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REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO RELIGIOSA

O FANTÁSTICO APOIADO EM UMA MUNDIVIDÊNCIA AFRO-DESCENDENTE – ASPECTOS DAS AMBIÊNCIAS SOCIAIS, GEOGRÁFICAS E HISTÓRICAS.

Estou lendo e gostando do livro dos meus amigos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que tem como objeto de estudo a comunidade de Remanso, em Lençóis, encravado na Chapada Diamantina. Os professores fazem uma distinção muito clara do que seja uma comunidade quilombola e afro-brasileira, objeto de estudo de Remanso, confundido com a primeira classificação popular.

Na apresentação da obra, a professora Graziela de Lourdes Novato Ferreira, ressalta que os próprios autores informam que o grupo não se autorreconhece como quilombola e faz referência como “terra de herança”. Os professores usam a nomenclatura comunidade auto-indígena brasileira. Quilombo nasce dos negros fugidos das chibatas dos patrões que se refugiavam em algum lugar. Trata-se de um movimento de resistência.

No caso de Remanso, são pessoas remanescentes dos garimpos de diamantes, que também subsistem da pecuária e da agricultura. “ Remanso é uma comunidade com características de preservação de valores culturais próprios de um pertencimento ao arquétipo das populações da Chapada Diamantina. Traz fortes elementos ligados ao processo de garimpagem do diamante. Sua vivência e tradições se traduzem num místico cultural e religioso…”Os autores são defensores da preservação ético-culturais da região.

A professora explica que Itamar, em suas conversas sempre fala dos traçados dos caminhos, capaz de nos fazer viajar por um universo mágico-poético, com seus apaixonados relatos sobre Lençóis e sobre a manifestação religiosa, denominada de Jarê, um candomblé dos encantados caboclos, que se dá sob o toque da viola. “Vejo uma presença indígena aí muito forte, salve os caboclos! Orixás, caboclos e encantados que agregam elementos indígenas e católicos.

Itamar conceitua que o Jarê demonstra a pluralidade das expressões religiosas neste nosso “sertão profundo”. No prefácio do livro, editado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Josildeth Gomes fala das lavras diamantinas e diz que a obra é o resultado do esforço de dois apaixonados pelo mundo do garimpo que não chegaram às lavras em busca do diamante, mas que se tornaram garimpeiros da alma e de coração.

Ele classifica Remanso como uma comunidade garimpeira afro-indígena. Diz que os autores procuram esclarecer que Remanso é uma comunidade resultante da ocupação de negros, provavelmente de origem banto, que se deslocaram no século XVIII para a região direita dos Marimbus, um imenso pantanal existente na região.

O Jarê é uma expressão religiosa de origem africana que cultua orixás e caboclos, um candomblé de caboclos, ou candomblé do sertão.  Nessa religião, o Caboclo Boiadeiro ocupa o lugar de maior destaque no Jarê de Remanso, mas faz seu ritual é feito através do vaqueiro cuidador do gado. O Boiadeiro é mais o dono da fazenda e da boiada.

Ao lado do Boiadeiro, os caboclos Sete Serras e o Tomba Morro fazem parte dos personagens mais representativos da cultura da Chapada. O primeiro numa alusão à mineração, aos mistérios da mata. O segundo na presença do jagunço arruaceiro briguento.

Nas considerações iniciais, o professor Itamar faz uma viagem sobre o tempo dos coronéis (Horácio de Matos) e o papel dos jagunços como servidores dos mandantes do poder na época, muito diferente dos cangaceiros. Ele traça um mapa geográfico da região com seus municípios, grutas e principais rios que formam o marimbus.

O leitor é fisgado pelas histórias do coronel Horácio de Matos, um dos mais famosos do sertão nordestino, espécie de governador do interior dentro de um estado. Descreve sobre a criação da vila de Jacobina, em 5 de agosto de 1720, por determinação do rei. Jacobina abrangia uma vasta região que ia do Arraial da Conquista, das Minas Gerais, Cachoeira, Ilhéus e o Vale do São Francisco.

