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:: ‘Notícias’

O SARAU FOI ATÉ AO POVO

Fotos de José Silva

  “Um sonho sonhado junto se torna realidade”, e foi isso que aconteceu na última sexta-feira (dia 24/07/2026) ao cair da tarde, na Praça Nove de Novembro quando o “Sarau A Estrada” foi à rua com apresentações de música, declamação de poemas, exposições das obras do cordelista, Ailton Dias e do artesanato “Kokos e Kabaças”, do artista Walter Lajes, além de falas, levando cultura, conhecimento e saber.

   Foi uma tarde memorável que até os deuses da arte contribuíram para que o tempo deixasse o sol entre as nuvens derramando seus raios no palco da praça e abençoando os artistas que ali estiveram cantando suas canções e fazendo poesia. O Sarau cumpriu sua primeira missão de ir onde o povo está e agora tem o dever de disseminar a cultura aos quatros cantos da cidade.

   Depois de várias tentativas, de lutas, obstáculos e dificuldades, enfrentamos os desafios e colocamos a ideia em prática, graças a um grupo de organizadores onde todos colocaram a mão na massa e abraçaram a causa com garra e entusiasmo.

  É mais um grande feito do “Sarau A Estrada” e desta vez inédito que vai ficar marcado na história da cultura de Vitória da Conquista, que anda precisando de uma injeção de ânimo por parte do poder público que, infelizmente, abandonou o setor à própria sorte.

  No entanto, o Sarau, com suas próprias forças, esteve lá na praça passando sua mensagem e dando seu recado de que queremos a aprovação já do Plano Municipal de Cultura, a abertura dos equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha que estão sendo destruídos pelo tempo, uma empresa pública do audiovisual, a revitalização da nossa cultura e que o nosso São João retome às suas tradições do autêntico forró pé de serra.

De forma descontraída e organizada, fomos chegando à praça com aquela expectativa de se encontrar com o povo e com ele se interagir. Ali estavam os artistas de forma voluntária para dar a sua contribuição. Tudo começou a partir das 15h30min, com uma roda de capoeira, expressão cultural afrodescendente, comandada pelo nosso mestre companheiro Clóvis Carvalho. O berimbau deu seu ritual de introdução dos trabalhos.

    Na abertura entrou o nosso hino de “Avante, avante, oh Sarau!/Estradeiros da cultura,/De mensagem universal”, de autoria de Jeremias Macário, Dorinho Chaves e Alex Baducha, onde se fala dos seus mais de 15 anos de existência (16), do seu tema e da sua arte que nos faz bem, passageiros do mesmo trem.

   Logo após, a nossa cria da casa, Maria Luiza nos brindou com uma linda canção, acompanhada no violão pelo seu pai Manno di Souza. Em seguida vieram as falas do presidente de honra, Jeremias Macário e do professor Itamar Aguiar, um dos mais entusiastas e frequentadores dos nossos eventos, realizados no Espaço Cultural A Estrada.

   As mestras de cerimônia, Edna Brito e Vandilza Gonçalves conduziram nossa programação, intercalada entre pronunciamentos, cantorias e declamação de poemas. Elas exaltaram o Sarau que teve a ousadia de sair das quatro paredes e ir até à rua.

   Com suas cantorias musicais que atraíram a atenção de todos, estiveram no palco nossos estradeiros Manno di Souza, Dorinho Chaves, Papalo Monteiro, Carlos Moreno, Walter Lages, Alex Baducha, dentre outros que se apresentaram espontaneamente e apoiaram nossa iniciativa.

   Por falar nisso, contamos com o apoio logístico das secretarias da Cultura, de Ordem Pública e, principalmente, da mídia em geral, como das rádios Melodia, Clube, Rádio Câmara, TV Sudoeste, dos blogs de Tico Oliveira, de Massinha (UP), dentre outros veículos de comunicação que divulgaram nosso “Sarau na Rua” e acreditaram em nosso sonho.

