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:: ‘Notícias’

ÀS 5 DA MANHÃ

(Chico Ribeiro Neto)

Acordei pleno às 5 da manhã. Sensação de tudo resolvido e de que a vida caminha em paz.

Já escrevi crônicas e alguns poemas às 5 da manhã. Nesse horário os cachorros dos vizinhos ainda estão dormindo, ainda não ligaram a TV e parece que estou em dia com o mundo.

O dramaturgo e diretor teatral Deolindo Checcucci, de saudosa memória, me disse uma vez que não gostava de acordar tarde: “Tenho a sensação de que o dia andou na minha frente”.

Os passarinhos começam a cantar perto de minha janela e acredito que a vida ainda vale a pena. Outro dia me contaram que o bem-te-vi não canta sozinho, só canta em grupo, tem que ter outro pra responder.

As 5 da manhã têm gosto de viagem, aquele corre-corre de última hora senão vai perder o ônibus. A surpresa do menino de ver o mundo acordar com o galo cantando e o cheiro de café na cozinha da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde nasci.

É gostoso levantar às 5 da manhã, “acordar com as galinhas”. A gente coloca o passado em dia e fica em calma sintonia com a gente mesmo. O sono passou e a vontade de viver é imensa. Parece que ficamos cheios de graça e que um sorriso de criança alumia o mundo.

O jornalista Carlos Navarro me disse uma vez: “Experimente ver como é bom escrever às 5 da manhã”. Confirmo. A cabeça está zerada.

São 5:50. Volto pra cama, que ninguém é de ferro.

Antigamente, às 5 da manhã, o padeiro e o leiteiro já se preparavam para as entregas de casa em casa. Rubem Braga tem uma crônica maravilhosa, “O Padeiro”, de 1956, cujo trecho transcrevo: “Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: “Não é ninguém, é o padeiro!”

Escreveu ainda Rubem Braga: “Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos, alegre; ‘não é ninguém, é o padeiro!’ E assobiava pelas escadas”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 .

“NÃO FUI CONVOCADO PORQUE DEUS NÃO PERMITIU”

   Sempre se ouve dizer por aí que quando se trata de seleção brasileira, todo torcedor é um técnico nato, mas não sabia que Deus também é um deles que faz escalação. Aliás, Deus está em tudo, e a Bíblia pede para não usar seu nome em vão.

   Estou dizendo isto porque nesta semana, em entrevista a um repórter – não me recordo quem foi – perguntado sobre o motivo de ter ficado de fora da escalação, o jogador respondeu, textualmente, que “não fui convocado porque Deus não permitiu”.

  Ora, o que tem a ver Deus com isto? Na cultura religiosa, que já está enraizada nas pessoas há séculos, tudo que é de bom ou ruim sempre foi Deus quem quis. É uma mentalidade atrasada. Os jogadores de futebol, por exemplo, misturam religião e crença com o esporte que pratica. É um tal de ajoelhar, se benzer e rezar que esquece de jogar.

   Como o assunto do momento é Copa do Mundo e seleção brasileira, de nomes desconhecidos até pelo mais entendidos no assunto, quer dizer que foi Deus quem relacionou o Neymar, e não sabia que ele estava “podre” há muito tempo.

  Neymar não é mais aquele atleta cria do Santos, porque preferiu as baladas a cuidar do seu físico. Não me estranha, e não é nenhuma novidade, que ali contou com alguma interferência “política” junto à CBF, e não teve o dedo do técnico, muito menos de Deus.

   Pela sua lesão, como sempre foi o procedimento nas outras convocações, o atleta já deveria ter sido cortado, imediatamente, para dar lugar a outro que está em melhores condições. Aliás, nem deveria ter sido chamado.

   Vamos deixar o Neymar de lado, porque o moço festeiro está cheio da grana e eu fico aqui “lascado” falando dele. De tantas decepções e escassez de craques, o torcedor brasileiro hoje torce mais para o seu time do coração do que para a própria seleção “perna de pau”.

  Até tempos passados, no início dos anos 200, quase todo mundo sabia escalar a seleção canarinho, com seus respectivos nomes e posições.

