Na Itália Barroca e na França dos séculos XVI e XVII foram criadas várias ordens religiosas, com a finalidade de arrecadar fundos para resgatar escravos cristãos da região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli), de Constantinopla, Turquia e até do Marrocos. Essa prática secular também foi copiada pelos cativos africanos nas Américas visando alforriar seus escravos.

Entre tantas, as duas mais importantes, desde os séculos XII e XIII, eram a dos trinitários, da Santíssima Trindade, em Paris, na França, e a dos mercedários, a Santa Casa das Mercês, na Espanha.

Por mais que tenham se dedicado, essas entidades conseguiram poucos resultados por causa das barganhas dos senhores proprietários dos cativos. Só poucos foram beneficiados. As remições tornavam-se difíceis quando o capturado era vendido para terceiros.

Por outro lado, os mais privilegiados sempre eram os clérigos, os nobres e os personagens com maior posição social. Essas ordens espalharam uma grande rede de coletores de doações por toda Europa, o que abriu, já naqueles tempos, espaços para os golpistas que se faziam passar por arrecadadores. Muitos também davam moedas falsificadas. Tudo isso, há mais de 600 anos, nos faz lembrar os dias atuais de corrupções e falcatruas.

Estas e outras questões descritas sobre a escravidão branca estão no livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, do autor historiador Robert Davis. Sobre o tema, ele afirma que “a Península Itálica, até então, vinha sendo uma das presas preferidas dos corsários berberes por dois ou mais séculos e, com isso, houve um grande êxodo das populações litorâneas para vilarejos cercados por muros e no alto de montanhas, ou para cidades como Rimini, deixando quilômetros de territórios costeiros, antes populosos, nas mãos de vagabundos e piratas”.

O modo como esses cristãos brancos eram levados pelos corsários da Berbéria variava pouco. O que aconteceu com eles, segundo Robert, durante o tempo das Marcas Papais, foi praticamente o mesmo que houve com aqueles que foram sequestrados ao longo dos desprotegidos litorais napolitanos, genovês e das ilhas espanholas.

Para Davis, nos três séculos da jihad cristã-muçulmana, que começou por volta do ano de 1500, a pirataria e a escravidão se tornaram instrumentos políticos de Estado para ambos os lados. Escravizar pessoas não só despojava o inimigo de milhares de cidadãos produtivos, mas também fornecia mão-de-obra capaz e uma fonte de renda por meio dos resgates.

No final do século XVI, as galés corsárias à caça de escravos, tanto cristãs quanto muçulmanas, rondavam o Mediterrâneo em busca de espólio humano – descreve o escritor. Da Catalunha ao Egito, homens e mulheres, turcos e mouros, judeus e católicos, protestantes e ortodoxos eram vítimas em potencial. Eles eram capturados e arrebanhados nos currais de escravos em Constantinopla, Argel, Túnis, Trípoli, Malta, Nápoles ou Livorno, e lá eram revendidos como remadores de galés, trabalhadores rurais ou serviçais domésticos – destacou.

A Itália, posicionada bem na linha de frente dos dois impérios em guerra, de acordo com Robert, estava entre as regiões mais devastadas, conhecida como “o Olho do Mundo Cristão”. Esse território era desguarnecido e ficava a mercê dos otomanos. Os mais expostos eram aqueles que trabalhavam no cultivo das terras costeiras, até 15 ou 30 quilômetros do mar.

As famílias (idosos, crianças, mulheres) dos capturados ficavam sem seus provedores e passavam miséria nas cidades ao ponto de comerem restos do lixo. Além do mais, não tinham condições financeiras e bens para pagar os resgates pedidos pelos sequestradores e proprietários, principalmente quando os escravos caiam nas mãos destes últimos. Ficava ainda mais complicado a comunicação com os cativos. Muitos iam trabalhar nas galés ou outros lugares desconhecidos.

Foi então que nações europeias, ordens religiosas e indivíduos engajados começaram a se mobilizar em prol de iniciativas de remição que viriam a ser um dos maiores movimentos sociais do início do mundo moderno mediterrâneo. As remições seguiram um padrão estabelecido séculos antes pelas duas principais ordens redentoras: A Ordem da Santíssima Trindade, ou trinitários, fundada na França, em 1193, e a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, ou mercedários, em Barcelona, em 1203. Ambas foram criadas para libertar escravos cristãos, em particular os cruzados, das mãos dos muçulmanos.

Em 1548, o imperador Carlos V fundou a Real Casa Santa dela Redentione de Cattivi. Esta estrutura napolitana forneceu o modelo para outros estados italianos quando vieram a criar suas próprias sociedades redentoras. O próprio Vaticano utilizou esse padrão em 1581/82 para tratar do resgate de seus súditos. Uma das confrarias mais prestigiadas de Roma era a Santa Maria del Gonfalone.

A tarefa de solicitar esmolas para as remições recaiam mais entre os padres e freis que eram homens treinados a pregar em busca de contribuições e podiam explorar as estruturas e os costumes católicos. Os capturados eram sempre levados para o porto de Dulcigno e de lá vendidos para a Berbéria se não pagassem os resgates num tempo determinado.

Apesar dos requisitos austeros que essas instituições impunham àqueles que ansiavam pela ajuda humanitária, nem todas pagavam o valor total da remição de um cativo. Algumas, como os Provveditori sopra Luoghi Pii de Veneza e a Santa Casa Napolitana ofereciam apenas uma quantia fixa, na forma de uma nota promissória, conhecida como “Cristo”, em Veneza, e como albarano, em Nápoles. Eles emitiam suas notas em nome do próprio escravo.