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:: ‘Notícias’

CAMPO GRANDE-PRAÇA DA SÉ, UM TRAJETO DE LEMBRANÇAS

(Chico Ribeiro Neto)

Republicar crônica é igual a café requentado, mas essa que reproduzo hoje, pulicada no jornal “A Tarde” em 22/8/1990, ainda conserva um bom gostinho. Vamos a ela:

Sem pegar o ônibus circular, mas andando no bonde da lembrança, faço um percurso do Grande Grande à Sé, uma trajetória de infância, amor e fé.

No Campo Grande vejo as tardes fogosas do Dois de Julho, quando as meninas recém-tomadas banho balançavam os rabos-de-cavalo dentro de meus olhos. Zezéu, um candidato, pertencia a uma turma do Campo Grande e um dia quase brigamos com eles. Coisa de turma de rua, onde qualquer assobio errado era motivo de chamar pra porrada.

Muita coisa ainda vem do Campo Grande, como as festas dançantes do Cruz Vermelha ou a cerveja no “Brasa”, mas já estou passando pelo Forte São Pedro, onde a feira mudou pro outro lado. Já não se tropeça mais em peixe, e foi ali uma vez que comprei carne de cavalo por carne-de-sol. Quando botei na frigideira espumou tudo. Vem a antiga Manon – onde se tomava um suco de laranja de madrugada, era um acontecimento – e chego perto da Mercês, defronte ao 239, velho pensionato onde cheguei com seis anos e acordava com os primeiros bondes. Dobrando uma esquina caía no Politeama, bom lugar pro “baba” e onde uma vez quase ganhamos pra “Escolinha”, time que tinha o futuro André Catimba, já catimbeiro.

Aproxima-se o Rosário, que, talvez por ser pequeno, sempre achei um trecho tranquilo. A maior lembrança do Rosário é a banca de maçã na esquina. Logo adiante, o Clube Comercial, de grandes festas, coração palpitante ao dançar com as primas que me ensinavam os primeiros passos. Festa de radiola, parou, tem que virar o disco.

Lá vem a Piedade. Um pouco antes dela, a Igreja de São Pedro, em cuja esquina comprava os “catecismos” de Zéfiro, um delicioso pecado mortal. A turma da Piedade, à qual pertencia meu irmão mais velho, Luiz, e eu nem podia chegar perto: “Vá pra casa que tá na hora”. Boa de briga, a turma da Piedade acontecia no clube Fantoches, mas aprontava mesmo era sábado de noite e domingo de tarde, na própria praça. Muitos da turma já eram conhecidos dos policiais: “Você de novo!”

Instituto Histórico, onde fazia pesquisas às 2 horas da tarde, morrendo de sono. Um pouco adiante, a loja das “Mil Meias”, um nome mais ou menos assim, e então a esquina da “Primavera”, sorvete da Kombi do sino. Exatamente defronte à Florensilva, do lado de cá, um murinho que sempre teve encanador.

Defronte ao Relógio de São Pedro a pensão de Dona Quinquinha, grande escadaria que nos levava em cheio a um quadro de Iemanjá. Eu já acordava no coração da cidade. Era escovar os dentes, descer e entrar no ritmo. Foi ali, perto do Relógio, que brilhou uma namorada de Carnaval.

Antes de pegar o caminho do São Bento, uma paradinha junto a um banco em volta da árvore. Ali ficava o velho que nos vendia pedaços de filme para olhar de monóculo.

Rua do Paraíso, onde trabalhei na Tipografia São Bento, dobrando folhas de missal, e depois o Ginásio de São Bento, onde fiquei cinco anos, sendo um do antigo quinto ano com “prova de admissão”. Vêm as imagens do ginásio: jambo roubado, tamarindo, o “baba” de tarde, a coca sorvida de um só gole e o quebra-queixo comprado na Avenida Sete para distrair a fome.

Desço a Ladeira de São Bento e sinto medo de cair no chão, empurrado pelos foliões do primeiro trio elétrico que vi. Já contaminado, fazer o balão na Carlos Gomes e depois voltar com o trio até os Aflitos, suado e feliz. O Campo Grande leva o Carnaval e a Carlos Gomes traz de volta. Antes, subíamos até a Sé.

Sempre pensei no dia em que aquelas bolas do Edifício Sulacap iam descer a Ladeira da Montanha. A lembrança do pastel chinês no início da Carlos Gomes e da “Winchester”, loja de armas, ambos destruídos para alargar a rua. A Montanha dos primeiros amores, o caminhão que servia comida na madrugada (grande lombo!) e os camelôs do peixe-elétrico. Poucos, na verdade, poucos mendigos.

Logo depois vinha o prédio de “A Tarde”. Ainda não sabia o trabalho que dava para produzir notícia e nem que um dia ia para dentro dela. Achava bonito aqueles caras de papel na mão e sempre agitados. Subo a Ajuda jogando as pernas devagar, escorregando nas lembranças. Aliás, ali sempre tinha um pouco de água escorrendo de algum lugar.

Lembro do primeiro ônibus “frescão” que a Vibemsa colocou e da rodomoça falando pelo microfone, lá na Vitória: “Senhores passageiros, bom dia. Os senhores estão a bordo de uma rodonave da Vibemsa que deverá fazer o percurso Barra-Praça da Sé em aproximadamente 15 minutos. Boa viagem!”. Você se sentia num Boeing.

