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“É COM MUITA ALEGRIA”
Existem coisas na vida em que a gente já fala e faz sem sentir. Os atos caseiros são bons exemplos, como acender uma luz no quintal em pleno dia. Na linguagem, existem os chamados bordões que se tornaram comuns e se repetem automaticamente.
– “E com muita alegria” que abro esta solenidade de inauguração. “É como muita alegria” que assumo a presidência dessa instituição. “É com muita alegria que entrego esta obra, e por aí vai com esse rosário de alegria, muitas expressas de maneira demagógica, principalmente entre políticos.
“Pego nesta pena para lhe dar notícias”… Antigamente iniciava-se uma carta, que não existe mais, dessa maneira. Os causos e as estórias sempre começavam com “era uma vez”…
“Feliz Natal e Boas Festas” são os bordões mais ouvidos em final de ano. Durante o ano, quando encontramos alguém, dizemos logo “e aí, beleza, tudo bem? Para concorda com o outro vem sempre aquele “pois é. Para afastar algo ruim, “Deus que o livre, ou credo”.
Numa situação chata, difícil de mudar, vem logo o “faz parte”. Para perguntar sobre algo, usamos o “cadê”? Algumas frases saíram da televisão e do rádio, como “não é assim uma Brastempo”. Tem também aquela do “jeitinho brasileiro”.
Difícil não encontrar alguém que não tenha um alcaguete na fala e até em seus discursos. Conheço muitos que volta e meia não largam o “tá”, o “né”, “pode ser”, “sabe como é”, e nem percebem. Os “amigos” ficam com receio de corrigir.
Acho engraçado e até possessivo essa frase de “meu povo” “minha gente” que saem muito da boca dos líderes e dos políticos, principalmente, como se fossem donos daquelas vidas. Muitos são oportunistas e aproveitadores de ocasiões.
Por falar nisso, a época que se ouve mais bordões demagógicos e falsos é no período das eleições que acontecem de dois em dois anos. A propaganda eleitoral tem de montão, de “bater de pau”, para se escolher entre os mais mentirosos, como as promessas impossíveis de serem cumpridas. A palavra povo é a mais citada e abusada indevidamente.
“Vamos fazer justiça, doa em quem doer”, “ninguém está acima da lei”, “todos são iguais perante a lei”. “tudo será investigado” e o “momento carece serenidade”. São respostas que mais se escuta de “autoridades” quando subordinados ou até poderosos cometem malfeitos, atos de violência, crimes e corrupções.
Depois de certo tempo, quando baixa a poeira, tudo é esquecido e os processos são arquivados ou como se fala no popular engavetados para o bem geral de todos. Dizem que “ o brasileiro não tem memória”. Este é outro bordão. Não tem é “vergonha na cara”
Tive uma professora de música que tinha o hábito de sempre usar o termo “que maravilha”, isto quando se tratava de coisa boa. Certo dia faltou um colega e ela indagou o motivo da ausência. Um aluno lá no fundo da sala respondeu que ele teria ido ao enterro do pai. Imediatamente, sem pensar, ela tascou um “que maravilha”! Uns ficaram pasmos e outros caíram na gargalhada.
Tem gente que é metódica e quer que tudo esteja em seu devido lugar. Quando alguém toca em alguma coisa, a pessoa percebe que alguém esteve ali e deu uma mexida, mesmo que a diferença seja mínima possível.
Não sou psicólogo, mas creio que esta coisa de repetição, seja através de palavras ou gestos, entranha no subconsciente e uma luz fica sempre piscando, quase impossível de se apagar da memória. Tem uns que não conseguem falar gesticulando exageradamente com as mãos, ao ponto de dar uma gastura em quem está ouvindo.
UM PROGRAMA ENGRAÇADO E CHATO
De dois em dois anos as redes de televisão e rádio do Brasil são obrigadas a exibir por mais de um mês um programa engraçado e chato de se ver. Este, todo mundo está careca de saber qual é. A grande maioria assisti e até vibra com seus atores e atrizes preferidos.
