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O JEITO DO SONHO CHEGAR
(Chico Ribeiro Neto)
O primeiro sonho veio numa garrafa estrangeira que chegou boíando na praia do Unhão, em Salvador. A garrafa estava muito bem tampada com uma rolha, mas dentro não tinha nenhuma mensagem. Foi fácil sonhar com o lugar de onde ela veio, os peixes que viu no longo trajeto e a cara de quem soprou um sonho ali dentro.
O segundo sonho chegou dentro do ônibus viajando pra Ipiaú, naquele estágio entre dormir e estar acordado. Tinha água no meio – nos meus sonhos o mar sempre aparece -, mas a conversa constante de três passageiros beliscava a película que separa o sonho da realidade.
Já o terceiro sonho chegou cantando e parecia com uma moça magrinha que morava na Rua Tuiuti e tocava violino. Compenetrada, passava ligeirinho pelo meio do “baba” carregando o instrumento. Era um sonho vê-la andar.
Outros tantos sonhos chegaram nos volumes do Tesouro da Juventude, enciclopédia de 18 volumes que trazia o mundo. Era bom abrir um volume e saber como é que o tatu vive ou onde fica Tegucigalpa.
Dormir dentro de um teatro, durante um ensaio, foi também uma boa forma de sonhar. Estava ensaiando uma peça no Teatro Vila Velha mas a cena em que eu entrava demorava tanto pra chegar que dava tempo de tirar um cochilo e sonhar com perdidos personagens, teimosos em não deixar o palco nem os bastidores quando o espetáculo terminava.
A atriz Olga Maimone, que morava num dos camarins do Vila Velha, sabia muito bem disso.
Mais sonhos chegaram com o cinema. Terminava de ver dois filmes e dois seriados – hoje conhecidos como minisséries – no Cine Santo Antônio e a cabeça explodia em imagens. Tinha sido um filme de guerra, com alemão e japonês sempre perdendo, e um caubói com indio sempre morrendo.
A música, a carruagem passando lá longe e, quando a noite chega, aquele namorinho gostoso com a moça que chegou perto da fogueira, “só pra me aquecer um pouco, John”, doida pra ganhar um beijo. O banjo toca lá longe e o uísque corre solto. Tem um bocado de indio espreitando a barraca, mas amanhã cedo a cavalaria vai chegar tocando corneta e matar todo mundo sem morrer um soldado.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 15/6/1991)
O HÁBITO DA LEITURA
Muitos falam de a necessidade do ser humano manter o hábito da leitura, mas pouco sobre o de escrever. Confesso que sou um inveterado e viciado em ambos, como se fosse uma “cachaça”, pois ainda representam o alimento da minha alma enquanto vivo for.
Apesar da mente cansada e desgastada como hoje, depois de um dia estressante, como em outros, mesmo com minha idade avançada, sou teimoso e insistente. Quase não abriria o computador para digitar algumas linhas, mas esta atitude para mim seria um pecado.
Em meus cinquenta e três anos de jornalismo profissional, acho que nunca passei um dia sem escrever ou rascunhar algo, mesmo em finais de semana. Às vezes, a cabeça pesa e as ideias não fluem como deveriam, mas faço esse exercício, até de maneira forçada.
Enveredo pelo artigo, pelo comentário, pela crítica, pela crônica e até pela poesia. Nem sempre alcanço o sucesso desejado, nem com a ajuda dos deuses, que algumas vezes ameaçam me abandonar no leito dos pensamentos.
Posso até deixar de ler quando é muita a correria, mas seja pela manhã ou à noite, lá estou eu como este gesto como se fosse um cacoete. Será uma doença ou vício psíquico incurável onde tenho que me debruçar num divã de um analista para me curar?