   O entusiasmo de cantar aquelas músicas que colavam como chiclete na cabeça, enfeitar as ruas de bandeirolas e reunir amigos e parentes em casa cederam lugar à desilusão e à desconfiança.

  Hoje são atletas que quase ninguém sabe de onde vieram porque o futebol não é mais como antigamente. Naquela época, a equipe era formada por jogadores que atuavam aqui nos clubes do Brasil.

  Tudo por dinheiro, logo cedo, o jogador vai para a Europa, para a Ásia e outros continentes e depois aparece como se fosse um estrangeiro, que não tem mais aquele gingado e aquela arte da terra.

   A Rede Globo, a manipuladora das transmissões de todas competições continentais, e seus patrocinadores, fazem um esforço danado para atrair o torcedor, mas ele está mais ligado na classificação do seu time. Há muito tempo que o Brasil deixou se ser o país das chuteiras.

“QUANDO A ESMOLA É DEMAIS…”

   Gosto muito dos provérbios antigos ou ditados populares, se bem que tem alguns que não concordo, como o de que “a voz do povo é a voz de Deus”. Essa não dá mesmo para engolir, principalmente se for levado em conta o lado político das eleições onde a população escolhe errado seus candidatos, na maioria atraída pelas esmolas. Onde está aí a voz de Deus?

  Os nossos ancestrais tinham a sabedoria dessas expressões que serviam de aconselhamento, orientações e precauções, como a de que “boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Esta serve para os dias de hoje diante de tantas violências nas grandes cidades.

  Muitos ditados têm suas origens na cultura popular religiosa e se eternizaram, como a de que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Entendo que esta tem o sentido duplo e pode ser aplicada em diversas circunstâncias da vida.

  O provérbio é uma metáfora para alertar que vantagens exageradas, ou ofertas generosas, geralmente escondem segundas intenções. No âmbito religioso, a expressão baseia-se na ideia de que ninguém é extremamente bondoso de forma totalmente desinteressada.

   O termo esmola evoca caridade. Santo remete ao receio de que nem mesmo as entidades sagradas cedem a graças tão fáceis sem que houvesse algum motivo por detrás. Algo oferecido sem custos aparentes costuma ter um custo oculto real.

  O dizer popular é utilizado como mecanismo de defesa contra fraudes, golpes financeiros, propostas de lucros irreais ou bajulações excessivas. Fique longe do bajulador quando você está “por cima da carne seca” porque o indivíduo é falso.

  O santo desconfia quando a esmola é demais porque o doador pode vir a pedir muitos favores, o possível e o impossível, ou então, a caridade fora do normal pode ser falsa e enganosa. Dizem também que “não existe almoço de graça”, e nesta eu acredito.

  Nos tempos atuais, esta da esmola demais é muito utilizada pelos golpistas de plantão, e muita gente cai nela de patinho, na ambição de também tirar proveito, levar vantagem em tudo. Termina quebrando a cara. Depois de se tornar vítima do malandro, “não adianta chorar pelo leite derramado”.

   Antigamente, os golpes eram analógicos, do tipo da esmola do bilhete premiado, da corrente de “ouro” falsificada bem barata e outros objetos maquiados. Os ciganos, por exemplo, pintavam os dentes dos cavalos, passavam uma escova especial, de forma que o animal ficava com uma aparência de novo e conservado.

  E os vendedores de carros velhos? Ah, nestes eu me esborracheia diversas vezes! O safado – o ser humano tem a natureza de esfolar o outro para ganhar vantagens – colocava massa para tapar as ferrugens das latarias e realizava um armengue no motor.

   Com aquela lábia de empurrar o automóvel por um preço mais em conta, abaixo do mercado, e dizendo que estava vendendo por aperto financeiro, eu caia na esmola. Dava uma volta com o dono e tudo indicava ser bom negócio.

  Somente depois de alguns dias, o veículo começava a se desmanchar. Era aí que me dava conta de que fui um trouxa, vítima do golpista. Não tinha mais jeito. Era prejuízo na certa e arrependimento tardio.

