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ESTÁ DIFÍCIL SER OTIMISTA NO BRASIL

Matam a pandemia da Covid-19, a fome e a violência, cada vez mais aterrorizando com seus crimes brutais e hediondos. O cara lá de cima só pensa em armar a população e tramar a favor de uma intervenção militar, com seus generais no poder a manchar suas fardas de sangue.

A esta altura de 2021, ainda no início do segundo trimestre, já tem gente por aí com saudades de 2020, e olha que só ouvimos que tudo vai melhorar, que tudo vai passar, mas quando? Ainda está em meu ouvido o Feliz Ano Novo. Nesse ritmo de tantas mazelas, está muito difícil ser otimista no Brasil.

O povo já vive desesperado, angustiado, estressado e desesperançoso. O medo está nos vencendo. No dia a dia só notícias ruins com aumentos nos preços dos combustíveis, dos alimentos e até da água e da luz. A pandemia avança, enquanto a vacinação vai a passos de caranguejo.

Nosso país, com um desajustado no poder que só faz confundir e desconstruir, não é mais aquela magia turística atraente. Os investidores passam por fora e somos vistos como trogloditas negacionistas da ciência que ainda acreditam que a terra é plana e que a pulga vem da areia.

Temos hoje uma nação que caminha de cabeça baixa, sem saber até quando pode suportar tanta humilhação, descontrole e desorganização. A curto prazo, ou talvez a médio, não enxergamos um Brasil que pode emergir desse buraco que, cada vez, fica mais profundo.

Tudo isso faz bater um desânimo e uma incerteza quanto ao nosso destino. Nesse rumo, tudo pode acontecer de pior. Com evangélicos no poder, caímos no radicalismo, no fundamentalismo e no retrocesso. Até o nosso meio ambiente está sendo vítima das atrocidades.

Gostaria muito de fazer um texto positivo e otimista, mas seria falso dizer que as coisas logo vão mudar para melhor. Vamos ter que esperar por mais tempo. Uma grande parcela da nossa gente ficou cega, muda e surda. Não reagimos, e quem contesta contra os absurdos e as barbaridades que estão ocorrendo, são perseguidos e até ameaçados de morte, como cientistas, intelectuais e políticos mais sérios.

Quando vamos acordar para essa triste realidade? Não se trata agora de questão partidária entre lulistas, direitistas, centristas e esquerdistas. Trata-se de uma nação que está sendo levada para o abismo e que precisa de união para que ela mude de direção. Chega de tanto ódio e intolerância! Nosso povo está entrando numa profunda depressão. Está difícil ser otimista!

“VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”

Dizem os críticos literários que “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” foi a melhor obra do escritor Lima Barreto, embora o público em geral sempre comenta e aponta “Triste Fim de Policarpo Quaresma” onde ele fala dos costumes da sociedade da época, com suas trambicagens e velhacarias. inclusive com personagens ciganas.

Em “Literatura Comentada”, da Abril Educação, Antônio Arnoni Prado destaca que neste livro o narrador Augusto Machado traça um esboço biográfico de seu dileto amigo Gonzaga de Sá, um velho bacharel em Letras, solteirão e voltairiano, religioso sem deixar de ser cético e maníaco por balões.

Na narrativa de Augusto, o autor vai alternando o relato biográfico com suas próprias reflexões sobre a vida e os homens. O tom é cheio de ternura pelo amigo, morto quando se abaixava para colher uma flor, numa tarde que ele e o narrador se encontraram no Passeio Público.

Entre os escritos do amigo falecido, Augusto encontra, numa página perdida de papel o que considera ser a teoria filosófica de Gonzaga, com a ideia de que só o acaso decide sobre a sorte das coisas. O texto de Gonzaga se refere ao inventor de uma máquina de voar que passa anos e anos montando seu engenho e se decepciona no momento de fazer o aparelho subir. Por um acaso, a máquina não sai do chão.

