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:: ‘Notícias’

NEGAÇÃO DA COR E OUTRAS COISAS

  – Por que esse negócio de perguntar sobre a cor das pessoas?  Esbravejou um usuário da unidade do CRAS VIII do Bairro Miro Cairo, que foi lá reclamar sobre o corte do seu auxílio. Um moço aperfeiçoado estava querendo saber o motivo de não está mais recebendo o Vale Gás há meses.

   Nas costas, o sujeito carregava uma jaqueta do aplicativo Uber e percebi que não era tão assim necessitado e carente. Pela sua aparência, bem trajado, não passava de mais um oportunista aproveitador de programas sociais. Disse que morava só.

  Aquilo me chamou a atenção e parei de ler para ouvir as conversas entre as atendentes e as pessoas que chegavam com suas reclamações. O que mais observei foi a questão concernente à cor do homem ou da mulher. Enquanto estive por lá, só uma pessoa assumiu sua identidade negra, sem pejo e com orgulho.

  Não que não tenha consciência dessa situação esdrúxula, mas confesso que fiquei estarrecido com uma senhora negra que trazia um filho nos braços. Seus cabelos não negavam sua cor e ela, simplesmente, sem titubear, respondeu que era branca. A funcionária olhou de soslaio e continuou seu trabalho.

  Aquilo me fez lembrar do censo do IBGE onde grande parte da população nega sua verdadeira cor, e a maioria prefere cravar a parda, mesmo sendo negra. Teve um rapaz negro que respondeu ser moreno.

  Isso é negar suas origens e está encravado na raiz do racismo, no sentir inferior aos outros quando não se é branco, como se a cor  fosse lhe dar melhor posição social. Essas atitudes contam também com a falta de educação escolar e cultura, para entender que devemos valorizar as nossas ancestralidades.

   A partir dessa simples observação, numa unidade do CRAS, de periferia predominantemente pobre, os fatos ali testemunhados nos faz constatar que os dados sobre cor da pele do homem ou da mulher no Brasil são falhos e não batem com a realidade.

   Essas posições nos fazem refletir sobre a questão da falta de instrução e cultura que leva a pessoa a negar sua verdadeira identidade. As escolas de hoje precisam conscientizar as crianças a valorizar e a assumir o que elas são, especialmente em termos da cor da pele.

    Para não haver constrangimentos desse tipo, como do beneficiário dos programas dos governos, que se irritou ao ser perguntado sobre sua cor, melhor que esse item sobre raça fosse retirado dos formulários das unidades voltadas à assistência social.

  Diante daquilo tudo – foi até uma manhã proveitosa em forma de aprendizagem sobre o comportamento do ser humano – escutei uma pérola da nossa língua portuguesa que há muito tempo não ouvia. Vez ou outra nos deparamos com coisas inusitadas. É a vida como ela é, como bem descreveu o escritor Nelson Rodrigues em suas crônicas.

Entre uma conversa e outra, uma atendente saiu com seu exibicionismo de, “entretanto, porém, todavia” bem postado. No momento dei vontade de rir porque achei fora do contexto e ali naquele ambiente não tinha pessoas cultas para entender aquele conjunto de conjunções adversativas, indicando ideia de oposição ou quebra de expectativa.

   Não resolvi o que queria porque tinha que receber apenas um salário mínimo da minha insignificante aposentadoria, para ser contemplado em meu pedido (muitos são beneficiados com seu jeitinho desonesto brasileiro), mas, mesmo com tanto sacrifício de ter acordado cedo, ganhei a manhã naquele laboratório inusitado de contrastes.

A “SUÍÇA BAIANA” E O “HAITI”

Devo ser burro mesmo! Demorei muito tempo para compreender o porquê de terem apelidado Vitória da Conquista de a “Suíça Baiana”. Havia muita coisa que não batia em minha cachola nordestina e terminei desvendando esse encantado mistério elitista e estilista.

Na verdade, deve ser em referência à Zona Leste onde a classe social é mais alta e possui melhor estrutura em termos de equipamentos nas áreas da educação, da saúde, da economia e da cultura.  As decisões políticas sempre partem de lá, a menina dos olhos dos prefeitos e políticos.