Quando sentei na mesa tela, pensei em falar do Trump que saiu dos infernos (agora ameaça invadir o Brasil) para tocar fogo no planeta; apontar as bizarrices da Copa Mundial de Futebol; a máfia da Fifa que tudo faz no final do campeonato para empurrar os campeões para a reta decisiva, para ganhar mais dinheiro com as audiências e satisfazer os patrocinadores; ou escolher um tema nacional.
Sempre antecipo um assunto, mas como não deu, surgiu, por acaso, o título referente ao hábito de escrever, que não estava em minha pauta. Atrevido como sou e insistente até fim quando traço um objetivo, vou seguindo o caminho por entre veredas deste sertão profundo, espinhoso e carrasco, sem destino onde chegar.
Claro que a gente escreve para o leitor e quer ver o seu produto bem embalado e atrativo, com um bom conteúdo para ser aceito pelo consumidor. A literatura sempre me fascinou como uma arte que mais complementa as outras, seja na música, no cinema, no teatro e até na dança.
Bem, é o que tinha para oferecer hoje e cumpri com meu dever de manter o hábito de escrever todos os dias, mesmo sem aquele pique mental que exige do escritor.
Só para finalizar, para escrever, temos que antes começar pelo hábito sagrado da leitura, pouco utilizado nos tempos modernos, principalmente no Brasil de maioria inculta.
O DINHEIRO E O PODER
O dinheiro e o poder. Quem veio primeiro? Acredito que seja mais um enigma a ser decifrado pelos pesquisadores, historiadores, antropólogos, filósofos, teólogos e cientistas, se bem que no sentido divino de um deus, o poder veio primeiro.
Na concepção de antigamente, o todo poderoso era escolhido pelo divino. Há quem ainda fale isso nos dias atuais. Só não vou citar aqui os nomes bem conhecidos de todos que governam como se fossem deuses opressores do povo.
Alguém pode dizer que são apenas elucubrações e que cada um tem o seu ponto de vista. Eis a questão, “ser ou não ser”! No plano terreno, o poder foi adquirido por aqueles que tinham mais posses e forças para guerrear e dominar outras tribos.
Pela carruagem do tempo, no início só havia o escambo, ou troca de mercadorias entre os povos sedentários que eram agricultores e domesticadores dos animais. Os colhedores e caçadores eram nômades livres e não ligavam muito para essa coisa de poder.
Do escambo nasceu o dinheiro através do metal vil do ouro e da prata lá na Lídia (hoje Turquia), bem antes de Cristo. Somente depois apareceu o bicho diabo dinheiro em espécie, confeccionado pela China. A partir daí o poder humano tornou-se mais forte com a injeção do dinheiro.
Bem, essa história saiu da minha cabeça, mas pode ser contestada. Como diz o Chicó, “só sei que foi assim”, mas ainda ficou embolado sobre quem nasceu primeiro. Em meu juízo já com meus neurônios desgastados, considero que o poder veio primeiro, bem antes da invenção do dinheiro, depois do escambo.
Nem sei o que me deu na cachola hoje de escrever algumas linhas sobre este tema complicado. Pode ter sido os entreveros que passei, os quais me levaram a essa doideira desse negócio de dinheiro e poder. É que estamos sempre ligados aos dois neste sistema capitalista em que vivemos e deles somos escravos.
Como já me meti nessa enrascada ou nessa barca furada, lembrei da antiga Grécia com o surgimento da democracia que diz que “todo poder emana do povo”. Acho que isso é uma grande furada que os filósofos criaram, o mesmo que “a voz do povo, é a voz de Deus”.
Fui olhar no dicionário o significado de “emanar”, do latim emanare. Michaelis 2000 (Moderno Dicionário da Língua Portuguesa), explica que a palavra significa originar-se, proceder, provir, sair de, desprender-se, disseminar-se em partículas sutis.
Ora, nem lá na Grécia isso tudo saia do povo e sim do poder para dominar o povo. Então acho que é o contrário, ou seja, todo povo emana do poder, principalmente nessa era evolutiva da tecnologia e desde antes da revolução industrial lá pelo final do século XVIII.