Em sua introdução, Itamar descreve a estrutura coronelista da época, sobre os donos de garimpos, lapidários, pedristas, campamgueiros, bambúrrios e demais comerciantes de pedras, Cita vários pesquisadores do assunto, como Américo Chagas, Olímpio Barbosa, Walfrido Moraes, dentre outros.

Em 1906, quando os diamantes estavam esgotados. Itamar lembra da criação do de um dos primeiros colégios do interior em \ponte Nova (Wagner) por missionários presbiterianos, de onde saíram grandes cabeças intelectuais. Tem também as histórias dos valentes João Requisado que enfrentava do alto da serra as tropas do Governo do Estado, do curador Zé Rodrigues, o tenente Zacarias, do deputado, poeta e intelectual Manoel Alcântera de Carvalho, Horácio de Matos e do jagunço Montalvão.

São histórias empolgantes que despertam a curiosidade do leitor, ávido pelos causos contados pelos nossos ancestrais e que serviram de subsídios para pesquisadores e estudiosos. Quem já ouviu fala do livro de São Supriano da Capa Preta? De acordo com a lenda, a reza era capaz de transformar o “devoto” numa moita, num touco, num animal e tantos outros seres. Possuía o encantamento de tornar invisíveis o jagunço, o valente ou o coronel aos olhos dos seus inimigos. Leia que é muito interessante o trabalho de Ronaldo e Itamar. .

COMEMORAÇÃO DE UMA MORTE HUMANA

A sociedade hipócrita e desigual que cria bandidos e marginais violentos, é a mesma que comemora o fim deles através de uma violência ainda maior, coisa que nem se faz hoje no caso de uma fera selvagem. Houve uma inversão de valores. O fim trágico do criminoso Lázaro Barbosa, crivado de balas, foi comemorado por cerca de 300 policiais que não tiveram a competência de prender o indivíduo nos primeiros dias de sua fuga.

São bárbaros comemorando a barbaridade. Ao fim de uma caçada de quase 20 dias, com um aparato pesado de helicópteros, drones, armamentos, viaturas e cachorros farejadores, fizeram rituais de vitória e soltaram fogos. Aproveitaram o emocional de um povo que pouco pensa e reflete para dar uma demonstração de guerra vencida. Isso é uma covardia!

Fosse um bicho qualquer, a morte por armas de fogo teria uma grande repercussão entre as sociedades de proteção dos animais e até dos ambientalistas. Até o governador de Goiás e o secretário de Segurança Pública usaram do momento para fazer seus marketings, pousando de heróis. Infelizmente, isso ainda acontece no Brasil e em algumas sociedades atrasadas.

A sociedade cega, muda, surda e irracional aplaude a ação de comemoração quando deveria lamentar porque fomos nós mesmos que criamos monstros quando elegemos governantes que nunca priorizaram a educação, e foram os responsáveis pelo agravamento das desigualdades sociais no país. É correto comemorar a morte de um ser humano, seja ele quem for?

Outros Lázaros surgirão. Aliás, estão aí dentro das penitenciárias e fora delas. Nos acostumamos com as barbaridades cotidianas dos crimes hediondos e com a violência policial que só gera mais violência. Sinceramente, não vejo nada para comemorar, principalmente nesse caso específico de Lázaro.

Deveríamos nos penitenciar por vivermos num país desumanizado e violento que prefere criar mais penitenciárias, gastar altas somas com armas, tanques, viaturas e policiais despreparados, para combater um mal que poderia ter sido evitado se não houvesse tanta exclusão, ignorância e pobreza.

Depois de tantas atrapalhadas, de provas de incompetência e gastos desnecessários com o dinheiro público (não se sabe o custo dessa mobilização), comemorar o quê? Confesso que me sinto constrangido quando vejo essas imagens de festa e pronunciamentos hipócritas dessas “autoridades” que aproveitam da desgraça social para se aparecer e capitalizar votos. Deveriam ter vergonha na cara e não fazer comemorações quando se mata um ser humano que não teve o amparo que merecia quando entrou no crime!