A cidade está dividida em duas pela Avenida Integração (a Presidente Dutra), ou Desintegração mesmo. A Zona Oeste, na boca do sertão catingueiro, é o “Haiti” pobre, separada da bela e desenvolvida “Suíça Baiana”.

A chamada “Integração” é como uma fronteira entre dois países, um dos primos ricos e o outro dos pobres. Poderia até colocar um Posto, ou Alfândega, no antigo prédio do Ibama (tanto que seja reformado), com a exigência de Passaporte ou Visto de entrada, com limite de permanência documentada.

– É, meu amigo, seu Visto aqui já está vencido. Precisa atualizar, mas vou deixar passar só esta vez – diz o guarda do Posto em tom de intimidação e desdém. Ainda interroga o que o moço (a) vai fazer do outro lado, se a negócio ou a turismo.

Na “Suíça” daqui é onde está localizado o maior PIB (Produto Interno Bruto) do município, com a concentração das maiores lojas e empresas de prestação de serviços, a Prefeitura Municipal e suas secretarias, duas universidades, uma estadual e outra federal, sem contar as faculdades dos ricos, o Centro Estadual de Cultura, o Parque de Exposições que agora sedia a festa do São João descaracterizado, dentre outros equipamentos de importância.

É lá também onde estão a praça mais bonita e bem cuidada, a Olívia Flores, o Candeias e adjacências, com seus bares, restaurantes e cafés mais chiques e caros, as adegas de vinhos, as livrarias, o Centro de Convenções Divaldo Franco, as rádios e os canais de televisão, os dois shoppings center, os melhores supermercados, o sistema financeiro bancário, a Biblioteca e o Arquivo Municipal, a Câmara de Vereadores, os dois museus que não são municipais, o Cristo da Serra do Periperi e os principais comitês partidários.

No “Haiti” do Oeste é bem visível a desigualdade social por metros quadrado, a começar pelos bairros mais periféricos e pobres, inclusive geradores de violência onde temos o Batalhão da Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. Os jardins são maltratados, predominando mais lixo e matagais de terrenos abandonados.

Também não é tanto assim cara pálida! Temos aqui algumas coisas de destaque, como o IFBA, o Espaço Glauber Rocha subutilizado, um hospital maternidade, a Lagoa das Bateias que há pouco tempo era só lama e esgoto, o Colégio Caic, o SESC, o Seminário dos Capuchinos, algumas avenidas como a Frei Benjamim, A Sérgio Vieira de Melo, a Paulista, a tradicional Feirinha do Bairro Brasil e a Feira do Rolo.

Como sou meio rebelde e o meu padrão não mais se adequava ao “país” dos endinheirados, fui expulso da “Suíça Baiana”, mas de ousado trouxe o Espaço Cultural e o nosso Sarau A Estrada para o “Haiti”, que continua firme e até vai realizar um evento do lado de lá. Estamos até solicitando o passaporte para nos apresentar na “Suíça” da Praça Nove de Novembro.

Agora me sinto em meu devido lugar e até realizado em ver de perto minhas origens agrestinas do Nordeste. A “Suíça” de lá tem mais uma cara sulista ou de centro-sul. Muitos até nem se consideram nordestinos. Ah, ia quase esquecendo de lembrar que a maioria dos estradeiros do sarau é da “Suíça” e atravessa a fronteira para as nossas noites culturais.

FERIMENTOS DO MENINO

(Chico Ribeiro Neto)

Aquele menino tinha a maior vontade de quebrar o braço, mas só conseguiu quebrar a cabeça.

Achava lindo braço na tipóia, todo mundo perguntando como foi e as meninas assinando no gesso .

Quebrar o braço tinha muito mais charme, um deles era ter que escrever e comer com a mão esquerda. “Dói?” , perguntava uma garota, enquanto outra queria saber como é que é pra tomar banho. Mas eu não tive essa sorte.

Jogando “baba” nos paralelepípedos da rua Gabriel Soare,s, em Salvador, o menino arrancava a cabeça do dedão, ralava o joelho ou o cotovelo nas acirradas disputas da bola.

Uma vez, o menino deu um “banho de cuia” (o atual “chapéu”) em “Mondrongo'”, gritou “viu, puta?” e foi imprensado no muro pela raiva do adversário. Ganhou a disputa da bola e também um grande galo na testa com a porrada na quina do muro.