Vejo a padaria onde comprava doce de jenipapo em tirinhas e vai chegando a Praça da Sé, Bar Brasil, Cine Excélsior, amendoim torrado com areia, laranja descascada, abará azedo, música alta e meu ônibus chegando.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

O NOSSO JORNALISMO PRECISA SER MAIS QUESTIONADOR E INVESTIGATIVO

O CONTEÚDO, A ÉTICA E A RESPONSABILIDADE COM A NOTÍCIA DEVEM ESTAR ACIMA DA TECNOLOGIA

Sou da velha geração dos anos 70 dos tempos da maldita ditadura de 1964 quando tudo era mais difícil sem a tecnologia da internet.  Do meado para o final dos anos 90 surgiu o computador ainda rombudo e lento. Tivemos que fazer as mudanças na raça, sem perder aquela pegada jornalística das entrevistas do olho no olho. A partir dos anos 2000 para cá, fomos sendo engolidos pelos avanços do e-mail e das redes sociais, tornando o fazer mais fácil onde o profissional passou a morar mais na redação que nas ruas.

Sou dos idos da era analógica dos rolos de filmes de 36 chapas, da máquina de datilografia, do teletipo, da impressão a quente, do revisor, do copidesque, do telefone fixo, das fontes em off, das redações barulhentas onde um jogava papel no outro e botava esporas nos sapatos dos amigos, dos telex vagarosos onde as fotos vinham pontilhadas e sem nitidez, do diagramador  de régua e compasso, do editor que criticava o repórter e mandava refazer a matéria, mas se tinha mais conteúdo, espírito investigativo e questionamentos, regidos pelo básico do por que, do quando, do onde no sentido do bem informar o público leitor ou ouvinte.

Com os avanços tecnológicos de hoje onde o clicar dos sites (Google, Yahoo, Wikipédia e outros tantos), e não mais dos livros, lhe dão respostas e informações rápidas (às vezes deturpadas e limitadas), o entrevistador e o entrevistado ficam em telas próximas de cada lado, mas distantes um do outro ou nem se veem nos zaps, faces e instagrams. O nosso jornalismo ficou mais insosso e morno, um tanto preguiçoso, cheio de boletins de ocorrências e menos empolgante.

Com raras exceções, não é mais aquele jornalismo provocador e investigativo como antigamente, mas do amém. Fico a refletir que as televisões estão sempre mudando seus cenários de apresentações (dizem mais bonitos e interativos nas dimensões 3d), os impressos transformando seus visuais gráficos, os rádios aumentando seus raios de alcance (agora estamos na onda do podcast – nada de diferente), mas pouco se comenta sobre o reforço do conteúdo, das matérias mais completas e comprometedoras com o povo. Infelizmente, hoje confundimos muito o papel do jornalista e do entrevistado.

Existe uma cumplicidade entre as partes, e o repórter, operário da notícia, parece ter esquecido de se colocar no lugar da população, o que ela quer saber, principalmente nas perguntas que deixam muito a desejar. Fico estarrecido quando o jornalista diz ser grátis um show ou espetáculo pago pelo poder público. Não sei se é de propósito ou falta de consciência política. Isso não é informar. É desinformar e enganar o povo. Quem paga é o contribuinte que vai ou não vai ao evento.

Não basta a tela, jornal ou revista serem interativos, dinâmicos e coloridos como uma arara. As pautas e as matérias da nossa mídia em geral são requentadas e repetidas. Faltam criatividade e imaginação por parte dos chefes de reportagem e pauteiros (nem sei se existem mais). Quase não se escuta e não se lê mais matérias especiais de peso para serem premiadas.

A pessoa do outro lado tem que sentir aquela sensação de estar sendo representada numa entrevista. É aquela coisa de se dizer que o jornalista fez a indagação atrevida que todos gostariam de fazer, e não ficar com medo diante de qualquer autoridade ou passar a impressão de viés tendencioso e parcial, por mais que existam interesses comerciais e capitalistas da empresa de comunicação.

Precisamos de perguntas mais incisivas, objetivas e diretas (não se envolver emocionalmente com o entrevistado). Antes de mais nada, o jornalista tem que ser um cético. O repórter que está ali na labuta do noticiário do dia a dia, não é para emitir opinião, ser ancora, mas para provocar, e quem está do outro lado que faça sua interpretação, isto é, depois de ouvir as várias versões dos fatos, sem deixar buracos e dúvidas para o leitor ou ouvinte. Comentarista é uma coisa e repórter é outra. Cada qual na sua função.

Por outro lado, em decorrência do baixo nível educacional e cultural (pouca leitura) do nosso povo brasileiro, existe uma acomodação e alienação. Não há uma cobrança e crítica quanto a qualidade do nosso jornalismo, que caiu muito nos últimos tempos. Cada comunidade deveria ter o seu Conselho de Comunicação Social, para analisar o nosso jornalismo e apontar os acertos e falhas.

Ao contrário, há elogios baratos que me fazem lembrar daquela frase do cancioneiro Raul Seixas, de que “o jornalista quer é bajulação”. A vaidade, o pedantismo e o ar de superioridade são grandes males dos nossos coleguinhas. Aprendi na faculdade que jornalista não é notícia, nem vedete e pop-estar, só quando comete crime de irresponsabilidade ou morre. A liberdade de expressão está sendo banalizada.

Repito sempre que o direito à liberdade de imprensa acaba quando não se tem ética e responsabilidade. A partir disso, o profissional está sujeito a ser processado na justiça comum como um criminoso da informação. Nunca ache que é o sabe tudo e nunca se coloque como se fosse um quarto poder para julgar e sentenciar. Basta dos três poderes que usam e abusam de seus poderes.

Vejo hoje uma mídia (a maior culpa é das empresas) interligada financeiramente com o consumismo, com a oligarquia, com as elites burguesas e que mistura o comercial com o que é jornalismo. Uma coisa tem que ser separada da outra. Vejo um jornalismo que manipula a informação e, ao invés de informar, desinforma. Será que o jornalismo ainda é o cão de guarda da nossa sociedade?