QUEIMADAS NA CAATINGA

Foto do jornalista João Martins

A foto do meu amigo e companheiro jornalista, João Martins, me lembra muito quando atuava como chefe da Sucursal do Jornal A Tarde de Vitória da Conquista e elaborávamos muitas matérias denunciativas sobre a derrubada de árvores da caatinga para serem queimadas em fornos e se transformarem em carvão. A grande maioria das queimadas era irregular, como o transporte do carvão para as siderúrgicas mineiras. Ele pela revista “Integração”, e eu com meu amigo fotógrafo José Silva pelo o A Tarde estampávamos reportagens denunciando os destruidores do nosso milenar bioma, chamando a atenção de que a caatinga ia virar um deserto. De certa forma isso ocorreu em várias partes do nosso sertão. Em nossas andanças, cortando estradas por esse semi-árido cruzávamos com caminhões rumo a Minas Gerais, principalmente. Nos postos de combustíveis lá eles estavam carregados de carvão. Como era muito perigoso para a nossa profissão, tinhamos que ter muito cuidado para flagrar  os fornos no meio da caatinga e o transporte, quase sempre clandestinos. Os fornos sempre usavam mão-de-0bra, que muito lembrava o sistema escravagista diante das condições dos trabalhadores, inclusive crianças de rostos esfumaçados e doentes dos pulmões. Conversei com meu amigo João sobre o assunto e, para meu alívio, disse-me que esse quadro praticamente não mais existe devido a intensa vigilância e fiscalização do Inema. É uma boa notícia, mas os estragos ficaram na paisagem da nossa natureza, difíceis de serem recuperados quando se trata da caatinga, sempre seca.  Os municípios que mais queimavam carvão eram Sebastião das Laranjeiras, Palmas de Monte Alto, Caculé, Igaporã, Riacho de Santana, dentre outros.

VIOLAÇÃO

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu último livro “ANDANÇAS”

Mesmo o mais contrito do santo,

Tem no seu lamento o seu pranto,

Com a revolta varando o seu peito,

Pela violação sagrada do direito.

 

A alma em secura não mais chora;

Tortura do pau-de-arara e choque;

Abafa os gritos, a censura lá fora,

Calando canção suingada do Rock.

 

Nos porões desaparecem os mortos,

Na selva sepultam quebrados corpos,

Sem punição, sangrados como porcos.

 

A justiça cheira como um coliforme,

E nas cadeias simulam os suicídios,

Com mentiras impostas pelo uniforme.

DE ESTILINGUE A FOGOS DE SÃO JOÃO

Eu e meus compadres João Catingueiro, de Guanambi, e Vate da Viola, mais os cabras Severino e Sirino já estamos de mochilas prontas para partir para o Vale dos Cocais de Goiás em busca do fugidor Lázaro Barbosa que há 15 dias está dando uma canseira danada no batalhão de quase 300 policiais, drones, helicópteros e viaturas armadas de metralhadoras, bombas e fuzis.

O homem virou bicho invisível com a rezas de São Supriano da Capa Preta, capaz de se transformar em touco, uma moita, animais e tantos outros seres, como num encantamento, como disse o professor Itamar Aguiar, para se despistar da tropa e dos aparelhos sofisticados de raios lasers da tecnologia que detectam até o calor do seu corpo.

Para desfazer essas mudanças feiticeiras do cara, vamos levando também um pajé Jarê da Chapada Diamantina, e ai ele vai ficar visível para levar umas estilingadas dos nossos potentes badogues que têm um alcance de até 500 metros, sem escapatória. Vai ser certeira na testa dele. Vai cair como um Golias. Vamos pegar o sujeito na unha!

