Em minhas andanças por esse sertão nordestino, lá estava eu no pequeno distrito de Jenipapo, em Jacobina, na Bahia. Tempo nublado e serra serrada na estrada chuvosa de chão. Era dia de festa ao Senhor do Bonfim e logo que cheguei “fui recebido” pela procissão que cortava a praça, e o povo orava e agradecia as chuvas depois de uma prolongada estiagem. Gente simples que nunca perde a fé e a esperança.

A pregação do pároco e da missa foram seguidas de algumas falas de agradecimentos que pareciam não mais terminar. Foi aí que alguém finalizou o papo de louvor – se não me engano o próprio vigário – dizendo: Agora é chegada a hora de todos soltarem o dinheiro do bolso, o “dindim”, como se fala no popular.

Todos foram se aproximando do pátio da capela e apareceu o “leiloeiro” com uma voz rouca e rasgada: Vamos começar o nosso leilão. Lá fora tomava uma gelada e, mesmo assim, a cena me fez lembrar do Cristo que expulsou os vendilhões do templo a chicotadas, em Jerusalém, alertando que eles estavam profanando a Casa do seu Pai.

Nem tanto assim porque, segundo o “leiloeiro”, a renda seria em benefício da manutenção da igreja e para organizar a festa do próximo ano. Pensei que a coisa fosse rápida, mas tive que aturar cerca de duas horas de “dou-lhe uma, dou-lhe duas e dou-lhe três, vendido”. Acontece que mesmo assim alguém gritava de lá dando mais, e o leilão prosseguia. O negócio era aumentar o valor.

Nunca vi uma leiloada com tantas peças, itens, objetos e produtos, de animais a utensílios caseiros e de uso pessoal, como calcinhas, cuecas, lençóis, panos de prato, de chão, pratos, talheres, panelas, chinelos, sapatos, camisetas, carne de bode e bovina, galinha, ovos, feijão, beiju, milho, arroz, óleo de cozinha, açúcar, facas, facões, foices, enxadas e outras quinquilharias.

O homem da voz rasgada continuava a berrar e não se cansava. O povo não arredava pé da área externa da igreja na pracinha do povoado. Na hora do corte de bode, tive até vontade de ir lá fazer um arremate, mas desisti quando chegou nos 200 reais. É que adoro um “bodinho” assado ou cozido.

Teve um momento que um bebum com um copo na mão balançava pra lá e pra cá e ousou perguntar em voz alta se não tinha uma cachaça naquele leilão. Todo mundo caiu na risada e os guardas municipais (o prefeito estava presente na missa, mas logo caiu fora) cuidaram de retirar o sujeito do recinto.

Não aguentava mais aquele leilão (deve ter rendido uns 20 mil ou mais) pelo tempo e a quantidade de coisas ofertadas, numa média de 100 reais ou mais. No entanto, o pior estava por vir. Quando, enfim, terminou o leilão, entraram dois carros de som, com aquelas músicas horríveis e barulhentas. Cada um disputava quem tinha a maior potência de nas caixas de som.

Estava na casa da minha irmã para pernoitar e, naquela hora, depois de uma viagem de 300 quilômetros, confesso que me deu vontade de sair correndo ou pegar o carro e ir dormir em Piritiba, mas já era tarde, umas 21 para 22 horas. Estava cansado e tinha tomado umas latinhas.

Além do mais, não gosto de dirigir durante a noite por causa dos faróis dos carros na pista. Afinal de contas, são coisas que acontecem em viagens. Costumo dizer que faz parte, como do cara que me pediu uma pinga para me passar uma informação quando estava em Jacobina e ia justamente para o Jenipapo.