Aí veio um corte no pé. “Géo Beleza”, de saudosa memória, tinha uma catraia, um pequeno barco a remo, e fomos da praia do Unhão até o Forte São Marcelo. Dentro do forte, naquele tempo abandonado e com muito lixo, pisei num fundo de copo bem afiado que atravessou a sandália japonesa (atual havaiana) e me fez um bom corte na sola do pé.

Com a minha camisa, amarrei o pé que sangrava muito e voltamos a remo até o Unhão.

Minha mãe Cleonice tinha pensão, um dos hóspedes era estudante de Medicina e disse que eu não precisava tomar pontos. Fez com muito esparadrapo o que chamou de “ponto falso” e estancou o sangue. Fiquei puto, pois queria mesmo era tomar pontos pra ter mais o que contar.

Tudo se curava com Merthiolate e alguns gritos do ardor do medicamento. Aí  a gente cresce e aparece o ferimento da alma, mais difícil de curar e pior do que um encontrão de “Mondrongo”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

UMA COPA SEM ESPETÁCULO COM UM FUTEBOL MECÂNICO-MONÓTONO

  Com a escassez de craques dribladores e inteligentes da cabeça, com a bola no pé – somente dois ou três nesta Copa – tendo em vista que os outros não passam de grandalhões centroavantes de quase dois metros de altura fazedores de gols, o nosso futebol perdeu seu espetáculo arte daquele gingado malicioso, “pra lá e pra cá”, confundindo os adversários. Cadê aquele futebol cadenciado e bonito de se ver, com lances e dribles estonteantes?

  Como apreciador dessa modalidade (já fui jogador quando jovem), o nosso futebol perdeu seu espetáculo, especificamente nesta competição de 2026, e se tornou uma prática esportiva mecânica-tecnológico de força física, de passes longos e errados, falta de domínio da redonda, sem falar de bolas que voam no ar e atravessam estádios.

  Nem vou aqui comentar sobre a seleção brasileira onde todos são do mesmo nível, com um pouco mais alto do Vinícius Júnior – o Neymar já se foi como último dos moicanos – porque não temos craques como naquelas épocas passadas. Na partida de ontem (quarta-feira, dia 24/06), duas falhas clamorosas do goleiro da Escócia ditaram o resultado. Pelo que já assisti, não me arrisco apontar as equipes finalistas.

 As seis últimas copas, esses elencos da “terra das chuteiras”, não mais me empolgam e não alimento ilusões, principalmente este que aí está. Não entro nessa onda da televisão exclusivista que tenta empurrar goela abaixo um futebol casca dura.

 Desde 1962 que acompanho as copas com grandes craques que foram desaparecendo e atualmente são raros, a contar nos dedos. No início era tudo pelo radinho de pilha, mas, mesmo assim era emocionante. Foi em 1958 que o Brasil perdeu o complexo de vira-lata, de inferioridade, carimbado por Nelson Rodrigues.

  No Brasil, os autores dessa reviravolta foram Pelé, Garrincha, Didi, Zagalo e tantos outros que vieram em seguida, como em 1970, com Tostão, Jairzinho, Dirceu, Rivelino, Carlos Alberto, Clodoaldo e o próprio Pelé. Tivemos ainda Sócrates, Zico, Falcão, Romário, Bebeto, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldão e outros que nos encantaram.

O tempo foi passando e o futebol foi deixando de ser espetáculo e arte, para ser um jogo mecânico e monótono, como nessa Copa de 2026. A impressão é que, de uns anos para cá, houve uma seca danada e acabou com a safra de craques.

  A FIFA (a Federação Internacional de Futebol) introduziu muitas mudanças, principalmente nas regras e ampliou o número de países participantes para dinamizar o esporte mais popular do mundo. Algumas transformações foram benéficas e outras polêmicas, como esse tal de VAR. O milimétrico impedimento deveria deixar de existir.

   No caso dessa atual, com mais nações, para ganhar mais dinheiro, nessa embolada de normas, houve uma grande contradição na ideia de tornar a partida mais dinâmica com mais bola rolando, que foi a criação do tempo técnico para “hidratação” (dois) de três minutos e mais o intervalo de 15. Isso mais parece imitação do voleibol.