– Oh, como um programa humorístico pode ser engraçado e, ao mesmo tempo, chato?
– Pois é, meu amigo, este é inédito! Engraçado porque é carregado de mentiras, promessas impossíveis de serem realizadas; não existe um projeto delineado e planejado no papel; não tem roteiro escrito; “quem tem boca diz o que quer”; e é feito na base do improviso, o que serve para testar a “capacidade” cognitiva do artista.
É chato porque é sempre repetido e praticamente se ouve as mesmas coisas dos programas anteriores. A outra parte chata é que irrita o ouvinte ou telespectador quando entra o bate-boca onde os atores tentam ganhar na base do grito. Todos querem falar ao mesmo tempo.
Dizem por aí que tem regras, normas e leis estabelecidas por uma Mesa Julgadora, mas é apenas um faz de conta. Vez ou outra corta-se alguém que solta um palavrão ou comete algo indecente, isto para dar uma desacelerada na turma.
Quando o cara é repreendido, paga uma multinha; recorre e até alega que está sendo utilizado bode expiatório, mas o programa prossegue. Coisa é no final quando os participantes botam para quebrar!
É muita gente engraçada que sai dos quatros cantos do Brasil porque os prêmios são valiosos e o artista vencedor não necessita trabalhar muito, sem contar os privilégios e as mordomias, como de só atuar três ou no máximo quatro dias da semana.
A corrida é acirrada e o candidato ao teste se “vira nos trinta”, cada um com seu potencial artístico e criatividade. Uns contam piadas, causos do passado, anedotas e estórias da carochinha. Outros fazem malabarismos, caretas e expressões esquisitas.
O comum é que todos comem qualquer coisa que se oferecer, até alimento estragado, insetos, carne de animais exóticos e entram em qualquer lugar, seja cavernoso ou não. Essa é a parte mais engraçada do programa.
Ah, ia me esquecendo de dizer que tem o dia da votação para ver quem serão os aprovados no teste! Existe uma urna e cada um, entre os milhões de brasileiros, vota naquele que o votante achou mais “capacitado” durante a empreitada do engraçado chato.
O CANGAÇO, A AÇÃO DA POLÍCIA E OS CRIMES ORGANIZADOS NO BRASIL
O modus operandi é praticamente o mesmo. Até parece que os comandos dos crimes organizados, as milícias e os narcotraficantes dos centros urbanos do Brasil de hoje aprenderam na mesma cartilha do cangaço nordestino de há cem anos, profissionalizado por Lampião.
Dentro desse contexto, a polícia dos tempos atuais (não atingindo todos) não difere muito das tropas que combatiam o cangaço em termos de brutalidades, matanças e violências. Os sertanejos tinham mais medo daqueles soldados do que dos cangaceiros.
O conceito hoje do cidadão brasileiro entre bandido e polícia, mudou pouca coisa. Os pobres, os negros e excluídos em geral continuam sendo massacrados em seus direitos, e a Justiça normalmente está do lado do rico e do poderoso. Essas categorias desassistidas ficam entre a cruz e a espada.
As origens dessa violência e barbárie também se repetem. Nos séculos passados, até meados dos anos 1900, o território do Nordeste viveu completamente isolado do Estado, sob o comando dos coronéis, dos grandes proprietários de terras, dos chefes políticos corruptos. Reinavam as injustiças sociais.
Nos últimos cem anos ou mais, os morros foram sendo invadidos pela pobreza miserável, inclusive de retirantes nordestinos, sem nenhum amparo e presença do Estado. O cangaço nordestino se tornou num cangaço urbano. Os bandoleiros cangaceiros de ontem são os bandidos criminosos de hoje que deixam a população entre a cruz e a espada, como vivia o sofrido nordestino.
