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:: ‘Notícias’

RICO NÃO ENTRA EM FILA

POBRE ENTRA EM QUALQUER FILA, MESMO SEM SABER DO QUE SE TRATA. PEGOU GOSTO PELA COISA.

Ainda falam por aí que todos somos iguais, mesmo diante de tantas desigualdades e injustiças sociais. Isso não passa de um devaneio ou uma piada de mau gosto. Numa discussão acalorada onde o endinheirado sempre leva a melhor, costuma-se abrir a boca para soltar este clichê desgastado e arranhado, como faixa de vinil velho.

Você, por acaso, já viu algum rico engravatado no paletó, um político ou uma autoridade do poder numa fila de banco, nos SUS para pegar uma senha de atendimento médico, no SAC para tirar uma carteira de identidade, habilitação, resolver uma pendência burocrática, numa fila no Fórum para tirar o título eleitoral ou numa repartição pública com um monte de documentos na mão?

É, camaradas, definitivamente, rico não entra em fila e todas são chamadas de indianas. É um atrás do outro – às vezes embola o meio de campo e lá vem o segurança estúpido fazer o “freio de arrumação” – com os compadres e a comadres alardeando fofocas e falando da vida dos outros.

É só ficar de orelha em pé que se escuta coisas do arco da velha e muito besteirol também. Tem senhora que faz um tapete de crochê na fila, que rende crônica, poesia, reportagem jornalística de montão e até dá música. Fila é uma fonte de inspiração, se bem que de estresse e doenças físicas para muitos, sobretudo idosos.

Pobre tem uma paciência de Jó, pouco reclama, não questiona se só tem um atendente e nem protesta quanto a demora de chegar à sua vez. O celular na mão é o passa tempo, tanto que nem ouve quando sua senha é chamada. Fila tornou-se prazer, lazer e divertimento de pobre. É como um domingo no parque!

Em lotéricas, por exemplo, só se vê caras de pobres discutindo o custo de vida, com a mão cheia de boletos e faturas para pagar. Ah, não pode faltar uma cartela de jogos para arriscar na “fezinha”! Afinal de contas, a esperança é a última que morre! Nas padarias e confeitarias, quem está lá na fila do pão? É, meus amigos, definitivamente, rico não entra em fila.

Percebeu como numa fila tem figuras estranhas! Uns calados remoendo seus problemas por dentro. Outros tagarelas dizendo besteiras e tem o vendedor de comidas e bugigangas paraguaias, os pedintes e não pode faltar o pregador com a Bíblia na mão ensinando ser resignado e xingando o diabo.

Às vezes surge uma confusão de bate-boca daquele tipo de “baixar o barraco”. Ah, tem muitos lamentos e contação de vida. Fila no Brasil deveria ser tombada como patrimônio cultural nacional, não importando se material, ou imaterial.

Experimenta formar uma fila de treita ou “pegadinha” numa praça, numa esquina, rua ou avenida qualquer! Em pouco tempo tem um mundaréu de gente, pensando ser fila de emprego, ou então para receber alguma doação do governo.

Sempre fico intrigado e encafifado quando entro nessas filas, principalmente para renovar identidade ou o documento eleitoral! Olho para todos os cantos e só vejo trabalhador e pessoas de baixo poder aquisitivo. É um sofrimento danado e ainda tem os “furas filas”. Nesse país, é o pobre passando a rasteira no pobre.

Será que existem funcionários específicos só para atender as regalias dos ricos e poderosos? Para fazer a biometria, por exemplo, a maquininha é levada em sua casa, ao escritório ou em seu gabinete confortável luxuoso? Sei que eles têm funcionários para isso, mas em algumas circunstâncias existe a necessidade da presença pessoal.

Desde quando me entendo por gente, quando fui tirar minha primeira identidade, no Instituto Pedro Melo, em Salvador, e tive que acordar madrugada para andar a pé mais de 15 quilômetros, perdi a conta de quantas filas fui obrigado a entrar e só vi gente pobre necessitada.

E você, que ainda vive pegando fila, já viu algum figurão, madama com cachorrinho no colo, ou mesmo um idoso da alta sociedade? Já viu algum importante político, uma celebridade, um famoso (a) numa fila? Acho que nem vereador do interior mais pequeno entra em fila.

Não existe empresário ou político numa fila de banco para resolver algum problema de empréstimo, prova de vida ou cartão de crédito. O rico tem horário especial, depois ou antes do expediente, tomando um cafezinho na mesa do gerente, numa boa!

Com a tecnologia da internet, sabemos que praticamente todas as coisas podem ser solucionadas através dos aplicativos, no modo virtual, mas ainda existem exceções. E antes da internet, quando tudo tinha que ser feito de forma presencial?

Desde as antigas civilizações as filas foram criadas para pobres. Os súditos faziam filas para beijar a mão do rei, mas a nobreza não entrava nessa porque tinha livre acesso aos palácios e às graças dos imperadores e rainhas.

 

TEMPOS DIFÍCEIS PARA JORNALISTAS NA COMEMORAÇÃO DO SETE DE ABRIL

Lembro quando comecei a dar os primeiros passos na profissão como revisor, no início de 1973, ano da minha graduação como bacharel em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Eram tempos difíceis em pleno cerco da ditadura civil-militar, anos de chumbo contra a liberdade de expressão quando os homens da farda faziam o papel de cão de guarda para censurar os veículos de comunicação, especialmente o jornal impresso.

Em Vitória da Conquista, quando vim assumir a chefia da Sucursal do Jornal A Tarde, em 1991, era o único jornalista diplomado e hoje sou o decano dos jornalistas. Estou completando 53 anos de profissão, com muito orgulho, mas tenho minhas críticas. Aliás, acima de tudo, jornalista tem que ser um crítico.