   Para que tudo desse certo, não podemos deixar de registrar aqui o esforço e o trabalho da Comissão Organizadora do “Sarau na Rua” nas pessoas de Cleu Flor, Dal Farias, Eduardo, Karine, Edna Brito, Mano di Souza, Conça, Dorinho, Itamar Aguiar, Alex Nery (grande condutor da divulgação), Cleide, Clovis Carvalho, Cristina, Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves, cada um cumprindo a sua tarefa que lhe foi atribuída.

   Agradecemos também a presença de todos estradeiros que lá estiveram na praça prestigiando e ajudando o nosso evento, sem deixar de citar os préstimos do fotógrafo José Silva que se dispôs a fazer a cobertura fotográfica, cujas fotos são registros históricos de mais um feito do Sarau.

 

ENFIM, SEREMOS CAMPEÕES!

(Chico Ribeiro Neto)

Diante do fiasco brasileiro na Copa do Mundo, um esperto da CBF (entidade sempre cheia de espertos) propôs a criação da Copa dos Jogos e Esportes Originais, a ser disputada no Brasil em 2027.

Seguem algumas modalidades onde o Brasil teria muita chance:

Corrida de Saco.

Corrida com Ovo na Colher.

Campeonato de Cuspe: quem cospe mais longe é o campeão.

Campeonato de Xixi: quem mijar o maior volume é o vencedor.

Campeonato do Número 2: quem cagar um quilo certo será sagrado campeão. Nosso bravo jogador N… ganhará facilmente.

O Brasil sairá vitorioso também nas seguintes modalidades:

Arremesso de Vizinho.

Arremesso de Boleto.

Arremesso de Cobrador.

Jogo de Peteca.

Enfiação de Azeitona no Palito.

Enfiação de Bufa no Cordão.

Quebra-Pote.

Podemos também sair vitoriosos no Campeonato Mundial de Jogo de Pauzinho. “Eu peço seis”. “Lona!” Alguns jogadores sabem muito bem esconder um palito entre os dedos. Ninguém nos vence em mutreta.

Sairemos vitoriosos ainda nas seguintes modalidades:

Jogo de Ferrinho ou Finca-Pé.

Lançamento de Tampinha de Cerveja.

Levantamento de Copo.

Mundial da Embromação.

Vamos tirar também o primeiro lugar na Guerra de Badogue com Balas de Mamona. No Jogo do Bicho já somos campeões há muito tempo.

O competidor brasileiro disputa o jogo da vida em muitos turnos, sem prorrogação, sem juiz e sem taça, diante de uma torcida amarga e silenciosa.

O vento traz de não sei onde uma folha verde que pousa na arquibancada do estádio. Um bem-te-vi canta em cima do travessão.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

O “SARAU A ESTRADA” VAI À RUA

  O “Sarau A Estrada” vai à rua nesta sexta-feira (dia 24/07), a partir das 15h30min pela primeira vez depois de 16 anos de existência. Vamos sair das quatro paredes e ir até onde o povo está. Nosso encontro está marcado para a Praça Nove de Novembro e deve se prolongar até às 18 horas.

   Com abertura de roda de capoeira, exposição de artesanato (Kokos e Kabaças) e artes plásticas (Beth David), vamos levar cultura ao povo também através da música, da declamação de poemas, teatro e falas de seus componentes, repercutindo a nossa trajetória na troca das ideias, do conhecimento e do saber entre artistas, intelectuais, professores, estudantes e pessoas interessados pela arte.

  O nosso evento é suprapartidário, sem viés político ideológico, mas sempre em defesa da revitalização da cultura conquistense.  Trata-se de um projeto piloto e outros deverão acontecer em pontos diferentes da cidade. Todos estão convidados a participarem dessa experiência cultural inédita.

  Para esta empreitada, devemos contar com o apoio logístico do poder público através das secretarias de Cultura e Ordem Pública, da mídia em geral, dos empresários, das diversas entidades, no sentido de que o “Sarau na Rua” seja um sucesso e outros venham a ser realizados além do centro.

  O “Sarau na Rua” pretende encantar a população com suas atividades, de forma a mostrar a importância da cultura na vida do ser humano. Uma cidade sem cultura é como uma cidade sem alma porque precisamos também cuidar do nosso espiritual. A cultura é como o ar que respiramos.