 Essas paradas representam o contraditório com as regras da cobrança de lateral onde o atleta só tem cinco segundos para arremessar a bola, o mesmo com o goleiro, e o jogador caído no campo, atendido pelo médico, tem que sair do gramado e esperar um minuto para retornar à peleja.

  Ora, as paradas desnecessárias – antigamente num calor de mais de 30 graus, o jogador só tinha o clássico intervalo e ninguém desmaiava em campo – só servem para esfriar o ritmo do futebol, dos torcedores nos estádios e os que estão na tela, sem falar na vantagem para quem está perdendo e sendo sufocado no ataque. Isso não é bom até para os atletas que estão com o sangue aquecido e de repente esfria.

   Nos últimos 30 ou 40 anos, o que mais me chama a atenção é a evolução do futebol africano e de alguns asiáticos que deixaram de ser ingênuos e competem de igual para igual com as tradicionais seleções, inclusive as europeias, fontes de treinamentos para eles que atuam em muitos clubes daquele continente.

  No entanto, o mal é que aprenderam em escolas mecânicas e ainda cometem erros de amadores. Como armas, para neutralizar o adversário, ainda usam a força física e a velocidade. Ainda deixam a desejar. Mais para a frente, tem tudo para ser um futebol só seu e até ser campeão.

ESSAS ARTES ATUAIS DEIXAM AS PESSOAS MAIS IMBECIS E BURRAS

   Não se trata de uma questão de saudosismo, de ter ficado ultrapassado, velho e arcaico com as mudanças, mas as artes atuais, principalmente a música, com seus “conteúdos” de baixo nível, estão deixando as pessoas mais imbecilizadas e burras, fáceis de serem manipuladas pelas enxurradas de porcarias. Tudo é feito para agradar a burra multidão. Um exemplo mais claro é o que estão fazendo  com o nosso São João. Ainda tem a mídia idiotizada para dizer que a festa é de graça.

Como os artistas em geral deixaram de exercer sua função crítica sobre os problemas sociais e políticos do momento, temos hoje uma massa ignara que perdeu a capacidade de refletir e contestar. Um exemplo claro dessa mediocridade popular atual advém da música, a arte mais sensível e atrativa que arrasta as massas.

Se o povo só ouve besteirol, letras vazias, de amor brega, do tipo puramente comercial, sem sentido, esse povo absorve o lixo e nele se transforma. No entanto, a arte tem o papel de tornar esse povo oprimido em pessoas mais esclarecidas se o artista oferecer o melhor.

   Nos anos 60 e 70, em pleno regime ditatorial, mesmo sob o jugo da opressão, a arte não deixou de mandar o seu recado, com trabalhos de alto nível cultural e educacional transformador. Muitos foram presos e censurados, mas permaneceram firmes em seus princípios.

   Com a redemocratização, por incrível que pareça, quando deveria ser o contrário, entramos no poço da bestialidade, com a inversão de valores, premiando a mediocridade e o fútil. A arte, então, foi perdendo sua finalidade de ser, para se tornar escrava de um mercado consumidor de um produto descartável poluidor.

 Nos festejos juninos e outros eventos, o poder público municipal, estadual e federal tem muita culpa em só entregar shows porcarias por achar que é isso que o povo quer, sem se preocupar em mudar a mentalidade dessa gente, por temer que ela deixe de lhe ser submissa e subserviente.

  Arrancaram de nós a tradição popular, as riquezas do conhecimento e do saber, a autenticidade da cultura como alimento da alma, a sabedoria dos nossos antepassados e ancestrais, para nos dar só sujeiras bolorentas e fedorentas.

  Pena que a grande maioria dos artistas entrou nessa onda, somente por vaidade, fama e para ganhar dinheiro do idiota contribuinte. Depois tudo se dilui com o passar do tempo. Suas obras morrem antes das suas mortes naturais.

  Temos que fazer a arte rasgar as vísceras e o cérebro dessa gente entorpecida pelos besteiróis. Temos que ser viscerais na cultura, sem precisar se rebaixar ao nível irracional da polarização que simplesmente nos dividem em dois campos do ódio e da intolerância.

   O artista tem que ser trincheira da resistência para combater esses imbecis estrangeirados do hot-dog, rottweiler e pitbulls negativistas, entreguistas, doentes da cuca e levianos. Podemos ser filhos desse sistema, mas nunca leais ao opressor que trata o povo como lixo com sua cultura verborrágica.