Apesar de toda mordaça, os jornalistas eram mais combativos e participativos. Tudo faziam para driblar a opressão dos generais. Os sindicatos, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e as associações brasileiras de jornalismo (ABIs) eram mais fortes e unidas.

Naquela época, nem se falava de “fake news”, que passaram a brotar com a chegada da internet e, consequentemente, das redes sociais, o chamado jornalismo virtual. Grande parte da atividade foi banalizada e a maioria perdeu a responsabilidade maior de informar.

Nada contra a evolução tecnológica onde a notícia é mais veloz que uma bala e pode ser mortal se for infundada. Passados mais de 50 anos, onde cada um se acha jornalista (não precisa ser diplomado), o neoliberalismo de mercado estreitou os espaços da profissão.

Poucos que optaram pela área e passaram a frequentar as escolas seguiram a carreira. Caiu o nível de formação e aumentou o noticiário de matérias infundadas, mal apuradas pela falta de uma maior investigação.

Em Conquista, cheguei a assumir a diretoria regional do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba) e fui vice-presidente da entidade. Continuo escrevendo porque é o alimento da minha alma e, se tivesse que recomeçar, seria novamente jornalista.

DIA DO JORNALISTA

Nesse 7 de abril, Dia do Jornalista (terça-feira), infelizmente, pouco se tem a comemorar. Mesmo no período duro do regime militar, existia mais união e celebração com aqueles memoráveis encontros, dos quais muito ajudei a realizar. É dia de reflexão e luta por mais espaço e reconhecimento do diploma, bem como contra a violência aos profissionais, da qual fui vítima.

O Dia do Jornalista e pouco lembrado pela própria classe (casa de ferreiro, espeto de pau). A data foi criada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e foi estabelecido por alguns motivos, como numa reunião de coletiva de imprensa.

Um deles é que no dia 7 de abril de 1908, foi criada a própria ABI. Idealizada pelo jornalista Gustavo Lacerda, a associação situa-se no Rio de Janeiro, e é um centro de ação que tem como objetivo assegurar os direitos à classe.

Também no dia 16 de fevereiro foi comemorado o “Dia do Repórter”, que está ligado a um episódio da nossa história do Brasil. A data foi designada em homenagem ao jornalista e médico Giovanni Battista Líbero Badaró, morto no dia 22 de novembro de 1830.

Ele participou de diversas lutas a favor da Independência do Brasil. Era proprietário do jornal “Observador Constitucional” e um dos principais motivadores da liberdade de imprensa, hoje tão vilipendiada.

Badaró teve uma morte misteriosa, mas, segundo a história, inimigos políticos atentaram contra a sua vida. O falecimento dele causou descontentamento à população e culminou na abdicação do trono de Dom Pedro I, justamente no 7 de abril de 1831.   

Só para reportar a história, a primeira faculdade de Jornalismo foi criada em 1912, na Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. A faculdade foi fundada por meio da doação de dinheiro do jornalista Joseph Pulitzer, que ajudou a tornar a imprensa conhecida como o quarto poder e que dá nome ao principal prêmio concedido a jornalistas premiados.

No Brasil, a primeira escola de jornalismo foi criada em 1947. Atualmente, a instituição chama-se Faculdade Gásper Liberó e localiza-se no prédio da antiga Gazeta, na Avenida Paulista.

TEORIA E PRÁTICA

Quando adentrei na redação era um dos poucos graduados pela Faculdade de Jornalismo da Ufba. Existiam os antigos jornalistas provisionados no Ministério do Trabalho. Na década de 70, o diploma passou a ser exigido e isso criou uma animosidade entre os chamados velhos e novos.

Dizia-se que jornalismo era uma vocação, uma forma de dom que se aprendia no dia a dia da notícia, o que não deixava de ser uma verdade, mas a formação teórica com a prática fortalece mais a profissão e dar mais credibilidade.

A briga gerou uma disputa de ações na justiça para derrubar a obrigatoriedade do diploma, isso, se não me engano, entre as décadas de 80 e 90. A ação caiu nas mãos do Supremo Tribuna Federal, em 2009. Recordo que um dos ministros, contrário ao diploma, fez uma leviana comparação entre a culinária e o jornalismo, dizendo que a pessoa para cozinhar não precisava ter diploma. Aquilo foi de uma insanidade sem tamanho.

As faculdades continuaram emitindo os atestados profissionais, como a própria Facom, da Ufba, a Uesb que começou seu curso em 1998 (fui um dos incentivadores e ajudei na sua estruturação) e tantas outras particulares. Mesmo com a não obrigatoriedade do diploma, vejo que as empresas dão mais preferência aos formados, valorizando a formação escolar e o conhecimento.

Para marcar a data, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os sindicatos dos jornalistas do Brasil e profissionais da área costumam fazer reflexões importantes sobre a carreira, o mercado de trabalho, os salários e o futuro da profissão.

O curso de Jornalismo é ministrado nas principais universidades do país durante quatro anos ou oito períodos. Os estudantes têm aulas teóricas, como teoria da comunicação, história da imprensa, ética e legislação, história da arte, práticas, como telejornalismo, jornalismo impresso e webjornalismo.  

O jornalista é o profissional que tem o papel de informar os fatos à sociedade, um contador de histórias, com responsabilidade perante a opinião pública.

Ele pode atuar em meios de comunicação, como rádio, TV, jornal, revista e internet. Também é comum que jornalistas trabalhem como assessores de comunicação e imprensa e, mais recentemente, em mídias digitais, tais como redes sociais e blogs.