Gonzaga era ele mesmo um homem sem ilusões, frio e espirituoso. Evitou doutorar-se para fugir das hipocrisias das solenidades. Contentou-se em não ir além de mero funcionário da Secretaria dos Cultos, com intuito de sobrar mais tempo para estudar. Tinha uma verdadeira febre de conhecimento.

Através de árduas pesquisas, ele cultivava uma visão crítica de seu tempo, lendo tudo o que caia nas mãos. Para tanto, evitou o casamento e se afastou das obrigações mundanas.

Augusto vai recolhendo as impressões críticas de Gonzaga, um anônimo das ruas do Rio de Janeiro. Para Gonzaga, de acordo com a narrativa, havia muitas coisas erradas na nossa terra, como a insuficiência nas artes do desenho até a nossa estúpida mania da aristocracia, o preconceito em relação aos negros, o elitismo e a injustificada idolatria pelo “doutor”.

Gonzaga se orgulhava de fazer parte do povo mais humilde que se formou em nossa terra, e detestava a gente de Petrópolis. “Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus “galegos” também”. Passava os momentos de folga andando no meio do povo, perambulando pelos bairros populares distantes. Havia nele uma certa nostalgia do passado, uma espécie de busca do espaço perdido da infância e dos tempos felizes de moço. Ele é o primeiro a apontar a causa social na modernização arquitetônica do Rio de Janeiro. Sente no começo do século o isolamento entre os bairros e o distanciamento entre ricos e pobres.

Quanto a este assunto, é um cético que se apieda pelos indivíduos. Um cético que tem opiniões práticas acerca do Barão Rio Branco que havia transformado o Rio em uma chicana particular, distribuindo o dinheiro do Tesouro como bem entendia.

De acordo com o narrador, Gonzaga deplorava a comercialização da cultura, a linguagem descuidada dos jornais e os falsos intelectuais reformadores, que só sabiam mostrar o radicalismo de suas convicções nas mesas de cafés. Sua consciência da realidade se agravava diante da miséria e do analfabetismo daqueles que eram explorados e “viviam sob o aguilhão dos deveres”.

Gradativamente, ele vai se resignando, encolhendo-se diante da opressão e da injustiça. Começa a achar que a única saída para os oprimidos estava na morte. “A morte tem sido útil… toda civilização resultou da morte”, cultivando a ideia de que o intelectual não deve, com suas teses, conspurcar a pureza dos ingênuos. Admitia que só o sofrimento engrandecia o homem.

O narrador Augusto Machado, como que pressentindo a morte do amigo  Gonzaga, experimenta a tristeza de sua ausência, aproveitando ao máximo os últimos momentos de convivência e refletindo sobre o sentido da vida.

O BRASIL VIVE UM GENOCÍDIO E PRECISA DE AJUDA HUMANITÁRIA INTERNACIONAL

É preciso que se tenha a coragem de dizer, e não é nenhum exagero, que está havendo um genocídio no Brasil pelo descaso no combate à pandemia da Covid-19. Diante do atual quadro aterrador de mortandade em massa, o país precisa com urgência de uma ajuda humanitária internacional.

A história se repete, como ocorreu e ainda ocorre com as guerras e a fome em diversos países do continente africano onde as nações ricas e poderosas fazem de conta que nada está acontecendo. Pela primeira vez, o país está registrando maior número de óbitos que nascimentos. Tem 2,7% da população mundial, e acusou 27% de todas as mortes. É um disparate.

André Cairo faz o seu protesto num apelo aos governadores e prefeitos em defesa da vida. Seu cartaz já diz tudo. O povo necessita de ajuda humanitária.

A COVID E A FOME

Os brasileiros não merecem ser julgados e sentenciados ao cadafalso da morte porque têm um governo que, ao invés de unir esforços com governadores e prefeitos para combater o mal, só tem praticado desagregação; subestimado a doença como “gripezinha”; se posicionado contra os protocolos de isolamento; incentivado aglomerações; e adotado uma diplomacia ideológica externa desastrosa que emperrou a compra de vacinas.