Nas mochilas também vão umas rapaduras com carne seca, facões, peixeiras e cordas para laçar a fera, se for preciso. Ah, vamos levar ainda uns pacotes de cloroquina para caso de malária e como iscas, pois o danado gosta da bicha, e vem no faro.  Se demorar mais, o Lázaro vai passar a ser chamado de Lampião e ter sua Maria Bonita. Ai, está montado o cangaço goiano, ou até pode ser um João Requisado, da Chapada, que botou tropas do governo para correr lá da serra.

Antes de partir para esta jornada heroica, de dormir dentro de matas, copas de árvores, grunas e cavernas, ouço daqui da minha casa o pipocar dos fogos juninos, que essa gente insiste em fazer festas, mesmo com o cancelamento oficial do Governo do Estado que pede para ninguém se aglomerar, porque a maldita Covid está solta no ar, e até adora fumaça de fogueiras.

Aqui mesmo em nossa rua, no Jardim Guanabara, na casa de eventos Paradise,  o pau comeu até de madrugada, com muita cachaça, ajuntamento e som alto perturbador do silêncio. Seu dono é um transgressor da lei. Cadê a fiscalização do estado e da prefeitura? Depois ficam ai dizendo que o Papa Francisco está errado quando falou que não existe salvação para os brasileiros.

Como aconteceu no ano passado, é sempre aquela história de que “se Deus quiser vamos fazer a festança no próximo 2022”.  Mesmo sem disciplina e conscientização, fazendo paredões, bailes, eventos clandestinos, bares cheios em finais de semana, muita cachaça e zoeira, sem máscaras e álcool-gel, o povo joga toda responsabilidade para Deus. Ele tem que se virar nos 30. Tudo é se Deus quiser.

Deus já está cheio de tanto pedir, sem você fazer sua parte. Seu recado é de que estamos colhendo o que plantamos lá atrás, inclusive elegendo um desequilibrado louco para a presidência da República, que já nos chamou de “maricas” e de outros nomes de baixo calão. Nessa terra do atraso, da falta de educação e cultura, do egoísmo, da indiferença e da negação da ciência, tudo é Deus pra lá, Deus pra cá, até em time de futebol e jogos de sinuca e baralho.

Dia desses indaguei a um camarada, meu amigo, se vamos ter São João no próximo ano de 2022, e ele respondeu na tampa: “Se Deus quiser”. Nem se deu ao trabalho de dar uma olhada na nossa ficha pregressa, um boletim de ocorrências maldosas que dá para atravessar todo Oceano Atlântico até a Europa.

Mesmo com fome e desempregado, brasileiro arranja um jeitinho de fazer festa. Enche a casa de filhos e fica dizendo que foi Deus que quis. Quando alguém morre de Covid, foi Deus que levou porque estava no seu designo. Não respeita os outros e abre a boca para afirmar que tem o direito de ir e vir, e que é livre para não usar máscara.

CONQUISTA PRECISA RESPEITAR A ARTE E NÃO RETIRAR OBRAS DE ESPAÇO PÚBLICO

A arte sempre agrada a uns e a outros não, e isso faz parte do seu sentido de ser, do existir da polêmica e do contraditório. No entanto, o maior pecado é o poder executivo, seja municipal, estadual ou federal retirar obras de um artista de um espaço público, como fez o de Vitória da Conquista, através do seu Conselho de Cultura. No mínimo é uma grande falta de respeito, mas nos tempos atuais virou coisa comum pisotear a cultura e jogá-la no cesto do lixo.

Como exemplo, vou citar aqui dois estilos de obras em Salvador em locais públicos que se transformaram em chacotas e até piadas, mas nem por isso foram expulsas a ponta pe. Uma é do genial Mário Cravo que fica na Cidade Baixa, próximo ao Mercado Modelo. Deram o nome de os “Culhões” de Mário Cravo. A outra são as Gordinhas de Ondina, da mulher do ex-prefeito Mário Kertz. Elas até hoje permanecem em seus lugares há mais de 40 anos.