 

 

 

 

COISAS EM QUE SOMOS OBRIGADOS A FAZER NO MUNDO MODERNO

NOS TEMPOS ATUAIS, SOMOS CARIMBADOS E ROTULADOS COMO EMBALAGENS DE MERCADORIAS EM PRATELEIRAS DE SUPERMERCADOS.

O mundo moderno-tecnológico e capitalista nos obrigou a fazer coisas com base no apelativo comercial de que nisso está o tesouro da felicidade. Para não ficarmos de fora, seguimos o mesmo ritual. Agimos por impulso e não questionamos os motivos. Temos até medo de ficarmos de fora para não sermos julgados pelos outros.

Somos obrigados a mentir para nós mesmos quando concordamos com certas posições que não são nossas, a dar um sim quando deveria ser um não, a nos vigiar para sermos cordiais em certas circunstâncias adversas e até seguirmos aquilo que não acreditamos. Cada vez mais deixamos de ser verdadeiros, para sermos meras cópias imitadoras retiradas do nosso inconsciente.

São muitas atitudes do dia a dia que não vou elencar aqui, e uma delas é a forma de pensar diferente. O nosso povo está cada vez mais alienado e menos consciente por falta do conhecimento e do saber, que cederam lugar às doutrinas religiosas, disseminadas em nossas mentes através da chamada lavagem cerebral.

A inversão de valores aos poucos aniquilou a nossa cultura advinda da sabedoria ancestral calcada na ética, na honestidade e no compromisso com a palavra. Na nossa geração, éramos habituados a dar benção aos pais e a respeitar os mais velhos. Hoje é coisa velha e inadequada. Vale o moderno com seus ditames obrigatórios.

Por que temos quer comprar um ovo de páscoa, mesmo independente da crença, às vezes sem condições financeiras, sendo cristão ou não? A mulher no supermercado diz: “Está muito caro, mas temos que levar”. Olha que ela já fala no plural, como se dissesse que todos são obrigados.

Esta forma de ação alienada é apenas um exemplo, mas temos muitas outras nas quais seguimos cegamente o apelativo comercial. No Natal, temos que comprar um presente, fazer mesa farta e se empanturrar, inclusive com comida que não fazem parte das nossas tradições.

Na Sexta-Feira da Paixão, está lá o caruru misturado com as peixadas, e a maioria faz isso seguindo a onda como se fosse estouro da boiada. Muitas vezes, nem importa a crença, se cristão ou não. Todos ficam em filas nas compras. Vi num supermercado um mói de quiabo, deveria ter uns dez, pelo preço absurdo de 18 reais.

No domingo é a vez da cruzada dos ovos de páscoa, simbolizando o coelho (não põe ovos), onde entra a indústria chocolateira gananciosa pelos lucros, para dizer que você é obrigado a comprar um ou mais para seus filhos, senão vai recair sobre si o sentimento de culpa imperdoável.

A origem dos ovos de páscoa remonta a tradições pagãs milenares dos antigos egípcios e persas (Irã) que os decoravam para celebrar a vida e o renascer da primavera. O cristianismo pegou esse gancho para relembrar a ressureição de Jesus.

Os ovos feitos de chocolate começaram na França lá pelos séculos XVII e XVIII. Os germânicos celebravam a deusa Ostara e o costume foi incorporado à Semana Santa.

Interessante que na Idade Média, a Igreja Católica proibia consumir os ovos durante a quaresma e liberava no Domingo de Páscoa. Os ovos passaram a ser produzidos em escala comercial a partir do século XIX e hoje se tornaram obrigatórios, simplesmente o comer por comer. O certo é se lambuzar na “felicidade ilusória” e cara.

GUARDA COMPARTILHADA DE ANIMAIS

– Gostaria de falar com o sr. Doutor Wilson da Cunha Amaral. Assim se apresenta o senhor aflito para conversar com seu advogado sobre sua situação calamitosa de pedido de aposentadoria no INSS, que nunca sai, ou indenização de perdas morais e financeiras por negligência do Estado.

– Sinto muito, mas ele está numa audiência com o juiz no Fórum, na Vara dos Animais Domésticos, tratando de uma demanda sobre a guarda compartilhada entre um casal, pais do cachorro Tadeu, e vai demorar– responde a secretária.

Por sua vez, o advogado Wilson da Cunha procura o juiz Custódio da Silveira para resolver um processo de soltura de um inocente que há anos foi preso injustamente por erro da Justiça. A atendente responde contando a mesma história.

– Quando eu posso visitar meus “filhos”? Eles são alívio da minha alma, conforto dos meus problemas e até curam minhas doenças, enxaquecas de cabeça e gastrite de estômago – defendem os ex-casados, com unhas, garras e dentes. Haja xingamentos!

A briga é acirrada e os ânimos estão exaltados. Os advogados precisam conter seus clientes para não irem aos tapas. O juiz é severo e grita não admitir desordem ou bagunça em sua sala. “Roupa suja se lava em casa”. Acontece que não vivem mais juntos. O juiz suspende a audiência por alguns minutos e ameaça até prendê-los.

Lá em seu gabinete, o magistrado sério e justo reflete que tem um monte de milhares de processos humanos em sua mesa para despachar, e só aumentam em cada dia que passa.

– Estudei tanto, fiz concurso e agora aqui estou eu a julgar guarda compartilhada de animais, numa briga de dois idiotas alienados e desequilibrados que nem ligam para os filhos biológicos!

O juiz retorna irado, de cabeça quente e determina que a guarda vai ficar com a “mãe”, por ser mulher. O “pai” fica revoltado, nervoso, bate na mesa e afirma que isso não vai ficar assim. “Vou recorrer até ao Supremo Tribunal Federal”. É coisa de milhões!

