Era um 4 de novembro de 2023 num sábado à tarde quando terminaram os hinos nacionais e a bola rolou no olimpo do Maracanã no primeiro apito do juiz. A sorte estava lançada. Ave te César!

Em campo a disputa pelas Libertadores – uma homenagem aos nossos heróis da independência e da liberdade das nações da América do Sul – entre o Fluminense e o Boca Juniors, da Argentina.

No toc, toc do Flu, de passes curtos na pequena área, o coração do torcedor ficava mais apertado e começava a acelerar, nervoso com os olhos grudados na tela. A bola corre rasteira na grama como uma seta de pé em pé e, às vezes, ela voa como uma pomba para o atleta lá na frente amaciar a “criança” no peito ou na ponta da chuteira.

A plateia colorida é só poesia e plasticidade no estádio, com suas bandeiras, caras pintadas e cartazes de campeão. Gritos de incentivo, manifestações, apreensões e expectativa misturados entre crianças, jovens, adultos e idosos. Mulheres e homens numa só sintonia energética.

A multidão com a voz entalada na garganta para soltar pela primeira vez a histórica saudações tricolores de campeão internacional, especialmente os de idade mais avançada como é o meu caso. Será que vou para o outro além da margem sem esse título inédito? Como protesto, não vou pagar o barqueiro do rio e ele vai dispensar.

A bola insiste em não entrar. O ataque do adversário era como se fosse a angústia de um toureiro na arena ou de um gladiador romano no Coliseu. Me agarrava ao meu boneco “Pó de Arroz”, às cores da bandeira e a outros símbolos. “Aqui dorme um tricolor”. Do outro lado, a nossa investida e arrancadas dos meninos acendiam a fé e a esperança nos lances de se levantar da cadeira e sair levitando no ar.

O Flu envolve, atrai os argentinos, cutuca dali, de lá e cá, instiga com todo sangue e suor até que aparece a fatídica na medida certa para o Cano, com sua batida fatal de primeira empurrar a “menina” para o fundo das redes e fazer os corações “explodirem” num só ritmo de alegria e emoção. No entanto, o “inimigo” na “guerra” é impiedoso e não perdoa fazendo 1 a 1. Silêncio sepulcral, mas a crença continua grudada nas camisas verde, branca e grená.

O tempo parece se eternizar para uns e voar para outros. O técnico Diniz, ora pensativo, ora nervoso e alterado na linha divisória não para de passar instruções para Fábio, Marcelo, Nino, Samuel, Ganso, André, Braz e os outros companheiros de luta até que resolve mudar as peças.

O intervalo é como uma trégua que o general tem para montar suas estratégias e retornar com força total na hora de avançar e recuar. Estamos em plena segunda etapa, a mais decisiva e crucial. Os corações não aguentam mais até que ele chama o menino John Kennedy, nome de presidente, e com toda garra e pulmões profetiza que ele vai fazer o gol da vitória.

Os minutos vão se encurtando e a aflição chega ao seu pico. O nervosismo toma conta de todos, mas os jogadores permanecem em seu ritmo do toc toc, procurando deixar o Boca atordoado até a redonda arredondar nos pés do predestinado John, para mais uma vez, enfiar a danada teimosa no canto do goleiro.

Foi a maior explosão que já vi e senti, indescritível e sem palavras. As cenas de comemorações entre atletas e torcedores dizem tudo. Estava ali se aproximando a histórica saudações tricolores.

Agora era só esperar o apito final e levantar a taça. Parece que os segundos não passam e a aflição toma conta das nossas almas. O sangue corre rápido nas veias, o coração pulsa forte até o final da batalha, de é campeão das Américas, nesse 4 de novembro de 2023. Só nos resta partir para a disputa do mundial.