  – Quando for comprar um carro usado de muitos anos, a primeira coisa a fazer é levar ao um mecânico e a um chapista da sua confiança (coisa mais difícil de se encontrar), para fazer avaliação – dizia o dono da oficina.

   Todas estas esmolas demais, visando ludibriar o outro, são aplicadas atualmente via internet, ou seja, no esquema virtual das redes sociais onde nem se ver ou se conhece o golpista que está do outro lado do balcão lhe oferecendo, aparentemente, uma graciosa vantagem.

   – Você foi premiado com um carro, mas precisa passar um pix de mil reais para resolver umas pendências aqui, de ordem burocrática, coisas de umas taxas.

 Tem ainda aquela onde o golpista se passa por advogado e avisa ao cliente que o processo dele foi deferido pelo juiz. Depois de anos de espera e todo encalacrado de dívidas, o falsário pega a pessoa de espírito desprevenido, sem desconfiar da esmola.

  Muitos estelionatários virtuais vendem imóveis, lotes de terrenos e outros tantos bens que nem existem, e isto por preços atrativos. Por estas e outras, meu amigo, carregue sempre em seu alforje, ou em sua mente, de que quando a esmola é demais, o santo desconfia.         

  

 

 

VIOLÊNCIA CONTRA VIOLÊNCIA

   Longe de mim defender aqui o indivíduo que matou a tiros a ex-mulher (Yasmim) porque ela se recusava a viver com ele. No entanto, fica aqui uma indagação: Por que a polícia não conseguiu mobilizar o suposto criminoso que apenas estava com uma faca, quando sabemos que teria recursos e meios para tanto?

   É a violência contra a violência? Para esta sociedade hipócrita e o sistema que cria a própria barbaridade, tinha que matar mesmo. Vivemos a Lei de Talião (lex telionis), famosa pela máxima do “olho por olho, dente por dente” onde estabelece que o castigo deve ser proporcional ao dano causado pelo infrator.

   A origem vem do Código de Humurabi (1772 a.C.), a mais antiga codificação de leis escritas da Mesopotâmia. O preceito foi incorporado na Bíblia hebraica (Êxodo e Levítico). Vamos aprovar a Lei de Talião?  

 No caso específico do Brasil, a violência nos transporta aos tempos do cangaceirismo e do coronelismo nordestino, onde a região, isolada socialmente por séculos, era terra de ninguém até meados do século XX, quando se fazia a justiça com as próprias mãos, porque não havia Justiça.

  No episódio recente de Vitória da Conquista, matou-se a própria prova do crime, porque em termos jurídicos não há processo material para o julgamento do réu, assim entendo, mesmo não sendo advogado especialista no assunto.

  Não posso aqui avaliar as circunstâncias, mas um grupo de soldados, que recebeu treinamento e instruções de procedimentos, não poderia ter detido o agressor, sem matá-lo, como, por exemplo, dado um tiro na perna do elemento?

A polícia não pode agir emocionalmente, tomada pela raiva do momento. Nessa hora ninguém quer saber como o cara foi morto e se havia possibilidade de ter sido preso para ser julgado e sentenciado, para pagar seu ato cruel na cadeia.

  Como já nos acostumamos a viver num quadro bárbaro de violência contra a violência, a maioria por motivos torpes, como matar a mulher porque não mais aceitava o relacionamento, ninguém aqui quer saber se a polícia agiu corretamente, ou se deveria ter atuado de outra maneira.

  Para esta sociedade, tinha que matar mesmo, na base da violência contra a violência. Com nunca se confiou na justiça brasileira, nesse caso, a justiça foi feita e o resto não importa, se a polícia poderia ter ou não mobilizado o sujeito.

  Infelizmente, vivemos numa época tão violenta e desumana que as pessoas não param mais para refletir sobre suas ações e a dos outros. Perdemos a voz da razão e até não mais concordamos que violência só gera violência.  

