julho 2024
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

:: ‘Notícias’

E QUANDO AS ÁGUAS BAIXAREM?

Quem assistiu ou ouviu cientistas, arquitetos urbanistas e especialistas falando sobre como foram feitas as obras de contenção contra as inundações em torno de Manhattan, de Nova Iorque, na foz do Rio Hudson, e em Amsterdam, na Holanda, deve ter percebido como nosso país está atrasado e primitivo neste quesito.

Infelizmente aqui não temos planejamento. A preferência é maquiar e improvisar, para que tudo continue no mesmo. A porta vai continuar aberta para outra tragédia, cuja responsabilidade é do próprio homem que, com sua avareza e ganância, vem destruindo o meio ambiente ao longo dos últimos séculos.

Aqui ainda estamos na base do concreto armado, comportas, bombas, sacos de areias improvisados, tubulações subterrâneas que terminam estourando com a pressão das águas e até aterramento de rios. São obras, conforme ficou constatado no Rio Grande do Sul, que não resolvem o problema das enchentes. Além do mais, não tiveram a devida manutenção ao longo dos anos, desde 1970.

Lá em Manhattan e Amsterdam foram abertos canais de escoamento no próprio solo em torno das cidades e parques, formando pequenos lagos e ilhotas onde a água é retida e não chega a atingir a área urbana. Ainda existem outros sistemas de drenagem que funcionam muito bem.

Quanto ao Rio Grande do Sul, o que vão fazer depois que as águas baixarem? Acredito que simplesmente vão colocar tratores e escavadeiras para limpar os entulhos das ruas, praças e avenidas. A pergunta que fica é: E quando as águas baixarem? Vamos esperar para ver.

As estradas, o aeroporto, as calçadas e pontes vão ser consertados e erguidos para normalizar o trânsito. Prédios receberão alguma reforma com novas pinturas. As casas e bairros serão reconstruídos nos mesmos lugares. Fazemos questão de não aprender a conviver com as catástrofes, como ocorrem até hoje com as secas no Nordeste.

No mais, tudo continuará no mesmo até que os fatos se repitam. Não é isso que sempre acontece no Brasil? Ah, vamos esperar também os casos de desvios de recursos e até de corrupção com as doações.

Fora as perdas de vidas humanas, entre 200 a 300 pessoas, as mais significativas e irrecuperáveis para seus familiares e amigos, não temos ideia dos prejuízos materiais que certamente serão incalculáveis, como também não sabemos o volume de recursos em dinheiro arrecadado das campanhas feitas pelo Brasil inteiro. Temos ainda verbas da União e do Governo do Estado. Juntando tudo isso, vamos ter bilhões de reais.

Somando as contas, entendo que o Rio Grande do Sul terá recursos suficientes para contratar os melhores arquitetos e engenheiros urbanistas, no sentido de elaborar projetos semelhantes aos que foram implantados em Nova Iorque, Amsterdam, na Holanda, e em outros países desenvolvidos.

O DIÁLOGO INTERROMPIDO

Da forma um tanto agressiva como os movimentos negros, feministas, LGBTs  e mais colocam a questão e o tema em debate, como se fosse uma guerra aberta declarada contra  todos os outros, ao invés de unir, no sentido de que todos sejam iguais e merecem respeito e consideração, está cada vez mais dividindo, criando ódio, intolerância e separação.

Alguém, a esta altura deve estar a perguntar aonde eu quero chegar? Primeiro, eu peço liberdade para passar e expressar meu ponto de vista. Segundo, que não seja logo sentenciado e linchado pela caravana enfurecida. Terceiro, que o diálogo em nosso país, nos últimos anos, foi interrompido, e muita gente boa evita falar sobre determinados assuntos para não ser logo taxado de racista, machista, misoginista, homofobista ou outros istas. Não é impondo que se conquista uma sociedade igualitária e justa.

Uma coisa é a pessoa, e são muitas, declarar e praticar o racismo, o machismo ou homofobismo, outra é dar sua opinião como esses problemas vêm sendo postos com rancor e revanchismo. Muitas falas dão um tom acintoso, como se dissesse agora é a vez de nos vingar e partir para violência. Com minha idade, já tomei muitas porradas na vida e não é mais uma que vá fazer diferença.

A escravidão de 350 anos nas Américas e no Brasil, principalmente, foi abominável, mas a humanidade atual não é culpada para ser colocada no tronco, nem ser crucificada. Nas novelas atuais, a Rede Globo (sempre teve DNA burguês), para conquistar sua audiência como defensora das minorias, está se aproveitando disso e enveredando pelo ridículo equivocado, injetando mais veneno.