E quando o juiz decide que ambos têm o direito de visitar seus “filhos” em finais de semana, de forma alternada? Sempre vai ter um que vai se sentir injustiçado (a) com a sentença.

– Vim buscar o meu “filho (a)” para ficar esta semana comigo em casa e passear por aí – bate o “pai” na porta da ex que o recebe com a cara enfezada e psicologicamente mal-humorada.

A “mãe” faz uma série de recomendações, com embalagens de alimentos e vestuários nas mãos, tudo de acordo com a temperatura do tempo. Tem aquela que por pirraça diz que o “filhote” ou a “filhota” está na casa da avó, gripado (a), ou está na rua.

Todo esse cenário “modernista contemporâneo-tecnológico”, meu camarada, só ocorre entre ricos e poderosos. O pobre não tem dinheiro para pagar honorários com advogado e cada um leva o animal na hora que bem entender.

Se o pobre quiser a guarda tem que apelar para a defensoria pública. Na maioria das vezes, o cão, ou o gato, vive mesmo é nas ruas. O marido nem está aí e prefere ir para um boteco encher a cara de cachaça.

Nada contra cães, gatos, papagaios, micos, bodes, cobras, lagartos, coelhos, hamsters, chinchilas, calopsitas, porquinhos-da índia, peixes, patos, pequenos mamíferos e outros animais domésticos e silvestres, mas que a humanidade está invertida, isto sim, está!

Naquele tempo, meu pai já dizia que é fim de mundo. Imagina agora com a inversão de valores onde o ser humano é o que menos importa e interessa, principalmente quando se trata da saúde e da educação. Cachorros e felinos passaram a ser filhos de papai e mamãe. São mais estimados e recebem mais atenção que as crianças, muitas geradas e jogadas nas ruas.

O Senado, com suas bancadas corporativas, acaba de aprovar um projeto-de-lei que institui a guarda compartilhada para animais quando casais decidem se separar. Vai ser um fuzuê danado. Processos vão parar no Superior Tribunal Federal que já tem milhares de casos amontoados dos humanos.

Com tantos problemas neste país no âmbito da corrupção, do narcotráfico, da segurança, da bandidagem de políticos, da saúde, da pobreza extrema, da violência, das injustiças sociais e o Congresso Nacional está mais preocupado com a guarda compartilhada de animais!

Enquanto isso, tem gente que briga para não ficar com os filhos. Pai cai no mundo e larga tudo com a mãe, que se vira nos trinta. Outros jogam nos orfanatos. Confesso que fico irado quando vejo essas dondocas chamarem o cão de meu “filhinho”. “Vem para a mamãe, vem”!

Aqui em Vitória da Conquista, um vereador apresentou uma proposta, e foi aprovada, que os animais domésticos sejam enterrados nos cemitérios ao lado de seus donos, com túmulos e tudo. Não seria mais sensato construir um cemitério próprio?

Dia de finados, com flores na mão, está lá o dono ou a dona chorando pelo “filho” ou a “filha”. “É muito duro e sofrido perder um “filho” logo cedo. O natural é que os pais partam primeiro”. E como ficam o avô e a vó? Vão se sentir de corações partidos e estraçalhados. “Perdi meu netinho e minha netinha. É uma dor muito grande”.

BARZINHO NOVO SÓ LHE TRATA BEM

(Chico Ribeiro Neto)

Atendimento em barzinho novo é igual à presteza de um funcionário novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e fazê-lo voltar. Afinal, o negócio está começando e o dono está todo endividado.

Mal você entra e já tem um garçom junto, colado. A mesa está limpíssima, mas ele passa a flanela de novo, gesto que repete nas cadeiras. O dono está de lá, no balcão, e fica logo com uma postura mais ereta. Vê-se logo que ele está pronto para se desdobrar em cuidados.

Sai a primeira cerveja e noto que o dono fala baixinho com o garçom, entregando-lhe o cardápio. Na certa, deve ter dito: “Vá ver se o pessoal ali vai comer alguma coisa, mas sugira também, diga que o caldo de sururu está ótimo e que as lambretas estão enormes, que tem caldo de feijão e que, mais tarde, vai sair muqueca de arraia, comida caseira mesmo, e que o prato é só 40 reais. Se ele esperar, não vai se arrepender, e vá tirando logo aquele vendedor de amendoim de lá, senão o pessoal não come nada”.

A primeira cerveja ainda está pelo meio e o garçom já vem perguntar se a gente quer trocar os copos. O dono está de lá. Vejo logo que ele está fazendo contas. Deve ser a primeira prestação do freezer, a primeira conta de luz que já dá um susto, a cartinha do ECAD que fala em pagamento de direitos autorais, a nota do fornecedor da carne-de-sol, separar 500 reais para o cigarro, que vai chegar amanhã, e mandar consertar o liquidificador, que é novinho e já pifou.

O doido está doido pra se aproximar. Está um pouco mais tranquilo agora, porque há seis mesas ocupadas, e ainda é cedo pra dia de sexta-feira. Arruma algumas cadeiras, dá ordens a outro garçom, afugenta o menino vendedor de ovos de codorna e vai pra porta fumar um cigarro.

Sai a carne-de-sol que pedimos de tira-gosto. A bandeja está tinindo de nova, o paninho de prato vem alvíssimo e o molho, ao lado, está coberto de tempero verde, um festival de coentro e cebolinha.

“Qualquer coisa é só pedir”, diz o sorridente garçom, cujos sapatos pretos foram engraxados hoje mesmo.