Os personagens só trocaram de pastos; os governantes por anos cruzaram os braços; o banditismo mudou de lugar; parte da polícia faz papel de coiteiros; políticos se envolvem com as máfias; a injustiça social pouco mudou; os lampiões comandam os crimes organizados; o cidadão é obrigado a pagar suas taxas de proteção; delator é morto barbaramente; e os subgrupos seguem as ordens dos chefões.
O nordestino daqueles tempos, por mais de 50 anos, sofria muito mais nas mãos dos bandoleiros e policiais do que atualmente nas favelas. Viviam acossados por todos os lados e ainda tinham que enfrentar as secas inclementes que mataram milhares de pessoas de fome e doenças.
As mulheres eram as mais violentadas, discriminadas, presas pelo pai carrasco, estupradas ainda meninas de onze e doze anos e centenas obrigadas a seguir o cangaço. Estudar as questões políticas e sociais do Nordeste é se aprofundar no martírio daquelas mulheres, muitas ferradas com ferro em brasa, arrastadas pelos cabelos caatinga a dentro e mortas a pauladas, pior que animais selvagens.
Nos anos 30, Lampião dividiu seu bando em subgrupos (Corisco, Virginio, Zé Baiano, Labareda, Zé Sereno e cada um dominava uma região, como acontece hoje nas grandes cidades. As arrecadações das extorsões contra os sertanejos, os saques, os sequestros, os pedágios de proteção eram divididos, sendo que a maior parte ficava com Lampião. Os métodos urbanos pouco diferenciavam dos de hoje.
Tudo era bem administrado e organizado. Para os denunciantes e delatores, a morte era certa e bárbara. Cabeças eram decapitadas e degoladas. Os comandos de hoje também têm seus códigos e “éticas de conduta”. Aqueles que cometem desatinos ou delatam, são queimados em pneus, esquartejados e até enterrados vivos.
Coincidência, ou não, no meado dos anos 30 para e final da década, Lampião e seus bandos se tornaram personagens internacionais, inclusive cobiçados pelo comunismo da União Soviética para fazerem parte da Intentona Comunista de 1935, chefiada por Carlos Prestes.
Eram até vistos como guerrilheiros revolucionários do povo camponês. Na era Vargas, considerados como “extremistas” e terroristas, como Trump classificou os comandos brasileiros. O cangaço passou a ser uma questão de ameaça à soberania nacional.
As empresas alemãs Bayer e Zeiss (Alba Filme-Fortaleza) financiaram as filmagens de um documentário sobre suas ações criminosas, feitas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão (1936). Contava até com a simpatia dos nazistas de Adolf Hitler. O Governo Getúlio Vargas estava mais preocupado em combater os comunistas do que as atrocidades dos cangaceiros.
Quanto ao fornecimento de armas e munições para os cangaceiros, a prática era quase semelhante. Além dos coronéis, fazendeiros, políticos e comerciantes que eram protegidos, o próprio exército e oficiais da polícia abasteciam Lampião com modernos equipamentos de última geração.
Para disfarçar, os armamentos, muitos contrabandeados, eram transportados em cargas de farinha e outras mercadorias que iam para as feiras. Até meados dos anos 30, os cangaceiros tinham armas sofisticadas fabricadas na Alemanha, na Bélgica e Estados Unidos, enquanto as volantes, chamadas de “macacos” usavam velhos trabucos do início do século XX.
Com sua estratégia militar, sua inteligência, astúcia, esperteza e como bom político nos relacionamentos com autoridades municipais e estatais, exemplo do compadrio com o governador de Sergipe, Eronides de Carvalho, eleito em 1935, Lampião seria hoje o chefe mais famoso de qualquer cartel ou organização criminosa. Naquela época, ele já era reconhecido internacionalmente como tal, como o bandoleiro mais famoso da América Latina.
SESSÃO VAI HOMENAGEAR A ACL
Nesta quarta-feira (dia 02/09/2026), a partir das nove horas, a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista vai realizar uma sessão ordinária mista para homenagear os 46 anos da Academia Conquistense de Letras-ACL, fundada em 03 de setembro de 1980.