Os dados estatísticos e os fatos não negam, a começar pelo número diário de mortes, o maior do mundo, com recordes acima de quatro mil, sem contar o colapso nos hospitais e os milhares de casos de vidas perdidas por falta de insumos e vagas nos leitos de UTI. Do outro lado, a vacinação é lenta, e agora se agrava com a escassez de doses, o que indica que o quadro tende a se agravar, como prevê os cientistas.

Como se não bastasse, num momento de mais de 14 milhões de desempregados, a Covid fez escancarar a peste da fome que também está deixando uma multidão debilitada de barriga vazia e morrendo aos poucos por falta de comida nas geladeiras e nas panelas. É um quadro aterrador que está a carecer de uma ajuda humanitária internacional porque as doações e o parco auxílio emergencial não estão dando conta da demanda.

O problema não está apenas restrito ao Brasil, mas afeta também os outros países, principalmente os nossos vizinhos da América do Sul. Portanto, é uma questão mundial. Os cientistas brasileiros estão sendo amordaçados por suas posições de alerta, e até as instituições, das quais fazem parte, chegam a sofrer cortes de verbas para desenvolver seus trabalhos.

O último mês de março foi tenebroso e o mais letal depois de um ano que o coronavírus aterrissou em nossa terra e encontrou um campo fértil. Os infectologistas fazem um prognóstico ainda mais terrível para abril, podendo chegar a mais de cinco mil mortes por dia. Até agora, mais de 345 mil pessoas perderam suas vidas, deixando famílias destroçadas para sempre.

Sem vacinas suficientes (somente pouco mais de 10% de uma população superior a 230 milhões de habitantes receberam a primeira dose) para imunizar o povo, o Brasil foi emboscado pelo vírus numa encruzilhada da morte. A nação brasileira não pode ser punida por uma diplomacia desastrosa de um governo negacionista que criou atritos com laboratórios e países fabricantes de matérias-primas para as vacinas.

Existe um conjunto de fatores negativos que transformaram nosso país num cenário de genocídio, como numa guerra onde o inimigo invisível só faz avançar porque encontrou aqui um “exército” desorganizado, bagunçado, sem liderança no comando e sem as armas avançadas para neutralizar o exterminador.

As aglomerações nas portas dos bancos são verdadeiros convites à Covid-19 que só faz elevar o número de mortes em mais de quatro mil por dia no país. Aonde vamos parar? 

Aqui mesmo em Vitória da Conquista temos os reflexos disso com uma prefeitura que está mais preocupada com o movimento do comércio lojista do que com a vida, e vem rebatendo as medidas restritivas do Governo do Estado. Tem sido inerte com relação a iniciativas próprias que outros municípios vêm tomando nas áreas política e social. Com quase 400 mortes, a cidade registra hoje uma média de três óbitos por dia, o que é um número bastante alto.

“A REGRA DO JOGO”

 

 

No último 7 de abril foi lembrado o “Dia do Jornalista”. Diria que não se tem muito a comemorar diante do atual quadro político do Brasil onde a categoria tem sido hostilizada, principalmente pelo chefe da nação, mas me faz voltar aos tempos das redações barulhentas, fumacentas e de muitas discussões sobre as matérias que estavam saindo do forno diretamente para o público leitor, ou telespectador. Infelizmente, temos hoje um sindicato bem mais enfraquecido. Mesmo durante aquele período tenebroso da ditadura civil-militar, tenho saudades daquele jornalismo à prova de fogo onde se questionava “A Regra do Jogo” que muito nos ensinou Cláudio Abramo em seu livro título. Nesse dia, presto a ele uma homenagem e a todos os profissionais que fizeram “O Pasquim”, um jornalismo alternativo, satírico, de contestação, de reportagens inéditas que sabiam driblar a censura do regime militar. Sobre Abramo, comentou Jânio de Frietas na orelha da sua obra que, “apesar disso, surge um Cláudio. Surge na multidão de jornalistas, um ao qual o tempo pode magoar, mas não pode vencer: Seu talento é mais forte do que a pressão de todos os relógios”. Para ele, ressalta Jânio, o jornal morria com a rapidez de um dia, mas seus artigos entravam para sempre na memória de milhares e milhares de leitores… “Podia fazer melhor, não fosse a exiguidade do tempo”. Abramo foi morto em agosto de 1987, deixando um grande legado, como a modernização dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. “Suas lições percorrem todo espectro da atividade e da ética jornalística”- disse Mino Carta, no prefácio da obra. Não desmerecendo o jornalismo de hoje da internet, não se se tem mais pauteiros e chefes de reportagem como antigamente que, sem muitos recursos tecnológicos, apresentava mais criatividade, imaginação e tramavam matérias mais empolgantes e históricas. Não quer dizer que naquele tempo não haviam falhas, mas as reportagens eram mais consistentes, investigativas e completas, sem deixar furos clamorosos como atualmente. Hoje se usa o “ctrl c, ctrl v” bem mais que o “gilete press” daqueles tempos. A busca pelo furo era mais intensa e emocionante. Os repórteres hoje precisam melhor formular as entrevistas e pesquisar mais o tema da matéria. Existe uma deficiência no preparo, talvez pelo vício demasiado da internet.