   A palavra e a expressão artística bem-postas, seja a linguagem que for, na forma de protesto contra este sistema devorador, com sua essência e inteligência, são as maiores armas letais para abater essa imbecilidade que se disseminou no ser humano, como praga daninha.

  A arte só tem sentido se deixar sua mensagem de valorização e dignificação do humano, de conscientização política; se instigar o sujeito a refletir e a se descobrir como peça importante dessa engrenagem que pode mudar o curso da história. Se assim não for, ela perde sua validade de ser para se tornar esquizofrênica.

AS PEQUENAS E AS GRANDES

AS COISAS GRANDES FICARAM PEQUENAS E VICE-VERSA

  – Parceiro, tive que cortar uma estrofe e algumas frases porque ninguém escuta mais músicas longas nos dias de atuais. Tem que ser tudo pequeno e curto. É assim que a banda toca.

   No sentido contrário, isto me faz lembrar dos tempos dos grandes festivais dos anos 60 e 70 das músicas de Edu Lobo (Ponteio), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Geraldo Vandré (Disparada), Chico Buarque (A Banda), Gilberto Gil (Domingo no Parque) e tantos outros com suas longas letras de conteúdo social e político.

 A grande maioria do povo não quer mais saber e nem ouvir letras musicais cumpridas. A turma dos axés, dos arrochas, pagodes e sofrência tasca uma pequena estrofe e o resto é só barulho. A galera cai dentro e não sabe nem o que o cantor está falando. A mensagem não importa mais. A cabeça ficou pequena e nela só cabe pouca coisa.

  Observou que no mundo moderno e na era da tecnologia quase tudo é pequeno, a começar pelos chips onde suporta um montão de informações. Os microfones, os gravadores e outros aparelhos eletrônicos são manejados na ponta dos dedos.

  A cultura ficou pequena e curta, bem como os poemas de poucas linhas. O número de leitores de livros é pequeno e até a inteligência e o QI estão apequenando. Na literatura, prevalecem os livrinhos de no máximo 150 páginas. O conhecimento e o saber moram entre poucos. A cuca está estressada e não comporta mais textos grandes.

  – Seu áudio está muito longo e não tive tempo para ouvir todo. Fatia a fala – repreende o amigo. Raramente se usa o telefone e, quando acontece, tem que ser rápido no gatilho. O mesmo ocorre com as mensagens no celular. A palestra tem que ser pequena.

  As pessoas andam apressadas e os papos têm que ser curtos. Hoje é só um alô e raramente um bom dia. A grandeza de prosear, jogar conversa fora e contar causos ficou para os matutos sertanejos do campo, ou para os mais idosos.

  Diante de tantos problemas e na luta pela sobrevivência, seu bom humor ficou limitado e restrito. A pessoa se irrita com qualquer coisa e a paciência não é mais a mesma. “Não tenho mais paciência para aturar uma reunião”.

 – Porra, aquele cara é muito chato e conversa demais. Ninguém tem saco para ouvir sua prosa e suas histórias. Parece até que não faz nada na vida.

Quando amigos se encontram nas ruas dos grandes centros urbanos, mal dá para um dedo de conversa. Ambos estão na correria. Dizem por aí que até o tempo encurtou, porém, isso é pura ilusão. Ele continua na dimensão de sempre.

   Para os pobres e arremediados das classes médias baixas, o dinheiro está cada vez mais pequeno, a não ser que se faça falcatruas e malfeitos para crescer a grana. Por falar nisso, a honestidade, a ética e a seriedade reduziram de tamanho.

Da calçola, passou-se parra a calcinha curtinha. A cueca samba canção ficou cuequinha. O biquíni de antigamente virou tanga e fio dental, e até o amor ficou pequeno e passageiro. Casamentos que duravam anos, agora se acabam em poucos meses. A paz não é mais duradoura.

 – É meu camarada, vivemos no mundo das coisas pequenas e reduzidas, mas outras permanecem grandes e só aumentam, como o ódio e a intolerância, as guerras para vender armas, a concentração de renda nas mãos de poucos, as imbecilidades e os besteiróis, as violências, as ambições, as ladroagens, as bandidagens, os corruptos e as corrupções.

