{"id":10363,"date":"2025-02-28T23:31:57","date_gmt":"2025-03-01T02:31:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10363"},"modified":"2025-02-28T23:32:04","modified_gmt":"2025-03-01T02:32:04","slug":"o-futebol-de-ontem-nao-e-o-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/02\/28\/o-futebol-de-ontem-nao-e-o-de-hoje\/","title":{"rendered":"O FUTEBOL DE ONTEM N\u00c3O \u00c9 O DE HOJE"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Gonzalez &#8211; jornalista<\/p>\n<p>Vamos tentar analisar e comparar o futebol jogado na Europa Ocidental com o do Brasil: imaginemos que voc\u00ea tomou um gole de \u201cEstrella Galicia\u201d (cerveja fabricada na cidade espanhola de La Coru\u00f1a), e, em seguida, prove uma das nossas \u201clouras\u201d. Seu paladar n\u00e3o vai\u00a0 se iludir. \u00c9 indiscut\u00edvel a melhor qualidade do produto importado. Assim \u00e9 o nosso futebol, desde 1982, quando a sele\u00e7\u00e3o verde-amarela deixou os gringos de boca aberta nos gramados espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, \u201ccartolas\u201d europeus, \u00e1rabes e japoneses usaram suas valiosas moedas para levar nossos craques, deixando aqui um produto de segunda qualidade para consumo \u00a0interno. Adolescentes bons de bola passaram a ser observados pelos \u201cespi\u00f5es\u201d dos grandes clubes do Velho Mundo. A Copinha, disputada nos meses de janeiro,\u00a0 em S\u00e3o Paulo, por centenas de jovens, menores de 18 anos, \u00e9 uma das vitrinas do futebol nacional.<\/p>\n<p>Felizmente, essa \u201cfuga\u201d n\u00e3o chegou ao patamar do que ocorre com as na\u00e7\u00f5es africanas. Na Fran\u00e7a, por exemplo, n\u00e3o s\u00f3 o futebol, mas outros esportes, formaram suas equipes nacionais naturalizando jovens do continente\u00a0 negro. Marcos Senna, Jorginho, Pepe, Tiago Alc\u00e2ntara e Diego Costa integram uma pequena lista de brasileiros que vestiram as camisas de sele\u00e7\u00f5es de na\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>Um dos pioneiros desse \u00eaxodo de brasileiros para a Europa foi Evaristo de Macedo (atuou de 1957 a 1962 pelo Barcelona e de 1962 a1965 pelo Real Madrid). T\u00e9cnico campe\u00e3o brasileiro pelo Bahia em 1988, seu nome batiza o \u00a0centro de treinamento do Tricolor em Dias d\u2019\u00c1vila. \u00cddolo onde passou como profissional, Evaristo rompeu uma esp\u00e9cie de norma na \u00e9poca: primeiro atleta a vestir as camisas dos dois maiores rivais do futebol da Espanha.<\/p>\n<p>Quem viveu e frequentou\u00a0 os est\u00e1dios \u2013 raramente uma competi\u00e7\u00e3o esportiva era transmitida pela televis\u00e3o, que dava seus primeiros passos\u00a0 &#8211; pode afirmar hoje que 60, 70 e 80 foram os \u201cAnos Dourados\u201d do futebol brasileiro. Maracan\u00e3 e Morumbi recebiam nos domingos mais de 100 mil espectadores. At\u00e9 mesmo na saudosa Fonte Nova, 110 mil pagantes assistiram Bahia 2 x Fluminense 1, em 12 de fevereiro de 1989, pelo Campeonato Brasileiro. Tempos que n\u00e3o voltam mais porque os est\u00e1dios \u201cencolheram\u201d.<\/p>\n<p>Santos, Real Madrid, Benfica e Milan eram os clubes mais lisonjeados do mundo; Botafogo x Santos era o maior cl\u00e1ssico do futebol brasileiro \u2013 assisti a um deles no Rio, ao lado de mais de 100 mil torcedores. Imaginem, de um lado, pelo time paulista, Pel\u00e9, Zito, Coutinho, Meng\u00e1lvio, Gilmar \u00a0e Pepe;\u00a0 pelos cariocas, Garrincha, N\u00edlton Santos, Amarildo, Didi e Zagallo. Os dois clubes, no final da d\u00e9cada e 50 e come\u00e7o de 60 formavam a base da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, campe\u00e3 mundial em 58 e 62.<\/p>\n<p>Quero dizer que o torcedor n\u00e3o sentia empolga\u00e7\u00e3o apenas com os shows montados por santistas e alvinegros. Recordo dos espet\u00e1culos encenados pela Academia do Palmeiras, de Ademir da Guia; pelo Cruzeiro, de Tost\u00e3o e Dirceu Lopes; pelo Expresso da Vit\u00f3ria, do Vasco da Gama; pelo Bahia heptacampe\u00e3o baiano (142 vit\u00f3rias, 75 empates e 11 derrotas), de Douglas, Fito e Baiaco; a M\u00e1quina Tricolor do Fluminense, de Rivelino; \u00a0o Rolo Compressor, do Internacional; e o Flamengo, de Zico e J\u00fanior.