  Entendemos que o certo mesmo é a violência contra a violência porque já estamos dominados pela emoção e a ira contra os crimes bárbaros, como se esta atitude fosse resolver os problemas sociais. No fundo, quase todos concordam com a pena de morte. Aliás, pesquisas já revelaram isso.

 Como estamos falando de agressões contra as mulheres, cada vez mais em alta escala, não paramos para raciocinar que essa tal de medida preventiva é uma balela, um embuste e uma demagogia política, mesmo porque, na prática, ela não funciona.

    Por acaso, o policial vai ficar 24 horas vigiando os passos do agressor cuja mulher conseguiu a medida protetiva judicial? Ele continua com o direito de transitar em qualquer lugar e chegar até a ex-companheira que não tem nenhuma segurança pessoal. Nem “presa” dentro da sua casa ela está salva.      

VISÕES DE UMA CASA DE FARINHA

   Quando escolheram o tema “Casa de Farinha” para o próximo debate do “Sarau A Estrada”, marcado para o dia 13/06, brotou dentro de mim as visões dos tempos de menino. Posso dizer que nasci e me criei dentro de uma casa de farinha, aquela bem tradicional e artesanal do “Caldeirãozinho” do sertão de Piritiba.

 – Cumpade, o aviamento mais difícil e complicado para se fazer dentro de uma casa de farinha é o parafuso. A madeira tem que ser de baraúna tipo rosa legítima e não é toda árvore que serve – dizia meu pai, que era lavrador, carpinteiro, marceneiro e construtor de curral e casa de farinha.

  Com seu facão, machado, espingarda e no bornal carne seca, rapadura, farinha e água, ele se embrenhava numa mata para encontrar uma baraúna de lei. Às vezes, retornava da sua “caçada” ao entardecer e voltava no outro dia. Dizia que o pau tinha que ser bem roliço.

   Era um ritual demorado e quando encontrava pedia licença ao curupira, o protetor das florestas, para derrubá-lo. Com o machado, deixava no tamanho certo para esculpir o parafuso com o formão, de maneira a encaixar bem na peça de rosca, para apertar a prensa que poderia ser de pau ferro ou pau d´arco. Na parte inferior, um furo, para realizar o aperto com um porrete resistente. O parafuso tinha que ser bem sebado.

 Os outros equipamentos também formavam um conjunto importante para fazer funcionar a casa de farinha. A casa, a mais simples possível, (nada de motor) era no estilo de um galpão com telhas de cerâmica. Os vãos ficavam abertos.

  Em dia de casa de farinha, logo cedo chegavam as raspadeiras com suas facas afiadas nas mãos para a labuta da raspa. Era a atividade mais divertida, embora cansativa, porque durante a limpeza das mandiocas rolavam cantorias e as fofocas entre as comadres.

– E aí, comade, Josefa apanhou barriga com um rapaz de São Paulo. Ficou mal falada. O velho era exigente e não gostava muito de raspadeira tagarela e dava pressa ao trabalho.

  Logo na entrada, numa parte mais elevada, como se fosse um palanque de adobe, era colocada a roda que poderia ser de cedro com uma abertura em torno dela para encaixar o reio ligado ao ralador de pequenas serras para ralar a mandioca. Com duas pequenas alavancas, a roda era puxada em parceria de dois homens, no compasso da cantoria. O arrasto tinha que ser afinado.

   O ralador, assentado numa mesa e embaixo um coxo para receber a massa da mandioca, era o mais perigoso. Qualquer descuido da mulher poderia ser fatal e ter sua mão tragada pelas serras dentadas.

  A raladeira precisava ser experiente, ligeira e atenta. Uma raiz ia empurrando a outra. Depois de toda ralada, a massa ia para o cocho da prensa com uma tampa apertada pelo parafuso até extrair toda água, a chamada manipueira.

  Sem o forno a lenha, com pedras sabão ou mó, geralmente construído de barro, com duas ou três bocas, em direção ao poente, não havia farinha. Depois de classificada a massa através das peneiras, entrava o puxador de rodo, pra lá e pra cá, até a farinha ficar torrada no ponto ideal.

