:: ‘Notícias’
O SARAU FOI ATÉ AO POVO
Fotos de José Silva
“Um sonho sonhado junto se torna realidade”, e foi isso que aconteceu na última sexta-feira (dia 24/07/2026) ao cair da tarde, na Praça Nove de Novembro quando o “Sarau A Estrada” foi à rua com apresentações de música, declamação de poemas, exposições das obras do cordelista, Ailton Dias e do artesanato “Kokos e Kabaças”, do artista Walter Lajes, além de falas, levando cultura, conhecimento e saber.
Foi uma tarde memorável que até os deuses da arte contribuíram para que o tempo deixasse o sol entre as nuvens derramando seus raios no palco da praça e abençoando os artistas que ali estiveram cantando suas canções e fazendo poesia. O Sarau cumpriu sua primeira missão de ir onde o povo está e agora tem o dever de disseminar a cultura aos quatros cantos da cidade.
Depois de várias tentativas, de lutas, obstáculos e dificuldades, enfrentamos os desafios e colocamos a ideia em prática, graças a um grupo de organizadores onde todos colocaram a mão na massa e abraçaram a causa com garra e entusiasmo.
É mais um grande feito do “Sarau A Estrada” e desta vez inédito que vai ficar marcado na história da cultura de Vitória da Conquista, que anda precisando de uma injeção de ânimo por parte do poder público que, infelizmente, abandonou o setor à própria sorte.
No entanto, o Sarau, com suas próprias forças, esteve lá na praça passando sua mensagem e dando seu recado de que queremos a aprovação já do Plano Municipal de Cultura, a abertura dos equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha que estão sendo destruídos pelo tempo, uma empresa pública do audiovisual, a revitalização da nossa cultura e que o nosso São João retome às suas tradições do autêntico forró pé de serra.
De forma descontraída e organizada, fomos chegando à praça com aquela expectativa de se encontrar com o povo e com ele se interagir. Ali estavam os artistas de forma voluntária para dar a sua contribuição. Tudo começou a partir das 15h30min, com uma roda de capoeira, expressão cultural afrodescendente, comandada pelo nosso mestre companheiro Clóvis Carvalho. O berimbau deu seu ritual de introdução dos trabalhos.
Na abertura entrou o nosso hino de “Avante, avante, oh Sarau!/Estradeiros da cultura,/De mensagem universal”, de autoria de Jeremias Macário, Dorinho Chaves e Alex Baducha, onde se fala dos seus mais de 15 anos de existência (16), do seu tema e da sua arte que nos faz bem, passageiros do mesmo trem.
Logo após, a nossa cria da casa, Maria Luiza nos brindou com uma linda canção, acompanhada no violão pelo seu pai Manno di Souza. Em seguida vieram as falas do presidente de honra, Jeremias Macário e do professor Itamar Aguiar, um dos mais entusiastas e frequentadores dos nossos eventos, realizados no Espaço Cultural A Estrada.
As mestras de cerimônia, Edna Brito e Vandilza Gonçalves conduziram nossa programação, intercalada entre pronunciamentos, cantorias e declamação de poemas. Elas exaltaram o Sarau que teve a ousadia de sair das quatro paredes e ir até à rua.
Com suas cantorias musicais que atraíram a atenção de todos, estiveram no palco nossos estradeiros Manno di Souza, Dorinho Chaves, Papalo Monteiro, Carlos Moreno, Walter Lages, Alex Baducha, dentre outros que se apresentaram espontaneamente e apoiaram nossa iniciativa.
Por falar nisso, contamos com o apoio logístico das secretarias da Cultura, de Ordem Pública e, principalmente, da mídia em geral, como das rádios Melodia, Clube, Rádio Câmara, TV Sudoeste, dos blogs de Tico Oliveira, de Massinha (UP), dentre outros veículos de comunicação que divulgaram nosso “Sarau na Rua” e acreditaram em nosso sonho.