Os grupos LGBTs têm todo direito de sair às ruas, praças e avenidas e realizarem suas marchas, mas não precisam agredir religiões e se expor de maneira escandalosa. Sabemos que o Brasil é um país conservador religioso e não vai se mudar isso de uma hora para outra jogando pedras e flechas para todos os lados. As coisas podem ser muito bem colocadas de forma respeitosa.

E, por falar em respeito, entendo que todos devem ser respeitados, não somente o idoso, a criança, a mulher, o negro, o homossexual, o portador de necessidades especiais. Assim como o homem não deve e não pode ser agressivo conta a mulher, a recíproca é verdadeira.

A mulher também não tem o direto de pôr o dedo em riste contra o homem. Tanto quanto os homens, conheço mulheres autoritárias e manipuladoras que acham que podem ser assim porque sua categoria foi há anos subjugada e submissa. Não é assim que a banda toca. É um pensamento enviesado e torto.

Em minha opinião, o respeito vale para todos. Não estou aqui entrando na abordagem dos homens que batem e matam mulheres por ciúmes ou outros motivos. Isso é altamente condenável e deve ser combatido.  Estou me referindo a atitudes e comportamentos desses movimentos que, no lugar de abrir o diálogo, só fazem interromper.

Não se deve destilar ódio do passado para aqueles que vivem no presente. Nessa toada, ao invés de curar e fechar as cicatrizes, a raiva só faz abrir mais as feridas. Tem gente que já traz, ou guarda consigo ao lado, uma bolsa de veneno para jogar na primeira discussão que lhe desagrade e não esteja dentro do seu politicamente correto.

Infelizmente, o diálogo está interrompido e atravancado. Existe um patrulhamento ferrado onde milhares evitam falar para não ser mal interpretado e rotulado como racista, machista e outras coisa horríveis.

Hoje não se pode ter um debate aberto mais acirrado com certas categorias que foram injustiçadas ao longo dos séculos, senão você será processado no rol da questão de gênero. Você está impedido, por exemplo, de dar sua posição sobre as cotas, como se fosse uma coisa absoluta e intocável.

Esse caminho da revanche, do julgamento precipitado e do dividir vão nos levar a algum lugar de reconciliação? Não existe essa de fala, de arte, de literatura e consciência diferenciadas, de acordo com a cor da pele ou de gênero.

Existem expressões culturais diferentes, como nos ritmos musicais. Respeito quem tem o ponto de vista ao contrário, mas sem essa de agressões e rótulos. Não sou gado para ser ferrado. No lugar da esperança, criamos o medo um do outro. No lugar do diálogo, optamos pelo monólogo. No lugar do debate saudável, a agressão e o ódio.

Na minha cabeça e leitura, as pessoas têm o direito de discordar dos programas “assistencialistas” do Bolsa Família e outras políticas públicas, da união do casamento entre gays, mas não podem sair por aí espalhando sua raiva canina. O outro lado, também não. Todos têm o direito de criticar os governantes, com responsabilidade, sem lançar mentiras e ofensas infundadas.

 

A TRAGÉDIA QUE UNIU POBRES E RICOS

Os abrigos ou acampamentos improvisados para acolher os mais de 70 mil desalojados no Rio Grande do Sul, vítimas das enchentes, mais parecem “campos de concentração” em tempos de guerra. Essa tragédia terminou por unir pobres e ricos porque todas as classes foram atingidas.

São as mudanças climáticas do aquecimento global que já não estão mais fazendo distinção de categorias entre pobres e ricos, diante do tamanho da catástrofe, até agora a maior da história do estado, e porque não, do Brasil.

Se as obras do dique, que foram construídas em Porto Alegre nos anos 70, há mais de 50 anos, tivessem recebido constantes manutenções por parte do poder público ao longo desses anos, talvez as inundações não tivessem tomado tais proporções na capital. Quem avalia isso são os especialistas e engenheiros.

Mais de 100 mortes e mais de 100 desaparecidos são os resultados desse drama até o momento em se tratando de seres humanos, sem falar de animais silvestres e domésticos. Em termos de prejuízos de bens materiais, mais de um milhão foram alvos dessas enchentes, incluindo pobres e ricos.