Durante o evento, o legislativo ainda vai discutir diversas pautas de interesse da população nas áreas da educação, do meio ambiente, da saúde, infraestrutura, dentre outros projetos enviados pelo poder executivo.
Naquela época em que a Academia foi criada, Conquista vivia uma efervescência cultural, embora o país ainda estivesse vivendo num regime militar já em decadência, com pedidos de eleições diretas e retorno à democracia após a decretação da anistia geral e irrestrita, em 1979.
A entidade cultural foi instituída por um grupo de intelectuais, com o objetivo de preservar a memória, incentivar a leitura e fortalecer a produção literária e cultural da região, passando a funcionar numa sala cedida pelo Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.
Naquele mesmo ano de 1980, a antiga Faculdade de Formação de Professores passou a ser a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, que ajudou a consolidar o ensino superior e a vida intelectual da região, um marco na história da educação conquistense.
Nesses 46 anos de existência, a instituição congregou nomes expressivos da cultura regional, como Heleusa Câmara (primeira presidente mulher), Nilton Gonçalves, Carlos Jheovah, Ricardo Benedictis, Evandro Gomes de Brito, Erathósthenes Menezes, Mozart Tanajura, dentre outros.
Nas comemorações dos seus 45 anos, em 2025, a ACL renovou seus quadros recebendo novos artistas como membros, com o propósito de incentivar a arte, com destaque para o poeta, cantor, músico e compositor Eugênio Avelino (Xangai), ex-secretário de Cultura do Município.
Na ocasião, a ex-presidente Elvarlinda Jardim ressaltou o valor especial da posse dos novos acadêmicos. Xangai chegou a receber o reconhecimento por sua atuação, por exemplo, com o Prêmio Sharp de 1997 de melhor disco com “Qué Qui Tu Tem Canário” e o Prêmio Música Brasileira de melhor cantor regional, em 2016. O artista passou a ocupar a 37ª Cadeira da ACL, que representa simbolicamente seu patrono, o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Os presidentes sempre buscaram um espaço físico definitivo para sediar a ACL, e agora, mediante articulações políticas, ela passará em breve a funcionar no prédio do histórico Solar dos Ferraz, tendo como atual presidente o acadêmico Valmir Henrique de Araújo.
“GOSTO NÃO SE DISCUTE”
Dizem por aí que gosto, religião e futebol não se discute, mas não tem jeito. Essas questões sempre aparecem numa roda de bate-papo, só que é como propaganda de bebida, com moderação e sem exagero.
A gente costuma falar muito isso numa discussão quando se está tratando de gostos diferentes e sempre concordamos que devemos respeitar o outro. É o modo de se vestir, de se alimentar, de apreciar as coisas, do jeito de vida e, principalmente, quando se refere à música e à arte em geral.
Existe pessoa insossa, sem gosto, que cai na rotina e até parece que já morreu e não descobriu. Tem aqueles que estão sempre experimentando novas experiências; realizando aventuras; fazendo esportes radicais; e andando por aí sem rumo. Outros nasceram para ser caseiros e, mesmo com dinheiro, nunca fizeram uma viagem. Existe coisa melhor que viajar? Deve existir, sim.
Quando era mais jovem, sonhava ganhar o mundo como mochileiro andarilho sem nunca mais voltar para casa, como se não tivesse família. Tive até oportunidades, mas outros acontecimentos e fatos cruzaram meu caminho e o destino mudou. Fiz outros atalhos.
É isso aí, “cada um tem seu gosto”, mas tenho observado que o de hoje não é mais como o de antigamente. A sensação é que os gostos do passado, da nossa velha geração, eram mais refinados, selecionados, saudáveis, prazerosos, qualificados, humanizados e tinham mais conteúdos. Existe coisa melhor que desfrutar os prazeres da vida? Mas tem vivente que não gosta.