  Cresceram também o número de igrejas e fanáticos fundamentalistas, a extrema direita e esquerda caninas, o radicalismo e as metrópoles de milhões de habitantes amontoados nos arranha-céus, casebres e favelas.

  Enquanto isso, as florestas, as matas, os cerrados e as caatingas estão ficando pequenos e desérticos com o aumento da depredação ao meio ambiente. Ah, isso só faz aumentar, inclusive o consumismo.

   Temos hoje grandes temporais, enxurradas, ciclones, rajadas de ventos, deslizamentos de terras, incêndios, catástrofes e elevação das temperaturas com o aquecimento global, sem falar nos acidentes de trânsito e homicídios.

QUER “SACANAGEM”?

( Chico Ribeiro Neto)
” Só tomo cerveja depois que boto um salzinho na boca”, diz uma amiga.
Bar sem tira-gosto bom não presta.
Um tira-gosto inesquecível. Minha colega, jornalista Helô Sampaio, pegou um pedaço de charque no armazém e bar do Capenga, na Avenida Vasco da Gama, e jogou em cima do velho balcão de madeira. Jogou álcool e tocou fogo. Quando a chama estava bem baixinha, quase apagando, ela jogou a farinha, que grudou na carne. Depois, haja cerveja.
Cito alguns bons tira-gostos: moela com pão, passarinha, charque frito, carne do sol, casquinha de siri, salame, amendoim cozido ou torrado, caldo de feijão, peixe piramutaba frito, agulhinha frita, acarajé e torresmo. Uma farofinha é indispensável. Antigamente havia nos botecos ovos cozidos de várias cores na prateleira do balcão.  “São de hoje”, atestava o dono do bar.
Tinha um cara que frequentava o Bar do Chico, na Barra, cujo tira-gosto era uma salada de tomate, cebola e pimentão temperada com sal e azeite.
Na minha juventude toda festinha tinha “sacanagem”, sucesso nas décadas de 70 e 80. Não é  o que você está pensando. Era um espetinho feito com rodelas de salsicha em lata, queijo, azeitona e outros ingredientes.
A origem do termo é explicada por Lorena K. Martins no artigo “Tá a fim de uma sacanagem? Petisco de festa dos anos 80 reina nas mesas dos bares em BH”, postado no site otempo.com.br em 4/4/2025: “A origem do termo ‘sacanagem’ ainda é incerta, mas, segundo o historiador Luiz Antônio Simas, em seu livro “Sonetos de Birosca e Poemas de Terreiro” (2022), a explicação mais provável está na forma como os insumos eram montados no palito. Como ele descreve, “o fato de um ingrediente vir trepado em cima do outro já diz tudo: é uma sacanagem generalizada, com o queijo trepando no pimentão, a salsicha por cima do presunto e por aí vai”.
Havia também o tira-gosto coletivo. Não esqueço do amigo e jornalista Raimundo Machado, que, depois que a gente fechava a edição do jornal A Tarde, por volta de meia-noite, chegava na barraca de Dona Edna, vizinha ao jornal, e pedia logo uma cerveja e um mocotó em prato fundo. Cortava tudo miudinho, fazia aquele mexidão com pimenta e farinha, traçava uma boa garfada e passava o prato para o vizinho.
Uma vez, em Caculé (BA), um visitante chegou querendo um tira-gosto de ave, uma codorna, juriti ou perdiz. Com dois amigos, rodou vários bares onde só tinha tira-gosto de carne ou de linguiça de porco. Até que chegaram no boteco de um velhinho e perguntaram se havia tira-gosto de ave e ele respondeu: “A única ave que tenho aqui é um galo velho que tá lá no terreiro e que, se eu botar pra cozinhar agora (11 da manhã) só vai tá pronto meia-noite”.
Adoro uma tripa de porco frita na hora, com farinha, numa barraca de feira do interior. Se esfriar, não presta. Fica goguenta.
Será que no céu tem tira-gosto? Ou é só vinho de missa com água?

O SÃO JOÃO SHOW BUSINESS

   Prometi a mim mesmo não mais falar ou fazer algum comentário sobre o nosso saudoso São João tradicional nordestino, mas de tanto ver e ouvir absurdos, extravagancias e a morte lenta desta festa junina, não consigo controlar minha revolta contra esses embusteiros prefeitos, artífices da destruição da nossa cultural.

