{"id":10090,"date":"2024-12-05T23:55:51","date_gmt":"2024-12-06T02:55:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=10090"},"modified":"2024-12-05T23:55:57","modified_gmt":"2024-12-06T02:55:57","slug":"sai-do-sereno-minino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/12\/05\/sai-do-sereno-minino\/","title":{"rendered":"&#8220;SAI DO SERENO MININO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Sete da noite, mam\u00e3e Cleonice me chamava: \u201cSai do sereno, Chiquinho, sen\u00e3o voc\u00ea adoece!\u201d<\/p>\n<p>Eu ficava pensando que diabo era esse sereno, um neg\u00f3cio que a gente nem v\u00ea e faz mal. A chuva, pelo menos, a gente v\u00ea.<\/p>\n<p>Os barquinhos de papel, feitos com folhas de caderno, desciam a enxurrada. Tinha vontade de escrever o nome nos barquinhos: \u201cChico I\u201d, depois viriam \u201cChico II\u201d, \u201cChico III\u201d, at\u00e9 o oitavo. E essa frota desceria o rio de Contas, passaria em Barra do Rocha, Ubat\u00e3, Ubaitaba, Aurelino Leal e Itacar\u00e9, onde desfilaria no Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Falar em escrever, j\u00e1 escrevi um bilhete e o coloquei numa garrafa que joguei no mar do Unh\u00e3o. Era adolescente, j\u00e1 em Salvador, n\u00e3o lembro mais o que escrevi. Se fosse hoje, eu escreveria: \u201cUm n\u00e1ufrago em terra firme\u201d.<\/p>\n<p>De volta a Ipia\u00fa. Depois da chuva (ou antes, n\u00e3o lembro) a\u00a0 gente ia \u00e0 noite pra ver as mariposas em volta da l\u00e2mpada dos postes. Aposta para ver quem conseguia contar quantas mariposas estavam a voltear.<\/p>\n<p>Tem coisa mais gostosa do que um banho de bica? Era uma festa para a meninada, aquele tor\u00f3 caindo na cabe\u00e7a da gente. Na hora de dormir, sentir aquele leve chuvisco que ca\u00eda do telhado e vinha borrifar a cabe\u00e7a, e se cobrir com uma coberta Dorme Bem, que espinhava e esquentava.<\/p>\n<p>Usei galochas para ir \u00e0 escola prim\u00e1ria. Galocha era um cal\u00e7ado todo de borracha que se cal\u00e7ava sobre o sapato de couro para n\u00e3o molh\u00e1-lo em dia<\/p>\n<p>de chuva. N\u00e3o sei por que se chama um cara muito chato de \u201cchato de galocha\u201d. Talvez seja porque era chato cal\u00e7ar a galocha: a borracha embolava na ponta e no calcanhar.<\/p>\n<p>As tanajuras apareciam no per\u00edodo de chuva. A gente enfiava um palito na bunda da tanajura s\u00f3 para ouvi-la vibrar as asas. Ela acabava morrendo. Menino tem arte do capeta. \u201cCai, cai, tanajura, na panela da gordura\u201d, todos cantavam. A bunda de tanajura frita ou na farofa \u00e9 muito apreciada no Nordeste. \u201cA tanajura \u00e9 rica em prote\u00ednas e minerais e tem um perfil de \u00e1cidos graxos semelhante ao da carne do boi e do porco\u201d, dizem os especialistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vov\u00f4 Chico fez um tanque de cimento que sa\u00eda do ch\u00e3o, na \u00e1rea de servi\u00e7o da casa (entre a cozinha e o quintal), para aparar \u00e1gua de chuva, pois ainda n\u00e3o havia \u00e1gua encanada. Era a chamada \u00e1gua de gasto, para limpeza e banheiros. A de beber era comprada dos aguadeiros, homens que traziam os carotes de \u00e1gua nos burros e passavam de casa em casa descarregando-os nos porr\u00f5es de barro. Duas bicas conduziam a \u00e1gua da chuva para o tanque que era fechado com madeira pra n\u00e3o cair bicho dentro. Eu gostava de subir num banquinho pra brincar com a \u00e1gua do tanque.<\/p>\n<p>Na enchente descia de tudo pelo rio de Contas: bois, galinhas, porcos, melancias, ab\u00f3boras, peda\u00e7os de cerca, \u00e1rvores, um cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vinte e poucos anos. Namorar de noite, debaixo de chuva, na praia de Amoreira. Outra bela lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a chover no Chame-Chame, em Salvador, t\u00f4 sem guarda-chuva e come\u00e7o a correr. \u201cVai devagar, meu tio, que o senhor pode escorregar. E velho n\u00e3o pode cair, n\u00e3o \u00e9?\u201d<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamais.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Sete da noite, mam\u00e3e Cleonice me chamava: \u201cSai do sereno, Chiquinho, sen\u00e3o voc\u00ea adoece!\u201d Eu ficava pensando que diabo era esse sereno, um neg\u00f3cio que a gente nem v\u00ea e faz mal. A chuva, pelo menos, a gente v\u00ea. Os barquinhos de papel, feitos com folhas de caderno, desciam a enxurrada. Tinha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10090"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10091,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10090\/revisions\/10091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}