A carne-de-sol está gostosa, a farofa foi feita com manteiga mesmo. Daqui a uns dias vão mudar pra margarina, pois a freguesia já estará conquistada.

“O senhor me chamou?”, pergunta o garçom.

“Não, estava só coçando a cabeça”.

Acabamos de pagar a conta. O dono vem anunciar que dispensou os quebrados, e saímos do barzinho recém-inaugurado com os bolsos cheios de folhetos, que têm até um mapinha dizendo como chegar lá.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/5/1993)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

DITADURA, NUNCA MAIS, E NOSSA VIGILÂNCIA DEVE SER CONSTANTE

Sessenta e dois anos depois e os brasileiros acordaram neste Brasil, em 1º de abril de 1964, com tanques nas ruas, militares armados de fuzis e metralhadoras, muita gente sendo presa, grêmios estudantis e a União Nacional dos Estudantes sendo fechados e a nossa liberdade de expressão vilipendiada.

Nesta data, o presidente João Goulart ainda estava em território brasileiro, no Rio Grande do Sul, tentando impedir o golpe civil-militar que durou mais de 25 anos, com quase 500 mortos e desaparecidos. Mesmo assim, o Congresso Nacional traidor, através do Aldo Moro, usurpou das prerrogativas constitucionais e depôs o mandatário do poder, contando com a força da cúpula dos generais carrascos.

Lamentável que o 1º de abril (dia da mentira) passe praticamente esquecido dessa mídia alienada, desmemoriada e entreguista do capitalismo. Nas escolas nada se fala nas aulas sobre este episódio de terror e torturas. Os jovens até desconhecem de que tenha existido ditadura que matou centenas de presos políticos nos porões das cadeias imundas. A sociedade se cala e até os trabalhadores ignoram esse fato histórico.

O pior ainda, e o que nos deixa mais temerosos e sobressaltos é que milhões de brasileiros, 62 anos depois, ainda vão às ruas pedir uma intervenção militar, ou seja, outra ditadura. Eles não sabem o que falam, mas não merecem ser perdoados, quanto menos anistiados os que tentaram dar outro golpe no dia oito de janeiro de 2023 quando invadiram os três poderes da República.

Não se trata aqui de ser de direita, de centro ou de esquerda. Não importa qual ideologia seja, se marxista, leninista, liberal, conservadora, progressista ou comunista, mas de se colocar na mente de que a liberdade e a democracia são intocáveis e templos sagrados das nossas vidas.

Cada um deve ter sua maneira de pensar, direito ao seu contraditório quanto as formas de se expressar, mas atentar contra a liberdade e levantar a bandeira de uma ditadura é inadmissível e devem ser as únicas coisas proibidas neste país. Em Sociedade Alternativa, o nosso cancioneiro Raul Seixas defendeu o “fazes o que tu queres”, um hino à liberdade.

Por ela (a liberdade), podes até lutar e matar que não constituem crime algum perante a lei. Portanto, devemos todos os dias dizer, ditadura, nunca mais no Brasil. Devemos estar sempre vigilantes para que a maldita nunca mais bata em nossas portas e separe famílias, amigos e espalhe o terror.

Essa vigilância deveria estar presente cotidianamente nas salas de aulas, em reuniões, nos encontros, seminários, nas manifestações populares, nas propagandas institucionais e comerciais, nas igrejas, em associações porque ela está sempre rondando nosso terreiro para roubar nossas flores e depois invadir nossos lares.

Ode à liberdade e à democracia deve ser uma lei pétrea para que as ideologias diversas, inclusive as mais arcaicas e atrasadas sobrevivam, contanto que respeitem o livre pensar dos outros, sem racismos, homofobias e misoginias porque estas já cheiram a ditadura e estão próximas de regimes autoritários e tirânicos.

Os que pedem ditadura militar são tão ingênuos, brutos e ignorantes que nem sabem que se ela se instalar com seu cutelo sanguinário, serão os primeiros a serem atingidos. Essas pessoas devem achar que serão privilegiadas para criticar o monstro que elas mesmas criaram. Quando a liberdade cessar de vez, vão perceber tarde demais que é até proibido pensar.

PROJETOS IMPORTANTES FICAM DE FORA POR FALTA DE QUORUM

Mesmo com 23 vereadores eleitos para a Câmara Municipal de Vitória da Conquista, com cerca de 400 mil habitantes, muitos projetos importantes de interesse da população têm sido adiados por falta de quórum na votação.

Isso é lamentável quando os próprios parlamentares dizem que o legislativo é a Casa do Povo e só existem duas sessões por semana. As justificativas não se justificam quando os faltosos argumentam que eles estavam em outras obrigações políticas na ausência. Entendo que as sessões devem estar acima de quaisquer outras atividades. É só programar suas agendas.

No entanto, na sessão de ontem (quarta-feira, dia 1º de abril), entre as pautas, foram discutidos diversos projetos, destacando a proposta que dispõe sobre a instalação de grades de proteção metálicas ou estruturas de concreto nos canais de drenagem pluvial no âmbito do município.

Outro projeto em debate foi o Programa de Coleta de Exames e Vacinação em Domicílio para Pessoas com Tratamento do Espectro Autista e outras deficiências. Também em discussão, a entrada e permanência de animais de estimação em estabelecimentos de saúde pública e privada; o que declara as abelhas nativas sem ferrão como patrimônio natural do município, dentre outros.

Durante a sessão ordinária, falaram os vereadores presentes, como Andreson que lembrou os 25 anos de fundação da Igreja Batista da Paz. O parlamentar elogiou a realização do I Fórum da Indústria e do Comércio, uma promoção da Câmara. Disse que durante o evento, os empresários reclamaram sobre os custos dos impostos municipais sobre imóveis e pediram uma forma de redução.