POR CAPRICHO

Toda essa introdução foi feita para comentar sobre a lamentável retirada das obras do artista Alan Kardec (ou Kard – Museu Kard) do espaço da Avenida Olívia Flores, as quais lá estavam há seis anos, tudo por capricho de um Conselho de Cultura, cuja uma parte de seus membros faz oposição acirrada às peças do escultor e expositor, sem ônus para a Prefeitura Municipal.

Quando uma arte se estabelece num espaço público, ela não pertence mais ao artista, e foi assim que aconteceu com Alan que, através do ex-prefeito Guilherme Menezes, expôs suas obras na Avenida, em 2015, conforme relata. O combinado, segundo Alan, era ficar ali no circuito das pessoas por um ano.

Mesmo assim, de acordo com o escultor, muita gente implicava com as peças, mas Guilherme manteve a mostra porque não havia nada para colocar no local. O assédio contrário continuou. Quando Hérzem Gusmão assumiu a prefeitura, decidiu retirar as obras, mas o professor Ubirajara Brito o convenceu do contrário, argumentando que as obras eram importantes e fundamentais para a cultura de Conquista.

No entanto, o Conselho de Cultura tripartite, composto por representantes do governo e a outra parte da sociedade (professores e profissionais liberais) fez moção em favor da retirada, em 2019. Uma grande parte é de opositores ao trabalho do artista e justificou sua posição de que Alan estava ocupando um espaço em detrimento de outros artistas. “Minhas peças estavam ali sem nenhum custo para o erário”.

O Conselho, então, elaborou um documento onde ressalta a abertura de editais para outros artistas disputarem o espaço ocupado pelas obras de Alan. Para ele, foi uma argumentação tosca. “A prefeita Sheila poderia decidir em manter as peças, mas, para evitar constrangimentos para ela, resolvi antecipar e levar as peças para o Museu Kard onde as pessoas em geral têm ficado encantadas com o projeto”.

Alan considera tudo isso como uma birra do Conselho, “que não me representa. Quem representa a cultura na cidade não está representando o Conselho”. Ele conta que esteve conversando com os prepostos da Cultura e foi recebido com polidez, “mas, se trata de uma polidez diferente. É uma polidez educada, com verniz social falso que por detrás está a hipocrisia. Inclusive um membro fez chacotas e deboches das obras, algo sem respeito”

O escultor prossegue afirmando que o Conselho sempre tem feito uma campanha depreciativa, minando sua participação no espaço público, dando a entender que resolveu retirar as obras por pressão. Ele ainda critica dois sites da cidade (Avoador e Gambiarra) que têm feito matérias tendenciosas contra ele.

“São pseudos jornalistas manipuladores que mutilaram grosseiramente uma entrevista minha. Publicaram uma matéria confusa. Teve um blogueiro que reuniu tudo que era negativo, como se fosse verdade. O lógico seria colocar posições negativas e positivas, e não ser totalmente tendencioso” – desabafou.

CHAMA UNS CATINGUEIROS NORDESTINOS PARA PEGAR ESSE CABRA NA UNHA!

Há quase 15 dias cerca de 300 homens das polícias militar e civil, sem falar dos federais, helicópteros, drones, cachorros farejadores, viaturas e armamentos pesados estão mobilizados numa operação de guerrilha para pegar um foragido criminoso de nome Lázaro, que já é sucesso nacional e pode até pedir indenização por direitos de imagem.

Bastava chamar uns quatro ou cinco catingueiros nordestinos brabos que dormissem dia e noite nas matas, brejos e capoeiras que já teriam trazido esse homem na unha. Até eu mesmo com essa idade e uns compadres que conheço (olá compadre João, compadre Vater, compadre Dirson) dariam conta do recado, e o “bicho” já teria sido resgatado dessas brenhas. Só precisaríamos de um cachorro vira-lata caçador, algumas espingardas, umas mochilas com mantimentos, facões e umas peixeiras para dormir nas matas.