E quando as águas baixarem (não se sabe quando) e tudo for limpo, o que os governantes (federal, estadual e municipal) vão fazer para que catástrofe como essa não mais se repita? Não espero muita coisa em se tratando do Brasil, um país que não é sério e não tem planejamento.

De acordo com profissionais em questões de mudanças climáticas e levando em consideração de que já estamos em pleno aquecimento global, os diques, comportas e locais de bombeamento das águas devem ser reforçados e ampliados na capital.

Ainda conforme esses técnicos, além de outras medidas que carecem de ser tomadas como forma de prevenção, as cidades dos municípios mais vulneráveis às margens dos rios e bacias devem receber obras de proteção; o canal na Lagoa dos Patos, que faz ligação com o mar, precisa ser alargado; e casas e bairros destruídos pelas enchentes não podem ser mais erguidos nos mesmos locais.

A expectativa é como os órgãos governamentais em geral vão proceder e avaliar os estragos quando as chuvas e tempestades passarem. As pessoas vão reconstruir suas casas nos mesmos lugares? Os governos vão ressarcir os prejuízos de particulares que foram vítimas da irresponsabilidade deles? Empresa e indústrias erguidas em terrenos inapropriados vão ser removidas? Acho que já assisti esse filme.

A ENGANAÇÃO DAS VERBAS, A FALTA DE INFRAESTRUTURA E AS IRONIAS DA VIDA

O governo federal está anunciando a liberação de bilhões de reais para socorrer as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul Grande do Sul. Tudo não passa de um marketing político. Acontece que boa parte dos recursos se referem à antecipação do Imposto de Renda, de parcelas do Bolsa Família e do Seguro Desemprego, prorrogação de débitos fiscais, retirada do FGTS e coisas semelhantes.

Considero isso uma tremenda enganação e uma propaganda demagógica porque, se for analisar, o governo não está tirando do Tesouro, mas antecipando um dinheiro que já pertence ao contribuinte por direito ou vai ter que pagar mais tarde no caso de imposto.

Além do mais, trata-se de uma grana que muitos já estavam planejando para realizar um sonho ou comprar alguma coisa lá na frente e não gastar agora. É um recurso que o indivíduo vai receber no momento para cobrir prejuízos imprevistos que teve com as inundações e irá lhe fazer uma grande falta meses depois.

Antecipar, por exemplo, 13º do salário do trabalhador, seja funcionário público ou do setor privado, é um grande engodo e ilusão.  Como a maioria dos brasileiros já vive com suas finanças apertadas, no momento ele sente aquele alívio, mas quando chega no final do ano a pessoa vai perceber que fez um mal negócio. Aquele dinheiro é como se fosse uma poupança.

Nas catástrofes e nas tragédias, os governos em geral sempre usam desse método e saem numa boa na fita política porque os brasileiros não param para refletir que é uma enganação. Na verdade, eles só estão adiantando uma verba que já é por direito da vítima.

Por sua vez, segundo pesquisa de uma empresa do ramo, os entrevistados apontaram que a falta de infraestrutura, de responsabilidade dos governos federal, estadual e municipal, foi a maior culpada pelas inundações no estado do Rio Grande do Sul (também em outros estados).

Portanto, pela lógica, a União, o estado e o município é que deveriam arcar com os prejuízos que as pessoas sofreram com as enchentes, no caso específico do Rio Grande do Sul, e não antecipar o dinheiro que já é do seu dono.

Por fim, os mais antigos diziam que a vida dá voltas quando se referia a alguém ingrato que fazia algum mal para seu semelhante e depois terminava recebendo o troco, ou, na maioria dos casos, tendo a mão estendida exatamente daquele que foi ofendido.

Sei que não é momento para fazer tais comentários, mas os nordestinos que sempre são vistos com desprezo e até são xingados pelos sulistas como analfabetos, preguiçosos e ignorantes, agora estão dando suas respostas em forma de bondade e solidariedade, enviando toneladas e toneladas de produtos para os atingidos das enchentes. É a volta que a vida dá. Não desejamos tragédias para ninguém.

 

 

VIVENDO DAS PALAVRAS

(Chico Ribeiro Neto)

“Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã”.

(Versos iniciais do poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade).

Pior do que o patrão era o chefe do Departamento Pessoal. Se ele achasse uma brecha, descontava 11 centavos do seu contracheque. “Foi o dia em que você bateu o ponto com um minuto de atraso”.

