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:: ‘Notícias’

TÁ ESPERANDO O QUÊ?

Chico Ribeiro Neto)

Tô esperando o dia em que comecei a assoviar “Summertime” na fila do caixa no supermercado. A mulher do caixa assoviou também, o segurança começou a bater o pé, desligou a câmera e assoviou e dançou; o repositor de sabonete assoviou; o cara do açougue dançou; o da padaria também; a velhinha que reclama todo dia também dançou; o cara que chegou agora assoviou.

– Crédito ou débito?

XXX

Tô esperando ouvir “As 4 Estações”, de Vivaldi, numa noite fresca. E a Nona Sinfonia de Beethoven numa noite de chuva.

XXX

A próxima taça de vinho e o primeiro cantar do passarinho.

XXX

Ouvir “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, de Raul Seixas, na voz de um cantador de ônibus no meio da Avenida Sete. “E não tem nada nesse mundo/ Que eu não saiba demais”.

XXX

Tô esperando o Dia da Nostalgia. Aquele dia em que todo mundo vai lembrar das coisas boas que já viveu. Nesse dia ninguém trabalha nem estuda. Só lembra. E apois num é que esse dia já existe no Uruguai? Em 24 de agosto, um dia antes da data que comemora o Dia da Independência do Uruguai, acontece La Noche de la Nostalgia, considerada a noite mais agitada do país. Os bares e restaurantes só tocam músicas antigas e promovem festas com temas nostálgicos.

XXX

Aquela onda que vem lá longe. Parece que ela vem grandona. Que maravilha é furar uma onda mergulhando de cabeça!

XXX

Aquela bola que espirrou na pequena área pra eu fazer um gol de calcanhar (de cagada) muito festejado pela torcida.

XXX

Tô esperando aquele café cheiroso com pão caseiro na casa de Dona Geralda, em Caculé, Bahia.

XXX

Um Brasil em que a educação seja a maior prioridade.

XXX

Um filme que me faça sair do cinema levitando, respirando a beleza de viver.

XXX

Aquela carta com a letra dela.

XXX

A primeira mordida no peixe frito ou no assado cabrito. Um prato de cozido com pirão e a couve e a abóbora boiando lá em cima. E o molho lambão do lado.

XXX

Tô esperando o próximo trem, o primeiro navio e a que horas a mulher do circo vai virar o terrível macaco. Espero a próxima gota d’água em cima da rosa.

XXX

Tô esperando o Carnaval pra me picar de Salvador.

(Veja crônicas anteriores em leiamais.ba.com.br)

SIMPLESMENTE EXUBERANTE E TRISTE!

Como é bom ver a caatinga, a mata e até a Chapada Diamantina verdes, cheias e floridas, com o cheiro da terra molhada e encharcada nas baixadas, tanques, lagos, rios e açudes! Foi assim que essas paisagens da força da natureza, com gosto de fartura, encheram minhas vistas ao cortar a Bahia, do sudoeste ou sudeste, de Vitória da Conquista ao norte de Juazeiro.

É simplesmente exuberante, como se fosse um milagre depois de uma prolongada estiagem, quando o sertanejo nordestino pede ao Senhor Deus para mandar as chuvas. Quando ver o chão rachado e o gado berrando na campina seca, faz novenas, orações e promessas ao divino e a todos os santos.

Dessa vez vi até procissão cortando a curva da estrada como cobra para agradecer as aguadas, se bem que em alguns pontos elas bateram minguadas, como nuns trechos entre Rui Barbosa, Macajuba e Baixa Grande. Vi bodes e bois pastando o capim e o mato renovados e viçosos. Vi aves voando e cantando o benfazejo. Vi o aguaceiro bater no gravatá das matas raras. Vi o mandacaru florar.

No entanto, nem tudo é alegria. É triste para os pobres das periferias das cidades desguarnecidas pelas negligências e irresponsabilidades desses prefeitos governantes que preferem oferecer circo e festas, ao invés de infraestrutura básica de serviços de esgotamento, calçamentos e canalizações para que as águas escoem rápido e não invadam as casas desses moradores que acabam perdendo seus pertencentes e ficando desabrigados no olho da rua, ou em escolas, numa forma de ajuntamento.

Se está muito sol e calor, o pobre pede chuvas a Deus para aplacar a sequidão. Quando elas vêm com temporais, ventos fortes, raios e trovões, ele lamenta e chora por causa dos alagamentos e ainda diz que foi a vontade de Deus. Por ignorância e falta de conhecimento, nem atenta que tudo isso é resultado da ação perversa do homem que destrói o meio ambiente. Para essas adversidades, os cientistas dão o nome de mudanças climáticas do aquecimento global ou ainda o chamado El Nino.

Como estão as nossas cidades, sem obras estruturantes e despreparadas, seria uma maravilha se as chuvas só caíssem no campo onde elas são a matéria-prima para o agricultor plantar suas roças e prosperar, sem falar nos animais em geral (gado, pássaros, insetos e outros bichos) que matam a sede e enchem suas barrigas de alimentos em abundância. Mas, não é assim que a coisa funciona. As correntes de ar e as nuvens não escolhem os lugares.

Esses prefeitos cometem tantos desatinos – falta seriedade nas câmaras de vereadores para decretarem o impeachment deles – e depois têm a cara de pau de culpar o tempo chuvoso. Vitória da Conquista e Juazeiro, lá no norte da Bahia, são exemplos concretos de cidades malgovernadas.

Aqui em Conquista, Lagoa das Flores, Campinhos e outros bairros ficaram debaixo d´água, sem falar de ruas que viraram escombros. Na cidade caíram mais de 30 árvores, inclusive as do Estádio Lomanto Júnior, que derrubaram o muro. Vários pontos tiveram que ser interditados.

É hilário, para não dizer deboche, mas somente agora a Secretaria do Meio Ambiente veio anunciar que vai podar as outras. Por que não fez isso há tempo? Confesso que nunca vi a Prefeitura Municipal fazendo podas em árvores. Só aqui em minha rua (uma em meio passeio) galhos foram ao chão com as tempestades. É simplesmente exuberante e triste.

O “QUIABO” E O CARNAVAL

Estava eu tomando uma gelada numa barraca na Praça 2 de Julho, em frente ao Estádio Adauto Moraes, em Juazeiro, na Bahia, e assuntando o pouco movimento de torcedores comprando ingressos para assistir ao jogo do Juazeirense contra o Jequié (2 x 0), no último dia 25/01.

Até aí nada demais para registrar como inusitado, mas apareceu um cabra meio franzino apelidado de “Quiabo”, com um celular na mão atravessando a rua pra lá e pra cá procurando uma mulher, por certo sua amiga ou parente, que era funcionária do estádio. Ele estava agitado e não parava de ligar indo de um canto ao outro.

Não demorou muito e logo apareceu uma mulher gritando pela sua alcunha. Foi a partir daí que soube que o rapaz se chamava de “Quiabo”. Como tantos outros malandros furadores e penetras, ele queria que a “amiga” o colocasse no campo sem pagar. Uma portinha estreita se abriu e uma senhora gritou “Quiabo”! Foi a senha providencial!

Do nada ele apareceu e, num pique com outros (não estava com minha máquina fotográfica para clicar nos alvos), ele caiu dentro, enquanto alguns compravam a entrada na bilheteria. Fiquei a imaginar que quiabo é uma verdura deliciosa, por sinal (adoro saborear), que escorrega na panela dentro de um feijão, num cozido ou noutro ingrediente e associei à pessoa ligeira que apronta das suas para se dar bem na vida.

Na minha cabeça fui mais além e coloquei a imaginação para viajar nesse Brasil dos quiabos “espertos e astutos” que procuram levar vantagem em tudo e não respeitam os outros, a começar pelos políticos, governantes, empresários, chefes de repartições, autoridades, executivos e até magistrados.

Com relação aos estádios de futebol no país, é assim que funciona: Centenas e milhares entram de “gaiatos” ou gatos sorrateiros. Tem aquela turma dos Quem Indica, o famoso QI e dos jeitinhos brasileiros. Quando se fala em 10 mil pagantes, por exemplo, quinhentos ou mais de mil foram de graça. Em pouco tempo, ali no estádio, presenciei muitos atravessando ligeiramente a portinha estreita, na base do pulo.

Mas, o que tem a ver o pobre do “Quiabo” com o carnaval? É que neste mesmo dia era a abertura da festa momesca na cidade e quiabos piores entraram em ação, uns para furtar no meio da folia e outros “donos da prefeitura”, da coisa pública, para fazer os contratos escusos com bandas, trios elétricos, camarotes e cantores.

Numa conversa informal com um funcionário comissionado, porém concursado, ele me contou horrores que acontecem lá dentro e foi demitido do cargo porque não aceitou concordar com as coisas erradas. Uma dessas maracutais foi o carnaval, segundo ele, superfaturado.

Conforme me confidenciou, o cantor Bel Marques “recebeu” 550 mil reais para tocar no circuito por uma noite, mas só que ele não leva essa bolada toda. “Tem uma parte por fora que fica com eles lá dentro. Estão passando a mão”- acusou o funcionário que trabalha ou trabalhava na Secretaria de Finanças. Cadê a investigação do Tribunal de Contas?

São os quiabos mais escorregadios e danosos que desviam recursos do contribuinte nessas festas, mas o povo cai dentro da fuzarca e nem quer saber disso. O que importa mesmo é o circo. Enquanto isso, com as chuvas, a periferia de Juazeiro sofria com as ruas esburacadas, alagadas e esgotos estourados, numa fedentina danada.

UM PAPO COM O “VELHO CHICO”

– Olá, meu “Velho Chico”!

Vim de longe daquelas terras de Vitória da Conquista que muitos, sem noção, as chamam de “Suíça Baiana”, para lhe pedir a benção. Uma pena que só lhe conheci depois de adulto. Quando era criança, nem ouvia falar sobre a existência do Senhor. Aliás, alguma coisa na escola, mas sem muito destaque.

– Sei, meu filho, e Deus lhe abençoe!

– Como está de saúde?

– Um pouco melhor que há uns oito ou dez anos quando estive na UTI, naquela braba sequidão.

– Ah, lembro da ocasião e fiquei muito triste, mas antes disso teve aquele frei da Barra que fez uma greve de fome em protesto contra sua transposição, ainda no segundo mandato do Governo Lula. Faz tempo e, como sempre, o brasileiro esquece desses episódios.

– Pois é, meu filho! Minhas águas minguaram nas margens, só arreião e apareceram ilhotas por todo canto. O mar tentou me engolir lá foz de Sergipe e, por pouco, não virei um riacho salgado. Fui até entubado e os homens de lá de cima prometeram me revitalizar.

– E de lá para cá não fizeram nada?

– Só promessas e sofri com o assoreamento e erosão dos terrenos. Desmataram minha vegetação ciliar. Fiquei muito tempo descoberto no árido sertão. Até minha nascente quase morre. Atingiram até meus afluentes com tanta irrigação para plantar grãos e frutas para os mais ricos capitalistas exportarem. Eles só pensam em cifrões.

– E depois disso tudo?

– São Pedro resolveu me socorrer. Sempre estou dependendo dele. Sai das últimas e renasci. Nem os movimentos sociais tocaram mais na questão.

– E se vier outra estiagem prolongada daquela?

– Ah, meu filho, nem sei o que será de mim. Pode até ser o fim, porque se for depender deles, já era.

Por falar nisso, qual era mesmo seu nome antes daquele português navegar em seu mundaréu de água?

– Ah, os meus irmãos indígenas me chamavam de Opará, o que significa rio-mar, por ser grande e caudaloso, meio de comunicação e de fuga, uma rede que interligada diversos povos da região.

– E quem lhe deu o nome de São Francisco?

– Foi um tal de Américo Vespúcio, em 1501, quatro de outubro, dia de São Francisco. Essa mania dos cristãos de denominar tudo com o nome de santo. Sou mesmo Opará.

– Tá certo, mas mudando de assunto, e seus ribeirinhos?

– Agora estão melhor, com mais peixes na rede e irrigando suas plantações, mas sempre tiram dos pobres e dão para os ricos. Não ando nada contente com isso.

– Estou sentindo um mal cheiro aqui nas margens. O que é isso?

– São os esgotos, meu filho, que jogam dentro de mim, sem falar no lixo e outras sujeiras. Eu padeço durante mais de 500 anos. Despois vêm as muriçocas, insetos, ratos e cobras. Reclamam e ainda me xingam.

– O que dizer que esqueceram do senhor?

– Eles lá de cima não passam de politiqueiros de baixo nível. Se apropriam de mim para arrumar votos dos eleitores incultos. Essa tal de transposição só atendeu os mesmos. Os pobres continuam mendigando as migalhas ou farelos que caem da mesa desses burgueses.

– Dizem que o senhor é esquerdista comunista. O que falar sobre isso?

– Sem comentários, meu filho. Não dá para dialogar com essa gente imbecil. Prefiro ficar calado, com meus caninos, cavernas, navegantes, carranqueiros e barraqueiros. Veja ali o Nego D´Água e Iansã.

– E sobre esse tal de aquecimento global?

– Já está acontecendo, meu filho! O futuro de tragédias e catástrofes já existe, mas ainda não caiu a ficha deles. Ficam aí transando com El Nino e mudanças climáticas. Se reúnem e depois tudo fica no mesmo.

– É meu “Velho”, o papo está bom, mas já estou indo pegar estrada para outras bandas.

– É, meu filho, vá em paz e que Deus ou São Francisco lhe acompanhe.

– A benção, mas prefiro Opará, como na língua indígena Tupi-Guarani.  Até a próxima, meu “Velho” mestre.

CONTINUE REMANDO!

(Chico Ribeiro Neto)

Naveguei nas águas da praia do Unhão, em Salvador, com uns 14 anos, na catraia construída junto com o amigo Zoinho, com uma placa de Madeirit roubada na construção da Avenida Contorno para servir de casco da embarcação, depois batizada por meu irmão Cleomar de “Minas Gerais”, o velho porta-aviões que o governo brasileiro comprou da Inglaterra em 1956.

Foi uma felicidade ter um barco, toda a meninada queria passear nele. Os remos dormiam em casa, para não roubarem, e a catraia (também chamada de “quadrada”) dormia ancorada nas serenas águas do Unhão.

Sempre gostei dos nomes dos barcos e de saveiros. Revelam muita poesia, a sintonia com as águas, o sol e a lua.

Em sua página no Facebook o grupo “Velas de Içar – Saveiros da Bahia” revela uma pesquisa feita com nomes de saveiros de Bom Jesus dos Pobres – um dos portos de saveiros mais dinâmicos da Baía de Todos os Santos – nas décadas de 50, 60 e 70, que catalogou 46 nomes de saveiros de vela de içar que levavam mercadorias do Recôncavo para Salvador.

Destaco alguns nomes de saveiro: “Admirado”, “Amigo Fiel”, “Aurora”, “Chamêgo”, “Considerado”, “Deus Que Me Deu”, “Educado do Norte”, “Dois Amigos”, “Luar de Bom Jesus”, “Piolho de Cobra”, “Respeitado”, “Riso do Amor”, “Sonho Feliz” e “Sombra da Lua”.

Lá vem o “Minas Gerais”, cortando água. Pega aquele caminho que o sol traça no mar às 5 e meia da tarde quando se prepara pra dormir.

No barquinho só cabem dois tripulantes: Chico e Zoinho. Outros meninos seguram na catraia, deixando o resto do corpo no mar: Atum, Biúca, Tristeza, Cobra D’Água, Cascavel, Pé de Valsa e Mondrongo.

Zoinho dá o comando:

– Vamos remar!

– Para onde?

– Não sei, continue remando!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

O LEÃO RUGE, MAS NÃO ASSUSTA

Carlos González – jornalista

O leão da Receita Federal rugiu em Brasília, anunciando a cobrança do Imposto de Renda (IR) sobre os ganhos das lideranças religiosas. A única reação partiu da Bancada da Bíblia no Congresso Nacional. Bispos e pastores interromperam as férias ao lado das famílias no exterior ou em resorts de luxo para iniciar mais uma campanha, com veladas ameaças, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.  O grupo conservador não aceita o corte de um dos muitos privilégios que recebe.

A tabela do IR para 2024 estabelece que o assalariado, inclusive o aposentado pelo INSS, que recebe mensalmente R$ 2.112,00, sofrerá um desconto de 7,5%, ou seja, R$158,40, suficiente para comprar um botijão de gás de cozinha. No vértice da pirâmide econômica estão encastelados os parlamentares da bancada evangélica, que, na prática, deveriam ser enquadrados pela Receita como “grandes fortunas”.

Entre os privilégios de que gozam na área tributária, os ministros evangélicos estão livres da contribuição previdenciária (Lei 8.212/91). Trata-se da chamada prebenda pastoral, uma forma de retribuir financeiramente ao pastor por sua dedicação à Igreja. Está legalizada a lavagem de dinheiro, – quem viaja pelo interior do Brasil se surpreende com o número de templos evangélicos – operada nas fundações, que se dizem beneficentes, culturais ou educativas, por artistas e atletas famosos.

“É lamentável e incompreensível para um governo que se diz reconhecer a importância das religiões”, comentou o coordenador da bancada evangélica neopentecostal, deputado pelo Amazonas Silas Câmara, do Republicanos, partido que indicou um dos seus membros, o deputado Sílvio Costa Filho, para o Ministério de Lula.

Um mês antes de deixar o governo Jair Bolsonaro deu mais um presente aos evangélicos, ampliando o alcance das isenções tributárias aos pastores. A medida, que está sob investigação do Tribunal de Contas da União (TCU), tinha como finalidade reforçar o apoio à reeleição de um presidente antidemocrata. Aquele ato anticonstitucional estimulou os pastores a convencer uma plateia inculta e iletrada a votar nos candidatos da Igreja.

As “campanhas de solidariedade”, que em 2014 beneficiaram os petistas José Genoíno e José Dirceu, foram reforçadas em 2023 com o uso do Pix, para ajudar Bolsonaro a pagar as multas por desobediência civil (circular em público sem máscara durante a pandemia), que somavam R$ 936 mil. A campanha “pague por mim a minha punição”, incentivada pelos evangélicos que se alimentam da fé, arrecadou R$ 20 milhões.

Ameaçando votar contra, nas comissões e em plenário, as matérias de interesse do Executivo, os exploradores da fé – são mais de 140 nas duas casas do Congresso – foram dar seu recado ao ministro da Fazenda. Na saída do gabinete declararam que não voltarão a ser “mordidos” pelo leão da Receita, enquanto Haddad afirmava que a continuidade da isenção será estudada por um grupo de trabalho.

O recado dado por Haddad foi interpretado de outra maneira pelo mundo financeiro e político de Brasília: esperar que a imprensa esqueça – cadê as joias sauditas? – o assunto para que Lula volte a afagar a bancada evangélica, como fez em outras oportunidades com os membros do Centrão. O presidente já não conta com as bancadas da Bala e do Boi. Afinal, há necessidade do país equilibrar as contas públicas.

A ideia de se criar uma república fundamentalista no Brasil não morreu com a eleição de Lula. Seus idealizadores precisam de recursos para serem aplicados nas eleições municipais deste ano. Esses esforços incluíram as recentes eleições para os Conselhos Tutelares em todas as cidades do país. Os novos conselheiros – há exceções, claro – têm como meta doutrinar  a população infanto-juvenil.

 

 

 

 

 

 

 

O NORDESTE VAI VIRAR DESERTO

EM ALGUNS LUGARES, AS CHUVAS COM TEMPORAIS E VENTOS FORTES VÃO ARRASTANDO TUDO PELA FRENTE. LEVAM CASAS E EXTERMINAM SERES HUMANOS. EM OUTROS É A SECA QUE DESERTIFICA A TERRA. TUDO É RESULTADO DA AÇÃO DO HOMEM QUE PROVOCOU O AQUECIMENTO GLOBAL. A TENDÊNCIA É QUE OS ESTRAGOS VÃO SE AGRAVAR. SERÁ QUE TEMOS COMO REVETER ESSAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Um dia o profeta disse que o sertão ia virar mar, mas acho que errou ou se referiu às grandes barragens e açudes que inundaram cidades e campos. Na verdade, de acordo com estudos de cientistas, o semiárido do nosso Nordeste, a quem eu denomino de meu sertão, vai é virar deserto, e o fenômeno só avança.

Tem lugares que a terra está se transformando em sal. Tenho até um poeminha com o título “O Sertão Vai virar Deserto” que fala desse tema. Há milhões de anos o sertão era mar, mas agora é outra coisa parecida com engaços e bagaços. Não está dando nem para criar animais e plantar. O sertanejo está perdendo a fé e a esperança. Está chegando o tempo que não adiantam mais rezas e procissões. É a autodestruição da humanidade.

Uns chamam isso de mudanças climáticas da própria natureza e até do El Nino, mas a questão mesmo é do aquecimento global provocado pelo ser humano há séculos. Muitos falam de um futuro de destruição do planeta diante das catástrofes e tragédias, cada vez mais frequentes e letais, mas já estamos dentro desse futuro. Acontece que a ficha ainda não caiu para essa gente estúpida.

Em algumas regiões, de dez a quinze mil quilômetros quadrados entre os estados da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte desse sertão semiárido, as chuvas são cada vez mais raras e aí vai surgindo a desertificação que os cientistas afirmam puder reverter.

Não sou especialista no assunto, mas sou incrédulo. Não acredito nisso porque a poluição dos gases tóxicos no ar só cresce, principalmente com o uso dos combustíveis fósseis. Ninguém quer parar de produzir (Estados Unidos, países árabes, Rússia, Venezuela e até o Brasil) esse tipo de energia suja e vai tentando enganar o meio ambiente com essa de redução paulatina, com a venda de carbono, reciclagem ou da economia sustentável.

Ouço isso há mais de 50 anos. O papo é o de sempre nas reuniões climáticas. Protestos e assinaturas de cartas de intenções e tudo permanece no mesmo, cada um olhando para o crescimento do seu bendito PIB (Produto Interno Bruto). Enquanto isso, a terra está se lascando. Nas camadas polares, no Alasca e na Groelândia, as geleiras só derretem.

No caso do nosso pobre Nordeste, trata-se de áreas há séculos castigadas que são as primeiras a sofrer, como na África e outros continentes onde predomina a pobreza extrema. É assim, os ricos são os que mais depredam a natureza e o aquecimento global incide com mais intensidade os habitantes mais vulneráveis financeiramente.

Na Bahia também, como no norte (Juazeiro e região) existem pontos onde o deserto é visível. A situação é cada vez mais crítica, sobretudo onde ocorrem as prolongadas estiagens de seca. A vegetação vai desaparecendo e nem o bode resiste. A terra fica ressecada e o sertanejo não tem outra saída senão se retirar ou morrer de fome com sua família.

Até a produção de energia eólica, mal programada e planejada, está acarretando impactos ambientais, como em Urandi, na Bahia, onde os ventos fortes provenientes das hélices estão aterrando nascentes do rio Cachoeiras. Camponeses estão sofrendo com a instalação de torres perto de suas casas. O nordestino sofre de todos os lados. É um saco de pancada.

OS 60 DO ENEM, OS 500 MIL REAIS DA CÂMARA E O NAUFRÁGIO ANUNCIADO

São tantos assuntos que nos instigam a comentar, a dar uma opinião nessa vastidão de absurdos na Bahia e no Brasil que somente poucos se arriscam a palpitar e colocar a cara a tapa. Dizem alguns que eu sou inquieto, um tanto polêmico e até que não devo me meter nisso porque não vou mudar as coisas ou consertar o que na minha visão está errado ou merece ser corrigido.

No meu comentário de hoje vamos começar pelos 60 estudantes, de um universo de 2,7 milhões de participantes, que tiraram mil na prova de redação do Enem do ano passado. As notas médias foram 516 em linguagens, 522 em ciências humanas, 497 em ciências da natureza e 534 em matemática. Na redação, a nota média foi de 641.

Alguém colocou nas redes sociais que não há muito o que comemorar. Também digo o mesmo, mas esses 60 foram anunciados com estardalhaços, e quem conseguiu mil foi considerado como gênio. E se a gente mandasse esses 60 para uma olimpíada internacional de língua? Será que teríamos um primeiro lugar?

Para maior vergonha do nosso ensino, desses, somente quatro foram alcançados por alunos da rede pública. Um internauta postou que isso só demonstra a profunda desigualdade na educação do país, aprofundada mais ainda com o “novo” ensino médio.

Do total de mil nas provas redacionais, vinte e cinco foram do Nordeste, 18 do Sudeste, sete do Sul, cinco da região do Centro Oeste e cinco do Norte. Até que o nosso Nordeste, tão discriminado pelos sulistas, se saiu bem, mesmo quando se faz uma comparação em termos proporcionais, sendo 26,91% de nordestinos, 41,78% (Sudeste) e 14,74% (Sul).

Outro tema para uma reflexão foi o anúncio de devolução de 500 mil reais de sobras do orçamento da Câmara de Vereadores para a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. “Estou sensibilizado. Vou chorar. Será que nossas excelências foram afagadas pela deusa da Honestidade? Mandem essa notícia para os famintos do “Centrão” – cutucou um comentarista virtual.

Para a ativista cultural Maris Stella, do Grupo a Estrada, do nosso sarau de mesmo nome, em seu entendimento, essa devolução não tem nada de heroica. Segundo ela, numa postagem do Grupo, existe uma Comissão de Cultura e Educação na Casa que poderia utilizar essa vultosa verba no sentido de viabilizar projetos para o Memorial onde prestaria um melhor serviço para a população. Também, ainda Stella, para publicação de livros, entre outras ações.

Na minha opinião, é uma prova que o orçamento da Câmara é polpudo, tanto que os vereadores deram aumento em suas verbas de gabinete e as cadeiras dos edis vão passar de 21 para 23. É tudo uma questão eleitoreira de campanha.

Esses 500 mil bem que poderiam ser direcionados para reformar os equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheová, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha. Outra alternativa seria doar para o Fundo Municipal de Cultura, a ser gerido pelo Conselho. Por acaso eles querem saber de cultura? Já disseram por aí que o setor não dá voto.

Vamos agora tratar do naufrágio anunciado de um barco entre Salvador e Madre de Deus que resultou em seis vítimas fatais. Só para rememorar (afirmam que o brasileiro não tem memória) há poucos anos houve um acidente dessa mesma natureza em Itaparica com muito mais mortes.

Quando ocorrem essas tragédias anunciadas, logo aparecem as “autoridades” da Marinha, delegados, comandantes, entre outros, dando entrevistas montadas, informando que vão apurar os fatos e estabelecem 90 dias para conclusão das investigações. Ora, fica uma pergunta no ar que a nossa mídia não faz.

Por que nesses locais de atracações não existe um fiscal para impedir que embarcações irregulares ou superlotadas naveguem nessas condições precárias? Só depois é que falam que o veleiro particular não tinha permissão para realizar rotas com passageiros.

São coisas absurdas que só acontecem em nossa Bahia e em nosso Brasil atrasados, como se fossem terra de qualquer um, da impunidade e sem leis. Depois esses processos levam anos na justiça e os responsáveis nunca são exemplarmente punidos. Por outro lado, essas “autoridades” são as maiores culpadas porque a tragédia poderia muito bem ter sido evitada.

 

OS MATERIAIS ESCOLARES SÓ TRAZEM SÍMBOLOS E FIGURAS DE HERÓIS DOS EUA

– Tenho aqui algumas bolsas e mochilas mais baratas com as cores e a bandeira do Brasil, mas ninguém quer. Preferem os materiais escolares com os símbolos, imagens, termos e figuras de heróis norte-americanos – disse um lojista do centro comercial de Vitória da Conquista, não deixando de criticar essa cultura secular de desvalorização pelo nosso produto e às suas personagens folclóricas.

Concordei com sua posição e entrei em algumas papelarias da cidade à procura de materiais escolares em geral (mochilas, cadernos e outros artigos) que trouxessem em suas capas ou nas partes externas figuras que remetessem ao nosso folclore brasileiro, como o saci-pererê, curupira, o boitatá, boto cor de rosa, a iara, cuca, caboclo d´água, a caipora, bem como imagens dos nossos rios e biomas (Pampas, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e a Amazônia).

Para mim não foi nenhuma decepção porque já imaginava que não iria encontrar, mas nos deixa envergonhado de como não valorizamos os que é nosso. Temos mesmo complexo de inferioridade. Não é uma questão de ser um patriota ufanista do tipo integralista e moralista que bate continência para uma bandeira dos Estados Unidos e ainda defende uma intervenção militar.

Nas capas dos cadernos e bolsas só vi figuras de super-heróis dos ianques, como homem aranha, super-homem, the flex, batman, capitão américa, hulk, zorro, mulher maravilha  e tantos outros que nem sei bem os nomes. Você pode também encontrar fotos de pontos turísticos de Paris (França) como Tour Eiffel, Champs Elisée e Museu do Louvre.

Fiquei a imaginar se algum país do mundo usa nossos símbolos em seus objetos escolares. Com certeza que não. A começar pelos EUA, milhões deles nem sabem localizar nosso país geograficamente nas Américas. Muitos chamam o Brasil de Buenos Aires e outros acham até que somos selvagens e exóticos.

É lamentável o desprezo pela nossa cultura ao ver nossas crianças e jovens (também os pais) totalmente absorvidos pela enxurrada de filmes e propagandas que invadem nossos mercados com seus heróis e personagens através dos cinemas e das televisões! Eles passam a cultuar e a idolatrar o que vem de fora e pouco dá valor ao nacional.

Temos um país rico, tanto no seu folclore como em termos de paisagens e parques, como a Chapada Diamantina, na Bahia, Veadeiros, no Centro Oeste, o parque arqueológico, no Piauí, a Serra do Araripe, (Ceará), o pantanal e a floresta amazônica! Não podemos ainda deixar de citar as grutas, cavernas e rios, como o São Francisco, Paraná, Amazonas, Paraguaçu e tantos outros.

Muita parte dessa riqueza está sendo destruída pelos desmatamentos, garimpos e pelo fogo. Para reforçar a consciência ambiental, principalmente nos mais jovens, essas imagens e figuras culturais não poderiam estar estampadas em nossos materiais escolares, ao invés dos estrangeiros?

O Congresso Nacional não poderia criar um projeto de lei, sancionado pelo presidente da República, obrigando os fabricantes desses materiais imprimirem figuras e imagens que representassem o nosso Brasil? Não se trata de censura e de impedimento de se abrir para outras culturas. É uma questão de valorizar nosso patrimônio material e imaterial.

Cada nação mais desenvolvida, como os Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Coréia do Sul, Finlândia e os países nórdicos, por exemplo, procuram cuidar bem e preservar suas memórias e histórias. O nosso Brasil vai numa direção contrária quando prestigia mais o que vem do exterior e menospreza o nacional.

 

SORRIA! VOCÊ ESTÁ NA BAHIA

Carlos González – jornalista

Depois de desembarcar no Aeroporto 2 de Julho e atravessar o verdejante bambuzal, o viajante é convidado a sorrir, por estar chegando à Bahia. O turista, que já recebeu o “bem-vindo” de uma “baiana” com traje excessivamente colorido, abre um sorriso de orelha a orelha. Mas, o morador de Salvador, que está indo para a Barra e bairros vizinhos, já prevê o que vai encontrar nesta época do ano.

A virada do ano, que se estende por quatro dias, abre o calendário de festas em Salvador, que, normalmente, deveria ir até o Carnaval. Nada disso. Criado por Carlinhos Brown, o “Arrastão” reúne timbaleiros e foliões no desfile que contraria os católicos, por coincidir com o início da Quaresma. Em 2019, os vereadores votaram (38 a 2) pelo fim da manifestação, mas o prefeito na época ACM Neto vetou o projeto de lei.

Nesses três primeiros meses do ano, Salvador se transforma na “Capital da Folia”. São ensaios de blocos, lavagens de escadarias e de becos, bênçãos das terças-feiras, festivais, fuzuê, pôr do sol no Farol, homenagem a Santinha, coroação do Rei Momo, pré-Carnaval nos bairros da periferia, lançamento de camarotes, banhos a fantasia e os embalos da ressaca (na semana seguinte ao Carnaval).

Candidato a reeleição, o prefeito Bruno Reis vira “arroz de festa”. Comparece inclusive às festinhas pré-carnavalescas, animadas por um cantor sertanejo, nos bairros da periferia da cidade, promovidas por candidatos a uma cadeira na “gaiola de ouro da Praça Municipal”.

Segundo o último Censo, a população de Salvador é de 2.418.005 habitantes. Nos últimos 12 anos a capital perdeu 257 mil residentes, que migraram para municípios vizinhos, em busca de emprego, segurança e de serenidade. A cidade ocupa a 17ª posição no quesito per capita familiar entre as 27 capitais do país e o Distrito Federal. No Nordeste está abaixo de Fortaleza, Recife, João Pessoa, Aracaju e Natal.

Meu colega e amigo Jeremias Macário lembrou neste mesmo espaço que há em Salvador mais beneficiários dos programas de renda do governo federal do que em São Paulo. Jovens de famílias pobres estão migrando para o Paraná e Santa Catarina, onde, além de sofrerem discriminação por serem nordestinos, se submetem a trabalhos análogos a escravidão.

Com apoio da Rede Bahia, Reis aposta todas as suas fichas em manter o circo armado até o dia das eleições municipais. Ele calcula que bilhões vão abarrotar os cofres da prefeitura com a chegada para o Carnaval de 800 mil turistas a Salvador, sem fazer correção dos que trazem a barraca nas costas e acampam em qualquer lugar, e dos que estão hospedados em navios de cruzeiros.

Depois da abertura do Circuito Dodô (Barra-Ondina), o Carnaval virou uma indústria que beneficia uma minoria, com a colaboração de uma massa que não tem consciência da realidade em que vive. O complexo industrial da folia, onde o Rei Momo é uma figura decorativa, é constituído pelos empresários musicais, cantores de axé, donos de blocos e de camarotes, corretores de imóveis, e os ramos de bebidas, hotéis, bares e restaurantes. Pequenos comerciantes de lanches e bebidas, comprimidos pelos foliões, passam uma semana em suas barracas, em péssimas condições higiênicas.

SOS Barra

“Tire este camarote do meu caminho que eu quero passar”. Este apelo está numa das faixas colocadas em vários pontos da Avenida Oceânica. O protesto é de iniciativa da Amabarra (Associação dos Moradores e Amigos da Barra), que há anos vem pleiteando junto aos gestores municipais e ao Ministério Público a mudança do Circuito Dodô para outro local.

Uma pesquisa feita no ano passado desaprovou a transferência para a avenida Octávio Mangabeira (trecho da Boca do Rio). A votação se estendeu a toda cidade, quando deveria ficar restrita aos residentes na Barra e Graça, que nesta época do ano são prisioneiros em suas próprias casas.

O Carnaval na Barra foi um dos motivos que me trouxe a Conquista. Por nove anos, como morador do bairro, onde se paga o IPTU mais caro de Salvador, testemunhei a ocupação do espaço público por enormes camarotes, que começam a ser montados um mês antes. Este ano, o dono de um deles levantou muros num dos trechos da praia de Ondina, com acesso exclusivo para os frequentadores, que pagam uma fortuna por um ingresso.

Participei de reuniões da Amabarra, onde comerciantes que nada têm a ver com o Carnaval fecham seus estabelecimentos por mais de uma semana; associados sobressaltados davam conhecimento da presença nas ruas do bairro de assaltantes de diversos pontos da cidade; outros manifestavam o receio de caminhar ou usar a bicicleta nas pistas da avenida devido a construção dos camarotes sobre os passeios; outros relatavam os entraves causados aos veículos, inclusive ambulâncias.

Podem me chamar de saudosista, mas do autêntico Carnaval da avenida Sete, das cadeiras amarradas nas árvores e postes, do desfile das grandes sociedades (Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso) e dos bailes nos clubes sociais, sobraram o trio elétrico de “Armandinho, Dodô e Osmar”, a passagem dos blocos afros e o bloco sexagenário “Paroano Sai Milhó”, “um oásis no Carnaval de Salvador”, como definiu Caetano Veloso.

 

 

 

 

 

 

 





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