Esses fardados da polícia não sabem pisar na terra, escalar trilhas de pedras, subir em morros e serras e se livrar de espinhos e mosquitos. Nunca dormiram dentro do mato, no escuro, sem ver a luz do dia. Não aprenderam a sobreviver na selva. Foram treinados para entrar em esquinas e becos das favelas, e ainda atirar em cidadãos de bem. Chama uns catingueiros que conhecem o terreno, o rastro e o cheiro de um humano nas folhagens.

A caçada a Lázaro está servindo de divertimento nas redes sociais, com memes, piadas e galhofadas de ridicularização, com tanta gente e tremendo aparato, para prender um homem. A esta altura ele já provocou uma guerrilha e se tornou uma “celebridade” nacional. Só gostaria de saber quanto já custou essa operação para os cofres públicos dos contribuintes?

São bons para emparedar o civil negro e pobre numa esquina, dar chutes nos estômagos e até praticar execução sumária. Para pegar a “fera” é só acoitar no mato, e só voltar quando deter o danado, que deve dormir até em copas de árvores, cavernas, buracos e grotas.

Conheço um cara de nome Severino que até já se ofereceu para buscar o fugidor, mas, com orgulho ferido, a polícia recusou sua empreitada valente. Disse que é uma questão de honra, e cada um quer ser o herói nacional. Também, com tantas quentinhas caseiras dos doadores, e mulheres voluntárias! Tudo agora vira doação, e todo mundo quer aparecer nas imagens ao lado de Lázaro.

A esta altura, a turma do governo já está pensando em mobilizar o exército, a aeronáutica e a marinha. Até o capitão-presidente Cloroquina já decidiu que vai na frente da tropa, como o mito. “Deixa comigo, este cabra é meu, como são meus o exército, a democracia, os ministros, os generais e coronéis”! Tudo não é dele, até o Brasil! Manda o capitão “salvador da pátria”. Ele não se considera um mateiro, arrancador de árvores e destruidor do futuro!

 

 

 

 

“DESUMANIZADOS”

Um romance com um misto de crônica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filosóficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num ônibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do veículo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.

O livro “Desumanizados”, do conquistense Gledinélio Silva Santos – Nélio Silzantov – licenciado em Filosofia pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus baús fedorentos de hipocrisia e moralismos.

Nélio não poupa os nossos políticos com suas ambições fraudulentas de enganar os outros, e vai até as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e angústias. Em suas 186 páginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos filósofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.

A obra romanesca e cronística faz uma reflexão sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e José Saramago. O escritor usa termos fortes e até em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religião, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens poéticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.

Seus personagens são uma explosão de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e violência como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. É um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde só os mais fortes sobrevivem.

Digo que “Desumanizados” deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterfúgios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cenário Vitória da Conquista, e é todo focado no ônibus coletivo da linha R19A.

Nélio não tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vilões e vítimas dessa sociedade. Por isso, é também um livro sociológico que mexe com o eu psicológico da cada um. É, antes de tudo, um trabalho de reflexão, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e até de bons atos.

Me atrevo a citar aqui poucos nomes fictícios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encará-lo como realista. Na abertura, por exemplo, Nélio assinala que “temos tanto a aprender sobre os grandes mistérios, e a sede é tamanha para aliviarmos a angústia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma atenção”.

As frases de impacto do narrador Sebastião, na terceira pessoa, são fortes sobre seus personagens, como “… o coração e a mente são insondáveis, feito a imensidão do universo… E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos não termos uma segunda chance”.

O narrador sempre está dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. “Voltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A escória do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da escória humana, é isso o que eles são. …pois matei toda aquela gente a sangue frio…”

Sobre o trágico acidente do coletivo R19A, ele começa descrevendo que onze pessoas foram retiradas do ônibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.