  O nosso São João de outrora virou um show business, uma indústria de entretenimento voltada para o lucro, só que para os bolsos dos “famosos” pagodeiros, arrocheiros, sertanejeiros, axeseiros e lambadeiros que fazem suas porcarias musicais e recebem altos cachês pagos com o suado dinheiro do povo, manipulado pelos coronéis da política.

  Vou começar por Vitória da Conquista. De acordo com o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público do Estado da Bahia, a Prefeitura Municipal vai pagar mais de quatro milhões de reais com a contratação de 95 atrações para o “Arraiá da Conquista 2026”. Estou achando que tem mais coisa nesse pirão.

    Até aí, tudo bem. O pior é que os artistas locais e nacionais receberão cachês que variam de cinco mil reais a seiscentos e noventa mil, uma excrescência em termos de diferenciação no que concerne aos valores. Os cachês mais altos serão abocanhados pelo cantor Pablo, seguido da cantora Joelma (R$550 mil) que viraram forrozeiros para inglês ver.

   Quanto mais vou citando estes disparates e desmantelos administrativos contra a nossa secular cultura do forrobodó, vou ficando mais tiririca da vida, virado no diabo. Uma banda local fica com cinco mil reais, isto para pagar lá pelo final do ano e ainda com a obrigação de se apresentar de graça num distrito. O estrangeiro do show business recebe adiantado e vai curtir em Dubai, nas arábias.

   Vamos viajar agora para o município de Quijingue, de pouco mais de 26 mil habitantes, lá no nordeste da Bahia, território do sisal, na microrregião de Euclides da Cunha. Lá é só pobreza e está atravessando uma seca, mas a prefeitura contratou uma tal de dupla mineira sertaneja dos irmãos Victor e Leo por setecentos mil reais.

  De onde vem toda essa grana, de um município tão pobre? O prefeito deve ser mais um daqueles que engana os bestas e tolos, de que a festa vai movimentar a economia e tirar a população da miséria e da fome.

Além de assassinar nossa tradição cultural, é mais um que vai a Brasília todos os anos de cuia na mão para dizer ao governo federal que os municípios estão “falidos” e sem grana para manter as prefeituras em funcionamento.

  Ouvi algumas reportagens jornalísticas dando conta que a Prefeitura de Irecê, antiga capital do feijão, pouco depois de Morro do Chapéu, estava com cachês previstos de vinte e um milhões de reais para pagar as atrações do show business, mas baixou para doze milhões depois de alguma intervenção do Ministério Público.

   Aqui perto de nós, em Anagé catingueira, distante pouco mais de 50 quilômetros de Conquista, a notícia é de que o MP-BA recomendou a suspensão dos contratos firmados pela prefeitura para os festejos juninos.

  O Ministério e os tribunais de contas do estado e dos municípios pedem esclarecimentos quanto aos contratos que estariam com indícios de irregularidades. Os órgãos estão solicitando relatórios fiscais e a comprovação da capacidade financeira do município.

  É um verdadeiro derrame de dinheiro, com falcatruas, superfaturamentos e outros malfeitos, que ocorre nesse período junino, para bancar artistas do barulho, com letras chulas que nada têm a ver com as nossas raízes nordestinas.

   As imagens televisivas passam megas estruturas de palcos que mais parecem com os shows do Rock Rio e Lolapalusa, tudo para receber os “artistas” da anticultura junina. Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco, já foram referências de São João autêntico pé de serra. Hoje, até o romântico Roberto Carlos foi convidado para jogar flores para o povão inculto dos shows business.

As indumentárias das quadrilhas, do tipo fazem de conta, mais parecem alegorias de escolas de samba. Trocaram o ritmo do maracatu e do forró, com a sanfona, o triangulo e a zabumbada,  pelos rebolados dos arrochas, das lambadas, dos pagodes e dos sertanejos, com as guitarras, baixos e as baterias estridentes.

QUANDO SE CHEGA À VELHICE…

Falam muito da discriminação contra os negros, contra as mulheres (os misóginos), os LGBTS, os com problemas de deficiência física e mental, mas pouco quanto aos idosos. Vejo e leio muitas piadas e memes com o tom de sarcasmo e depreciação quando se chega à velhice.