 Na luta constante em prol da cultura e pelo seu fortalecimento, vamos também levantar as nossas reivindicações que são de toda comunidade, como, por exemplo, a implantação do Plano Municipal de Cultura e abertura dos equipamentos culturais. Cultura gera emprego, renda e desenvolvimento econômico e social.

   Para quem ainda não conhece, o nosso “Sarau A Estrada” já realizou diversos trabalhos, como a divulgação de um CD e vídeos, apresentação no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o Troféu Glauber Rocha pela sua atuação durante este período.

  Este evento do dia 24 de julho será um marco, o mais significativo de todos porque o artista deve ir onde o povo está, como diz o nosso grande cancioneiro, cantor, músico e compositor Milton Nascimento.

   Neste dia histórico para o Sarau, que sempre é realizado no Espaço Cultura a Estrada, esperamos contar com todos estradeiros da cultura, movimentos ligados ao setor e demais fazedores de cultura, que irão se juntar ao povo de Vitória da Conquista, para ouvir nossas palavras, contribuir e participar das nossas atividades.

DEPOIS DA COPA, AS ELEIÇÕES

  Ia falar de sonhos, como o mais comentado pelos brasileiros de baixa renda que é o da casa própria, se bem que tem gente que prefere o carro. No entanto, vamos aterrissar em terra firme que depois da Copa Mundial de Futebol (um fracasso brasileiro) vem aí as eleições.

   Quanto a Copa, agora só em 2030, quando reascende o sonho da fogueira do hexa, se bem que os torcedores já estão escaldados e cansados de esperar. O jeito é recordar as competições de 1958, 62, 70, 94 e 2002, e recolher as mágoas das grandes derrotas e fracassos decepcionantes. Nem é bom lembrar.

   Pode conseguir o hexa no 30, mas não ouvi nenhum comentário que para chegar lá temos que ter um time igual ou melhor do que a Espanha e a França, com aquele futebol envolvente, do tic-toc e um conjunto de passes certeiros. A Espanha de hoje é o Brasil de antigamente. Temos que voltar à escola de antes e praticar o futebol arte.

  Outra coisa que ninguém se atentou é o fato de que a maioria dos jogadores dessas duas equipes é composta de jovens que farão a base de suas seleções, ainda mais fortes e com mais técnica e experiência. O Brasil tem que renovar, planejar, repensar todo esquema para ser superior. Se a CBF continuar como está, desorganizada e corrupta, nada feito.

  Vamos deixar essa coisa de Copa para lá porque as eleições estão batendo em nossas portas. Por ter me referido aos sonhos, lá na abertura, o meu é que o brasileiro votasse certo em nomes comprometidos socialmente com a causa do povo, sérios, honestos e de caráter, não esses cafajestes e bandidos que aí estão.

   Sinto muito ter que dizer isso, mas, infelizmente, está difícil conseguir essa proeza. O nosso povo permanece inculto, sem consciência política e ainda vende seu voto por favores, como nos tempos dos coronéis, só que de uma forma mais discreta e sofisticada, no jeitinho brasileiro.

  Para ser sincero, entendo como uma grande contradição um jovem de 16 anos votar, visto que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente ele continua vulnerável, sem a capacidade de discernimento.

   Ainda dentro da lei não é passível de ser punido pelos seus atos. Numa eleição, a grande maioria, com raras exceções, este jovem tende a ser influenciado pelos seus colegas, pela religião do pastor e pelos próprios pais.

  Será que estou interpretando errado sobre isso? Quem aprovou essa emenda foram eles lá de cima, cientes da vulnerabilidade desses adolescentes que podem ser facilmente manipulados. Não me venham com blábláblá de que as coisas mudaram e o jovem de hoje está mais consciente politicamente!

   Confesso que fico triste com este Brasil em que vivemos e mais ainda certo de que, infelizmente, as eleições não trazem mudanças para melhor. Bem que gostaria que ocorresse o contrário, mas a realidade é bem outra, e nada de conversa fiada para boi dormir.