“A ligação entre duas pessoas segue a mesma lógica. Amores, amizade, desafetos, relações de todo tipo constituem-se cada um à sua maneira, e a mensura da intensidade e duração delas independem do tempo… Ao fim de tudo, o que importa é aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua existência e fixou-se na eternidade”. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.

O escritor não segue a linha do corretamente político em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda até hoje são vistas como palavrões e recolhidas lá num canto do seu íntimo. “Dolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme… Em resumo, estava apaixonada”. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos lábios de Elizabete.

Nélio trata das opções sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homofóbicos e racistas. São temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. …”lábios macios e úmidos de quem amava tanto… Luxúria e fornicação são pecados abomináveis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para não caírem em tentação, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. … o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos”. Das lamentações bíblicas: “Vê Senhor, e considera a escória em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Memória de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez”.

“Os coroinhas são servos de Deus que adoram imitar o capeta”. Essa frase me lembra muito quando eu era sacristão e depois seminarista na década de 60. “O mundo é um purgatório carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que estão vivos”… “Nenhuma conquista é obtida sem a perda de algo. … A vida é um jogo de concessões…”

No final do livro, o narrador-escritor dá voz a um dos principais personagens, o motorista do ônibus de nome Marco que diz: “Foda-se o patrão e o emprego. …Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na direção contrária seria um favor a mim mesmo e a esses miseráveis, era o pensamento que não sai da sua cabeça. Camille deixou o semblante expressar uma espécie de desejo mórbido que dominou a todos naquela manhã”.

No Posfácio, o escritor abre o texto afirmando que “um corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, “quando o espírito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica…. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade”. “Um bando de hipócritas é o que são todos eles”!

Em tom poético, destaca que “a brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de início, meio e fim”. … “Sempre soube o que você tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escuridão da minha alma”.

DUAS CRISES; DOIS PRESIDENTES

Carlos González – jornalista

Há exatamente 100 anos o Brasil perdeu cerca de 40 mil vidas (os números são imprecisos), numa população de 29 milhões de habitantes, para a maior pandemia do século XX, que ficou conhecida como gripe espanhola, matando 50 milhões no mundo; hoje, a Covid-19 já fez 500 mil vitimas num universo de 211 milhões de brasileiros. Apesar do longo período transcorrido, as particularidades das duas crises sanitárias são semelhantes, como a profilaxia, a terapia e a medicação popular. As diferenças mais significativas estão na instabilidade administrativa e emocional dos presidentes Delfim Moreira (1868-1920), que governou o país de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919, e Jair Messias Bolsonaro, chamados, respectivamente, de louco e de psicótico genocida.

O mineiro Delfim Moreira continuou o trabalho de enfrentamento do vírus iniciado pelo seu antecessor Wenceslau Braz (1868-1966), e retomado pelo seu sucessor, o paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942). Vale destacar que Delfim assumiu a Presidência da República devido à morte de Rodrigues Alves, contaminado pela gripe antes de tomar posse para um segundo mandato, de 1918 a 1922. Nos seus primeiros quatro anos no cargo (1902 a 1906), o paulista Rodrigues Alves, com o auxílio do sanitarista Oswaldo Cruz, eliminou um surto de varíola e venceu a “Revolta da Vacina”, promovida por centenas de irresponsáveis – como hoje -, contrários à campanha de imunização.

A exemplo de Oswaldo Cruz, um especialista em infectologia – não se pensou em nomear um intendente do Exército – foi indicado pelo governo para coordenar os trabalhos contra o H1N1. Alçado a herói nacional, o médico Carlos Chagas estabeleceu isolamento e quarentena para os navios que chegavam aos portos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, por onde desembarcavam os passageiros contaminados vindos da Europa; criou ambulatórios de campanha (não havia hospitais públicos no país); aconselhou repouso absoluto aos primeiros sintomas da doença, sem direito a visitas; cuidados higiênicos com o nariz e a garganta e uso de máscaras. Fechou escolas e repartições públicas, e proibiu as chamadas festas populares.