  A farinha do seu Mateus era considerada a melhor de toda região, bem fina e com bastante tapioca. Ah, não podia tirar muita tapioca para fazer beijus, senão ele esbravejava! Era ranzinza nesse ponto, e ele mesmo fazia questão de cuidar desses detalhes do processo.

  Como era ainda pequeno, cinco ou seis anos de idade, minha tarefa era puxar os jumentos com os caçuás, da casa de farinha até a roça e vice-versa. As próprias mulheres descarregavam e eu não podia demorar no caminho, senão levava um tabefe.    

    O bom mesmo era quando caia o entardecer, na boca da noite, quando toda aquela trabalheira chegava ao fim com a farinha ensacada nos sacos de 50 quilos. Minha mãe que tudo fazia, aproveitava as pedras quentes do forno só em brasas para espalhar a beijuzada.

  Ai, era só alegria e todos entravam na prosa até altas horas da noite. Era só jogar conversa fora sobre causos e histórias de valentões e coronéis. Ficava assuntando e, mesmo cansado da labuta, não cochilava. Gostava de ouvir aquela gente simples da roça proseando.

  Rolavam os próprios causos das casas de farinhas. Muitos diziam que eram mal-assombradas. Como a residência era sempre próxima da casa de farinha, uns contavam que no silêncio da madrugada ouvia-se falatórios, mulher raspando mandioca e até a roda rolar sozinha.

 – Vocês não têm nada para fazer e ficam aí contando lorotas. Não existem fantasmas! São coisas dessas cabeças ocas que ficam inventando essas trabuzanas – afirmava o meu pai, dizendo que nunca tinha visto nada, mas minha mãe confirmava que ouvia.

 Adorava ouvir aquelas prosas dos adultos tabaréus ou matutos, muitas eram lendas e outras verdadeiras. Assim era a vida de um dia de uma casa de farinha. No sábado era só levar os produtos para a feira de Piritiba. No domingo era a vez do distrito de Andaraí.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“LÁ ELE!”

Chico Ribeiro Neto)

O “lá (ele” é uma expressão tipicamente baiana para reagir a frases de duplo sentido, insinuações sexuais ou brincadeiras. Significa “tô fora”, “não é comigo, é com outra pessoa”.

Fui comprar cinco espigas de milho para cozinhar. Cheguei na loja de hortifrútis e pedi ao empregado para descascar uns milhos para mim. Como sempre gosto de um pouco da palha do milho dentro da panela, pois dá mais gosto, falei pro  cara: “Irmão, por favor, deixe um com palha e tire a palha de quatro pra mim”. “Lá ele. Isso eu aí eu não faço, não”. Somente aí caiu a ficha.

Algumas situações que cabem responder com “lá ele”:

“O senhor vai tomar sentado ou em pé?”, pergunta o garçom a quem você pediu uma cerveja.

“Quer receber agora ou pra semana?”, pergunta alguém sobre um pagamento a ser feito.

“Vai levar agora?”

Dois caras montando um sofá: “Você segura que eu empurro”.

O passageiro grita no ônibus: “Motorista, abra o fundo aí”. E o motorista: “Lá ele cinco mil vezes”.

Como diziam os antigos, “esse povo leva tudo pro buraco da maldade”.

“Rapaz, esse negócio entrou com força”.

“Vou ali comer”.

“É pra botar embaixo ou em cima?”, pergunta o empregado com uma caixa na mão.

“Coloco essas compras aí ou posso colocar no fundo?”

“Vai comer aqui ou vai levar?”, pergunta o garçom do bar que serve PF.

O caixa do supermercado vai registrando minhas compras. A bandeja de ovos é o último item e ele me pergunta: “Posso passar até os ovos?”. Um “lá ele” bem dado.

Um amigo foi a uma loja de material de construção comprar um produto similar ao WD, que é mais barato. Uma moça estava no balcão e ele perguntou, sem um pingo de maldade: “Você tem aí um líquido viscoso e penetrante?” “Lá ele”, respondeu ela.

O outro comprou uma caixa de copos e o empacotador perguntou: “O senhor vai levar em pé ou deitado?”