Para que tudo desse certo, não podemos deixar de registrar aqui o esforço e o trabalho da Comissão Organizadora do “Sarau na Rua” nas pessoas de Cleu Flor, Dal Farias, Eduardo, Karine, Edna Brito, Mano di Souza, Conça, Dorinho, Itamar Aguiar, Alex Nery (grande condutor da divulgação), Cleide, Clovis Carvalho, Cristina, Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves, cada um cumprindo a sua tarefa que lhe foi atribuída.
Agradecemos também a presença de todos estradeiros que lá estiveram na praça prestigiando e ajudando o nosso evento, sem deixar de citar os préstimos do fotógrafo José Silva que se dispôs a fazer a cobertura fotográfica, cujas fotos são registros históricos de mais um feito do Sarau.
ENFIM, SEREMOS CAMPEÕES!
(Chico Ribeiro Neto)
Diante do fiasco brasileiro na Copa do Mundo, um esperto da CBF (entidade sempre cheia de espertos) propôs a criação da Copa dos Jogos e Esportes Originais, a ser disputada no Brasil em 2027.
Seguem algumas modalidades onde o Brasil teria muita chance:
Corrida de Saco.
Corrida com Ovo na Colher.
Campeonato de Cuspe: quem cospe mais longe é o campeão.
Campeonato de Xixi: quem mijar o maior volume é o vencedor.
Campeonato do Número 2: quem cagar um quilo certo será sagrado campeão. Nosso bravo jogador N… ganhará facilmente.
O Brasil sairá vitorioso também nas seguintes modalidades:
Arremesso de Vizinho.
Arremesso de Boleto.
Arremesso de Cobrador.
Jogo de Peteca.
Enfiação de Azeitona no Palito.
Enfiação de Bufa no Cordão.
Quebra-Pote.
Podemos também sair vitoriosos no Campeonato Mundial de Jogo de Pauzinho. “Eu peço seis”. “Lona!” Alguns jogadores sabem muito bem esconder um palito entre os dedos. Ninguém nos vence em mutreta.
Sairemos vitoriosos ainda nas seguintes modalidades:
Jogo de Ferrinho ou Finca-Pé.
Lançamento de Tampinha de Cerveja.
Levantamento de Copo.
Mundial da Embromação.
Vamos tirar também o primeiro lugar na Guerra de Badogue com Balas de Mamona. No Jogo do Bicho já somos campeões há muito tempo.
O competidor brasileiro disputa o jogo da vida em muitos turnos, sem prorrogação, sem juiz e sem taça, diante de uma torcida amarga e silenciosa.
O vento traz de não sei onde uma folha verde que pousa na arquibancada do estádio. Um bem-te-vi canta em cima do travessão.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O “SARAU A ESTRADA” VAI À RUA
O “Sarau A Estrada” vai à rua nesta sexta-feira (dia 24/07), a partir das 15h30min pela primeira vez depois de 16 anos de existência. Vamos sair das quatro paredes e ir até onde o povo está. Nosso encontro está marcado para a Praça Nove de Novembro e deve se prolongar até às 18 horas.
Com abertura de roda de capoeira, exposição de artesanato (Kokos e Kabaças) e artes plásticas (Beth David), vamos levar cultura ao povo também através da música, da declamação de poemas, teatro e falas de seus componentes, repercutindo a nossa trajetória na troca das ideias, do conhecimento e do saber entre artistas, intelectuais, professores, estudantes e pessoas interessados pela arte.
O nosso evento é suprapartidário, sem viés político ideológico, mas sempre em defesa da revitalização da cultura conquistense. Trata-se de um projeto piloto e outros deverão acontecer em pontos diferentes da cidade. Todos estão convidados a participarem dessa experiência cultural inédita.
Para esta empreitada, devemos contar com o apoio logístico do poder público através das secretarias de Cultura e Ordem Pública, da mídia em geral, dos empresários, das diversas entidades, no sentido de que o “Sarau na Rua” seja um sucesso e outros venham a ser realizados além do centro.
