Desde quando o Brasil passou a ser colonizado por Portugal, uma das marcas registradas em todos setores, inclusive durante os 350 anos do tráfico negreiro, foi a corrupção. A Coroa Portuguesa, que se esbaldou com as nossas riquezas, principalmente levando nosso ouro e diamante, era sempre passada para trás pelos seus enviados governadores e vice-reis que aqui chegavam com a missão de acabar com a roubalheira.

O jornalista e escritor Laurentino Gomes e visitantes estrangeiros retratam muito bem esse quadro ao longo de seus três livros intitulados “Escravidão”. Essa corrupção nasceu de cima para baixo e foi se espalhando por todas as camadas da sociedade, dos mais ricos aos mais pobres que sempre tiveram o intuito de tirar proveito em tudo. Ela passou a ser institucionalizada e até os mandatários ensinavam as técnicas do roubar para se dar bem.

Em diversos trechos de suas obras, Laurentino destaca depoimentos de visitantes que passavam pelo Brasil, sobretudo pelas atuais capitais do Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Essas observações mostram uma colônia isolada, como nos tempos atuais, atrasada e sem educação… dominada pela escravidão, que não se acabou.

“A maioria da população era pobre, analfabeta e carente de tudo. Foi o que registrou a inglesa Jemima Kindersley, em agosto de 1764, ao fazer uma escala em Salvador a caminho da Índia”. Entre outras coisas, ela diz que aquele povo lia pouquíssimos livros, “pois o conhecimento não está no rol de suas preocupações. É política assente do governo manter o povo na ignorância, já que isso o faz aceitar com mais docilidade as arbitrariedades do poder”.

Nada mudou, e tudo continua como antes, há mais de 300 anos. O filme é o mesmo. Tudo isso pode ser dito e repetido nos tempos atuais, talvez com mais ênfase. Vejamos o que fala o próprio autor dos livros sobre essa situação descrita por gente de fora: “Injusto, desumano e violento, o sistema escravista português e brasileiro era corrupto e corrompido dos alicerces até o topo da pirâmide. Seu funcionamento dependia do suborno, extorsão, malversação dos recursos públicos, contrabando, sonegação de impostos, clientelismo e nepotismo, entre outras contravenções”.

Autora de um importante estudo sobre o tema, segundo o jornalista, a historiadora Adriana Romeiro, doutora pela Universidade Estadual de Campinas e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, assinalou “que durante o período colonial brasileiro, enriquecer no exercício de um cargo público não constituía, por si só, em delito. Ao contrário, esperava-se que os funcionários reais aproveitassem as oportunidades para acumular fortunas que pudessem engrandecer suas casas e redes de clientelas e parentelas”.

Nesse contexto, ela cita a frase pronunciada pelo rei dom João V, em 1495, ao se despedir do capitão-mor Lopes Soares de Albergaria, recém nomeado governador da Fortaleza de São Jorge da Mina, entreposto de tráfico de escravos na costa da África: “Eu vos mando à Mina, não sejais tão néscio (tolo) que venhais de lá pobre”. Sem maiores comentários em relação aos nossos tempos.