E teve aquele que comprou um pernil e o açougueiro perguntou: “Vai levar inteiro?”

“Quando deita, você dorme logo ou leva um pedaço acordado?”

Segundo a linguística, o “lá ele” é “um marcador pragmático de distanciamento”. Expressão antiga usada na Bahia, pode hoje ser considerada de cunho machista, mas já se entranhou na boca do baiano. Lá ele!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA

   Nesta sexta-feira (dia 22/05/2026), a partir das nove horas, a sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores vai focar seu trabalho nas pautas da modernização administrativa, na educação, na juventude, mobilidade estudantil e no incentivo ao esporte.

 Entre os projetos em discussão, está a proposta que dispõe sobre a reforma e atualização do Regimento Interno da Câmara, adequando as normas internas da Casa às diretrizes da Constituição Federal, Estadual e da Lei Orgânica Municipal, buscando modernizar os procedimentos legislativos.

  Consta ainda da pauta o projeto de resolução que regulamenta a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados no âmbito da Câmara, estabelecendo diretrizes, competências e mecanismos internos para o tratamento adequado de dados pessoais. A proposta tem o objetivo de ampliar a proteção da privacidade, garantir transparência e reduzir riscos institucionais.

  Na área da educação e da cultura, será apreciado o projeto que institui e inclui no calendário oficial do município o Dia Nacional da Juventude. A iniciativa reconhece a data como momento de mobilização social e debate sobre temas ligados à juventude, como cidadania, inclusão, educação e mercado de trabalho.

  Outro projeto em análise cria diretrizes para a promoção da educação cidadã na rede pública municipal de ensino, com foco na valorização da história de Vitória da Conquista, da cultura local, do Hino Municipal e dos símbolos oficiais. Visa incentivar o conhecimento dos espaços históricos e culturais da cidade.

   Na pauta, outro tema a ser debatido é a proposta que amplia o direito à meia passagem estudantil no transporte público, permitindo que estudantes utilizem benefícios em atividades além do deslocamento escolar, como cursos, capacitações, atividades culturais e esportivas.

    Também será analisado o projeto de lei que institui o selo “Empresa Amiga do Esporte do Município”, com objetivo de reconhecer e incentivar empresas que apoiam ações, projetos e iniciativas esportivas na cidade.      

 

 

O FANATISMO “CEGA” A PESSOA

    Num excesso de raiva, o cara levantou do sofá e deu um murro na televisão porque o Brasil foi eliminado da Copa Mundial de Futebol nas quartas de finais. Além do prejuízo, cortou a mão e teve que ir para o hospital estancar o sangramento.

  Isto não é um causo ou uma história de ficção. É tão real como o do torcedor colombiano, ou peruano, se não me engano, que matou um jogador por ter cometido um erro e, por isso, foi julgado como culpado pela desclassificação da sua seleção.

   Estes exemplos comprovam que o fanatismo é burro e deixa o indivíduo cego. O fanático, seja na religião, no futebol, na política ou outra atividade qualquer da vida, só vê o seu ponto de vista. Ele se torna um irracional e é capaz de cometer barbaridades. Melhor não tentar travar um diálogo com um fanático. É perigoso e arriscado.

  No caso específico do futebol, nem tanto como há 20 ou 30 anos que se acreditava no time, a Copa do Mundo está batendo em nossas portas e com ela uma onda de fanáticos que se esguelham, se “rasgam”, se endividam e são capazes de cometer atos bárbaros contra si e contra outros.

  Quantos não compram uma televisão nova de última geração, sem necessidade, induzidos pelas propagandas comerciais, para assistir a seleção brasileira na Copa! Muitos, com o poder aquisitivo de baixo a médio, se sujeitam a pagar 24 prestações mensais, ou dois anos de “módicas parcelas”.

  O José, o João ou o “Mané” que deu o murro na televisão ou quebrou a cadeira no aparelho, nem imaginou na hora que ainda tinha dois anos para quitá-lo! Para completar a burrice, ainda se embriagou e teve uma overdose alcoólica de quase morte.