Andreson ainda informou do seu encontro com o deputado federal Waldenor Pereira que juntos visitaram o Projeto Mãos que Acolhem, de dona Maria, e combinaram apoiar na restauração da unidade para que tenha uma melhor qualificação.

Ricardo Babão falou do Renato Magalhães e de outros bairros adjacentes que foram afetados pelas chuvas. Afirmou ter conversado com a prefeita para que aquelas localizações recebam pavimentação asfáltica com os recursos do empréstimo dos 400 milhões da Caixa Econômica Federal.

A vereadora Cris Rocha cobrou da prefeitura a realização urgente da Operação Tapa Buracos na cidade, bem como no distrito de São Sebastião. Ela destacou ainda a questão das obras da Avenida Brumado que precisam ser aceleradas e que os serviços sejam feitos em horários planejados que não compliquem o trânsito naquela artéria.

Luiz Carlos Dudé enfatizou a importância das liturgias católicas da Semana Santa e convidou a todos para a caminhada de fé e oração, na próxima sexta-feira, saindo da Praça Sá Nunes até o monumento do Cristo de Mário Cravo, no topo da Serra do Piripiri. Disse esperar a presença de mais de 15 mil pessoas.

Usou também da tribuna a vereadora Gabriela Garrido, comunicando sua ida a Salvador onde solicitou apoio de deputados para implementação de políticas públicas nas escolas visando a promoção de eventos no combate à violência contra as mulheres. Lembrou que abril é o mês do autismo e disse ser necessário um trabalho de assistência que ampare as famílias com filhos autistas, especialmente direcionado às mães.

A GENTE FALA MUITAS BESTEIRAS

Sem sentir, de forma impensada, no dia a dia os brasileiros falam muitas besteiras, termos carimbados, clichês, expressões e frases contraditórias, engraçadas e ilógicas, isto tudo sem perceber. Mesmo assim, na nossa cultura, elas têm seu devido sentido. A nossa língua tem dessas coisas e nos trai.

Não consigo entender, por exemplo, esse “obrigado” natural quando alguém lhe faz um favor. Dá a impressão que a pessoa realizou aquela ação por obrigação.  Não deveria ser agradecido? Fica dúbio. Dizem que somos descentes diretos dos macacos, nosso ancestral, mas temos muito do papagaio imitador.

Quando alguém está em estado terminal, com uma doença grave, todos comentam que o paciente “está correndo risco de vida”. Na lógica seria até bom porque existe esperança de continuar a viver. O certo não seria estar correndo risco de morte?

Outra expressão que me deixa intrigado é “estou correndo atrás do prejuízo” quando se leva um tombo financeiro ou se está passando dificuldades de outras espécies. O correto não seria estou correndo atrás do lucro? Correr atrás do prejuízo é piorar ainda mais a situação.

Em conversas entre amigos, em encontros ou até mesmo numa mesa de bar sobre assuntos amorosos, ouve-se a frase de que “meu casamento não é um mar de rosas”. Não é mesmo, porque as rosas têm espinhos no caule. Não quero mesmo esse mar de rosas. Sabemos se tratar de uma metáfora ou sentido figurado.

“Tem, mas acabou”. Como é que uma pessoa possui uma coisa, objeto ou produto, mas acabou. Todo mundo fala isso sem observar a contradição, o paradoxo. Como “tem, mas acabou”? No comércio em geral se ouve muito isso de vendedor ou lojista.

“Vê aí o áudio que eu te mandei”. Como alguém pode ver um áudio. O certo não seria escrever escuta o áudio?  Outra frase que soa até hilária é responder “não conheço, mas sei quem é”. Como você sabe quem é, se nem conhece a pessoa em referência? “Tá louco, meu”!

O pai, a mãe ou o responsável pelas despesas da casa, acorda cedo e reclama para o desleixado (a) que “a luz dormiu acessa”. Ora, meu amigo, luz não dorme, quanto mais quando ela está acesa. “Tô com fome de comida, agora é só amanhã”. Fica bem complicado e confuso entender o sentido. Amanhã vai continuar com fome de comida?

“Não vi nem o cheiro”. Ninguém ver cheiro, sente. “Tá ruim, mas tá bom”. Essa não dá para se engolir. Se a coisa está ruim, não pode estar boa. Você chupa uma fruta bem azeda e diz que está boa? Assim por diante, vamos soltando esses dizeres contraditórios e sem lógica.

Esse negócio de fazer seguro de vida me deixa encafifado. Não deveria ser seguro de morte? Por acaso, a vida tem seguro para não morrer?  Outra expressão que não bate em minha cachola e com a nossa realidade social e política deste sistema perverso é dizer que “todos somos iguais perante a lei”.  Não é assim que funciona quando ela se trata de julgar um pobre e um poderoso.

Além desses termos esdrúxulos, soltamos muitas coisas que saem do nosso subconsciente ou inconsciente que aprendemos desde os tempos da infância com os nossos país. A maioria tem raízes culturais religiosas que estão entranhadas no nosso povo brasileiro.

Não dá para encarar com seriedade que a “voz do povo é a voz de Deus”. Os eleitores, por exemplo, votam nesses políticos ladrões, bandidos e corruptos e foi Deus quem os elegeu, quem mandou? Nos últimos 30 ou 40 anos, o Rio de Janeiro só deu governador envolvido com maracutais. Quer dizer que aí está a voz de Deus?