  Vamos ser diretos e falar no popular, sem rodeios. Passam eleições e entram outras e os cabras lá de Brasil, sejam de direita, de centro, extrema ou esquerda nem querem discutir em fazer uma reforma eleitoral para mudar esse sistema selvagem e bruto.

  No máximo fazem umas mudanças aqui e acolá, mas nada de substituir as regras sujas e mafiosas que beneficiam todos eles, onde cabe a cada um ser mais astuto e esperto que o outro. Quem tem mais bala na agulha e for o cawboy mais rápido desse faroeste, vence o duelo no entardecer melancólico do fechamento das urnas.

 

“AMICUS CERTUS IN RE INCERTA CERNITUR”

   Por acaso alguém conhece este termo em latim que resume bem o significado de ser amigo? Um amigo de verdade, muitas vezes vale bem mais do que um irmão. Antigamente era coisa séria, mas a palavra nos tempos modernos foi se banalizando.

  Você bate com uma pessoa qualquer numa rua ou em outro lugar e vai logo chamando de amigo. “Facilita isso aí para mim, amigo”. É comum você ouvir isso de alguém para um funcionário de uma repartição pública ou outro setor, solicitando o desembaraço do seu problema. “Oh, amigo, dá uma ajudinha aqui para empurrar esse carro que só pega no tranco”!

  Criaram o “Dia do Amigo”, 20 de julho e logo veio em minha cabeça essa frase em latim que significa “o amigo certo se revela na ocasião incerta”, ou pode ser literalmente no popular, “amigo certo nas horas incertas”. Dizem que essa expressão foi do orador romano Cícero.

  “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração”. Esse verso quase todo mundo sabe que é “Canção da América”, cujos compositores são de Milton Nascimento e Fernando Brant. Essa criação é profunda e vai até o além e se eterniza.

  O verdadeiro amigo se prova nas dificuldades e não naquele que é seu “amigo” quando você está numa boa, no sucesso e bem de vida em termos de dinheiro. Tem gente que está sempre ao seu lado, nos eventos, bares e restaurantes quando se está por cima “da carne seca”, mas depois some quando o cara entra em desgraça.

  Na filosofia citam que existem três tipos de amigos, tais como amizades de utilidade, de prazer e as amizades de virtude ou caráter. Este último, meu amigo, está bem escasso na praça de hoje em dia. Tem outros que dividem as amizades em folhas, galhos e raízes, isto no sentido metafórico.

 “Você meu amigo de fé, irmão camarada…”, abre a canção “Amigo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, e fecha com a estrofe “Não preciso nem dizer/Tudo isso que eu lhe digo/Mas é muito bom saber/Que você é meu amigo”. A letra ainda fala de “amigo certo nas horas incertas”.

  Para o brasileiro que desconhece e tem tantas rivalidades com os nossos hermanos mais próximos, onde a grande maioria torceu contra seu time de futebol na final da Copa, o “Dia do Amigo”, por incrível que pareça, foi criado na Argentina pelo psicólogo professor Enrique Ernesto Febbraro.

  A data passou a ser comemorada na Argentina, em 1999.  Celebra-se também no Brasil o “Dia Internacional da Amizade”, em 30 de julho, proclamado pela ONU.

 Contam que Febbraro escolheu a data de 20 de julho para marcar a chegada do homem à Lua, 20 de julho de 1969, símbolo de união e paz entre os povos. Enviou várias cartas para diversos países e sua ideia foi concretizada.

Ocorre que essa paz está cada vez mais longe de ser alcançada, com as guerras sangrentas e genocidas decretadas por tiranos, com suas xenofobias contra imigrantes e a construção de muralhas e cercas farpadas nas fronteiras.

  Quanto ao “Dia do Amigo”, isto é, as relações entre as pessoas com as quais convivemos no dia a dia, é preciso ter muito cuidado e saber fazer as escolhas certas. Fique distante do invejoso, do interesseiro (a) (o que mais temos atualmente), do traiçoeiro, das amizades de utilidades, de prazer, dos folhas e galhos.