Jornalista nunca gostou de bater ponto. Um absurdo cobrar que um repórter bata entrada e saída. Você não pode largar uma entrevista às 13 horas dizendo que precisa ir ao jornal para “bater a saída”. Não é porque o jornalista não goste do ponto, é porque não pode. A empresa tem que pagar hora extra ou um salário que a contemple.

Os repórteres são parecidos com os atores de teatro, que sabem que o ensaio tem hora de começar, mas não tem hora de acabar. Jornalistas e atores trabalham com as palavras, e não há “luta mais vã”.

O Departamento Pessoal, com a modernagem, passou a se chamar de Errehagá, um pomposo nome. Num jornal em que trabalhei, quando fui demitido, o chefe do RH (um “fode mansinho”, como todos) me disse com sua voz aveludada: “O diretor mandou lhe dizer que quando precisar de alguma coisa é só ligar para ele. O jornal continua à sua disposição”. Sim, jacaré!

Num jornal aconteceu comigo um caso curioso, já narrado numa crônica antiga, mas que vale a pena repetir:

– É do jornal?

– É, sim.

– Quanto vocês pagam por uma boa ideia?

– Depende. Você manda sua ideia pra gente, o jornal analisa e, se aprovar, compra sua ideia.

– Aonde?! Depois vocês ficam com a minha ideia e não me pagam – e bateu o telefone.

Voltando ao Departamento Pessoal. O jornal convidou um excelente redator e o cara foi ao DP para fazer a ficha funcional. O chefe do DP folheou sua carteira profissional e viu anotações de emprego de “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Última Hora”, “Revista Manchete” e perguntou:

– O senhor trabalhou nesses lugares todos?

– Não, isso aí é mentira, eu falsifiquei tudo.

Para complementar a renda (jornalista em geral ganha pouco), trabalhei como redator num semanário onde ia duas vezes por semana. Entre outras atribuições, eu tinha que escrever sobre uma mulher de biquini (as fotos sempre eram sempre nas pedras do Farol da Barra) que ocupava a última página. O diagramador colocava as fotos da bunduda na página e me intimava: “Preciso de 15 linhas”. A mulher apareceu para ser entrevistada. Não leu nem “O Pequeno Príncipe”, e eu tinha que produzir suadas 15 linhas para fechar a página. Uma bunda nas pedras da praia e uma mulher sem assunto. “Luta mais vã”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

OS POBRES SÃO OS QUE MAIS DOAM E O AQUECIMENTO GLOBAL CHEGA AOS RICOS

OS CIENTISTAS SEMPRE AVISARAM QUE OS PAÍSES POBRES SERIAM OS PRIMEIROS ALVOS DO AQUECIMENTO GLOBAL, COMO VEM OCORRENDO, MAS O FENÔMENO TEM SIDO TÃO INTENSO QUE ESTÁ CHEGANDO A VEZ DOS RICOS, COMO AGORA NO RIO GRANDE DO SUL.

Se for colocar na ponta do lápis, os pobres e os trabalhadores são os que mais doam materiais e dinheiro para as vítimas das tragédias, como no caso mais recente das enchentes do Rio Grande do Sul. Até o momento, o Estado só entrou com o apoio logístico (forças armadas, corpo de bombeiros, polícia e outros órgãos) no socorro aos desabrigados e desalojados. Prometem injetar recursos.

Cadê os membros do Congresso Nacional, das assembleias legislativas, das câmaras municipais, dos ministros, inclusive do STF (Superior Tribunal Federal), do STJ (Superior Tribunal de Justiça), do STE (Superior Tribunal Eleitoral) e outros tribunais regionais que não dão exemplo à nação cedendo pelo menos um mês dos seus polpudos proventos (salários, verbas de indenização, de gabinete e demais penduricalhos), para ajudar os atingidos por esta anunciada catástrofe?

Como sempre, o negócio desses engomadinhos de papos politiqueiros e aparecer nas mídias, principalmente nas redes televisivas. Até o momento só aprovaram o decreto do governo federal de calamidade pública e liberaram algumas verbas das emendas parlamentares que não são deles, mas do contribuinte que paga seus impostos.

A partir de agora entra o processo burocrático para chegar o dinheiro do tesouro até as prefeituras. Alardeiam que vão realizar obras de contenção, de modo que tais inundações que, por certo virão por aí, não causem tantos estragos e mortes. Pelo que já vimos, não dá para acreditar nessa gente. O tormento não termina quando as águas baixarem. Muito pelo contrário! Logo vamos ter serviços inacabados, basta nosso jornalismo ser mais esperto e acompanhar os fatos no dia a dia, mas ele também comete seus pecados originais.