Tudo que conseguimos ou alcançamos, dizemos “graças a Deus”. Até ateu fala isso de forma maquinal. Fulano ganhou na loteria, “graças a Deus”. Percebeu que Deus está em tudo, até quando o time de futebol sai vencedor ou o jogador faz um gol. “Fiz um gol, graças a Deus”. Ele está até no dominó, na dama, no baralho e jogos de azar. O bandido diz graças a Deus quando executa sua ação com sucesso e ainda mata um bocado de gente.

O cara compra uma calça nova, um celular, um carro e supérfluos e sai por aí dizendo que foi Deus quem deu. Tem aquela antiga do pobre que tem dez filhos e fala que foi “assim que Deus quis”, ou “foi Deus quem quis”. “Seja o que Deus quiser” é bem corriqueiro.

 

 

 

A SAÚDE PEDE SOCORRO EM JACOBINA

Milhares de pessoas estão morrendo lentamente antes do tempo na Bahia e no Brasil nesses hospitais públicos que são verdadeiros atentados contra a saúde. Há anos que essa situação só faz se agravar e os governantes não tomam as devidas providências.

O nosso povo pobre conformado e desamparado não tem reagido à altura para mudar esse quadro de terror que se estabeleceu dentro das unidades hospitalares, mas muita gente, com toda razão, tem partido com agressividade contra profissionais do setor que estão sobrecarregados. Ninguém suporta mais tanto descaso!

O Hospital Regional Vicentina Goulart, em Jacobina, é um exemplo clássico dessa aberração desumana em se tratando da saúde. Na semana passada perdi minha irmã Margarida Macário de Oliveira Fernandes naquela unidade por negligência médica, falta dos cuidados básicos da medicina e por causa da precária higienização.

Poderia estar aqui desabafando por se tratar da minha irmã, mas todos que passam por ali são empurrados a um sofrimento além da conta, terminando em óbitos que poderiam ter sido evitados. Aquilo ali é um foco de infecções, sem falar que não existem profissionais suficientes para melhor cuidar dos pacientes.

Minhas duas sobrinhas, Leda e Vanda Macário, que por dias acompanharam sua mãe no leito de morte, são testemunhas vivas do que presenciaram lá dentro, especialmente numa enfermaria lotada onde era raridade aparecer uma enfermeira quanto mais um médico.

Em uma noite, embora já tenha citado este episódio em comentário anterior, Vanda disse ter vivido uma madrugada de terror quando a glicemia da sua genitora subiu para 500, isto por volta das 23 horas, e não tinha uma enfermeira para aplicar uma insulina para controlar sua agonia de quase morte. Somente por volta das três horas da manhã apareceu uma profissional para estabilizar a paciente. Dias depois desse acontecido ela veio a falecer.

Outro caso grave foi minha irmã ter passado praticamente um dia sem a alimentação líquida porque o canal por onde caia o alimento ficou bloqueado e ninguém viu. Por acaso, minha sobrinha percebeu que sua mãe não estava sendo alimentada pelo “tubo” e correu desesperada à procura de alguém para resolver o problema.

Como é que dentro de um hospital, pacientes, acompanhantes e até funcionários convivem dia a dia com sanitários entupidos? Foi o que minhas sobrinhas presenciaram dentro do Hospital de Jacobina, sem contar num bebedouro sem nenhuma higienização, de onde a água era servida aos pacientes em estado grave.

Fui visitar minha irmã quando estava na UTI coletiva e fiquei horrorizado ao ver a lotação de parentes no local. Todos entram de uma vez, após uma fila num banheiro apertado para lavar as mãos e colocar uma máscara. Não é preciso ser médico ou infectologista para compreender que só deveria entrar uma pessoa de cada vez, como precaução básica contra contágios de outras doenças hospitalares e de fora.

Na verdade, não existem os mínimos cuidados da direção para prevenir infecções, tanto entre os visitantes como entre os doentes na UTI e nas enfermarias. Pela perda do seu filho numa operação, uma senhora colocou toda sua raiva para fora e saiu quebrando equipamentos e deu vassourada num médico.

É um hospital onde até os profissionais correm risco de morte. Senhor governador e secretário da saúde, tomem providências urgentes antes que ocorra o pior. Afinal de contas, um hospital é para cuidar bem e salvar vidas humanas, e não o contrário.

LEMBRANÇAS DA QUERIDA PIRITIBA

Colégio abandonado

Todas as vezes que vou a Piritiba, na Bahia, Piemonte da Chapada Diamantina, para visitar parentes (alô Leucia, primo-irmão Roque que já se foi, Roquinho, Ronieri, Rocia e Dadai) e alguns velhos amigos, são momentos de recordações do passado de menino moloque e também de tristeza quando vejo que antigos prédios históricos foram derrubados por administrações desmemoriadas, para dar lugar a novos equipamentos.

Dessa última vez, por exemplo, na semana passada, fiquei chocado e doeu muito quando passei pelo colégio Almirante Barroso, onde aprendi a escrever e a ler as primeiras letras e fiz meu primário. A escola, praticamente centenária, por onde passou milhares de alunos, está abandonada, caiando aos pedações e servindo de entulhos e coisas velhas da Prefeitura Municipal.

Como um dos mais antigos filhos, faço um apelo à prefeita Leandra Belitardo Barreto de Andrade Lima, do Solidariedade para que preserve nosso patrimônio. Seu foco de campanha foi educação e desenvolvimento, mas está provando o contrário, senhora prefeita, e, por ironia, não está sendo solidária em termos de conservação e reforma de um colégio que fez em tem história. Dalí saíram grandes nomes. Pelo menos, faça jus ao seu extenso nome.

Como em outras cidades da Bahia e do Brasil, que fazem questão de acabar com o patrimônio cultural e arquitetônico, o prefeito passado cometeu o crime de colocar abaixo o prédio da antiga prefeitura, que teve como primeiro mandatário, o Dr. Carlos Ayres de Almeida (PSD), eleito em 3 de outubro de 1954.

