{"id":10254,"date":"2025-01-28T22:45:58","date_gmt":"2025-01-29T01:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10254"},"modified":"2025-01-28T22:46:04","modified_gmt":"2025-01-29T01:46:04","slug":"as-viuvas-das-secas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/01\/28\/as-viuvas-das-secas\/","title":{"rendered":"AS &#8220;VI\u00daVAS DAS SECAS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Quando estava na ativa e com todo g\u00e1s de rep\u00f3rter, fiz muitas coberturas jornal\u00edsticas sobre as secas mais inclementes e prolongadas por esse sert\u00e3o da Bahia. Como se diz no popular, comi muita poeira no sol escaldante, principalmente aqui na regi\u00e3o sudoeste com meu parceiro fot\u00f3grafo Z\u00e9 Silva.<\/p>\n<p>Nas entrevistas, ouvi muitos lamentos, choros e l\u00e1grimas, casos de fome, gente sendo escravizada nas carvoarias, pessoas perdidas nas cidades pedindo esmolas, filhos desgarrados, meninas que se prostitu\u00edam cedo pelo dinheiro e at\u00e9 eram vendidas pelos pais. Por aqueles lados de Iuiu escutei uma hist\u00f3ria de um homem que negociou a mulher na feira por uns sacos de farinha.<\/p>\n<p>Mesmo diante das adversidades, o sertanejo nordestino \u00e9 forte e nunca perde a f\u00e9 e a esperan\u00e7a de dias melhores, sempre mirando os c\u00e9us na espera das chuvas para lan\u00e7ar as sementes na terra molhada, mas ele sabe que l\u00e1 na frente vai enfrentar outra batalha.<\/p>\n<p>No entanto, um fato, dentre tantos outros, me chamou a aten\u00e7\u00e3o que foi descobrir o sofrimento di\u00e1rio das chamadas \u201cvi\u00favas das secas\u201d, aquelas mulheres cujos maridos partiam no pau-de-arara para S\u00e3o Paulo e elas ficavam sozinhas em casa com uma renga de filhos pequenos para cuidar e alimentar.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca n\u00e3o existia o Bolsa Fam\u00edlia, poucas doa\u00e7\u00f5es e elas tinham que se virar para n\u00e3o deixar as crian\u00e7as morrerem de fome. Uma vez cheguei num lugar onde elas estavam arrancando ra\u00edzes de umbuzeiros para cozinhar. N\u00e3o temos nada em casa para comer hoje, seu doutor, e isso d\u00e1 sustan\u00e7a &#8211; disse uma delas.<\/p>\n<p>Para essas pessoas v\u00edtimas das grandes estiagens, achamos por bem denomin\u00e1-las de \u201cvi\u00favas das secas\u201d. Os maridos partiam e demoravam de dar not\u00edcias e enviar algum dinheirinho pelos Correios. Tudo era na base das cartas ou atrav\u00e9s das cabines de telefones p\u00fablicos, coisas raras nos munic\u00edpios. Em suas faces abatidas e corpos alquebrados pelo tempo corriam suas l\u00e1grimas de ver um filho no canto de barriga vazia pedir uma bolacha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 seu mo\u00e7o, o senhor mesmo est\u00e1 vendo a situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria e ningu\u00e9m nos acode, s\u00f3 Deus para nos ajudar. H\u00e1 dias que n\u00e3o temos nada em casa, s\u00f3 uns punhados de farinha para fazer um pir\u00e3o d\u00b4\u00e1gua &#8211; clamava dona Josefa com cinco filhos esquel\u00e9ticos para criar. H\u00e1 meses o marido foi para S\u00e3o Paulo porque n\u00e3o encontrava mais servi\u00e7o por essas bandas. Tem tempo que n\u00e3o d\u00e1 not\u00edcias.<\/p>\n<p>O pior de tudo \u00e9 que existiam aqueles cabras safados que iam para S\u00e3o Paulo e l\u00e1 se enrabichavam com outra mulher, deixando a fam\u00edlia abandonada a ver navios, se acabando na extrema pobreza do sert\u00e3o, caso de dona Maria das Dores, que ainda acreditava em sua volta. Outros morriam por l\u00e1 mesmo nas esquinas brabas da vida.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele desgra\u00e7ado tem mais de um ano que saiu daqui prometendo trabalhar, juntar um dinheiro e depois retornar. Nunca mais nos deu uma not\u00edcia e at\u00e9 soube por parentes que arranjou uma amante por l\u00e1. Aquele traste dos diabos j\u00e1 n\u00e3o prestava mesmo &#8211; desabafou em tom de raiva dona Vic\u00eancia, ao lado da sua comadre que tamb\u00e9m foi alvo do mesmo destino. Uma sempre ajudava a outra nos momentos dif\u00edceis de priva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E dona Joana que foi obrigada a entregar uma menina nova por uns trocados para um caminhoneiro num posto de gasolina! Ali\u00e1s, os postos eram os pontos onde mais se encontravam crian\u00e7as pedindo esmolas e candangos com filhos remelentos nos bra\u00e7os, chorando de fome.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, escutei por anos muitas hist\u00f3rias de cortar o cora\u00e7\u00e3o por este meu Nordeste \u00e1rido do ch\u00e3o ressecado e rachado, onde s\u00f3 se via planta\u00e7\u00f5es queimadas pelas secas, fome e sede, gado berrando nas cacimbas, carca\u00e7as de animais mortos, latas d\u00b4\u00e1gua nas cabe\u00e7as e carros-pipas cortando estradas poeirentas. Sempre vinha \u00e0 minha mente a obra \u201cVidas Secas\u201d, de Graciliano Ramos. Em muitos ranchos, uma \u201cbaleia\u201d encolhida no terreiro que nem levantava para latir.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos at\u00e9 que as coisas melhoram mais a partir de alguns programas de assist\u00eancia social dos governos, mas permanece o cen\u00e1rio da chamada ind\u00fastria da seca, com o emprego de carros-pipas e outros esquemas escusos para ganhar votos em tempos de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda existem as \u201cvi\u00favas das secas\u201d e aquelas que s\u00e3o largadas pelos seus maridos que caem no mundo e nunca mais voltam. No sert\u00e3o \u00e9 assim, quando chove bem tudo fica colorido e da terra brota a fartura, mas quando vem a estiagem e a paisagem fica cinzenta, o sertanejo pena para sobreviver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando estava na ativa e com todo g\u00e1s de rep\u00f3rter, fiz muitas coberturas jornal\u00edsticas sobre as secas mais inclementes e prolongadas por esse sert\u00e3o da Bahia. Como se diz no popular, comi muita poeira no sol escaldante, principalmente aqui na regi\u00e3o sudoeste com meu parceiro fot\u00f3grafo Z\u00e9 Silva. 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