 

A IDEIA É ESSA

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

A ideia é essa, meu amigo,

Seja como vaga-lume na escuridão,

Se não tem certeza da sua opção,

Se vai dar certo ou errado,

Se arrisque fundo no desafio,

Mesmo que seja na luz do pavio.

 

A ideia é essa, meu amigo,

Para desvendar o seu segredo,

Nunca tenha medo do castigo,

Seja qual for o final do enredo,

Ouça a mensagem da canção,

Que vai guiar sua difícil decisão.

 

A ideia é essa, meu amigo,

Nunca deixe de regar a sua flor,

Seja na alegria ou na triste dor,

Sempre encare seu presente,

Curta os momentos da vida;

Construa bem seu futuro abrigo,

Com sua mente mirando o mar.

Ao lado do seu grande amor.

 

AMOR PELA NATUREZA

Nona Alves Fernandes – jornalista

Para aliviar os momentos tensos e exaustivos vividos em 2020, o médico Getúlio Borges Fernandes escolheu a Ilha de Itaparica para passar um período de descanso nos primeiros dias de janeiro. Na maior parte do tempo era a Natureza que preenchia os momentos de reflexão do cardiologista. Ao término do curto período de férias, Getúlio já não podia esconder para si mesmo que estava apaixonado por algo que significa vida para o ser humano.

Numa dessas manhãs de verão, “contaminado” pelo clima de serenidade do lugar, que contrastava com a aflição e a dor dos hospitais, manifestou em Getúlio a ideia de editar os versos escritos na época de estudante e os mais recentes, a maioria dedicada à Natureza. Entre bulas e reclamos de medicamentos e com a ajuda de sua secretária Lizandra Nunes, os versos rascunhados em receituários foram reunidos no livro “A Vida Humana e a Natureza”

Prefaciado pelo escritor Eduardo Olympio da Silva Braga, o primeiro trabalho literário do doutor Getúlio contem 142 páginas e 124 poemas. Editado pela Fontenele Publicações, em São Paulo, encontra-se à disposição dos amigos, colegas e clientes do escritor nas principais  distribuidoras de livros do país, podendo ser adquirido pela internet.

“Amor pela Natureza” é o título de um dos poemas do médico-poeta. Numa das estrofes, ele adverte:: “Se cometer o pecado/ da natureza lesar/nunca será perdoado,/seu ato será levado pra no futuro julgar”. Observa-se que a métrica usada pelo autor se aproxima da figura poética das redondilhas (versos de sete  a  nove silabas).  Itaparica, celeiro de inspiração e “beleza por todo o canto”, foi lembrada pelo escritor ao citar  a água da Fonte da Bica, uma das atrações turísticas da ilha. “Viva o povo brasileiro/ Escreveu nosso poeta”, é uma lembrança, uma homenagem, ao mais conhecido dos itaparicanos, o “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL), João Ubaldo Ribeiro.

