{"id":10198,"date":"2025-01-09T23:46:21","date_gmt":"2025-01-10T02:46:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10198"},"modified":"2025-01-09T23:46:27","modified_gmt":"2025-01-10T02:46:27","slug":"as-78-rotacoes-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2025\/01\/09\/as-78-rotacoes-da-memoria\/","title":{"rendered":"AS 78 ROTA\u00c7\u00d5ES DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria gira em 78 rota\u00e7\u00f5es e me traz muitas can\u00e7\u00f5es, sa\u00eddas daquele imenso m\u00f3vel claro chamado radiola, onde se levantava uma tampa e um prato preto rodando me transportava para outro mundo.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m botava uma cadeira junto da radiola, eu, com uns 8 pra 9 anos, percebia que aquele ia sonhar. Estrategicamente colocada no canto da sala, ela era um aut\u00eantico ref\u00fagio, renovando a alma atrav\u00e9s da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Lembro-me de um tio que tinha acabado de terminar o noivado e que botava o prato preto de Maysa Matarazzo, o cotovelo sobre o m\u00f3vel da radiola e a cabe\u00e7a inclinada pra baixo. Entre pensativo e apaixonado, meu tio ficava l\u00e1, sem se mexer, todo o lado A e o lado B.<\/p>\n<p>Os primeiros discos chegados l\u00e1 em casa, ainda em 78 rota\u00e7\u00f5es, foram de chorinho, xote e bai\u00e3o. Primeiro, foram dois, depois, mais tr\u00eas e assim, de m\u00eas em m\u00eas, pingava sempre mais um disquinho.<\/p>\n<p>A radiola \u2013 me esqueci de dizer \u2013 tinha quatro p\u00e9s finos, com ponteira de metal, que lhe davam uma eleg\u00e2ncia na sala. Em cima daquelas pernas, parecia uma ave musical, sempre limpa com \u00f3leo de peroba.<\/p>\n<p>Hoje, lembro-me de uma hist\u00f3ria que Fred Souza Castro conta com um jeito engra\u00e7ad\u00edssimo: o sujeito (um petroleiro) morava no IAPI e convidou uma turma para a inaugura\u00e7\u00e3o da radiola. Teve champanhe, fita inaugural e discurso. No fim da inaugura\u00e7\u00e3o, o petroleiro, uns cinco u\u00edsques depois, falou pra mulher: \u201cE para o m\u00eas \u00e9 o qu\u00ea, n\u00eaga?\u201d E ela, em cima da bucha: \u201cUma televis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os primeiros LPs foram recebidos com festa. Como \u00e9 que cabia tanta m\u00fasica naquele prato s\u00f3 um pouco maior do que o de 78? E a\u00ed apareceu uma brincadeira interessante, mas s\u00f3 quando minha m\u00e3e n\u00e3o estava perto: colocar um LP em 78 rota\u00e7\u00f5es e morrer de rir com o som de 33 rota\u00e7\u00f5es totalmente distorcido.<\/p>\n<p>\u201cFeito para Dan\u00e7ar\u201d, \u201cUma Noite no Arp\u00e9ge\u201d, com a orquestra de Waldir Calmon \u2013 Antonio Matos me disse, outro dia, que comprou uma regrava\u00e7\u00e3o \u2013 eram LPs que animavam muito. Foi com eles e com minhas primas de Jequi\u00e9 que ensaiei os primeiros passos, o cora\u00e7\u00e3o batendo e, de vez em quando, pisando no ded\u00e3o de uma.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 foi em festa de radiola? Era interessante, no Clube Comercial, na Avenida Sete. Ficava aquele mund\u00e3o de disco, um em cima do outro, e a expectativa era o que vai tocar agora, enquanto aquela mo\u00e7a n\u00e3o olha e a timidez quase apavora.<\/p>\n<p>Em festas l\u00e1 na rua, pintava sempre aquela pequena radiola Philips port\u00e1til, uma em que a pr\u00f3pria tampa era a caixa de som. O som era terr\u00edvel, pior ainda quando a pilha estava fraca, mas o que valia era a novidade. Nossos olhos namoravam tamb\u00e9m aquela caixinha pequena, de onde vinha a m\u00fasica e que, na hora de ir embora, era s\u00f3 botar embaixo do bra\u00e7o. Era f\u00e1cil ligar e desligar: o bra\u00e7o pra l\u00e1 e esperar fazer \u201ctraque\u201d. Hora de ir, precisava contar os discos, sempre ficavam alguns emprestados, outro dia ainda dan\u00e7o de novo \u201cMichele\u201d com ela, \u201cma belle\u201d.<\/p>\n<p>Uma vez, um disco 78 quebrou l\u00e1 em casa, e minha m\u00e3e juntou os peda\u00e7os pra jogar no lixo quando a empregada interveio: \u201cN\u00e3o jogue fora, n\u00e3o, dona Cleonice, que eu quero aprender a letra.\u201d Caso apurado, ela pensava que a letra vinha escrita no disco. Era s\u00f3 colar os cacos e ler.<\/p>\n<p>O compacto simples vinha primeiro, trazendo o grande sucesso da cantora. Depois vinha o LP, trazendo o sucesso e mais \u2013 vejam como toca! \u2013 umas 11 m\u00fasicas. Entre uma e outra, uma enorme faixa, que dava para ouvir o chiado da agulha. Era botar um LP e fechar os olhos, navegar naquelas ondas at\u00e9 receber o tapinha nos ombros: \u201cJ\u00e1 fez o dever?\u201d<\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde, edi\u00e7\u00e3o de 19\/04\/1989)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) A mem\u00f3ria gira em 78 rota\u00e7\u00f5es e me traz muitas can\u00e7\u00f5es, sa\u00eddas daquele imenso m\u00f3vel claro chamado radiola, onde se levantava uma tampa e um prato preto rodando me transportava para outro mundo. 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