Com caras de bonzinhos de que estão muito abalados com o drama dos gaúchos, vejo políticos e até governante tirando sua lasquinha política da situação na entrega de doações com o chapéu dos outros. Daqui a alguns meses começam a estourar os atos de corrupção de alguns grupos inescrupulosos que tiraram proveito da desgraça alheia.

Será que após essa catástrofe humana, a maior da sua história no Rio Grande do Sul, a União e o próprio estado vão elaborar projetos consistentes de prevenção, como fizeram os holandeses e outros países na Europa? O mais provável é o desvio de verbas, não passando de limpeza das ruas, prédios e avenidas. Os pobres continuarão a sofrer as consequências.

Vão reconstruir estradas, pontes e cidades visando a prevenção contra as mudanças climáticas do aquecimento global?  Vão deixar de perfurar poços de petróleo, respeitar os códigos florestais, não desmatar, abandonar os combustíveis fósseis, reduzir as emissões de metano e parar de entupir o planeta de lixo?

O SÃO JOÃO GORDO DAS ELEIÇÕES

Para conquistar votos da massa, vem aí o São João gordo das eleições, com contratações milionárias pelas prefeituras de cantores e cantoras de músicas lixo do axé music, dos arrochas, das sofrências, das timbaladas, dos pagodes, dos sertanejos e outros ritmos que nada têm a ver com o nosso forró arrasta-pé, patrimônio imaterial nacional.

Muitos prefeitos, como Santo Antônio de Jesus, Jequié e de outros municípios já estão anunciando suas “altas” atrações. Vai ser uma competição acirrada de quem tem mais “bala na agulha”, isto é, grana nos cofres, para destruir com nossas tradições culturais. O interessante é que nessas épocas os milhões aparecem como num passo de mágica.

Lá vêm Wesley Safadão, Luan Santana, Ivete Sangalo. Bel Marques, Leo Santana, “boiadeiros” e “boiadeiras”, DJs que vão levar os gordos cachês e deixar os autênticos forrozeiros, especialmente os artistas da terra a ”ver navios”, com as merrecas sobras pagas meses depois, com muita luta e cobranças.

Se em anos que não existem eleições as prefeituras já fazem uma farra e uma lambança com o dinheiro público, cujos executivos e executivas sempre alegam não terem recursos para atender as prioridades (saúde, educação, saneamento básico), imaginem agora na boca das eleições! É o período da caça aos votos da ignorância.

Do nada saem os milhões para remunerar esses cantores com polpudas verbas de 200, 300 e até 500 mil por noite de lambadas e muitas mulheres rebolando nos palcos. Parece uma mágica, mas não é! É mesmo o dinheiro do nosso povo que, incauto e sem instrução, deixa ser engabelado pelo papo desses prefeitos, de que estão trazendo mais rendas e visibilidade para seus municípios.

Um outro argumento é de que: É disso que o povo gosta, o que no fundo significa um menosprezo para com a nossa população, de que ela aprecia porcarias, e não de música boa que fala das raízes da terra, dos costumes e dos hábitos nordestinos. O nosso forrobodó está sendo assassinado a cada ano que passa, não somente na música, como também na gastronomia, nas vestimentas e nos trejeitos.

Existe uma lei, se não me engano, inclusive da Bahia, que determina que os ritmos e os artistas do nosso rico forró sejam priorizados nas festas juninas, mas eles (os prefeitos) não só desobedecem como dão um jeitinho brasileiro de misturar algumas bandas forrozeiras nos intervalos desses megas-shows milionários.

Outros têm o cinismo e a safadeza de colocarem apresentações de quadrilhas, atrações de culturas locais e alguma coisa do nosso folclore em horários esvaziados do dia, como na parte da manhã ou da tarde. Os “pesos pesados” das lixeiras musicais, de letras pobres, de sentidos duplos e até machistas jogam nos horários nobres das noites, geralmente nas vésperas do São João.

Como se não bastassem esses arrastões assassinos contra o nosso forró, tão prestigiado e divulgado por todo esse Brasil a fora pela sanfona do nosso rei do baião, Luiz Gonzaga, ainda existem os cachês superfaturados, colocando empresas laranjas intermediárias nas negociações escusas e corruptas.

Com raras intervenções no cumprimento da lei, o nosso Ministério Público, a Justiça e outros órgãos fiscalizadores, lamentavelmente, têm sido omissos. A nossa sociedade, os artistas em geral e as entidades que defendem as nossas tradições também têm suas parcelas de culpa por essa devassa que fazem contra nossa cultura genuinamente nordestina.