Médico e escritor Getúlio Borges Fernandes

A dedicação de profissionais da Medicina pela literatura pode ser constatada numa consulta aos anais da ABL. Vamos encontrar entre dezenas de médicos acadêmicos os nomes de Ivo Pitanguy, Miguel Couto, Deolindo Couto e Moacir Scliar. Com 24 livros (poemas, contos e romances)  publicados, o pediatra Aramis Ribeiro Costa presidiu em duas oportunidades a Academia Baiana de Letras.

Membro da Academia de Letras de Vitória da Conquista, o jornalista, escritor, poeta, escultor e produtor de vídeos, Jeremias Macário, num passeio pelo seu jardim, como faz diariamente para esquecer a covid-19, comentou: “Tente refletir sobre o mistério contido numa flor. Vamos apreciar com mais atenção a natureza. As flores me deixam menos tenso nesses tempos de pandemia e de crise política, econômica e social”

Getúlio Borges Fernandes nasceu em 13 de fevereiro de 1954, em Igaporã, no sudoeste da Bahia, onde iniciou os estudos; os cursos ginasial e colegial foram feitos em Caetité. Adolescente, transferiu-se para Salvador, onde ingressou na Faculdade de Medicina da UFBa, especializando-se em cardiologia e clinica médica. Em seu consultório, no Itaigara, atende há mais de 35 anos uma clientela fiel.  Suas atividades profissionais incluem a docência universitária nos cursos de graduação em Medicina e de pós-graduação em Clínica Médica.

 

 

A GRAVIDEZ E A PANDEMIA

Uma população inteira de Vitória da Conquista foi dizimada. Simplesmente desapareceu do mapa, como se estivesse sido exterminada por uma bomba. Calma gente, não é nada disso! Conquista continua viva com o mesmo número de habitantes, mas também está sendo sacodida pela pandemia que já ceifou a vida de mais de 333 mil pessoas em nosso país, o mesmo contingente de humanos da nossa cidade do Sertão da Ressaca.

O dado é só para ilustrar a dimensão do estrago que a Covid-19 já fez no Brasil, e só aumenta a cada dia, ultrapassando mais de quatro mil mortes por dia, o maior índice do mundo. No entanto, minha intenção é fazer uma relação entre a gravidez de mulheres nesse período de pouco mais de um ano e a doença. Trata-se de um assunto pouco comentado pela mídia.

DUPLO PERIGO

Não sou nenhum infectologista ou especialista nesse campo, mas qualquer um sabe que é um duplo risco para a mulher se engravidar nesse tempo tão aterrador. Confesso que ainda não li e não vi nenhuma reportagem mais específica e profunda, mostrando os perigos para a mãe e o bebê no caso de a mulher vir a ser contaminada.

Mesma que a grávida de Covid tenha um parto sem problemas, a criança pode nascer com sequelas de deficiências, como ocorreu no caso da Zica? Entendo que o risco seja bem maior para a mãe infectada que já tenha doenças crônicas, como pressão alta, diabetes, asma e deficiência coronária.

Como jornalista, creio que é uma pauta importante para uma matéria esclarecedora. Nesse ponto, e diante do atual quadro, os casais têm pensado nessa questão antes de decidir ter um filho? Dá para mensurar se nesse período de Covid houve um aumento, ou uma redução no número de partos nos hospitais? Outra questão é a falta de vagas nas unidades de saúde, especialmente do SUS.

O que mais me espanta, ou aliás, já era de se esperar, é perceber que as mulheres mais grávidas são as mais pobres e que já têm três e quatro filhos pequenos numa situação de desnutrição alimentar, o que demonstra, mais uma vez, a falta de educação e instrução para evitar nascimentos nesse panorama de pandemia, desemprego e fome.

É a cara de um Brasil desigual onde a miséria aparece ao lado da Covid-19 como uma praga que está exterminando os brasileiros mais fracos. O insignificante auxílio emergencial mais as iniciativas de doações de grupos e associações não estão dando conta da demanda de milhões de bocas famintas.