Com essa nova era da tecnologia, da internet, desse progresso de correria, da competição desvairada pelo dinheiro em busca do material, do baixo nível educacional e cultural, com a consequente ausência da conscientização política e social, os gostos foram perdendo aquele sabor.
Um exemplo claro disso é com relação à musica, onde a grande maioria, especialmente jovens, opta por consumir o lixo de shows barulhentos com letras vazias, muitas de uma estrofe só, sem sentido, sem enredo, história e só banalização do amor.
Tem quem goste de som de carro, do tipo “bate estaca”, na maior altura, de furar os tímpanos. Vá falar com o sujeito que ele é um imbecil. Melhor não, porque pode ser um morto. Muitos andam por aí perturbando o sossego dos outros e acham que estão abafando.
Na minha leitura, esses caras só têm titica de galinha na cabeça e não entendem que o ouvido dos outros não é pinico. Para eles, o outro é obrigado a gostar do estilo deles. “O incomodado que se retire”. É assim que os bichos pensam.
– É, meu amigo camarada, muitos gostos foram se perdendo com o tempo. Não se gosta mais hoje de se ler um livro, assistir um bom filme, uma peça teatral, prosear causos interessantes e ouvir uma música de um compositor com letra de conteúdo, conhecimento e saber.
– Bem, já que falou nisso, gostaria de saber qual a definição atual de mau e bom gosto, se vivemos numa época de decadência da humanidade? O que era ruim, de péssimo gosto, virou bom. Podem me xingar, mas conheço gente que não come merda porque fede.
– Você agora, de uns tempos para cá, tem andado com um gosto azedo e desgostoso, com a língua ferina! Deve ser a idade que faz a gente perder os gostos de outrora e ficar assim ranzinza, carrancudo e saudosista!
– Melhor mesmo é mudarmos de assunto e deixar o gosto dos outros para lá, pois não vamos mudar o gosto de ninguém, como os que passam a vida nas redes sociais curtindo e seguindo esses idiotas “influenciadores”! Vamos conversar sobre amenidades.
– Por falar nisso, agora me veio à cuca de que uma coisa que quase todo mundo gosta é de fofocar a vida alheia, embora alguém negue de pé junto. O fofoqueiro sempre está com o ouvido colado num canto, perto ou atrás de uma porta, escutando o que o outro diz.
– Engraçado, o fofoqueiro sempre diz que não gosta de fofocar e que é de guardar segredo. “Minha boca é um túmulo”. Acredite se quiser, mas é melhor parar por aqui, porque “cada um com seu gosto”, e não se pode desgostar.
CADA ELEIÇÃO SAI PIOR
É cada um tentando empurrar sua “merda” fedorenta para o outro e ninguém consegue limpar sua sujeira jogada debaixo do tapete. Todos são genéricos; o discurso e o verbo são os mesmos; e não se vê um candidato ao poder executivo com um programa de governo na mão.
O horário do programa eleitoral na televisão e no rádio é um lixo, bem como as entrevistas e os debates onde eles procuram tergiversar e não respondem as perguntas. Cada eleição sai pior porque o próprio sistema eleitoral é arcaico e se falar em reforma é um palavrão.
Só do fundo eleitoral são cinco bilhões de reais pagos pelos contribuintes e que são desperdiçados para eles falarem mentiras e um monte de besteirol para os eleitores que não aguentam mais ouvir esses cabras da peste, incluindo os que pleiteiam o legislativo.
Por menos instrução que tenha, o eleitor já está de saco cheio desse discurso mofo e bolorento, seja da esquerda, do centro ou da direita, mas os caras de paus não se tocam e continuam a nos fazer de otários. O pior é que somos mesmo.
Sabemos que as eleições fazem parte do regime democrático porque uma ditadura seria bem mais dolorosa, mas temos que reconhecer que elas (as eleições) não trazem mudanças políticas, sociais e administrativas, e isto vem sendo comprovado há séculos no Brasil.