PSOL DISCUTE CANDIDATURAS

Várias questões de ordem política e social foram discutidas pela Executiva Municipal do Psol de Vitória da Conquista em reunião realizada neste último final de semana, no Espaço Cultural A Estrada, onde seus membros definiram um calendário de encontros visando montar seu quadro de candidatos para o pleito de outubro deste ano.

Os nomes dos pré-candidatos serão fechados nas próximas conversações com o partido Rede, com o qual compõe uma Federação. A princípio existem sondagens para uma possível coligação com um partido, para disputar o executivo municipal, mas nada está ainda definido. Tudo vai depender de uma decisão da assembleia geral entre seus membros.

Os trabalhos da reunião, realizada no último sábado (dia 06/04) foram abertos pelo presidente Ferdinand Martins, estabelecendo com pauta os informes, a Circular e a Resolução 2024 tiradas do Congresso Nacional do Psol, que tratam do partido e das eleições, o Regimento Interno e o calendário de reuniões ordinárias, sendo que a próxima ficou marcada para o dia quatro de maio próximo.

Nos informes, Ferdinand falou do novo diretório regional, eleito no dia 16 de março, composto de sete membros, numa demonstração de força do colegiado político em Conquista. Ainda no campo dos informes, o presidente fez referências ao caso do Acampamento Parque Imperial, na Amaralina, com quinze famílias, onde o Psol se fez presente nas negociações.

Ferdinand citou que o acampamento é um espaço destinado à produção de alimentos, atualmente com ordem de despejo por particulares. No entanto, a área está sendo reivindicada pela Prefeitura Municipal como sendo da sua propriedade.

Durante o encontro, os participantes fizeram algumas considerações a respeito dos contatos que vêm sendo mantidos com a Rede sobre as eleições, para definição das candidaturas orgânicas de vereadores e majoritária, no caso específico de Vitória da Conquista. Pelos cálculos preliminares, a partir das 23 cadeiras que vão ocupar a Câmara de Vereadores, cada partido da Federação poderá apresentar no máximo 12 pré-candidatos ao legislativo, obedecendo a lei de 30% para as mulheres.

A VELHA GERAÇÃO DE OURO E A NOVA DE PRATA, BRONZE OU ZINCO

La se foi o nosso grande Ziraldo, com 91 anos, jornalista, cartunista, escritor, poeta, compositor teatrólogo e muitas outras linguagens artísticas (multiartista), mais um dos representantes da velha geração de ouro das décadas de 50, 60 e 70, que fez florescer nossa cultura, transbordou conhecimento e saber, protestou, criticou e denunciou as arbitrariedades (ditadura civil-militar de 1964) em busca da liberdade e contra a opressão.

Ziraldo era mineiro de Caratinga, região leste de Minas Gerais, criador de “O Menino Maluquinho” e da revista em quadrinhos “A Turma do Pererê”. Era cartunista desde o início da década de 1950 e graduou-se em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1957.

Seu livro “O Menino Maluquinho” virou série televisiva. Sua primeira obra literária foi “Flicts”, lançada em 1969, cujo personagem se sente isolado por não se encaixar nas cores do arco-íris. Ele chegou a ser tema de dois desfiles de escolas de samba, “Nenê da Matilde”, em 2003 (São Paulo) e “Tradição”, no Rio de Janeiro

Estamos agora numa geração da era tecnológica dos meios de comunicação, dos aparelhos e máquinas sofisticadas, das fakes News, da inteligência artificial, um tanto superficial que praticamente não ler (nem todos), que só pensa em ganhar dinheiro, desprovida de conteúdo.

Para esta eu a chamaria de prata ou bronze. Outra geração está vindo a reboque das vilirações dos besteiróis, que são as crianças, adolescentes e jovens que temo ser a de zinco e latão, pelo baixo nível educacional, refém do celular, das inúteis redes sociais dos seguidores e manipulada pelo alto consumismo.

Sobre a saudosa geração de ouro, que talvez nunca mais surja outra igual na história da humanidade, especialmente brasileira, muitos estão partindo para o além, deixando seu rico legado, mas também deixando um vácuo pelas suas profundas obras publicadas, pelo seu senso humanista, enfrentamento, muita leitura e sabedoria.

Pelos tempos atuais de superficialidade, principalmente nas artes e no vazio do conhecimento geral, arriscaria o palpite de afirmar que essa geração de ouro dos movimentos sociais e políticos (anos 60), das transformações, das quebras de paradigmas, da rebeldia cultural, é insubstituível.

Muitos estão dando adeus, mas se tornando eternos, gênios e atemporais. Outros ainda resistem e estão entre nós, como Gil, Caetano, Tom Zé, Zé Ramalho, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda e tantos mais que lidam na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na área filosófica e do pensamento crítico.

Destacaria que essa geração construiu a efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70, onde o ler estava acima do apenas estudar para ter um diploma e ganhar uma vaga no mercado capitalista. Não é questão de saudosismo, mas jorrava humanismo, militância política e marchava, não com armas na mão, mas com suas lições de vida. Como fala a canção de Vandré, sabia fazer a hora e não esperava o acontecer.

Era e ainda é uma geração onde filho respeitava pai e mãe, reverenciava o professor nas salas de aulas, considerava e ouvia os conselhos dos idosos e, acima de tudo, tinha uma formação de caráter, ética, honestidade, princípios, garra e visão humanista. Não esta nova que inverte e confunde os valores entre o certo e o errado, o normal e o anormal, onde não mais conta a meritocracia e a capacidade.