  Por falar em amigo, nunca me esqueço do dia, há muitos anos, quando estava na universidade, ou, se não me engano, já atuando no jornalismo e levei uns amigos à casa dos meus pais na roça, em Piritiba. Ao meu velho, depois de uma longa viagem fazendo farras e numa alegria só, os apresentei como amigos da capital.

  Com seu jeito sertanejo nordestino de cismado, com o pé na frente e outro atrás, olhou bem para mim e me advertiu, com sua maneira sisuda, rústica e carrancuda, que amigo era coisa séria e prestasse mais atenção nas escolhas.

A VACA BUZINA NA PORTA

(Chico Ribeiro Neto)

Tem uma vaca que passa na porta do meu prédio todo dia de manhã cedo. Seu mugido é uma buzina e em vez dos chifres o que há é um grosso para-choque de ferro.

Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na mão, ela não chegava. E olhe que ela é quase tão pontual quanto a vaca natural, aquela do curral. Tinha furado um pneu e a camionete Fiat demorou para entregar o leite de porta em porta.

Em vez do galo tem uma neurotizante sirene de uma construção que me acorda às 6:45. Se não acordar, às 7 ela toca de novo, soltando aquele barulho misto de ambulância e de fábrica. Essa segunda sirene é como quem diz: “Você ainda está aí, na cama?”

Os primeiros ruídos do dia nem sempre são bem-vindos. O barulhinho das panelas e das xícaras sendo ajeitadas é auspicioso, sinal do café à vista. Já as primeiras horas da manhã lembram o ofício, pegar o carro, engarrafar, entrar em sinaleira, sair de sinaleira já com outra buzina atrás.

Quando se tem um neném, o primeiro choro do dia é bom de ser ouvido, faz a gente recuperar uma certa paz, uma ainda confiança no mundo.

Saindo do silêncio do sono, retomamos a cidade e todos os seus barulhos, e tem hora que chega a ser assustador.

Quando trabalhava no centro da cidade, gostava, às vezes, de entrar na Igreja de São Bento para respirar aquele silêncio, conversar comigo e reingressar na massa que descia a Ladeira tropeçando em camelôs e fugindo dos automóveis para desembocar na Barroquinha, um verdadeiro fervilhar de vendedores, desocupados, ocupados, passantes, apressados e aposentados.

Se fosse fim de tarde, procurava a murada da Praça Castro Alves e, depois de esgueirar-me entre os carros, conquistava finalmente uma ampla olhada sobre o mar, aliviando-me um pouco da cidade que estava às costas.

Barulho igual a um ferry-boat voltando da ilha, domingo de tarde, é difícil de achar. Parece que as pessoas acumulam barulho na tranquilidade da ilha e já vêm soltando pelo caminho. O silêncio parece incomodá-las, parece ser-lhes insuportável. Quanto mais alto os rádios dos carros, melhor. Quem conseguir escapar dos rádios dos carros cairá junto a um sambão. E assim que o ferry-boat atraca, a monumental buzinação. Depois, em casa, salvo e são.

Nossos pobres ouvidos têm resistido a tanta coisa, são matraqueados diária e insistentemente nessa cidade grande cujo medidor de decibéis já deve ter quebrado os ponteiros.

Você já teve a infeliz ideia de pedir a um motorista de táxi pra baixar o rádio? O sujeito toma aquilo como o maior desaforo do mundo e alguns chegam até a aumentar mais ainda depois do pedido. Ele se nivela ao barulho, sua frequência é lá em cima pra conseguir operar no ensurdecedor nível de todo trânsito, nível onde qualquer tentativa de diálogo soa mal.

Enfim, em casa, a solução é colocar  o headphone e ouvir Vivaldi, alimentando um pouco o silêncio que vem de dentro.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 11/1/1989)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

O “SARAU A ESTRADA” VAI À RUA

  Pela primeira vez em toda sua história de 16 anos de existência, o “Sarau A Estrada” vai à rua levar cultura ao povo através da música, da declamação de poemas, roda de capoeira, teatro e falas de seus componentes, traduzindo a nossa trajetória na troca das ideias, do conhecimento e do saber entre artistas, intelectuais, professores, estudantes e interessados pela arte.