Muita gente pergunta o que é cultura? Eu diria que cultura nesse país é acabar com a nossa tradição, nosso patrimônio histórico, nossos monumentos, nossas expressões orais, nossa memória e nossa história. O que estão fazendo com o nosso São João, por exemplo, é uma anticultura.

 

O USO PERVERSO DA TRAGÉDIA

Carlos Albán González – jornalista

“El jarrón malo no se rompe” (vaso ruim não quebra), dizia meu avô Ricardo, imigrante espanhol da província de Pontevedra.. Pois bem, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez procura tratamento médico-hospitalar, apresentando um edema na perna esquerda. Enquanto isso, seus seguidores se articulavam, utilizando a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, para divulgar notícias falsas, em prejuízo das ações de resgate da população.

Transferido para um centro médico mais adiantado em São Paulo, o ex-presidente, diagnosticado com um quadro de erisipela, luta contra uma bactéria do gênero estreptococo. Pelo menos, por alguns dias, na companhia dos antibióticos para combater a doença, ele deixa a cena política e não atrapalha o governo federal, que tem procurado minorar o sofrimento do povo gaúcho.

Sempre é bom lembrar que nos anos de governo do ex-capitão o Brasil sentiu os efeitos impiedosos de outro tipo de tragédia. O país perdeu cerca de 700 mil vidas para a Covid-19, e continua perdendo (são mais de 3 mil este ano). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 30% dessas mortes seriam evitadas se não houvesse um atraso por parte do governo federal na aquisição de vacinas.

Em Porto Alegre, Fernanda de Escóssia, diretora-executiva de Aos Fatos, plataforma de investigação contra a desinformação, revelou que as “fake news” estavam prejudicando o trabalho de alguns grupos de socorristas, como os barqueiros, que estão salvando as vidas das pessoas que moram nas ilhas do Rio Guaíba e da Lagoa dos Patos.

Os diplomados pelo Gabinete do Ódio, que funcionou no Palácio do Planalto no governo Bolsonaro, divulgaram que a Capitania dos Portos e o governo do Estado estavam multando os donos de barcos, muitos deles voluntários, que não possuíam habilitação.

O desmentido veio de imediato, assim como a informação de que o Planalto patrocinou o show de Madonna, no Rio de Janeiro. O ministro Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação  Social da Presidência, teve que procurar os jornais para informar que  o megaevento na Praia de Copacabana foi bancado por uma cervejaria e por um banco.

“Isso é muito cansativo. A todo instante temos que parar nossa assistência às milhares de vítimas desse desastre ambiental para desfazer as declarações de pessoas que zombam da vida humana, tripudiando sobre os mortos”, demonstrou Escóssia sua revolta em entrevista ao jornal “A Folha de S. Paulo”. O efeito dessas “fakes” é muito perverso, gerando ondas de pânico entre as pessoas que estão perdendo tudo que construíram.

Escóssia aconselha as pessoas a não se tornarem “inocentes úteis”, repassando conteúdos suspeitos. Na oportunidade, denunciou o que chamou de “monetização da tragédia”, ou seja, influenciadores sociais estão ganhando dinheiro com a divulgação das mentiras criadas pelos bolsonaristas. Nesse movimento de profissionalização das “fake news” estão engajadas as redes sociais e os financiadores, aqueles mesmos que apostaram e perderam no golpe do 8 de janeiro.

O Nordeste venceu

Na tarde de domingo, Bolsonaro, torcedor do Flamengo e do Palmeiras, confortavelmente instalado num leito do hospital, ligou a TV para assistir Botafogo x Bahia pela série “A” do Brasileirão. Nem precisou dizer para quem iria torcer. Vestiu a camisa alvinegra do clube carioca, na certeza, muito provável, de que o time nordestino seria esmagado no gramado do Estádio Nílton Santos. No começo da noite o humor de Bozó já não era o mesmo. Motivo: o Nordeste venceu.

Daqui da terra fico a imaginar a revolta do jornalista e escritor João Saldanha, vendo a camisa do Glorioso no corpo de um declarado simpatizante da ditadura militar de 64 e dos atos desumanos da tortura. Na condição de técnico da Seleção Brasileira, João Sem Medo desafiou um dos generais da ditadura, Emílio Garrastazu Médici, que forçava a convocação do atacante Dadá Maravilha. O desfecho da história todos conhecem.