Se tivéssemos o espirito cultural e religioso das tribos africanas, fixaríamos para esta velha geração, que está atravessando o rio para a outra margem, através do barqueiro, o ritual da ancestralidade, para sempre estarmos escutando seus ensinamentos nos momentos mais difíceis das nossas vidas e da própria nação.

O RETORNO SOFRIDO NUMA EMPRESA DE ÔNIBUS QUE JÁ DEVERIA ESTAR FECHADA

Para pagar minha língua, ou “nunca fale que dessa água não beberei”, disse que nunca mais entraria num carro da viação Novo Horizonte, mas aconteceu quando nosso veículo logo na ida para Goiás deu problema em Igaporã, entre 10 e 11 horas da manhã do último dia 15 de março passado.

Resolvemos prosseguir viagem para Anápolis e só tinha a Novo Horizonte e a Bahia Central que é da mesma companhia, saindo de Guanambi. Um monopólio que não deveria haver. Linha de ônibus entre municípios e estados mais parece demarcação de território de traficantes de drogas e armas.

Nem precisa aqui narrar com detalhes o sofrimento que passamos das 18 horas (ficamos do final da manhã e toda tarde na cidade) às 8 horas da manhã do outro dia dentro de um ônibus velho com sua vida útil ultrapassada, barulhento e com poltronas defeituosas, sem falar no mau cheiro do sanitário. Foi um teste para os fortes, ainda mais na minha idade e para o problema de coluna da minha esposa Vandilza. Mesmo assim, encaramos a jornada.

Como se diz no popular, uma barra pesada com paradas em todos os pontos desde povoados a cidades, sem contar o medo de ficarmos na estrada. Felizmente chegamos são e salvos em Brasília (completamos a viagem para Anápolis de carro), mas foi uma aventura e tanto. Coisa de louco, mas o pior nos aguardava que foi o retorno de Brasília, das 20 horas às 11 horas da manhã até Igaporã, na Bahia.

Muita reza e coragem para encarar uma empresa administrativamente desorganizada, bagunçada, veículos velhos, sem a devida manutenção e que sempre terminam ficando nas estradas, quando não acontecem acidentes fatais, como o mais recente perto de Potiraguá, com cinco mortes. De Anápolis, e Goiânia, passando por Brasília, não existe outra opção.

Pelo péssimo aspecto dos carros, se este país fosse sério e existisse fiscalização isenta, a Viação Novo Horizonte já deveria estar fechada há muito tempo.  Conheço bem seus problemas desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, em 1991, e fiz coberturas jornalísticas de dezenas de ocorrências em razão do não cumprimento dos trâmites recomentados pelos órgãos de transportes.

Bem, partimos de Brasília no mesmo ritmo e na picada que foi a vinda, confiantes que tudo iria dar certo. Chegamos aos trancos e aos barrancos com o ônibus com defeito até a cidade de Possi, ainda em Goiás, por volta de duas horas da manhã, num ponto de apoio cavernoso da empresa.

A única lanchonete aberta era toda fechada de grades e só uma menina atendia, sinal de que a coisa ali era “boca zero nove”, com pessoas mal-encaradas, bêbadas e drogadas. Os passageiros começaram a reclamar de que estávamos àquela hora da madrugada no meio de uma rua deserta e perigosa.

Criticamos a falta de organização da Novo Horizonte, do veículo velho para continuar rodando longas distâncias e o próprio motorista teve que concordar conosco. Só me restou tomar um cafezinho frio intragável da lanchonete de grades, com receio daquela gente ali um tanto suspeita.

Tentei puxar uma conversa com a atendente, mas não estava de bom humor, também, coitada, trabalhando naquela hora para ganhar uma merreca e ainda se expondo ao perigo de ser assaltada! Senti que não era bom ficar ali por muito tempo. O bicho podia pegar feio.

Depois de um bom tempo, apareceu um mecânico e consertou ou trocou a peça defeituosa do ônibus, garantindo nossa viagem, mas, àquela altura, ninguém mais confiava em nada. Eram mais de três horas da manhã, distante 30 quilômetros de Rosário, fronteira com a Bahia.

Cruzamos por Correntina, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana e, aos solavancos, esticados quase que imóveis nas cadeiras, demos sorte de chegar em Igaporã por volta das 11 horas da manhã numa viagem hercúlea, mas que valeu a pena pelo conjunto da sua obra.

“PRAÇA DOS LEÕES” EM BOM JESUS DA LAPA

Mesmo cansados, ainda tivemos fôlego de retornar em nosso carrinho para dar uma espichada até Bom Jesus da Lapa e fazer uma visita à famosa gruta. Pernoitamos na cidade, cujo prefeito, no lugar de arborizar, para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, fez uma obra megalomaníaca, construindo, no centro, uma praça com altos arcos no estilo greco-romana, com esculturas de leões e deusas gregas.

Pode ter sido do agrado e orgulho da população, mas, em minha opinião, considerei um desperdício do dinheiro público pelo valor ali investido (não sei quantos milhões), que não deve ter sido pouco, sem falar na mania de grandeza. Imaginei comigo que o idealizador do projeto, no mínimo, deve ser um grande admirador do Império Romano. Eu chamaria de Praça dos Leões.

Racionei como meus botões: Já que derrubou as árvores no ponto mais movimentado da cidade, em torno de bares e restaurantes, para erguer aquela estrutura pesada de concreto, por que, então, não fez uma praça com esculturas religiosas em homenagem aos romeiros, numa honraria aos mais de 300 anos de romaria?

Como os antigos reis da Grécia e de Roma, talvez ele tenha pensado em deixar seu nome para ser lembrado na posteridade. São coisas inexplicáveis para o meu entendimento que acontecem nesses rincões do nosso Brasil.