  O nosso encontro suprapartidário está marcado para o próximo dia 24/07, às 16 horas, numa sexta-feira, na Praça Nove de Novembro, conforme ficou decido pela Comissão Organizadora que já comunicou o evento à Prefeitura Municipal, na pessoa da prefeita Ana Sheila Lemos e às Secretarias de Cultura e a de Ordem Pública.

     O evento estava previsto para o dia 17/07, mas, por motivo de força maior, a data foi transferida para o dia 24/07 no mesmo horário, mantendo o mesmo formato. Trata-se de um projeto piloto e outros deverão acontecer em pontos diferentes da cidade. Todos estão convidados a participarem dessa experiência cultural.

  Gostaríamos de contar com o apoio logístico do poder público, da mídia em geral, dos empresários, das diversas entidades, no sentido de que o “Sarau na Rua” seja um sucesso e outros venham a ser realizados além do centro.

  O “Sarau na Rua” pretende encantar a população com suas atividades, de forma a mostrar a importância da cultura na vida do ser humano. Uma cidade sem cultura é uma cidade sem alma porque precisamos também cuidar do nosso espiritual.

 Na luta constante em defesa da cultura e pela sua revitalização, vamos também levantar as nossas reivindicações que são de toda comunidade conquistense, como a implantação do Plano Municipal de Cultura e abertura dos equipamentos culturais. Cultura gera desenvolvimento econômico e social.

   Para quem ainda não conhece, o nosso sarau já realizou diversos trabalhos, como a divulgação de um CD e vídeos, apresentação no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o Troféu Glauber Rocha pela sua atuação durante este período.

  Esse evento do dia 24 de julho será um marco, o mais significativo de todos porque os artistas estarão indo onde o povo está, como recomenda o nosso grande cancioneiro, cantor, músico e compositor Milton Nascimento.

   Neste dia histórico para o “Sarau A Estrada”, que sempre é realizado no Espaço Cultura do mesmo nome, esperamos contar com todos estradeiros da cultura, movimentos ligados ao setor e demais fazedores de cultura, que irão se juntar ao povo de Vitória da Conquista, para ouvir nossa palavra, contribuir e participar das nossas atividades.

“CONTEUDO”, SEM CONTEÚDO

  – É, meu amigo, a sua matéria até que está boa, mas está faltando conteúdo – disse o editor ou redator (copidesque) do jornal após ter corrigido o texto do repórter. Ele quis explicar com isso que a reportagem necessitava de mais dados, informações e profundidade. Poderia ser melhor trabalhada e elaborada.

  Há alguns anos, a gente costumava ouvir uma música, ir a uma exposição de artes plásticas, ler um livro e tecer uma crítica construtiva de que sentiu a falta de conteúdo naquelas obras. Quando um filme não tinha conteúdo, era porque havia deixado um vazio, e o cineasta, ou autor, teria pecado no enredo.

   Naquela época, em tudo se procurava um conteúdo, uma mensagem de aprendizagem para a vida. Poderia ser num romance, num conto, numa prosa, num poema ou qualquer outro gênero literário, inclusive como numa pesquisa sobre história. “Aquela pessoa não tem conteúdo”.

  As pessoas tinham mais conteúdo no falar e no expressar. Quem não já ouviu uma observação de alguém de que o discurso de fulano foi cheio de floreios, metáforas, linguagens rebuscadas, mas não teve conteúdo. Quando ouço que a nossa humanidade entrou em decadência, entendo que ela perdeu o conteúdo de ser humano.

  Fui ao “pai dos burros”, o velho dicionário que quase ninguém mais usa (tudo é pelo Google), especificamente o “Michaelis 2000, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa”, e dei uma espiada na palavra conteúdo.

   Diz que é um adjetivo do latim vulgar contenutu, contido. Aquilo que está contido ou encerrado em algum recipiente. Assunto, tema, matéria de carta, livro, etc; teor, texto. No aspecto social, o mesmo que cultura. Conteúdo térmico: O mesmo que conteúdo de calor. Existem outras definições, a depender do aspecto da abordagem que é feita.