O “Sarau na Rua” pretende encantar a população com suas atividades, de forma a mostrar a importância da cultura na vida do ser humano. Uma cidade sem cultura é como uma cidade sem alma porque precisamos também cuidar do nosso espiritual. A cultura é como o ar que respiramos.
Na luta constante em prol da cultura e pelo seu fortalecimento, vamos também levantar as nossas reivindicações que são de toda comunidade, como, por exemplo, a implantação do Plano Municipal de Cultura e abertura dos equipamentos culturais. Cultura gera emprego, renda e desenvolvimento econômico e social.
Para quem ainda não conhece, o nosso “Sarau A Estrada” já realizou diversos trabalhos, como a divulgação de um CD e vídeos, apresentação no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o Troféu Glauber Rocha pela sua atuação durante este período.
Este evento do dia 24 de julho será um marco, o mais significativo de todos porque o artista deve ir onde o povo está, como diz o nosso grande cancioneiro, cantor, músico e compositor Milton Nascimento.
Neste dia histórico para o Sarau, que sempre é realizado no Espaço Cultura a Estrada, esperamos contar com todos estradeiros da cultura, movimentos ligados ao setor e demais fazedores de cultura, que irão se juntar ao povo de Vitória da Conquista, para ouvir nossas palavras, contribuir e participar das nossas atividades.
DEPOIS DA COPA, AS ELEIÇÕES
Ia falar de sonhos, como o mais comentado pelos brasileiros de baixa renda que é o da casa própria, se bem que tem gente que prefere o carro. No entanto, vamos aterrissar em terra firme que depois da Copa Mundial de Futebol (um fracasso brasileiro) vem aí as eleições.
Quanto a Copa, agora só em 2030, quando reascende o sonho da fogueira do hexa, se bem que os torcedores já estão escaldados e cansados de esperar. O jeito é recordar as competições de 1958, 62, 70, 94 e 2002, e recolher as mágoas das grandes derrotas e fracassos decepcionantes. Nem é bom lembrar.
Pode conseguir o hexa no 30, mas não ouvi nenhum comentário que para chegar lá temos que ter um time igual ou melhor do que a Espanha e a França, com aquele futebol envolvente, do tic-toc e um conjunto de passes certeiros. A Espanha de hoje é o Brasil de antigamente. Temos que voltar à escola de antes e praticar o futebol arte.
Outra coisa que ninguém se atentou é o fato de que a maioria dos jogadores dessas duas equipes é composta de jovens que farão a base de suas seleções, ainda mais fortes e com mais técnica e experiência. O Brasil tem que renovar, planejar, repensar todo esquema para ser superior. Se a CBF continuar como está, desorganizada e corrupta, nada feito.
Vamos deixar essa coisa de Copa para lá porque as eleições estão batendo em nossas portas. Por ter me referido aos sonhos, lá na abertura, o meu é que o brasileiro votasse certo em nomes comprometidos socialmente com a causa do povo, sérios, honestos e de caráter, não esses cafajestes e bandidos que aí estão.
Sinto muito ter que dizer isso, mas, infelizmente, está difícil conseguir essa proeza. O nosso povo permanece inculto, sem consciência política e ainda vende seu voto por favores, como nos tempos dos coronéis, só que de uma forma mais discreta e sofisticada, no jeitinho brasileiro.
Para ser sincero, entendo como uma grande contradição um jovem de 16 anos votar, visto que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente ele continua vulnerável, sem a capacidade de discernimento.
Ainda dentro da lei não é passível de ser punido pelos seus atos. Numa eleição, a grande maioria, com raras exceções, este jovem tende a ser influenciado pelos seus colegas, pela religião do pastor e pelos próprios pais.
Será que estou interpretando errado sobre isso? Quem aprovou essa emenda foram eles lá de cima, cientes da vulnerabilidade desses adolescentes que podem ser facilmente manipulados. Não me venham com blábláblá de que as coisas mudaram e o jovem de hoje está mais consciente politicamente!