Na minha modesta análise, hoje para se alcançar o poder é preciso ter muito dinheiro, caso das nossas eleições, não somente no Brasil, mas, principalmente, no mundo capitalista ocidental. Quanto mais dinheiro, mais probabilidade de se chegar ao poder e com ele, mais dinheiro para se perpetuar nele.
Portanto, mesmo numa democracia como a nossa, ainda tão falha que não preenche todos requisitos emanados (olhe aí o emanar) da Constituição retalhada e enxovalhada, com tanta desigualdade social, não engulo essa de que “todo poder emana do povo”.
Terminei misturando dinheiro e poder com democracia e povo. Acho que fiz uma miscelânea e não vou mais me esticar pela frente senão acabo falando mais besteiras e asneiras.
E para você, quem veio primeiro, o dinheiro ou o poder? Para quem gosta de polêmica, como meu amigo Manno, este assunto é um bom prato para ser saboreado a dois ou mais gente numa mesa de bar. Pode ser também numa roda de discussão de sarau. Não é meu companheiro Dal Farias. Isso é coisa para Itamar esmiuçar.
UMA DERROTA ANUNCIADA
Depois de sepultar o defunto, os comentaristas da Rede Globo e demais analistas do futebol apontam os criminosos, no caso a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que há anos se tornou uma entidade de disputas entre o poder, foco de denúncias de corrupção e malfeitos, sem contar as trapalhadas.
As críticas só apareceram quando o juiz norte-americano, que ainda deu uma ajuda ao Brasil ao marcar aquele último pênalti (não existiu) e esticou o tempo, apitou a peleja, dominada totalmente pela Noruega, que não é lá esse bicho papão. Passou pelo Japão no sufoco, como aconteceu no empate contra o Marrocos.
Todos esses escândalos da CBF tendem a refletir no campo, como as influências políticas e econômicas das contratações que não deveriam acontecer.
Algumas indicações tiveram o dedo oculto do dinheiro sobre aquele jogador que dá maior faturamento através do marketing, caso específico do Neymar, que no final da partida teve que exibir seu papel de moleque ao bater boca com o goleiro, como se estivesse num baba de várzea, fato este antiprofissional.
Poderia repetir tudo aqui o que já foi dito por milhões de brasileiros que acreditavam, sem acreditar, quando entraram na onda, ou na pilha, dos chamados “influenciadores” em ficar “secando” os prováveis adversários mais fortes para perder, inclusive torcendo contra Argentina e outros países. Quem assim age, demonstra que não confia em seu time.
Para mim, que venho acompanhando a Copa e a participação do Brasil desde 1962, esta foi a maior derrota anunciada de toda sua história. O futebol do Brasil começou sua fase de decadência a partir da leva de jogadores que por grana foram para Europa e outros países, deixando para trás a nossa escola do gingado, da “malandragem” no bom sentido e a cultura do nosso futebol arte.
Ouvi muito papo de que os nossos atletas não tiveram garra, não suaram a camisa, não lutaram em campo como deveriam, ou coisa parecida, mas tudo isso não conta e nem adianta quando temos uma seleção mediana, isto é, sem altos craques como antigamente. O jogador um pouco acima da média é o Vinícius Júnior.
Outros ainda comentaram sobre as contusões de Paquetá, Rafinha e até do Militão, mas nenhum desses comprometeu com o “desempenho” da seleção porque não são craques e peças que decidem uma partida. Todos são praticamente do mesmo nível. Qualquer substituição equivalia a trocar seis por meia dúzia.
O desfalque seria preocupante se ali estivesse um Pelé, um Garricha, um Rivelino, Tostão, Romário, o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo Fenômeno ou outro semelhante, do mesmo patamar.
Mesmo assim, naquele tempo das nossas saudosas seleções, quando um craque era lesionado, entrava outro, como ocorreu em 1962 com Pelé, na Copa do Chile.