  A esta altura, muitos devem está comentando que esteja sendo antiquado, mas, na minha modesta visão, existe o “conteúdo” e o conteúdo. Aquela embalagem, ou aquela mala tem um “conteúdo” falso. Ouve-se muito essa expressão por aí. O conteúdo daquela medicação não é verdadeiro.

 Com os tempos modernos, em plena era da tecnologia da internet e agora com a IA (Inteligência Artificial), muitas coisas mudaram de sentido. Nas redes sociais, por exemplo, qualquer porcaria que se poste é chamada de conteúdo. Se você fizer uma careta é “conteúdo” com milhões de visualizações e seguidores.

  Dias desses estava vendo uma reportagem na televisão sobre uma cabra ou carneiro, chamada de Chanel, que uma senhora cria em sua casa, que é um tremendo sucesso nas postagens que faz. O tempo todo o repórter repetiu a palavra “conteúdo” de internet, referindo-se a outros vídeos, sem conteúdo.

   No fundo não deixa de ser um “conteúdo”, mas vejo o significado da palavra com um outro sentido. Em minha vida, aquela cabra domesticada deixou algum conteúdo de aprendizagem para mim? Assim são outros besteiróis que acesso por aí.

  Alguém pode até rebater que depende do ponto de vista. Isto me faz recordar de uma canção do nosso grande compositor Raul Seixas, onde em algum verso diz que “o ponto de vista é o ponto da questão”.

  Sabe de uma coisa! Acho que estou sendo um tremendo chato ficar esmiuçando esse negócio de “conteúdo”, sem conteúdo. No no mundo de hoje das artes, perdemos muito do conteúdo. A grande maioria das letras musicais são desprovidas de conteúdos.

   No entanto, se formos analisar por outro lado, todo lixo tem “conteúdo”, seja lá o que for, e são até aproveitáveis, inclusive para os famintos de ruas que não têm o que comer e encontram um resto de alimento numa lixeira.

NEM TUDO QUE SOBE, CAI

  Quem não já ouviu essa prosa de algum amigo, de que tudo que sobe, cai? Até aquilo… não é? No entanto, acho que nem tudo. Tem amor verdadeiro e duradouro que nunca cai, mas nos tempos modernos da tecnologia, está sempre mudando e tem duração curta.

   Muitos chegam a dizer que depois do casamento, passados alguns anos, ele começa a se esfriar e a murchar. A fruta tem o seu período de crescer, amadurecer e o de apodrecer. Entretanto, aquilo que tem valor sentimental, nunca se vende e nem se joga fora.

Na história da humanidade, por exemplo, todos grandes impérios tiveram seu ponto alto e depois entraram em decadência. Os norte-americanos, no caso do Trump, se acham deuses, são presunçosos e se sentem eternos superiores. A grande maioria recusa acreditar que os Estados Unidos estão em declínio.

   A vida em si e todas as coisas que a cercam têm seus picos e depois começam a cair. No sentido biológico, a vida tem suas fases de efervescência e depois vem a velhice, terminando na morte, ou no fim, se bem que os espíritas falam do renascer na reencarnação.

  Bem, este papo é um tanto complicado e filosófico. O foguete sobe e cai, como o avião que decola, se estabiliza na altura máxima e depois aterrissa. Se formos analisar pelo aspecto da gravidade, tudo que sobe, cai.

   As microempresas, geralmente, têm vida curta por falta de uma boa administração e planejamento, mas também existem as grandes que vão ao topo e, de uma hora para outra, entram em falência.

   Pelo lado do sucesso e da fama, existem aqueles que são efêmeros porque não têm essência em suas mensagens e conteúdos, mas muitos são considerados como imortais quando deixam conhecimento e saber para as gerações posteriores.

  Na música, na literatura, no cinema, no teatro e nas artes em geral existem aquele que sobem e caem no esquecimento, como os que ficam registrados nos livros da história para sempre. São os que passaram pela vida e deixaram suas marcas e seus legados inesquecíveis.