Confesso que fico triste com este Brasil em que vivemos e mais ainda certo de que, infelizmente, as eleições não trazem mudanças para melhor. Bem que gostaria que ocorresse o contrário, mas a realidade é bem outra, e nada de conversa fiada para boi dormir.
Vamos ser diretos e falar no popular, sem rodeios. Passam eleições e entram outras e os cabras lá de Brasil, sejam de direita, de centro, extrema ou esquerda nem querem discutir em fazer uma reforma eleitoral para mudar esse sistema selvagem e bruto.
No máximo fazem umas mudanças aqui e acolá, mas nada de substituir as regras sujas e mafiosas que beneficiam todos eles, onde cabe a cada um ser mais astuto e esperto que o outro. Quem tem mais bala na agulha e for o cawboy mais rápido desse faroeste, vence o duelo no entardecer melancólico do fechamento das urnas.
“AMICUS CERTUS IN RE INCERTA CERNITUR”
Por acaso alguém conhece este termo em latim que resume bem o significado de ser amigo? Um amigo de verdade, muitas vezes vale bem mais do que um irmão. Antigamente era coisa séria, mas a palavra nos tempos modernos foi se banalizando.
Você bate com uma pessoa qualquer numa rua ou em outro lugar e vai logo chamando de amigo. “Facilita isso aí para mim, amigo”. É comum você ouvir isso de alguém para um funcionário de uma repartição pública ou outro setor, solicitando o desembaraço do seu problema. “Oh, amigo, dá uma ajudinha aqui para empurrar esse carro que só pega no tranco”!
Criaram o “Dia do Amigo”, 20 de julho e logo veio em minha cabeça essa frase em latim que significa “o amigo certo se revela na ocasião incerta”, ou pode ser literalmente no popular, “amigo certo nas horas incertas”. Dizem que essa expressão foi do orador romano Cícero.
“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração”. Esse verso quase todo mundo sabe que é “Canção da América”, cujos compositores são de Milton Nascimento e Fernando Brant. Essa criação é profunda e vai até o além e se eterniza.
O verdadeiro amigo se prova nas dificuldades e não naquele que é seu “amigo” quando você está numa boa, no sucesso e bem de vida em termos de dinheiro. Tem gente que está sempre ao seu lado, nos eventos, bares e restaurantes quando se está por cima “da carne seca”, mas depois some quando o cara entra em desgraça.
Na filosofia citam que existem três tipos de amigos, tais como amizades de utilidade, de prazer e as amizades de virtude ou caráter. Este último, meu amigo, está bem escasso na praça de hoje em dia. Tem outros que dividem as amizades em folhas, galhos e raízes, isto no sentido metafórico.
“Você meu amigo de fé, irmão camarada…”, abre a canção “Amigo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, e fecha com a estrofe “Não preciso nem dizer/Tudo isso que eu lhe digo/Mas é muito bom saber/Que você é meu amigo”. A letra ainda fala de “amigo certo nas horas incertas”.
Para o brasileiro que desconhece e tem tantas rivalidades com os nossos hermanos mais próximos, onde a grande maioria torceu contra seu time de futebol na final da Copa, o “Dia do Amigo”, por incrível que pareça, foi criado na Argentina pelo psicólogo professor Enrique Ernesto Febbraro.
A data passou a ser comemorada na Argentina, em 1999. Celebra-se também no Brasil o “Dia Internacional da Amizade”, em 30 de julho, proclamado pela ONU.
Contam que Febbraro escolheu a data de 20 de julho para marcar a chegada do homem à Lua, 20 de julho de 1969, símbolo de união e paz entre os povos. Enviou várias cartas para diversos países e sua ideia foi concretizada.
Ocorre que essa paz está cada vez mais longe de ser alcançada, com as guerras sangrentas e genocidas decretadas por tiranos, com suas xenofobias contra imigrantes e a construção de muralhas e cercas farpadas nas fronteiras.
Quanto ao “Dia do Amigo”, isto é, as relações entre as pessoas com as quais convivemos no dia a dia, é preciso ter muito cuidado e saber fazer as escolhas certas. Fique distante do invejoso, do interesseiro (a) (o que mais temos atualmente), do traiçoeiro, das amizades de utilidades, de prazer, dos folhas e galhos.
Por falar em amigo, nunca me esqueço do dia, há muitos anos, quando estava na universidade, ou, se não me engano, já atuando no jornalismo e levei uns amigos à casa dos meus pais na roça, em Piritiba. Ao meu velho, depois de uma longa viagem fazendo farras e numa alegria só, os apresentei como amigos da capital.
Com seu jeito sertanejo nordestino de cismado, com o pé na frente e outro atrás, olhou bem para mim e me advertiu, com sua maneira sisuda, rústica e carrancuda, que amigo era coisa séria e prestasse mais atenção nas escolhas.
A VACA BUZINA NA PORTA
(Chico Ribeiro Neto)
Tem uma vaca que passa na porta do meu prédio todo dia de manhã cedo. Seu mugido é uma buzina e em vez dos chifres o que há é um grosso para-choque de ferro.
Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na mão, ela não chegava. E olhe que ela é quase tão pontual quanto a vaca natural, aquela do curral. Tinha furado um pneu e a camionete Fiat demorou para entregar o leite de porta em porta.
Em vez do galo tem uma neurotizante sirene de uma construção que me acorda às 6:45. Se não acordar, às 7 ela toca de novo, soltando aquele barulho misto de ambulância e de fábrica. Essa segunda sirene é como quem diz: “Você ainda está aí, na cama?”
Os primeiros ruídos do dia nem sempre são bem-vindos. O barulhinho das panelas e das xícaras sendo ajeitadas é auspicioso, sinal do café à vista. Já as primeiras horas da manhã lembram o ofício, pegar o carro, engarrafar, entrar em sinaleira, sair de sinaleira já com outra buzina atrás.
Quando se tem um neném, o primeiro choro do dia é bom de ser ouvido, faz a gente recuperar uma certa paz, uma ainda confiança no mundo.
Saindo do silêncio do sono, retomamos a cidade e todos os seus barulhos, e tem hora que chega a ser assustador.
Quando trabalhava no centro da cidade, gostava, às vezes, de entrar na Igreja de São Bento para respirar aquele silêncio, conversar comigo e reingressar na massa que descia a Ladeira tropeçando em camelôs e fugindo dos automóveis para desembocar na Barroquinha, um verdadeiro fervilhar de vendedores, desocupados, ocupados, passantes, apressados e aposentados.
Se fosse fim de tarde, procurava a murada da Praça Castro Alves e, depois de esgueirar-me entre os carros, conquistava finalmente uma ampla olhada sobre o mar, aliviando-me um pouco da cidade que estava às costas.
Barulho igual a um ferry-boat voltando da ilha, domingo de tarde, é difícil de achar. Parece que as pessoas acumulam barulho na tranquilidade da ilha e já vêm soltando pelo caminho. O silêncio parece incomodá-las, parece ser-lhes insuportável. Quanto mais alto os rádios dos carros, melhor. Quem conseguir escapar dos rádios dos carros cairá junto a um sambão. E assim que o ferry-boat atraca, a monumental buzinação. Depois, em casa, salvo e são.
Nossos pobres ouvidos têm resistido a tanta coisa, são matraqueados diária e insistentemente nessa cidade grande cujo medidor de decibéis já deve ter quebrado os ponteiros.
Você já teve a infeliz ideia de pedir a um motorista de táxi pra baixar o rádio? O sujeito toma aquilo como o maior desaforo do mundo e alguns chegam até a aumentar mais ainda depois do pedido. Ele se nivela ao barulho, sua frequência é lá em cima pra conseguir operar no ensurdecedor nível de todo trânsito, nível onde qualquer tentativa de diálogo soa mal.
Enfim, em casa, a solução é colocar o headphone e ouvir Vivaldi, alimentando um pouco o silêncio que vem de dentro.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 11/1/1989)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)




