Como agiriam hoje figuras históricas que vestiram o sagrado manto da Estrela Solitária. Cito alguns deles: Manga, Nílton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo e Amarildo. O melhor Botafogo de todos os tempos – de 1957 a 1964 – era o único time no Brasil que enfrentava o Santos de Pelé, de igual para igual, e base, juntamente com a equipe paulista, das seleções nacionais de 1958, 1962 e 1970, tricampeã do mundo.

 

 

AS FORTES ENCHENTES NO RIO GRANDE DO SUL E UM BRASIL DESPEDAÇADO

Asfaltos e pontes sonrrisais, barragens de barro, cidades construídas em terrenos inapropriados, falta de uma proteção consistente em locais de risco e destruição ao longo dos anos do meio ambiente contribuíram em muito para essa tragédia das enchentes de grandes proporções, nunca vista no Rio Grande do Sul.

Chamam todo esse drama de mudanças climáticas bruscas, ou interferência do El Nino, mas, na verdade, é a ação do aquecimento global que a humanidade não quer ver. A situação já está chegando ao ponto crítico que está atingindo os mais ricos dos centros de maior poder aquisitivo, os quais imaginavam que ficariam incólumes.

É hilária, triste, deprimente e primitiva a imagem de homens da defesa civil, se não me engano, colocando sacos de areia e tentando conter a força da água do Rio Guaíba na capital que teve uma boa parte inundada, inclusive todo centro histórico.

As comportas também não resistiram e, nessas horas, não há muita coisa a se fazer, só esperar e contabilizar os prejuízos e as centenas de mortos e desaparecidos. Todo país acompanha as cenas estarrecedoras, cuja responsabilidade maior é do próprio ser humano.

Entre as entrevistas, vi uma mulher culpar a natureza. A humanidade ainda não caiu a ficha de que a terra está em ebulição em decorrência de séculos de depredação do meio ambiente e de que já estamos vivendo em pleno aquecimento global, sem mais retorno porque o consumismo só faz aumentar.

O culpado por tudo isso, minha senhora, é o homem. A natureza apenas está dando a sua resposta pelas agressões sofridas há séculos. Sempre repito e comento que o Brasil era visto antigamente como um paraíso do mundo, sem terremotos, vulcões, tempestades, tufões, tornados e ciclones. Muitos desses fenômenos já estão aqui entre nós, especialmente no sul.

Em minha modesta opinião, digo que temos um Brasil, despedaçado, despreparado, sem estrutura e sem planejamento. Tudo é feito no improviso. Some a tudo isso a corrupção em todos setores, instituições e órgãos governamentais. Alguém aí acredita que depois de tudo haverá mudanças no comportamento preventivo?

Na maioria, as obras são superfaturadas e construídas com materiais de segunda ou quinta categoria. Bastam os rios subirem seus volumes de água para arrastarem pontes e abrirem crateras nos asfaltos, alagando tudo pela frente, principalmente casas feitas em locais inapropriados. Criam-se os gabinetes de crises, as estratégias de socorro e depois tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido.

Na capital gaúcha, por exemplo, nunca se preocuparam em levantar barreiras concretáveis mais altas para evitar uma invasão das águas das chuvas mais torrenciais como acabam de ocorrer. Depois é só limpar os estragos e tudo continua na mesma como se essa tragédia seja a única da história.

Quando acontecem essas catástrofes, como esta agora do Rio Grande do Sul, os governos estadual e federal, sem contar as doações das populações, gastam milhões e bilhões de reais que deveriam ter sido evitados se lá na frente tivessem feito as devidas prevenções, mas o Brasil não é de planejar, prefere a corrupção.

O povo mais pobre é o mais castigado, que fica desalojado e na dependência das campanhas de caridade, mas a intensidade dessas mudanças climáticas (secas, ciclones, tornados e outros fenômenos), provocadas pela ação perversa do ser humano, já está também chegando aos ricos, que devastam o meio ambiente, florestas e margens de rios para edificarem suas mansões.

O GALO CANTOU ERRADO

O feirante-tropeiro saia da sua roça todas as madrugadas de sexta para sábado em seus jumentos para vender sua farinha, mantimentos (feijão e milho) e beijus na feira da cidade. Tinha que chegar cedo para pegar os primeiros fregueses e não perder para seus concorrentes.

Como não tinha relógio e rádio em seu rancho, sempre se guiava pelo canto do velho galo para percorrer uma distância de cerca de 20 a 25 quilômetros e chegar no horário. Sempre dava certo no apressar dos passos e chegava à cidade ao clarear do dia, na barra dos primeiros raios solares.