Confesso que levei um susto quando me deparei com aquela praça e pensei que estivesse em outro país ou entrando no túnel do tempo greco-romano. Pelo menos foi feita a ampliação da esplanada da gruta (com os mesmos arcos e uma imagem do Bom Jesus), isolando o trânsito de veículos e oferecendo mais espaços para os romeiros.

Foram essas as nossas considerações numa viagem de conhecimento cultura, diversão e lazer pelo estado de Goiás onde fizemos paradas em Brasília, Anápolis, Pirenópolis, Goiás Velho, a capital Goiânia e outras cidades, numa visita prazerosa ao meu filho Caio, sua esposa Larissa, meu neto Samuel e outros parentes. Apesar dos percalços, foi memorável e digna de descrição. Aqui deixamos os nossos registros, críticas e elogios.

 

SALVADOR MEU AMOR

(Chico Ribeiro Neto)

Diz um velho ditado: “Na minha terra cego conserta relógio com luvas de boxe”.

Vindo de Ipiaú-Bahia, cheguei a Salvador em 1954 e ainda peguei o bonde. Eu tinha 6 anos, a cidade era grande e as pessoas maiores.

Salvador bonita, com gente dançando. Sentado na cadeira de lona que meu pai Waldemar colocou no passeio, vi na Avenida Sete os três grandes clubes desfilarem: Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso.

Meu tio Hugo precisava atravessar a Avenida Sete, mas a organização do desfile não permitia. Ele simulou um desmaio, parou o desfile e os amigos o carregaram até o outro lado, onde ele saltou e saiu andando calmamente, recebendo um monte de vaias.

Salvador do delicioso lombo num caminhão na Praça Castro Alves, de madrugada. Você subia uma escadinha e recebia seu prato maravilhoso para encerrar a noite.

Salvador do lindo Carnaval da década de 70 (“Não se perca de de mim/ Não se esqueça de mim/Não desapareça…), onde arranjei uma namorada que já tinha uma namorada que fez uma poesia pra mim que começava assim: “Para o amor do meu amor”.

Salvador do mergulho na praia do Unhão da minha infância. O maior desafio era nadar até avistar o Elevador Lacerda, e tinha que ir uma testemunha junto: “Chico viu o Elevador Lacerda!”

O pai do meu amigo trabalhava na companhia de aviação Panair do Brasil e deu a ele uma câmara de ar de pneu de avião ou de trator, não sei. Era uma bóia imensa que nós dois carregamos até a praia do Unhão. Duas filhas de um pescador, brotando beleza, pediram para dar uma volta com a gente. Fomos remando na bóia com as duas. Peitos, coxas e bocas boiando virados para o céu. Minha primeira lição de sexo. Vi estrelas e o Elevador Lacerda.

Teve um paulista que estava hospedado numa pensão perto do centro e foi conhecer Itapuã. Lá se encantou e tomou algumas doses de cambuí (frutinha redonda nativa usada de infusão na cachaça). Umas cervejas depois pegou o ônibus de volta. Foi orientado a saltar nas Mercês. Assim ele fez e perguntou onde ficava a Ladeira dos Desesperados. Ninguém  conhecia. Foi perguntando até a Praça da Sé até que  um iluminado matou a charada: a pensão ficava na Ladeira  dos Aflitos.

Um dia vi no Farol da Barra uma mulher abrir os braços para o mar e exclamar: “Obrigado, você é o meu melhor advogado”.

Obrigado, Salvador,  eu te amo de braços abertos para o mar.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

1o DE ABRIL, DIA DO ENGANO

Carlos Albán González – jornalista

Nos Estados Unidos, desde o final do século XIX, o burro e o elefante, tão reconhecíveis quanto o Tio Sam, participam das campanhas eleitorais, representando, respectivamente, os Partidos Democrata e Republicano. Em Vitória da Conquista, por iniciativa de um dos candidatos à Prefeitura nas eleições deste ano, animais das raças equina, caprina e bovina (os bens saudáveis) vão trocar a liberdade dos pastos por currais na área urbana da cidade.

Sem a menor experiência na política, a empresária Sheila Lemos viu de repente cair no seu colo a responsabilidade de governar o terceiro município baiano. Com poucos meses no cargo e orientada por ACM Neto, vice-presidente nacional do seu partido, o União Brasil, a prefeita conquistense elaborou o projeto de permanecer no cargo por mais quatro anos.

Educação, saúde e cultura não são convertidos em votos em cidades onde a maioria da população é desinformada; onde é mais vantajoso dar circo ao eleitor, como tem feito Bruno Reis, prefeito de Salvador,  que está praticamente reeleito.

Sheila e pecuaristas se reuniram na semana passada. A conversa durou pouco tempo. Governo e iniciativa privada anunciaram a realização, seis anos depois de sua última edição, da exposição agropecuária. A montagem dos estandes, currais, lojas, arena para rodeio, bares e restaurantes se dará no Parque Teopompo de Almeida. Por exigência da prefeita – estamos a poucos meses das eleições municipais – nos cinco dias (de 5 a 9 de junho) do evento os portões serão abertos ao público. Ônibus farão o trajeto entre os bairros e a Avenida Siqueira Campos.

“Estou alegre demais porque a exposição não é uma festa do agronegócio, mas da cidade”, confessou Isaac Figueira, presidente da Cooperativa Mista Agropecuária Conquistense (Coopmac), revelando que o convite partiu da prefeita. O custo para o município não foi divulgado, mas a entidade de classe orça a montagem do evento em mais de um milhão de reais.

A Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Vitória da Conquista representa para os governistas mais um veículo que irá impulsionar a candidatura de Sheila. “A Prefeitura sempre apoiou as iniciativas do agronegócio”, declarou Sheila, esquecendo que em novembro de 2018 a Coopmac recorreu ao seu antecessor Herzem Gusmão para promover a expo de 2019. A negativa do gestor prejudicou, entre outros, o setor cultural da cidade. O empresário de shows Ludson Gusmão lembra que já havia fechado contratos com artistas locais para se apresentar na feira.

A última edição da feira, em junho de 2018, movimentou negócios em torno de R$ 100 milhões e foi visitada por mais de 50 mil pessoas. A Bahia Farm Show, promovida pela iniciativa privada de Luís Eduardo Magalhães (município emancipado em 2000, com uma população de 107.909 habitantes), está entre os três maiores centros comerciais do agronegócio do país. Suas vendas no ano passado giraram por volta de R$ 8 bilhões.

Senhora prefeita, o povo quer saber o que foi reservado para a saúde, educação e cultura nesses últimos meses de sua administração. As migalhas, como sempre? Presente ao encontro com os dirigentes da Coopmac e na coletiva da imprensa, o coordenador de Cultura, Alecxandro Magno, entrou calado e saiu mudo. Os projetos elaborados pelo Conselho Municipal de Cultura nos últimos dois anos provavelmente foram engavetados.

Uma tragédia anunciada

Numa sociedade civilizada, onde os indivíduos compartilham valores éticos e democráticos, a urbanidade deve ser um procedimento a ser exercido pelos homens públicos. Pois bem, em novembro de 2023 a ministra da Saúde, Nísia Trindade (cientista social, pesquisadora e ex-presidente da Fundação Osvaldo Cruz), esteve em Vitória da Conquista. Não veio fazer política e nem o condenável assistencialismo. Veio trazer investimentos para o povo conquistense, desprovido de ações do município na área da saúde.

Como já havia feito nas visitas de outras autoridades estaduais e federais – Sheila odeia o PT e o presidente Lula, como revelam seus seguidores -, a administradora não foi ao encontro da ministra. Conquista vive hoje uma previsível – o alerta global foi dado pela Organização Mundial da (OMS) em janeiro do ano passado – crise sanitária.

O boletim epidemiológico desta semana mostra um aumento de 1.686% de notificações de pessoas com sintomas da dengue desde o início do ano. Foram registradas 18.925 notificações, com sete mortes. Postos de saúde municipais e emergências dos hospitais da rede privada estão sempre lotados. A seccional do SUS aqui tem 1.1 milhão de cadastrados e 700 mil ativos. O município tem 370.879 habitantes (Censo de 2022).

Houve um atraso na remessa das vacinas, não por culpa do Estado, como acusou Sheila, desmentida por seu secretário de Saúde, Vinicius Rodrigues. Medidas preventivas não foram adotadas pelas prefeituras, como, por exemplo, convencer os céticos de que devem se vacinar.

Segundo a OMS, 20% dos 700 mil brasileiros que morreram vítimas da Covid – não vamos esquecer os que perderam a vida em Manaus por falta de oxigênio – não estariam hoje sendo pranteados por seus familiares se não houvesse uma demora na aquisição de vacinas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL).

Além disso, campanhas contra os imunizantes, incentivadas pelo inelegível, com a participação inclusive de profissionais de saúde, se alastraram pelas redes sociais e pelos templos evangélicos. Esses milicianos virtuais são responsáveis até hoje pela baixa procura de qualquer tipo de vacina.

Sheila comemora os números que lhe favorecem da pesquisa de intenção de votos para prefeito divulgados segunda-feira. Na minha querida Galiza, na Espanha, o 1º de abril é chamado de Dia dos Enganos.

 

 

 

 

PELA CIDADE DAS CASTAS

Passar por Brasília, a cidade das castas dos três poderes, foi relembrar aqueles velhos tempos, há cerca de 30 anos ou mais quando por lá estive para realizar um curso pelo Ceag, hoje Sebrae. Se não me engano, estive outra vez para uma reportagem jornalística na área de economia. Ainda não era uma metrópole como hoje.

Não tem muito e tem o que falar de Brasília, palco dos maiores acontecimentos, construída pelo presidente Juscelino Kubistchek, o cigano boêmio, com a força braçal dos candangos nordestinos, pelos idos de 1955 a 1960, quando foi inaugurada. Nem precisa dizer quem foi o arquiteto e urbanista que a projetou com aqueles traçados diferenciados que só ele, o Oscar Niemeyer, tinha como nenhum outro no mundo.

Não era para ser uma metrópole arrodeada de suas cidades satélites. A projeção inicial era em torno de 500 mil habitantes, mas hoje, de acordo com o último censo do IBGE, ultrapassa dois milhões e oitocentos mil moradores, com a maior renda per capita do Brasil, graças aos grandes salários dos marajás do executivo, do legislativo e do judiciário.

Ali estão concentradas as castas milionárias (porque não falar bilionárias), ao redor do Lago Paranoá, num país onde a maioria é pobre e milhões passam fome. Temos o Congresso Nacional mais caro do planeta, que não serve de orgulho, mas de vergonha, que manobra os presidentes com seus cambalachos.

Bem, não vou ficar aqui falando de política, mas da nossa viagem, coisa bem mais prazerosa. Numa passagem, vindos de Anápolis, ficamos hospedados em Águas Claras, distante do Plano Piloto, no apartamento da minha prima Rocia e seu esposo Adailton, ou melhor, o nosso querido Dadai, poeta e músico.

Fomos bem recepcionados pelos seus filhos Isabela, Isadora e Pedro, além de amigos divertidos, e aproveitamos para fazermos aquela farra num sábado até o dia amanhecer do domingo. Como se diz no interior, colocamos o papo em dia entre uma conversa e outra, num clima fraternal que nos faz esquecer das mazelas dessa nossa nação, principalmente dos políticos corruptos.