    Portanto, meu camarada, esse negócio de que tudo que sobe, cai, é muito relativo, depende muito do que está se tratando. Os objetos materiais têm seu tempo de vida e passam, mas os bens espirituais, de um modo geral, se eternizam, isto é, quando prosperam e engradecem o ser humano.

 Nem sei o porquê de estar aqui escrevendo desse assunto tão controverso. Bateu repentinamente em minha cabeça, ou pode ser que tenha um DNA polêmico, como muitos amigos que conheço por aí.

 Melhor mesmo é deixar a imaginação voar. Tem vez que ela trava e não consegue sair nada. É como o poeta que tem seus momentos de inspiração e tem ocasiões que não adianta forçar a barra. Por isso que é confuso dizer que tudo que sobe, cai. Nem sempre é assim.

  Entendo que a esta altura estou no momento que devo parar aqui e não ir mais adiante com essa conversa. A ideia começou a subir e depois caiu. Pode ser o cansaço mental do dia. Tem vez que o artista chega no palco e arrasa, arrebenta, como se fala no popular, mas nem sempre acontece alcançar essa façanha.

O SARAU NÃO É UM MOVIMENTO POLÍTICO E MUITO MENOS UM PARTIDO

 De uns tempos para cá, certas pessoas entendem que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica partidária, contanto que seja de esquerda. Não admitem, de hipótese alguma, que seja de centro ou de direita. Até aí, tudo bem.

  No entanto, queremos deixar claro que o “Sarau A Estrada” sempre vai estar ao lado dos movimentos culturais em defesa do fortalecimento do setor, como na luta pela criação do Plano Municipal de Cultura, preservação do patrimônio arquitetônico, realização de festivais de músicas, literatura e outras artes, bem como, pela abertura dos equipamentos que se encontram fechados.

  Ora, quando fundamos esse grupo há 16 anos, em 2010, chamado a princípio de “Vinho Vinil”, nossa primeira intenção foi a de fazer cultura através da música, da declamação de poemas, contação de causos e, principalmente, na troca de ideias e conhecimento entre artistas, intelectuais, estudantes, professores e pessoas interessadas pela arte. Crescemos ao lado da defesa e da preservação da nossa cultura.

  Não criamos um partido ou movimento político, quer seja de direita, de centro ou de esquerda, embora fazemos política cultural durante todos esses anos, defendendo a sua revitalização, levantando propostas e reivindicando melhorias para o setor, não importando a posição ideológica do governo que esteja no poder.

   Dentro do “Sarau A Estrada”, seus membros participantes possuem um nível cultural acima da média, uns mais e outros menos, onde cada um tem sua ideologia própria e a respeitamos porque não temos o direito e nem a função de doutrinar a cabeça de ninguém.

  Durante todo este período discutimos e debatemos vários assuntos envolvendo as diversas linguagens artísticas, como também colocamos na mesa questões altamente políticas no âmbito regional, estadual, nacional e internacional, sem precisar definir o Sarau como um movimento de esquerda, como tem gente que assim pensa e acha que deve ser.

   Por não termos transformado o “Sarau A Estrada” num movimento político-partidário de esquerda, direita ou centro, onde os atritos de ideias iriam se aflorar em inimizades, brigas e separações, com a consequente polarização, acredito que nisso esteja o segredo da sua longevidade. Fosse um movimento político de esquerda, simplesmente deixaria de ser Sarau para ser um partido.

   Por ser um grupo que reúne uma massa crítica de conhecimento diferenciada, e pelo seu fortalecimento representativo perante a sociedade, muitos interpretam que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica de esquerda.

   Em meu modesto entendimento, se assim procedermos, o Sarau perderá sua essência cultural para se transformar num movimento puramente político. Ademais, aqui dentro, a maioria de seus membros já é filiada a algum partido onde faz a sua militância política.

 Ouvi gente dizer que o “Sarau A Estrada” é só festas para ouvir música, beber e comer, só que essas pessoas nunca frequentaram nossos encontros. Aqui distribuímos cultura e trocamos conhecimentos e ideias. Quanto a política partidária, que cada um faça em seu comitê.





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