A cloroquina, “menina dos olhos” do capitão-presidente, rejeitada até pelas emas do Palácio do Planalto, mas aceita por neopentecostais e devotos fanáticos do bolsonarismo, teve similares na época, mas nenhum produzido pela indústria farmacêutica. O povo em pânico recorria a inalações de vaselina mentolada, chás e infusões à base de quinino, gargarejos com água e sal, água iodada, tanino e outros “remédios”. Um deles, ganhou o título de bebida nacional, a tradicional caipirinha, conhecida mundialmente.

Por uma questão de justiça com a Espanha, país que me deu a segunda nacionalidade, o H1N1, segundo os pesquisadores, se originou no Fort Riley, nos Estados Unidos, transmitida para a Europa pelos soldados que foram combater na 1ª Guerra Mundial (1914-1918). As grandes potências estabeleceram um pacto de silêncio sobre a propagação do vírus para não criar pânico entre os soldados que lutavam nas insalubres trincheiras. Por não ter adotado a censura, a Espanha herdou uma imagem distorcida.

No Brasil, a gripe “desembarcou” do Demerara, em 9 de setembro de 1918, com 562 passageiros a bordo e 170 tripulantes, após uma viagem de 25 dias desde o porto de Liverpool, na Inglaterra, Após aportar no Recife, seguiu para Salvador. O jornal “A Tarde”  noticiou na época que 15 dias depois da chegada do “Navio da Morte” centenas de infectados lotavam os quartéis, escolas, igrejas e hospitais particulares da capital baiana.

Copa América

Uma das “loucuras” praticadas pelo presidente Delfim Moreira foi a de suspender os campeonatos de futebol do Rio e São Paulo e adiar a Copa América, de  novembro de 1918 para maio de 1919, disputada no estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, construído para o torneio. Pesou na decisão das autoridades governamentais e esportivas a morte de jogadores, técnicos e dirigentes dos clubes cariocas e paulistas. O Rio, particularmente, chorou a perda, aos 22 anos de idade, do atacante French, do Fluminense.

Um século depois, um presidente irracional, num desrespeito aos familiares das 500 mil vítimas da covid-19, contraria a ciência e pirraça a Rede Globo, autorizando a realização da Copa América. Uma decisão tresloucada, que já colocou em quarentena, nos primeiros dias da competição, 52 membros das delegações, entre atletas, técnicos e cartolas.

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PATRIMÔNIO ABANDONADO

Na Avenida Integração, esquina com a Regis Pacheco, um patrimônio público que já foi sede do DNER (extinto) e do Ibama, órgão que está sendo sucateado no atual governo do capitão-presidente, negacionista da ciência e destruidor do meio ambiente, está totalmente abandonado, com lixo por todos os lados e muito mato, conforme imagens fotográficas do escritor e jornalista Jeremias Macário.

Entre tantos outros no Brasil a fora, é mais um caso de dinheiro do povo jogado no lixo, sem a devida punição dos irresponsáveis governantes. Por ironia, o patrimônio abandonado, em Vitória da Conquista, já abrigou as dependências do Ibama, inauguradas no Governo Lula. O local me recorda quando atuava como jornalista da Sucursal do Jornal A Tarde, e na época entrevistei muitos técnicos sobre questões do meio ambiente, especialmente o transporte clandestino de carvão extraído de madeiras da caatinga no sertão do sudoeste.

Há anos que a casa se encontra em estado deplorável, caindo aos pedaços dentro de um matagal que mais serve para usuários de drogas e marginais à noite, sem falar da sujeira que atrai todo tipo de insetos, ratos e até mosquitos da dengue. Pelo que demonstra pela placa, trata-se de um patrimônio federal, mas não se sabe qual a ingerência do estado e do município. O local podia muito bem está sendo útil para ocupar uma repartição pública, uma escola, creche, uma entidade ou associação em benefício da população.

 





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