  O fanático se anula, se deixa ser iludido e não mede as consequências, mas o mercado ainda vai lhe dar uma chance lá na frente para renegociar a dívida, comum para os que ficam encalacrados pelo excessivo consumismo, instigado pelo capitalismo e a própria mídia servidora do sistema.

  Foi só anunciar os 26 convocados para a Copa que os veículos de comunicação começaram a entupir os canais de televisão de propagandas. As chamadas são “tentadoras”.  O pessoal compra tudo quanto é bagulho e depois joga tudo no lixo quando a seleção “perna-de-pau” tropeça.

  – Olha aqui, meu amigo irmão, essa marca é top de linha, você vai poder ver os lances mais incríveis da Copa, que não têm em sua “antiga” televisão. É uma oferta com desconto de 20% e você pode pagar com prestações a perder de vista – dize o atendente com aquela lábia de vendedor. O consumidor cai como um patinho.

  No primeiro jogo do Brasil é aquela festa de inauguração e o cidadão endividado chama os amigos, parentes e até desconhecidos para ver a nova telona. É só alegria e muita gastança! Somente depois ele percebe que as imagens são as mesmas.

OS LADRÕES DE CAVALOS

  Esse negócio de beber muita água, bem que a ciência – naquela época não era tão evoluída assim – poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887/89, 1913/14, 1919/20, 1932/33 e tantas outras onde não caia um pingo do céu, sem contar que não havia comida, a não ser raízes dos umbuzeiros e polpas dos mandacarus.  

  O sertanejo do agreste catingueiro deveria ter uma barriga de pedra, adaptada para resistir a falta de água e alimento. Não tinha nem lama nas cacimbas e tanques para ingerir, mas estou aqui para falar mesmo sobre os ladrões de cavalos na região.

É que de tanto ler sobre o Nordeste, me veio esse assunto na “telha”, aquela de cerâmica feita do barro verdadeiro da terra que dá boa liga, não a de zinco e plástico. As “telhas” de hoje são mais de materiais sintéticos, substâncias que transmitem uma série de doenças, inclusive cancerígenas.

  No velho Nordeste, ladrão de cavalo (jumento, burro, mula), vaca ou bode, era considerado o indivíduo mais abominável do que o assassino ou homicida, principalmente quando atuava em legítima defesa e por vingança.

  Como praticamente não tinha justiça numa terra de ninguém, o ladrão de cavalo era sentenciado à morte, sem dó e compaixão e poderia ser até de forma cruel como nos tempos primitivos. Não havia perdão e era um crime intolerável no sertão.

   Os cangaceiros, por exemplo, atiravam em quem os chamassem de ladrões de cavalos. Eles diziam que tomavam emprestado para depois devolver os animais. Roubar uma rês no pasto do outro era uma guerra para o fim do mundo, e muitas brigas entre famílias começaram assim.

  Como no Nordeste, no Velho Oeste norte-americano, durante o século XIX, conforme relatam os filmes de faroeste, também bandido ladrão de cavalo tinha que ser imediatamente executado na forca. Era visto como elemento de baixo nível, um ser desprezível e nojento. Ladrão de cavalo era reconhecido de longe até pela sela do animal.

O cauboy entrava na cidade ou vila, amarrava o cavalo no mourão e entrava no salon para tomar um uisque ou jogar um carteado. Alguém saia de fininho e ia logo avisar ao cherife que tinha um ladrão de cavalo no bar.  

   Com o desenvolvimento e a evolução do Nordeste, que os tirou do isolamento profundo, essa categoria tornou-se rara, a não ser os intermediários dos frigoríficos que matam esses equinos para vender suas carnes e couros para a China.

  Esses meliantes furtam na calada da noite e ficam impunes. O jumento, por exemplo, símbolo da força, da resistência e da cultura popular nordestina, é uma espécie em extinção. Os governantes fazem de conta que nada está acontecendo. Fazem vistas grossas.