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos uma fase em que praticamente duas competi\u00e7\u00f5es eram disputadas: os campeonatos Brasileiro e os estaduais. Os atletas tinham tempo para treinar, ter outra profiss\u00e3o e estudar. Atualmente, passam muitas horas nos aeroportos e a bordo de avi\u00f5es, por causa dos torneios organizados pela Conmebol, CBF e federa\u00e7\u00f5es estaduais. Atra\u00e7\u00e3o o ano inteiro, os regionais duram somente tr\u00eas meses. Os jogadores dos clubes de divis\u00f5es inferiores \u2013 a maioria \u2013 passam nove meses desempregados, viajam de \u00f4nibus, seus dirigentes reclamam da falta de ajuda do poder p\u00fablico municipal \u00a0e do empresariado.<\/p>\n<p>Temos um exemplo aqui na nossa casa. O Conquista est\u00e1 h\u00e1 cinco anos fora da Primeira Divis\u00e3o do futebol do estado. As \u00faltimas gest\u00f5es municipais t\u00eam ignorado o que o esporte pode representar para sua cidade, haja vista que uma secretaria tem que cuidar da cultura, do lazer, do turismo e do esporte. Mesmo que o titular do cargo tenha boa vontade para trabalhar, ele n\u00e3o ir\u00e1 se transformar num super-homem.<\/p>\n<p>O empresariado justifica a recusa em colaborar sob o argumento de que, se o time fica muito tempo sem atuar. a marca do seu neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 vista pelo p\u00fablico, como n\u00e3o \u00e9 mostrada pela televis\u00e3o. Beneficiada com isen\u00e7\u00e3o fiscal concedida pelo munic\u00edpio, uma grande loja instalada no com\u00e9rcio conquistense poderia aplicar em publicidade parte dos seus lucros, inserindo sua marca no uniforme do Conquista, como vem fazendo em clubes do interior do pa\u00eds, como o v\u00f4lei feminino de Brusque, em Santa Catarina.<\/p>\n<p>Um dos maiores \u201cadvers\u00e1rios\u201d do futebol brasileiro, respons\u00e1vel pelo decr\u00e9scimo t\u00e9cnico das nossas equipes, sem distin\u00e7\u00e3o, \u00e9 o chamado \u201ctime das despesas\u201d. O boletim \u00a0financeiro do jogo Jequi\u00e9 x Jacuipense, pela \u00faltima rodada da fase de classifica\u00e7\u00e3o do Campeonato Baiano, emitido pela FBF, mostra que 2.208 pessoas foram ao Est\u00e1dio Waldomiro Borges, deixando\u00a0 nas bilheterias R$ 12.340. O visitante voltou \u00e0 sua cidade de m\u00e3os vazias e o mandante, depois de somadas as despesas, teve um preju\u00edzo de R$ 12.340.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, qualquer tipo de espet\u00e1culo para o p\u00fablico, seja teatro, m\u00fasica ou futebol, a tend\u00eancia \u00e9 deixar o palco. H\u00e1 necessidade de se buscar novas fontes de renda, como vender suas revela\u00e7\u00f5es antes do t\u00e9rmino do contrato, aceitar propostas, at\u00e9 desvantajosas, de bilion\u00e1rios europeus e xeques \u00e1rabes, submetendo-se ao capitalismo internacional selvagem, transformar-se em sociedade an\u00f4nima com direito somente a 10% das a\u00e7\u00f5es; receber e agradecer o dinheiro dos s\u00f3cios, dos patrocinadores, das casas de apostas e de sites de encontros amorosos, e o pago pelas TVS a t\u00edtulo de direito de imagem.<\/p>\n<p>No Brasil, o torcedor padr\u00e3o \u00e9 o que recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo, &#8211; o \u201c0 geraldino\u201d -, aquele que est\u00e1 deixando de ir aos est\u00e1dios \u2013 um p\u00fablico de 40 mil pessoas \u00e9 manchete dos jornais &#8211; , porque n\u00e3o tem recursos para adquirir um ingresso, cujo pre\u00e7o est\u00e1 fora do seu or\u00e7amento. O show n\u00e3o conta mais com bons artistas. Termina presenciando \u00a0agress\u00f5es, sob a complac\u00eancia dos \u00e1rbitros, e, nas arquibancadas e imedia\u00e7\u00f5es dos est\u00e1dios, batalhas, at\u00e9 com uso de armas de fogo, de torcidas organizadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"44\"><\/td>\n<td width=\"1120\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Gonzalez &#8211; jornalista Vamos tentar analisar e comparar o futebol jogado na Europa Ocidental com o do Brasil: imaginemos que voc\u00ea tomou um gole de \u201cEstrella Galicia\u201d (cerveja fabricada na cidade espanhola de La Coru\u00f1a), e, em seguida, prove uma das nossas \u201clouras\u201d. 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