Antes disso, porém, Rocia e Dadai nos ciceroneou por alguns pontos dos três poderes que há anos havia passado. Para minha esposa Vandilza, tudo era novidade. Estivemos no Memorial JK,  na Torre da TV Brasília,  no Centro do Índio, no Bosque de Águas Claras, entre as alas dos ministérios, do Congresso, os Palácios do Planalto e Alvorada, sem falar na imponente Catedral.

Sua torre arquitetônica em forma de mão para o alto parece pedir perdão pelos pecados cometidos pelos homens que governam Brasília e o Brasil.  É um lugar de contrição e reflexão por tudo que acontece ali de ruim. O que mais importa é que valeu o reencontro com nossos parentes e amigos. Foi uma festa e só alegria.

Por citar o Centro ou Museu do Índio (olha eu falando novamente em política), ao lado do Memorial JK, achei que merecia ser mais rico em termos de objetos, peças e outros utensílios, unindo culturas de todas as tribos do Brasil, de norte a sul, de leste a oeste.

Ainda dentro do tema, considerei ridículo, demagógico e hipócrita a cerimônia promovida pela Comissão da Anistia, entre primeiro e dois de abril, onde a presidência (não me lembro o nome) se dirige aos indígenas ali presentes para pedir desculpas pelas atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar de 1964 contra suas comunidades.

Essa gente é mesma cara de pau e aproveita da ingenuidade dos sofridos, discriminados e pisoteados para pedir desculpas, quando o correto seria uma reparação a todos brasileiros através da punição aos torturadores. Esqueceram de dizer que a anistia foi uma farsa montada pelos generais e aceita pelos nossos governantes, magistrados e legisladores.

Sem mais delongas, de lá tomamos rumo de volta para Nossa Vitória da Conquista, numa viagem complicada e cansativa, mas aí é outra história que vamos contar como final da nossa viagem, muito proveitosa no campo do conhecimento e do saber. Viajar é muito bom, e melhor ainda quando existem transtornos.

 

OS 60 ANOS DE UMA MALDITA DITADURA QUE DEIXOU MUITAS FERIDAS ABERTAS

Não é caso para comemorar e nem celebrar, mas para lembrar sua data em 1º de abril de 1964, que foi a ditadura civil-militar, para que nunca mais seja repetida. Como herança deixou feridas abertas na nação que foi a total impunidade contra os malditos torturadores que mataram e desapareceram com os corpos daqueles que lutaram pela liberdade.

Nesta data fatídica, o que mais ainda nos coloca em posição de indignação é que a nossa mídia de um modo geral, inclusive a da nossa terra conquistense, não fez nenhuma menção, nenhuma reportagem sobre o assunto, o que denota que temos hoje um jornalismo sem memória e história.

Condeno aqui também a postura das esquerdas (nem todas), especialmente do PT que governou durante mais de 20 anos o nosso país e se acovardou diante dos coronéis, delegados, oficiais e generais que cometeram suas atrocidades e depois retornaram para seus quartéis, seus palácios e suas poltronas confortáveis como se nada tivesse acontecido.

O Brasil foi talvez o único país da América do Sul que disse amém – e aqui incluo os três poderes – por não colocar esses criminosos no banco dos réus e não prendeu ninguém, ao contrário do que fez a Argentina, Uruguai e o Chile, somente para citar esses três hermanos. Na tese dessa dita “esquerda”, melhor deixar como está porque a condenação seria um ato de revanchismo.

Volto a afirmar que as feridas continuam abertas. É só alguém perguntar isso para as famílias que perderam seus entes queridos nos porões das torturas e outras que nem tiveram o direito de realizar seus ritos funerais porque esquartejaram, mutilaram e desapareceram com os corpos de seus parentes mais próximos, como fizeram com os guerrilheiros do Araguaia. Aqui mesmo em Vitória da Conquista tivemos o caso de Dinaelza Coqueiro.

Por falar em Vitória da Conquista, vem aí o seis de maio de 1964 quando a cidade, numa manhã frienta, foi cercada por cerca de 100 soldados do exército do capitão Bendock e simplesmente prenderam e cassaram o mandato do prefeito José Pedral Sampaio (teve seus direitos políticos cassados por 20 anos), eleito constitucionalmente pelo povo, se não me engano em 1962.

Essa operação (ocorreu o mesmo em Feira de Santana e Alagoinhas, na Bahia) durou pouco tempo, mas foi o suficiente para prender cerca de 100 dos nossos cidadãos. O mais grave é que o vereador Péricles Gusmão veio a morrer nas dependências do Batalhão Militar, segundo eles, um ato de suicídio, que não ficou totalmente comprovado. O professor Públio de Castro ficou nove meses presos (muitos foram levados para Salvador, inclusive o prefeito Pedral).

Tenho certeza que sobre essa data, quando a Câmara Municipal de Vereadores foi cercada pelas tropas do capitão e seus membros (nem todos) foram obrigados a cassar o mandato do prefeito, a nossa mídia vai passar “batida” e fazer de conta que nada existiu. Infelizmente, o nosso jornalismo de hoje mal cobre o factual ou registra os BOs (os boletins de ocorrências). Existe um monumento do escultor Romeu Ferreira na Praça Tancredo Neves em homenagem aos tombados baianos pela ditadura, mas a maioria desconhece.

Uma pena que nossos jovens em geral (existem poucas exceções) não sabem desse episódio cavernoso e vergonhoso que foi a ditadura civil-militar de 1964 (contou com apoio de civis e de muitas instituições, como da Igreja Católica) que exterminou com cerca de 500 brasileiros que se opuseram ao regime. Outros milhares foram presos e torturados.