As eleições não resultam em mudanças, justamente porque todo sistema, parecido com o dos tempos dos coronéis, está podre e viciado. O indivíduo pode ser um cafajeste, corrupto, ultrapassado e até extremista, mas termina sendo eleito se tiver “bala na agulha” e a máquina do poder na mão.
Não passamos de um bando de masoquistas alimentando os sádicos. Até o pobre, o negro, o excluído e a mulher votam naqueles que os detestam e os discriminam. É um faz de conta que tudo vai melhorar.
Até a propaganda do Tribunal Superior Eleitoral é enganosa quando fala da importância de se exercer a cidadania num país de cultura rasa e de nível educacional baixo, sem consciência política formada. Aliás, candidato nenhum trata da questão da cultura que é vista como um jarro de decoração em suas mesas.
A única coisa que o brasileiro tem é a cultura do voto. O idoso de mais de noventa anos ainda se arruma todo no dia da eleição e vai se arrastando até a urna. Fica feliz da vida.
Como papagaios, os jovens de 16 anos, a maioria manipulados pelos pais, colegas ou pela religião, repetem os mesmos bordões de sempre nas entrevistas.
Milhares votam por favores recebidos, o que representa o mesmo que se vender por dinheiro, ou são influenciados pelas famílias. No final, tudo fica como dantes na Casa de Abrantes, com insignificantes renovações nos quadros. Cada eleição sai pior.
DIPLOMA DE POETA! COMO CONSIGO?
Nos últimos anos só tenho pensado e desejado em me internar num sítio, seja em qualquer lugar, numa mata ou agreste da caatinga nordestina e viver numa loca como mocó, sem ouvir baboseiras e ter que aturar desatinos dessa humanidade desumanizada e decadente.
Sabe daquela expressão “quero que o mundo pegue fogo”, que se completa com a frase “para eu acender meu cigarro”, ou “sentar em cima das cinzas para comer marshmallow”?
Infelizmente, estou chegando a esta fase da indiferença em relação aos problemas alheios ou a esta situação de caos em que está metida esta fútil sociedade de merda. “Estou de saco cheio” diante de tantas futilidades e barbaridades que mais parecem “fake news”, ou piadas de mau-humor.
Nem sei mais em que acredito, se no certo ou no errado, no legal ou no ilegal, no normal ou no anormal, no moral ou imoral, muito menos nesses candidatos genéricos francos atiradores de pombos ou pardais.
Como se não bastassem os cientistas desocupados que ficam inventando coisas sem lá essas utilidades práticas, fiquei sabendo e não acreditei que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Flávio Dino querem criar jurisprudência de forma a exigir diploma de poeta para quem faz poesia. Queria saber como obter.
O Moraes está preocupado com quem posta um soneto nas redes sociais, vindo a ser, segundo ele, um perigo para a mofada Academia Brasileira de Letras.
Neste caso, os pernas de paus do futebol brasileiro também constituem perigo para os raros craques, que nem existem mais. E o diploma para craque? Qualquer bosta hoje se diz jornalista porque foi o próprio STF que lá atrás baniu o diploma para exercer a profissão.
Não entendi nada, ou sou burro mesmo quanto ao argumento deles de que “a gente quer é a criação de um ambiente poético mais seguro, com regras de conduta, de forma que uma pessoa possa ser criminalmente responsabilizada se rimar “tempão com coração”.
Com todo respeito, será que esses ministros não fumaram um baseado ou deram uma cheirada num pó batizado e ficaram lelés da cuca? Onde fica o livre pensar de cada um fazer sua rima que quiser?
O poeta é livre para mudar até as regras do português para transmitir sua mensagem; dar asas à sua arte para que ela voe; tirar leite de pedra; e tornar visível o invisível aos olhos dos mortais. Ora, existe poeta, e o poeta, e isto não é diploma que vai definir a categoria, mas sim quem ler e ouve para criticar e julgar a obra.