Continua a mania de trazer muitos jogadores de fora que atuam em outros países (não são lá esses craques), quando poderia incluir no elenco mais atletas dos nossos campeonatos. Muitos que mereciam ser indicados, terminaram ficando de fora.
Após a derrota anunciada, a fala dos jogadores, no sentido de “erguer a cabeça”, corrigir os erros e trabalhar mais forte deu a impressão que a gente estava num Campeonato Brasileiro e tinham mais jogos pela frente para recuperar o fracasso.
Acho que eles não entenderam que o jogo foi de “mata a mata” e quem perdia tinha que arrumar as malas e vir para casa. Será que o técnico Ancelotti, que chegou num momento conturbado, não alertou sobre isso no vestiário?
Com essa seleção, o melhor treinador do mundo não chegaria à final da Copa. No futebol, não se fabrica craques. O máximo que se pode fazer é melhorar o nível técnico, seu posicionamento em campo, o acerto de passes e o domínio da bola. Por falar nisso, essa seleção machucou e maltratou a deusa bola. Coitada dela, sofreu bastante!
DUAS CARINHAS NO VIDRO TRASEIRO
(Chico Ribeiro Neto)
Estou no calorento e caótico trânsito de Salvador. São quase duas horas da tarde e enfrento um bruto de um engarrafamento na Avenida Paulo VI, na Pituba.
Alguém bateu em alguém ou então tem caminhão atravessado descarregando, Kombi de sorvete fazendo liquidação, três oficinas-estrela atuando, mais mesas de bar na pista e um guarda inteiramente descontrolado que só faz apitar.
Suspiro, enxugo o suor, olho pra cara do taxista ao lado, o que só faz piorar minha chateação. É quando algo à frente me chama atenção: dois garotos, de seus quatro ou cinco anos, ajoelhados no banco do fundo de um carro, começam a me dar adeusinhos pelo vidro. Fico sem responder, mas aos poucos e timidamente levanto a mão direita para acenar também.
Eles vibram e se agitam mais ainda no banco do carro. Novamente fico acenando e eles dando os adeusinhos cada vez mais rapidamente.
Os meninos usam farda da escolinha e começam a me fazer esquecer do engarrafamento. De repente, o de cara mais safada, com cabelo lourinho caído na testa, começa a fazer careta. Juro que tive vontade de responder a algumas – sei fazer boas caretas – mas fiquei com vergonha dos motoristas ao lado. Podiam até pensar que aquele engarrafamento estava deixando um maluco.
O carro se afasta só alguns metros, eles tomam aquele susto e, pra não caírem, apoiam-se um no outro. Riem de tudo, não dão a menor bola pro engarrafamento e agora começam a mostrar a merendeira, pasta, mochila, garrafa térmica e toda aquela pequena tralha de escolinha.
A cabeça vai longe, chega até a estrada Jequié-Ipiaú. Quando menino, gostava muito de dar adeus do ônibus para as crianças que ficavam naquelas casinhas onde Jequié começava a acabar pra começar a estrada.
Anos depois, causou-me espanto ver uma mãozinha de plástico que ficava presa ao vidro traseiro do carro e que dava adeus quando o veículo se movimentava. Muito sem graça, por sinal.
Volto ao engarrafamento, o suor escorre pelas costas, as caras em volta continuam a passar somente aborrecimento, mas aquelas duas carinhas à frente me confortam e chego até a ensaiar uma caretinha. Afinal já estou acostumado é a receber histéricas buzinadas e até algumas “bananas” no trânsito.
Parece que agora o engarrafamento está terminando, o adeusinho deles vai ficando mais longe, até que o carro entra numa rua antes da minha. Tive vontade de segui-los até a escolinha, abraçá-los, beijá-los, pagar guaraná pros dois e dizer: “Vocês iluminaram hoje o meu dia”.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 5/12/1991)
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