Oestado O estado da primeira escola primária de Piritiba

No lugar, tão representativo para o município, foi construído um parquinho feio, sem muita utilidade, no final da popular “Rua dos Ricos” (naquela época nem era calçada). Confesso que evito olhar para o local. Assim eles vão destruindo nossa história com alegações de que o edifício estava condenado.

Vi outros pontos que foram descaracterizados, como um velho armazém de 100 anos onde na frente construíram uma lanchonete (sempre fechada).  Não me lembro bem o nome da rua, só que em sua antiga calçada sentavam os moleques, como eu, para prosear, contar causos e brincar de esconde-esconde, de Cauboy, pau de bosta, jogo de gude, jogar pião, chicotinho queimado e até brigar com a turma da Rua de São Domingos. Era a rixa entre a rua de cima contra a rua de baixo.

Recordo bem que, naquela época, a gente comentava muito sobre a seleção brasileira campeã da Copa de 1958, na Suécia, com Pelé, Garrinha, Didi e outros craques que não existem mais. O armazém, de João Vermelho, era mágico como ponto de encontro de todas as noites da cambada que se sujava na terra.

A usina a diesel sustentava a luz até 10 horas (antes dava três sinais de aviso), mas a gurizada ficava até mais tarde na escuridão, para furtar frutas nos quintais e fazer outras tripolias. Para mim foram tempos sagrados.

Lembro de uma vez, quando estava trepado numa árvore frutífera (manga ou mamão), a mulher acordou assustada e me chamou de ladrão tarado. Foi uma carreira só e pulei o muro como um gato. Fazíamos questão de realizar essas aventuras puramente por prazer e para contar vantagens para os amigos. Cada um armava da sua.

Bons tempos de furtar melancias, umbus e queimar mandaçais e arapuás.  Certa vez queimei um pasto ao tocar fogo na colmeia num galho de árvore e ainda tive o atrevimento de avisar ao dono que sua “manga” estava em chamas.

Meu pai, Mateus Macário, que tinha um terreno no Caldeirãozinho e era lavrador, nem sonhava saber dessas “loucuras” de moleque porque era pisa certa de reio, palmatória e cinturão. A repreensão era severa e fui pego com um batoque de matar passarinhos. Foi surra na certa. Bem que minha mãe me avisou!

Em Piritiba, morava na casa do casal Maricas e Nemézio para estudar, mas passava mais o tempo lendo gibis de Ritim-Tim, Zorro, Búfallo Byll, Tarzan, Roy Roggeres, Super-Homem e outros cauboys e “heróis” norte-americanos. Trocávamos essas revistinhas entre os colegas.

Queimava as aulas para tomar banho no Rio Maxixe onde aprendi a nadar. O que menos gostava era das férias porque retornava à roça para plantar mandioca, fazer farinha e vender na feira. Ficava com aquela vergonha quando aparecia um coleguinha de escola e me via vendendo na feira ao lado do meu pai. Sentia-me inferiorizado.

No período das aulas, me virava para ganhar uns trocados (tostões ou reis) para comprar gudes, gibis e ir ao circo quando aparecia na cidade. Pegava malas dos passageiros na estação ferroviária do trem de passageiros que ia até Senhor do Bonfim. Vendia lenha (quase não existiam fogões elétricos), água no “carote” transportada por jumentos e passava recados dos outros.

Na Praça Getúlio Vargas, ainda no chão poeirento, jogava baba quase todas as tardes, aquele de várzea com muitas pernas de paus, gritos, zoeiras, palavrões e brigas. Os moradores nos xingavam de moleques vagabundos e quando a bola caia dentro de um bar em frente, o dono ameaçava cortar a velha bola.

Primeira igreja presbiteriana de Piritiba

São muitas histórias e lembranças, como dos “doidos” Zabelê e Jegão. Eles viravam o “cão” quando os chamavam pelos apelidos. Quando eles iam passando, a meninada armava um esquema. Cada grupo ficava numa esquina diferente.  De uma ponta um gritava Zabelê e da outra Jegão. O casal se separava e aí era só correria e pedradas.

Existiam ainda umas famosas fofoqueiras em Piritiba que faziam sucesso, sabiam da vida de todos moradores e eram temidas por causa de suas línguas ferinas. Fosse nos tempos atuais da tecnologia das redes sociais, com certeza teriam milhões de visualizações e seguidores.

Casos e causos a parte, tristeza pela derrubada de antigos equipamentos, mas amo minha querida Piritiba que em tupi-guarani quer dizer sítio do junco, atualmente com cerca de 18 mil habitantes. Naquela década de 50, possuía uns três mil habitantes.

Em consideração por ter ali me criado e depois como sacristão da vizinha Mundo Novo, do vigário Nicanor, e de lá ter partido para Rui Barbosa, depois para o Seminário de Amargosa, para ser padre, jornalista em Salvador, resolvi doar todo meu acervo cultural de mais sete mil itens a este município, mas a impressão é que os administradores não gostam de cultura e não deram uma resposta definitiva.

Piritiba, com sua origem ligado ao povoado de Cinco Várzeas, foi fundado por João Damasceno. Foi emancipada em 27 de setembro de 1952 pela lei estadual 503. Depois o ato foi extinto e reanexada a Mundo Novo, em 1956. Somente em três de agosto de 1958, pela lei 1.014, foi definitivamente emancipada. No entanto, seu aniversário é comemorado em 27 de setembro.

AntigoarmazémdeJoãoVermelho Antigo armazém de João Vermelho 





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