Vamos deixar de blábláblá com esse papo furado, senhores ministros, quando temos tantos problemas graves nesse Brasilzão para se resolver e vocês ficam aí tergiversando no mundo da lua. Deixem os poetas poetarem e os prosadores prosearem!
Vamos criar também diploma para cordelista, repentista, trovador e humorista, na base de quem receber mais aplausos e tiver mais visualizações ou seguidores. No caso de humorista, por exemplo, se numa plateia ninguém rir da sua piada, está desclassificado e não receberá diploma. Nos tempos atuais, somente poucos serão agraciados.
Palhaçada! Quero mesmo é voltar para o mato, que seja num local bem ermo e inóspito, de difícil acesso, tipo daqueles de Lampião e seu bando, como Raso da Catarina e Serra Vermelha onde volantes tremem de medo em colocar suas tropas para atacar o inimigo.
Gosto mesmo é da minha simples cabana rústica e natural para ouvir o som da caatinga, a vaca mugir, o cavalo relinchar, o cachorro latir, o galo cantar na madrugada, a onça rugir, a coruja piar e o bicho sorrateiro balançar a folhagem no matagal à procura de víveres para sobreviver.
Me encanta ver o pássaro voar em liberdade; o vento zunir nas serras e montanhas; cavalgar no campo e sentir o ar bater no rosto; prosear com o matuto e contar uns causos ancestrais; apreciar o luar pratear o terreiro e a campina; e sentir o orvalho da relva molhar meus pés nas veredas das manhãs serenas.
AS CASAS SOMOS NÓS
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(Chico Ribeiro Neto)
Gosto de casas antigas. Me comove ver a demolição de uma velha casa já com a imensa foto da torre que vai abrigar e espremer centenas de pessoas.
Gosto daquelas casas no interior com dois assentos de cimento de cada lado da entrada, junto à parede, uma criança sentada em cada um.
Gosto da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde vovô Chico sentava de noite na porta, fechava os olhos e dizia que ia tomar uma sopa em Paris e voltava logo.
As casas somos nós.
Gosto do quintal da casa 25, onde fazíamos o nosso mundo e onde a gente achava que cavando um buraco grandão ia chegar no Japão.
Passava um tempão admirando a trilha das formigas e cavava o chão para ver o eterno movimento das minhocas.
Gosto do fogão de lenha, onde Tia Nina torrava caroços de abóbora na chapa, bom pra matar lombriga.
Hoje, o quilo do caroço de abóbora torrado chega a 90 reais ou mais em lojas de produtos naturais.
A sala de visita da casa 25, sempre trancada e com um pano cobrindo as cadeiras. Só descobre quando chega visita.
Lembro das manchas nas paredes dos quartos, onde a gente via animais pré-históricos.
O grande corredor, ao longo dos três quartos, onde nós quatro (eu, Cleomar, Zé Carlos e Luiz) jogávamos bola. Um cabide na parede para pendurar chapéu, capa e guarda-chuva.
As duas grandes janelas azuis. Foi de uma delas que Cleonice (mamãe) viu Waldemar (papai) pela primeira vez, passeando de cavalo num sábado à tarde, depois de vender na feira de Ipiaú os tomates produzidos pela família em Amargosa.
A notícia ecoou logo de manhã cedo: tem um jacaré no quintal da casa de doutor Salvador da Matta, perto da casa 25. O fundo da casa dele também dava para o rio e o portão ficava a mais de um palmo do chão. O jacaré entrou por ali e foi dormir.
Uma vez, na década de 1950, um senhor de Ipiaú, homem da roça, veio a Salvador pela primeira vez. Na volta, perguntaram a ele o que achou da capital. E ele, que nunca tinha visto um edifício, respondeu:
“Achei uma cidade bonita e grande. O mar é aquela coisa linda. Mas o que me chamou mais atenção foi que tem umas casas muito altas, uma em cima da outra, com um bocado de janela, e só tem uma porta praquele povo todo passar. Tanta janela e uma porta só!”.
















