gmt":"2025-03-07T03:19:54","slug":"foi-o-xampu-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/03\/07\/foi-o-xampu-bem\/","title":{"rendered":"&#8220;FOI O XAMPU, BEM&#8221;!"},"content":{"rendered":"<p>( Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>O cara viajou. Disse \u00e0 mulher que ia voltar quinta-feira, mas chegou quarta \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Estava sem chave. Morava num conjunto habitacional en Salvador, com paredes de cobog\u00f3s. Resolveu escalar os cobog\u00f3s at\u00e9 o segundo andar e fazer uma surpresa \u00e0 mulher. Surpreso ficou ele ao ver o Ricard\u00e3o ao lado da mulher, de cueca cheia de girass\u00f3is. O Ricard\u00e3o se picou em desabalada correria enquanto ele exigia explica\u00e7\u00f5es da mulher.<\/p>\n<p>O caso se espalhou pelo bairro todo e o cara teve que se mudar, pois n\u00e3o aguentava mais ouvir a rua toda gritar seu novo apelido: &#8220;Corno Aranha!&#8221;<\/p>\n<p>Vamos a outro caso onde quem viajou foi a mulher. Aconteceu num munic\u00edpio baiano onde morava &#8220;Maciste&#8221;, apelido dado porque ele era magro de fazer d\u00f3, parecia um palito. O que tinha de baixinho e magrelo sobrava em ousadia. Era s\u00f3 dona Lindaura viajar e &#8220;Maciste&#8221;, j\u00e1 da Rodovi\u00e1ria, se mandava pra &#8220;zona&#8221;, onde amanhecia<\/p>\n<p>Ele tinha uma.lanchonete embaixo da casa onde morava, onde se chegava atrav\u00e9s de uma escada apertadinha.<\/p>\n<p>&#8220;Maciste&#8221; nunca pensou em levar mulher pra dentro de casa &#8211; &#8220;t\u00e1 maluco?&#8221; &#8211; mas acabou que vai uma cervejinha, vem outra\u00a0 j\u00e1 tava beijando a mo\u00e7a na pra\u00e7a, pra todo mundo ver.<\/p>\n<p>&#8220;Faz assim: eu vou na frente, fico na lanchonete distraindo a mo\u00e7a do caixa e voc\u00ea sobe com uma encomenda na m\u00e3o, qualquer embrulho serve, e logo depois eu subo tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o de &#8220;Maciste&#8221; batia como nunca. A cerveja deu pra criar aquela coragem toda, at\u00e9 para abrir a geladeira, cortar rapidinho um tira-gosto de queijo, guardar o porta-retrato dos meninos no guarda-roupa e esconder\u00a0 ligeirinho o chambr\u00e3o estampado de dona Lindaura.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se preocupe, ela s\u00f3 vai chegar amanh\u00e3&#8221; &#8211; dizia &#8220;Maciste&#8221;, j\u00e1 de cueca na sala e sem camisa, aparecendo aquela ossada toda, dava pra contar as costelas.<\/p>\n<p>Ele tava animado como nunca, ensaiou uns passos de dan\u00e7a\u00a0 leu poesia de Castro Alves pra ela e chegou at\u00e9 a pensar em fugir pra Salvador um dia desse, agarrado com ela num \u00f4nibus-leito que sa\u00eda meia-noite.<\/p>\n<p>Amaram-se \u00e0s tr\u00eas da tarde, e &#8220;Maciste&#8221;, com aquela coragem do mundo todo que a cerveja continuava a dar, foi tomar banho junto com a namorada.<\/p>\n<p>Estava tudo um para\u00edso se dona Lindaura, que estava pra chegar de viagem na quinta, n\u00e3o chegasse na quarta. &#8220;Maciste&#8221; ouviu a porta bater e logo depois a voz de dona Lindaura na sala:<\/p>\n<p>&#8220;Benh\u00ea, voc\u00ea t\u00e1 a\u00ed? J\u00e1 cheguei&#8221;.<\/p>\n<p>Pingavam do corpo de &#8220;Maciste&#8221; \u00e1gua e suor, numa tremedeira s\u00f3. N\u00e3o tinha nada a fazer a n\u00e3o ser sair correndo, j\u00e1 que descer pelo ralo era imposs\u00edvel. E foi isso que &#8220;Maciste&#8221; fez. Antes de chegar no banheiro, que estava com a porta escancarada, dona Lindaura foi surpreendida com a passagem de &#8220;Maciste&#8221;, a mais de 100 por hora, molhado e nu, a cabe\u00e7a branca de xampu.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00f4 cego, t\u00f4 cego, meu Deus do c\u00e9u, t\u00f4 cego, n\u00e3o vejo nada&#8221; &#8211; berrava &#8220;Maciste&#8221;, j\u00e1 ganhando a escada e a rua. Dona Lindaura desceu a toda, corria, gritava e chorava.<\/p>\n<p>Quase um quarteir\u00e3o depois &#8211; quando a namorada j\u00e1 ganhara o mundo &#8211; conseguiram segurar &#8220;Maciste&#8221; e enrol\u00e1-lo numa toalha, enquanto dona Lindaura chegava esbaforida: &#8220;O que foi, meu amor, o que foi que aconteceu com voc\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei, acho que foi o xampu. Comecei a lavar a cabe\u00e7a, escorreu pros olhos, parecia que tinha brasa viva nos meus olhos e fiquei sem ver nada, justo na hora que voc\u00ea chegou.<\/p>\n<p>Dona Lindaura mandou trazer uma bacia d&#8217;\u00e1gua ligeiro e depois conseguiu um carro pra levar &#8220;Maciste&#8221; na melhor cl\u00ednica da cidade. Duas horas depois, depois de muita lavagem nos olhos com soro fisiol\u00f3gico e farta aplica\u00e7\u00e3o de col\u00edrios especiais, &#8220;Maciste&#8221; voltava a enxergar lentamente e dona Lindaura perguntava:<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e1 me vendo, bem, t\u00e1 bem vendo?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;T\u00f4 vendo tudo nublado\u00a0 mas t\u00e1 melhorando, acho que vou voltar a enxergar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Aquele xampu nunca mais entra l\u00e1 em casa. Vamos mandar carta pros jornais, vou levar o vidro pra televis\u00e3o, isso \u00e9 um crime se vender um xampu desses.<\/p>\n<p>E depois daquele dia\u00a0 o xampu &#8220;Hava\u00ed del Sol&#8221; nunca mais entrou na casa de &#8220;Maciste&#8221;.<\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publicada\u00a0 no jornal A Tarde em 5\/7\/1989)<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em\u00a0<a href=\"http:\/\/leiamaisba.com.br\/\">leiamaisba.com.br<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>( Chico Ribeiro Neto) O cara viajou. 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