É por essa mais criminosa impunidade da nossa história que vimos, até há pouco tempo, extremistas, negativistas, fascistas e nazistas saírem às ruas para pedirem uma intervenção militar, ou seja, outra ditadura dos generais. Tentaram um golpe em 8 de janeiro do ano passado.

Como essas feridas continuam abertas, nada nos garante uma tomada do poder pela força das armas, como queria o então ex-presidente capitão, que negou sua existência e ainda fez apologia a um dos maiores torturadores, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do Doi-Codi do II Exército (São Paulo), entre 1970 e 1974.

Não vou entrar aqui no âmbito mais profundo propriamente dito de como surgiu a ditadura de 1964 no Brasil, que, na verdade, começou com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961. Como João Goulart era o seu vice, por direito constitucional tinha que assumir a presidência, sem enfrentamentos, mas os generais se opuseram ferrenhamente, alegando ser ele da linha comunista, o maior inimigo da época.

A sociedade reagiu, tendo à sua frente os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul (Campanha da Legalidade e o Grupo dos Onze), Miguel Arraes, de Pernambuco e outras lideranças organizadas. Jango terminou sendo empossado, mas sob o regime parlamentarista.

Tentaram outra vez em 1954/55 quando Getúlio Vargas se suicidou, mas o general legalista Lott barrou. Eles ficaram armados na tocaia e aí conseguiram destilar todo seu ódio em 1º de abril de 1964 quando o golpe foi consumado e governaram com a mão de ferro por mais de 20 anos. O pior período, chamado era de chumbo, foi a partir de 13 de dezembro de 1968, com o AI-5, até 1974, final do mandato do general Médici.

É lamentável que a grande maioria dos nossos brasileiros nada ou pouco sabe sobre essa triste história, ao ponto de um estudante, depois de uma palestra de um historiador ativista a respeito do assunto, perguntar se tudo aquilo que ele havia narrado, aconteceu mesmo. Que essa maldita, nunca mais no Brasil!

UMA CIDADE BEM ESTRUTURADA

Duas cidades, dois olhares em estados diferentes. Do mesmo porte de Vitória da Conquista, cerca de 400 mil habitantes, distante 120 quilômetros de Brasília e 60 da capital Goiânia com vias duplicadas bem conservadas, base da força aérea brasileira, Anápolis é outra cidade do estado de Goiás bem arborizada e estruturada, principalmente em termos de saneamento básico.

Em minha visita, fiquei impressionado com o Jardim Botânico – lembrei do nosso Poço Escuro, tão maltratado e abandonado pelos governantes e de pouca visitação – um parque de muitas trilhas na mata com várias espécies de animais, fontes de água, limpo e com muitos locais de diversão e lazer para todas as idades. É aconchegante e acolhedor.

Outro local bem arborizado, amplo e com toda infraestrutura é o Bosque Ipiranga quase no centro da cidade e bastante visitado pela população. Deixa qualquer visitante confortável para apreciar suas belezas e atrações. Parques para crianças e outros equipamentos, com bastante água.

Quando faço comparação com Conquista não é no sentido de depreciação. Aqui também é um bom local para se viver e de boa qualidade de vida, mas ainda tem muita coisa para se fazer, como na área cultural, uma melhor e mais decente urbanização do Cristo da Serra, do próprio Poço Escuro e outros pontos da cidade, a terceira maior da Bahia.

A bem da verdade, o que tenho visto são serviços incompletos, do tipo maquiagem em épocas eleitoreiras para ganhar votos. Conquista tem muito por fazer para se tornar uma cidade turística onde o visitante possa ficar aqui dois ou três dias conhecendo os locais.

A Lagoa das Bateias não é somente fazer uma limpeza das sujeiras. É muito mais que isso.  Fora a Olivia Flores e outras avenidas, como a Juracy Magalhães, a única praça aprazível, bem estruturada e cuidada é a Tancredo Neves. Os museus regional e Padre Palmeira, não tem muita coisa para se ver. O outro de Cajaíba está abandonado e se acabando com o desgaste do tempo lá na Serra do Periperi. Não se trata de uma crítica negativa.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a Biblioteca Municipal Zeca Batista de Anápolis, no centro da cidade, bem mais equipada como centro de leitura, área para exposições de artes plásticas e outros itens culturais. Ao seu lado, a popular conhecida Praça do Avião.

Para o nível de Conquista, a nossa, lá naquele canto escondido do Conquistinha, perde longe. Até diria que é uma vergonha para nós conquistenses. Uma cidade não se mede apenas pelo seu avanço econômico e desenvolvimentista de prédios e construções industriais e comerciais.

Bem, retornando a Anápolis, para não me alongar, trata-se de uma cidade moderna e, ao mesmo tempo, bucólica. Até há pouco tempo ainda existia fazendas funcionando quase que dentro da cidade. Uma coisa inusitada. Hoje estão se tornando lotes para moradias.

Conheci, por exemplo, uma fazenda agrícola de plantação de soja encostada num bairro de classe média (não que seja um apreciador desse agronegócio depredador destinado somente à exportação de grãos para o exterior). Não vi favelas nas periferias, nem gente lhe abordando nas ruas como pedintes.

No entanto, um ponto falho em Anápolis é o sistema de transporte público, com poucos ônibus onde as pessoas demoram muito tempo para se deslocar de um local para outro. Aqui é melhor, mas ainda a necessitar muito de melhorias. O comércio aqui é mais concentrado no centro, com mais variedades e divisões  por segmentos, enquanto lá é meio espalhado e disperso.

 

 





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