Era um bravo trabalhador, de sol a sol, de chuva a chuva que ficou calejado com a seca e com a fome, mas era um zangão que não tolerava pilherias com sua pessoa e logo partia para uma briga.  Tipo do sujeito cismado. Era parecido com seu Lunga casca grossa, mas, no fundo, tinha um bom coração e ajudava muita gente necessitada.

Sempre confiou no despertar do galo da sua mulher, mas teve um dia em que o danado cantou errado. Foi sua sentença de morte. Deve ter tido algum pesadelo ou alguma raposa se aproximou do galinheiro. Quem sabe uma galinha não tenha lhe acordado com algum desejo.

Nessa noite de total breu, sem o luar, o guerreiro acordou apressado com o primeiro canto do galo e, todo avexado, mandou seu menino moleque pegar os animais no pasto. O tempo urge!  Não queria perder suas vendas e deixar de fazer uma boa feira.

Estava mesmo apressado e não parava de reclamar da vida dura que levava, como todo sertanejo nordestino, para ganhar o sustento da casa. A mulher com seu temperamento calmo e paciente, resmungou lá de dentro: “Êta homem doido! Esse galo cantou errado”!  Havia algo esquisito mesmo porque não se ouviu nenhum galo cantar naquelas bandas!

Colocou os arreios nos jumentos e as cargas de farinha, um saco em cada lado da cangalha, cada um pesando cerca de 50 quilos. Era uma viagem cansativa de uma estrada esburacada, com pedregulhos e ladeiras. Todo cuidado era pouco nas subidas e descidas. Quando chovia, às vezes tinha jegue que atolava nas poças de águas. Não é nada fácil a vida de um roceiro para manter sua sobrevivência.

Era um sofrimento e, por isso, tinha que sair cedo, mas nesse dia o galo cantou errado. O trabalhador rural percebeu isso logo que passou na porta do vizinho e ainda estava dormindo. Estranhou porque ele tinha relógio e também saia na hora certa.

– Esse miserável do galo cantou errado – desconfiou o roceiro que começou a cafangar e a xingar o dono do terreiro que lhe orientava em suas jornadas para a feira. Não parava de esbravejar e ameaçar que na volta ia botar aquele galo na panela para ele nunca mais cantar errado.

Ele e seu menino, o tropeiro mirim obediente ao pai e sempre calado para não levar uns tabefes, entraram na cidade ainda no escuro da noite, sem nenhum sinal do amanhecer do dia. Todo mundo ainda dormia em suas casas, nem um latido de cachorro.

Aquilo lhe deixou mais irado ainda e continuava a jogar praga no galo que cantou errado. Fomos os primeiros a entrar na feira. Arriamos as cargas nos couros e o velho sentou nos sacos com uma raiva danada.

Como sempre levávamos uma esteira e outros apetrechos na tropa, o menino aproveitou para tirar um cochilo. Demorou para o alvorecer do dia e aparecer os primeiros fregueses da sua farinha, de qualidade que era de primeira e tinha um diferencial da dos outros feirantes.

Era um produto feito no capricho, com aquele esmero, sequinho e com aquela tapioca por dentro. O comprador passava os dois dedos, como de costume, e saia aquele pó branco. Era a melhor farinha das redondezas.

Tudo foi vendido nas primeiras horas, mas o feirante ranzinza não esquecia do galo e disse que ia jogá-lo na panela quando voltasse para casa. Não tinha perdão.

O galo percebeu do sucedido e a dona lhe avisou que o patrão ia lhe tirar o couro. Todo cabreiro, o galo sabendo que poderia ir para a panela por ter cantado errado se meteu dentro do mato. Foi uma fuga estratégia e só retornou dois dias depois.

Quando o homem chegou soltando fogo perlas ventas, o galo, para não cair na faca, já tinha pulado fora e se picado para outros cantos. Se meteu nas capoeiras. Deixou a poeira passar e foi chegando de mansinho quando o seu senhor já estava mais calmo e esqueceu do ocorrido.

É aquela história: A pessoa pode fazer cem por cento certo, mas se errar no um por cento, ou até chegar aos noventa e nove vírgula nove por cento, não presta e é condenado. A vida no seu tempo real é sempre assim. O pobre do galo que o diga, pois por pouco não caiu na panela porque somente numa madrugada cantou errado.

 

 

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia