Carlos Albán González – jornalista

Nos Estados Unidos, desde o final do século XIX, o burro e o elefante, tão reconhecíveis quanto o Tio Sam, participam das campanhas eleitorais, representando, respectivamente, os Partidos Democrata e Republicano. Em Vitória da Conquista, por iniciativa de um dos candidatos à Prefeitura nas eleições deste ano, animais das raças equina, caprina e bovina (os bens saudáveis) vão trocar a liberdade dos pastos por currais na área urbana da cidade.

Sem a menor experiência na política, a empresária Sheila Lemos viu de repente cair no seu colo a responsabilidade de governar o terceiro município baiano. Com poucos meses no cargo e orientada por ACM Neto, vice-presidente nacional do seu partido, o União Brasil, a prefeita conquistense elaborou o projeto de permanecer no cargo por mais quatro anos.

Educação, saúde e cultura não são convertidos em votos em cidades onde a maioria da população é desinformada; onde é mais vantajoso dar circo ao eleitor, como tem feito Bruno Reis, prefeito de Salvador,  que está praticamente reeleito.

Sheila e pecuaristas se reuniram na semana passada. A conversa durou pouco tempo. Governo e iniciativa privada anunciaram a realização, seis anos depois de sua última edição, da exposição agropecuária. A montagem dos estandes, currais, lojas, arena para rodeio, bares e restaurantes se dará no Parque Teopompo de Almeida. Por exigência da prefeita – estamos a poucos meses das eleições municipais – nos cinco dias (de 5 a 9 de junho) do evento os portões serão abertos ao público. Ônibus farão o trajeto entre os bairros e a Avenida Siqueira Campos.

“Estou alegre demais porque a exposição não é uma festa do agronegócio, mas da cidade”, confessou Isaac Figueira, presidente da Cooperativa Mista Agropecuária Conquistense (Coopmac), revelando que o convite partiu da prefeita. O custo para o município não foi divulgado, mas a entidade de classe orça a montagem do evento em mais de um milhão de reais.

A Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Vitória da Conquista representa para os governistas mais um veículo que irá impulsionar a candidatura de Sheila. “A Prefeitura sempre apoiou as iniciativas do agronegócio”, declarou Sheila, esquecendo que em novembro de 2018 a Coopmac recorreu ao seu antecessor Herzem Gusmão para promover a expo de 2019. A negativa do gestor prejudicou, entre outros, o setor cultural da cidade. O empresário de shows Ludson Gusmão lembra que já havia fechado contratos com artistas locais para se apresentar na feira.

A última edição da feira, em junho de 2018, movimentou negócios em torno de R$ 100 milhões e foi visitada por mais de 50 mil pessoas. A Bahia Farm Show, promovida pela iniciativa privada de Luís Eduardo Magalhães (município emancipado em 2000, com uma população de 107.909 habitantes), está entre os três maiores centros comerciais do agronegócio do país. Suas vendas no ano passado giraram por volta de R$ 8 bilhões.

Senhora prefeita, o povo quer saber o que foi reservado para a saúde, educação e cultura nesses últimos meses de sua administração. As migalhas, como sempre? Presente ao encontro com os dirigentes da Coopmac e na coletiva da imprensa, o coordenador de Cultura, Alecxandro Magno, entrou calado e saiu mudo. Os projetos elaborados pelo Conselho Municipal de Cultura nos últimos dois anos provavelmente foram engavetados.

Uma tragédia anunciada

Numa sociedade civilizada, onde os indivíduos compartilham valores éticos e democráticos, a urbanidade deve ser um procedimento a ser exercido pelos homens públicos. Pois bem, em novembro de 2023 a ministra da Saúde, Nísia Trindade (cientista social, pesquisadora e ex-presidente da Fundação Osvaldo Cruz), esteve em Vitória da Conquista. Não veio fazer política e nem o condenável assistencialismo. Veio trazer investimentos para o povo conquistense, desprovido de ações do município na área da saúde.

Como já havia feito nas visitas de outras autoridades estaduais e federais – Sheila odeia o PT e o presidente Lula, como revelam seus seguidores -, a administradora não foi ao encontro da ministra. Conquista vive hoje uma previsível – o alerta global foi dado pela Organização Mundial da (OMS) em janeiro do ano passado – crise sanitária.

O boletim epidemiológico desta semana mostra um aumento de 1.686% de notificações de pessoas com sintomas da dengue desde o início do ano. Foram registradas 18.925 notificações, com sete mortes. Postos de saúde municipais e emergências dos hospitais da rede privada estão sempre lotados. A seccional do SUS aqui tem 1.1 milhão de cadastrados e 700 mil ativos. O município tem 370.879 habitantes (Censo de 2022).

Houve um atraso na remessa das vacinas, não por culpa do Estado, como acusou Sheila, desmentida por seu secretário de Saúde, Vinicius Rodrigues. Medidas preventivas não foram adotadas pelas prefeituras, como, por exemplo, convencer os céticos de que devem se vacinar.

Segundo a OMS, 20% dos 700 mil brasileiros que morreram vítimas da Covid – não vamos esquecer os que perderam a vida em Manaus por falta de oxigênio – não estariam hoje sendo pranteados por seus familiares se não houvesse uma demora na aquisição de vacinas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL).

Além disso, campanhas contra os imunizantes, incentivadas pelo inelegível, com a participação inclusive de profissionais de saúde, se alastraram pelas redes sociais e pelos templos evangélicos. Esses milicianos virtuais são responsáveis até hoje pela baixa procura de qualquer tipo de vacina.

Sheila comemora os números que lhe favorecem da pesquisa de intenção de votos para prefeito divulgados segunda-feira. Na minha querida Galiza, na Espanha, o 1º de abril é chamado de Dia dos Enganos.