  – Fica você aí falando de ladrões de cavalos, coisa do passado, de gente caduca, enquanto a nação está sendo depenada pelos ladrões dos cofres públicos, não por gente “pé rapada”, mas por poderosas quadrilhas sofisticadas, protegidas por uma rede de advogados e até chefes políticos mancomunados.

– É, meu camarada, até que você tem razão e digo mais que esses sujeitos safados nem são tão execráveis como os antigos ladrões de cavalos. Ninguém importa mais com seus crimes, de tão comum que se tornaram, e milhões até votam neles nas eleições.

   Só para não perder o fio da meada, imaginou se os corruptos de hoje, que deixam milhares famintos, sem educação, saúde, assistência social e um rastro profundo de desigualdade social fossem tratados como os ladrões de cavalos no antigo Nordeste? Não ficava um, meu irmão. Seriam mortos a pauladas e pedradas.

  – Aí, meu amigo, se Cristo fosse vivo, poderia intervir e dizer, levanta a primeira pedra quem nunca pecou! A grande maioria dos brasileiros teria que jogar suas pedras fora e dar meia volta de cabeça baixa, envergonhados.        

O ESCREVER À MÃO

A DIFERENÇA ENTRE ESCREVER À MÃO E O DIGITALIZAR NO COMPUTADOR. A MÁQUINA DESUMANIZA. A MÃO, A TINTA, A CANETA E O PAPEL FAZEM O ELO DA INTERATIVIDADE COM O CÉREBRO.

  A cabeça reage bem melhor e com mais emoção quando se escreve à mão, deslizando a caneta no papel, do que na máquina datilográfica – há muito tempo em desuso – ou no atual computador. No modo tradicional do papel, as ideias brotam mais rápidas, com mais força e inspiração.

  A maior parte dos famosos escritores fazia seus livros à mão, não importando o gênero, e depois as secretárias ou as editoras digitalizavam o material, observando as devidas correções pontuais. Mesmo com os atuais avanços da tecnologia, ainda existem aqueles que mantém o hábito convencional da era das cartas. E como era satisfatório assinar embaixo!

  Escrever à mão é bem mais prazeroso e sentimos que a mente se conecta com maior intensidade com a pena. Ainda hoje faço meus versos e alguns pedaços de textos à mão para depois digitar. O texto flui e as palavras parecem cair em borbotões, sem muito esforço.

Sinto a diferença quando escrevo direto no computador, como estou a fazer agora. Não é a mesma coisa. O pensamento se torna mais lento, às vezes bate a fadiga e se exige mais esforços racionais dos neurônios.

A escrita à mão galopa como no picado de um cavalo de raça, e a cabeça corresponde bem melhor, de uma forma mais sequencial e livre. Tem-se a sensação de liberdade! O enredo, ou a história, voa como um pássaro, num ritmo cadenciado e silencioso, bem diferente do teclado.   

  Na pressa do dia a dia, no corre-corre, perdeu-se o hábito da escrita à mão para economizar tempo, indo direto ao computador. A tecnologia também nos levou a isso. Confesso que levei tempo para me acostumar e percebo que as palavras não caem do mesmo jeito como quando coloco a caneta para funcionar no papel.

   As colocações, os termos e as expressões se unem com maior precisão ao tema. O texto tem mais alma e sentimento, procurando o leitor que por ele se atrai. Nem tudo, mas muitas coisas dos meus livros foram parições escritas às mãos, inclusive em papéis de guardanapos em mesas de bares.

   Quando entrei para o jornalismo, nas redações corridas das matérias, para fechar as páginas nos horários marcados, perdi o hábito tradicional, ainda como estudante, mas foi muito difícil adaptar o cérebro à máquina de escrever.

  Muitas vezes, pelo menos fazia a abertura (o lide e o sublide) da reportagem à mão, para depois dar sequência ao resto do texto na máquina.  Muitos colegas também assim procediam enquanto se esperava por uma máquina.

   Nos museus e arquivos ainda se encontram manuscritos à mão de obras e cartas de grandes escritores, como Machado de Assis, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Hermann Hesse, Ernest Hemingway, Dostoievski e tantos outros.                                    





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