{"id":10282,"date":"2025-02-03T21:52:42","date_gmt":"2025-02-04T00:52:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10282"},"modified":"2025-02-03T21:53:02","modified_gmt":"2025-02-04T00:53:02","slug":"quando-fui-revisor-na-epoca-do-chumbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/02\/03\/quando-fui-revisor-na-epoca-do-chumbo\/","title":{"rendered":"QUANDO FUI REVISOR NA \u00c9POCA DO CHUMBO"},"content":{"rendered":"<p>Com meu diploma de jornalista na m\u00e3o tinha que come\u00e7ar a me virar porque n\u00e3o mais poderia morar na Resid\u00eancia Universit\u00e1ria. Era uma manh\u00e3 ensolarada, ainda ver\u00e3o de in\u00edcio de 1973. L\u00e1 se v\u00e3o 52 anos. Cortei o Corredor da Vit\u00f3ria, passando pelo Campo Grande e atravessei a Avenida Sete de Setembro j\u00e1 movimentada de gente naquele corre-corre da vida.<\/p>\n<p>Meu destino era o velho pr\u00e9dio do jornal \u201cA Tarde\u201d, na pra\u00e7a do poeta condoreiro. Antes, para tomar coragem, fiz uma ronda pela Rua Chile onde cruzei com a Mulher de Roxo e mais adiante com irm\u00e3 Dulce a quem pedi a sua ben\u00e7\u00e3o. Da Pra\u00e7a da C\u00e2mara Municipal e do Elevador Lacerda retornei e, enfim, adentrei no jornal.<\/p>\n<p>Ainda sem jeito, vindo do interior, contei minha hist\u00f3ria e minha disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar. A primeira pessoa com quem falei foi com dona Aia, a chefe da revis\u00e3o, uma coroa negra mesti\u00e7a, enxuta e simp\u00e1tica. Para minha sorte tinha uma vaga e n\u00e3o titubeei em aceitar. N\u00e3o havia outra escolha. Atuar na revis\u00e3o n\u00e3o dava visibilidade. \u00c9ramos personagens de bastidores dentro do processo jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Ela me levou ao gabinete do redator-chefe, dr. Jorge Calmon, que me recebeu com toda aquela sua eleg\u00e2ncia de um aristocrata ingl\u00eas e mandou que fizesse uma carta pedindo emprego. Foi minha primeira prova de fogo. Ele leu o texto e me aprovou para eu come\u00e7ar em meu novo of\u00edcio como profissional no outro dia. Pronto, estava salvo! Ali come\u00e7ava minha trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Naquela sala apertada, bem em frente \u00e0 Baia de Todos os Santos, come\u00e7ava na lida ao p\u00f4r-do-sol e saia ao alvorecer da manh\u00e3. Faz\u00edamos revis\u00e3o em dupla das mat\u00e9rias jornal\u00edsticas depois de terem passadas pela linotipia que ficava bem ao lado da nossa. Receb\u00edamos chumbo quente no peito durante toda noite.<\/p>\n<p>Foi minha primeira experi\u00eancia como jornalista profissional que me deu r\u00e9gua e compasso. Conheci figuras interessantes, inteligentes e bem preparadas. A gente s\u00f3 n\u00e3o gostava de revisar balan\u00e7o cont\u00e1bil de empresas (n\u00e3o podia errar nos n\u00fameros) e pegar material do linotipista Melo porque ele melava todo papel.<\/p>\n<p>Dona Aia era a nossa defensora e protetora, tipo secret\u00e1ria particular de dr. Jorge (havia uns cochichos), e sabia de carreirinha, decorado da sua cabe\u00e7a, todas as f\u00f3rmulas qu\u00edmicas, desde o H2O ao di\u00f3xido de enxofre SO2, \u00f3xidos de nitrog\u00eanio (NO, NO2, N2O5) ao di\u00f3xido de carbono (CO2), dentre outras composi\u00e7\u00f5es de metais. Ficava impressionado como ela sabia aquilo tudo.<\/p>\n<p>Era \u00e9poca de chumbo da ditadura civil-militar-burguesa do general Garrastazu M\u00e9dici. A gente trabalhava em dupla no processo de revis\u00e3o onde um lia o texto e o outro ia fazendo as corre\u00e7\u00f5es das mat\u00e9rias jornal\u00edsticas dos rep\u00f3rteres. Com o avan\u00e7o da tecnologia da internet, essa fun\u00e7\u00e3o deixou de existir nos jornais.<\/p>\n<p>Entre o intervalo de uma revis\u00e3o e outra confabul\u00e1vamos informa\u00e7\u00f5es de presos pol\u00edticos v\u00edtimas das torturas e critic\u00e1vamos duramente o regime. O delegado Fleury e o coronel Brilhante Ultra, do DOI-CODI, eram os maiores carrascos. Ainda bem que n\u00e3o havia escutas e, se existia, n\u00e3o sab\u00edamos.<\/p>\n<p>Seu Ariston, se n\u00e3o me engano vindo l\u00e1 de Itabuna, era um senhor de fei\u00e7\u00f5es duras desgastadas pelo sofrimento do tempo, bom de portugu\u00eas, que tirava nossas d\u00favidas. Ele foi um dos presos torturado pela ditadura e nos contava hist\u00f3rias da sua a\u00e7\u00e3o de combate e o que passou na cadeia at\u00e9 ser solto. Seu Ariston ainda era muito visado e vigiado pelos agentes torturadores. Depois sumiu.<\/p>\n<p>Por obriga\u00e7\u00e3o, t\u00ednhamos que assinar e guardar as provas para, em caso de erro, os revisores respons\u00e1veis serem repreendidos, punidos ou at\u00e9 mesmo demitidos. Quando isso acontecia, um protegia o outro, e arranj\u00e1vamos uma maneira de dar sumi\u00e7o na prova, sobretudo quando se tratava de balancete, coisa chata de se revisar.<\/p>\n<p>Lembro tamb\u00e9m do nosso amigo e companheiro Antenor, homossexual que logo depois morreu de Aids. Naquela \u00e9poca o tratamento erra escasso. Era um jovem com grande bagagem de conhecimento e cheio de vida. Na revis\u00e3o predominava o sexo masculino, mas logo depois, aos poucos, foi aparecendo mulheres, como Cora com quem gostava de atentar e cham\u00e1-la de Cora Coralina. N\u00e3o sei do porqu\u00ea, mas ela n\u00e3o gostava.<\/p>\n<p>Ainda no velho pr\u00e9dio da Pra\u00e7a Castro Alves, o local da revis\u00e3o era um tanto insalubre, porque ficava ao lado da linotipia de chumbo. T\u00ednhamos que tomar muito leite. Era uma recomenda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei de quem. O pessoal inalava muito chumbo vindo daquelas m\u00e1quinas barulhentas. Era o tempo do chamado jornal a quente.<\/p>\n<p>Quando dava meia-noite, a gente ia para uma lanchonete na Carlos Gomes forrar o est\u00f4mago. A conta era paga pela empresa. Foi um tempo de boas recorda\u00e7\u00f5es e aprendizagens durante quase um ano at\u00e9 ser convidado para trabalhar como rep\u00f3rter na Editoria de Economia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com meu diploma de jornalista na m\u00e3o tinha que come\u00e7ar a me virar porque n\u00e3o mais poderia morar na Resid\u00eancia Universit\u00e1ria. Era uma manh\u00e3 ensolarada, ainda ver\u00e3o de in\u00edcio de 1973. L\u00e1 se v\u00e3o 52 anos. 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