Como a morte, que geralmente se esquece dela, enquanto tudo se faz e se arrisca por ambição para depois da vida nada levar, assim também ocorre com a velhice. Os jovens agem como se nunca fossem chegar a esse estágio e vê o idoso com certo menosprezo, embora nem todos.

Em meu entendimento, a maior idiotice e chacota é chamar o idoso de terceira idade, como se houvesse uma quarta, quinta, sexta e por aí vai. Uns dizem que é a “melhor idade”. Sinceramente, não me venham com essa! A melhor é a juventude quando bem aproveitada. Não vamos cair no sentimentalismo barato!

Pois é, meus amigos camaradas, nos tempos mais antigos, os filhos e familiares próximos tinham mais respeito com os idosos; ouviam seus conselhos e orientações; davam benção; cediam seus assentos nos ônibus; e cuidavam até a morte.

Nos tempos atuais, com as mudanças de conceitos, levados pelas modernagens, onde predominam o individualismo e o egoísmo na corrida pela sobrevivência pelo dinheiro e bens materiais, muitos entregam seus pais a um cuidador ou cuidadora, quando não sãos levados para um asilo e lá ficam esquecidos como objetos imprestáveis.

Quando se chega à velhice, os filhos não querem mais escutá-lo porque acham que o pai ou a mãe estão ultrapassados e arcaicos. Infelizmente, a nossa sociedade “moderna” se tornou mais desumana e até diria, cruel. São os novos tempos, com a inversão dos valores humanos!

Quando um velho esquece de algum fato, acontecimento ou de fazer algo, é porque está caduco e colocam logo a culpa na idade. Se acontece com um jovem ou alguém de meia idade, entre os 20 até os 60 anos, é normal. “Relaxa, isso ocorre com qualquer um”.

O idoso não pode ter nenhuma falha ou erro no trânsito que é logo discriminado. “É coisa da idade”. Não pode vacilar e cometer    nenhum deslize porque algum idiota passa e aos gritos manda sair da rua e ficar em casa, sem falar nos xingamentos. Se houver um acidente com um idoso ao volante, mesmo que esteja certo e com razão, ele é o culpado.

– Sai da frente, meu tio – é assim o tratamento discriminatório. Idoso não pode avançar sinal, dar uma roubadinhas, estacionar torto ou coisa semelhante, senão leva aquelas “bordoadas” de palavrões. O motorista moço e imbecil pode fazer qualquer merda e ninguém se atreve reclamar ou xingar.

Quando saio com minha esposa (ainda não idosa), para resolver algum problema particular no banco, numa casa comercial ou repartição pública, observo que o atendente fica o tempo todo dirigindo mais a palavra a ela para explicar a questão, ou andamento do processo, como se eu fosse um senil que não entendesse nada.

É, meu amigo ou amiga, quando se cai na velhice, até parece que você não é mais gente, perde a razão e se torna um inútil. Imagina quando a pessoa é rica e tem um bocado de filhos gananciosos! Eles fazem logo um complô para interditar o velho ou a velha. É assim a vida, como ela é!

AS PAUTAS DA SESSÃO DA CÂMARA

  Na sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista desta quarta-feira, a partir das 9 horas, vários projetos, propostas e requerimentos de interesse da população estarão em discussão.

  Entre os destaques estarão em debate a preservação ambiental, sustentabilidade, acessibilidade e inclusão social, inclusive o projeto que institui o Programa Municipal de Implantação de Corredores Ecológicos, para conservação da fauna, flora e polinizadores, promovendo a integração entre áreas verdes e a proteção da biodiversidade de Conquista.

  Será ainda apresentado o projeto que cria a Política Municipal de Guardiões da Cidade, destinada à conservação e valorização dos espaços públicos do município.

   Na área da saúde estarão em pauta propostas, como a criação do Banco Municipal de Equipamentos para Reabilitação, garantindo acesso gratuito a equipamentos como cadeiras de rodas, muletas e andadores para pessoas em recuperação e reabilitação, além do Programa Calçada Acessível.

  A sessão também contará com apreciação de projetos voltados à educação cidadã, valorização da cultura, dos símbolos municipais e nacionais, bem como do reconhecimento das quadrilhas juninas como Patrimônio Cultural e Imaterial de Conquista.

  Serão apreciadas indicações encaminhadas ao poder executivo, moções de aplausos e de pesares a serem apresentadas pelos parlamentares conquistenses.





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