Todas essas mazelas são resultado da falta de uma liderança no comando central e de uma coordenação que ouvisse as recomendações científicas de combate ao vírus desde o seu início, numa frente de isolamento social e adoção dos protocolos de higienização, como o uso de máscaras e outras medidas de restrição.

No entanto, o que temos é um governo de negacionistas que ainda acredita que a terra é plana e que a pulga vem da areia. É um governo que se indispôs com nações das quais tanto necessitamos de negociações para aquisição de mais vacinas para imunizar a população. É um governo que se isolou do resto do mundo e disse que ser pária é bom. É um governo que levou o Brasil a bater o recorde de mortes no mundo.

A MISÉRIA E A EXPLORAÇÃO SEXUAL

Demora muito tempo esquecido, mas o tema sempre volta à tona. O discurso continua o mesmo, e assim sempre vai haver exploração sexual de menores no mundo das estradas brasileiras. Entra campanha e sai campanha, sempre focada nos caminhoneiros, como se todos eles fossem tarados sedutores das meninas esmolambadas de pés no chão, ávidas por um prato de comida.

Não quero aqui, de forma alguma, eximir a culpa dos motoristas das cargas pesadas, mas não podemos generalizar. Existe do outro lado das leis do estatuto da criança e das Ongs defensoras da causa, um discurso moralista e até hipócrita, que deixa de reconhecer que a miséria e a fome levam esses menores a praticar a sedução por urgente necessidade de se nutrir, tanto que vendem seus corpos por uma refeição. Claro que ao caminhoneiro cabe ter consciência e recusar.

OS PAIS E AS MENINAS

Nessa miséria profunda de desigualdade social, principalmente a nordestina, que tem origens no cruel passado de exploração dos coronéis do dinheiro e do poder, até os pais mandam suas inocentes e frágeis meninas vagar à noite nas estradas ou nos postos de combustíveis à procura de homens, para matar a fome e sobrar um pouco de comida para os outros irmãos.

A esse povo errante e retirante, há séculos que os governos aventureiros, oportunistas e populistas negaram a educação, dignidade humana, ajuda para manter suas lavouras e um emprego decente. É muito fácil colocar a culpa só nos caminhoneiros e carimbar neles uma imagem de vilões aproveitadores, e não atacar de frente o problema da miséria. Nesse Brasil, costumamos sempre jogar toda sujeira para debaixo do tapete, como se isso fosse resolver as mazelas.

Quem não sabe e conhece as histórias de pais desesperados, inclusive de mães que vendem seus filhos por tostões para ficarem livres de seus rebentos e ainda pegar uma graninha merreca para tirar a barriga da miséria? Em minhas andanças como jornalista, já narrei um caso de um marido vender a mulher e a filha por uns sacos de farinha e feijão.

Por falta de educação, que por séculos é negada ao povo, as famílias pobres são as que mais têm filhos, inclusive nesse período caótico da pandemia, e isso persiste até hoje no campo e nas favelas das cidades grandes. Nelas ainda existe a cultura religiosa de que foi a vontade de Deus que assim quis. O resto, todos sabem o que acontece quando chega o aperto num casebre apertado repleto de crianças que dormem amontoadas com fome.

Logo cedo, as meninas e meninos caem na rua da amargura, e oferecem a única coisa que possuem que é o sexo. Eles estão por todos lugares, não somente nas estradas e postos, mas nas praias nordestinas, nas ruas, nas portas dos hotéis e em bares e restaurantes. Não são as campanhas, nem as leis e estatutos que vão acabar com esse triste quadro.

Com o agravamento da Covid-19, o desemprego, a informalidade e a falta de instrução para arrumar um trabalho, a situação piorou mais ainda, e engrossou esse contingente de menores, principalmente de meninas sendo exploradas sexualmente.

O que não dá é para generalizar e jogar toda culpa no caminhoneiro. Não estou aqui defendendo a categoria, e sei que muitos aproveitam essa fraqueza e comete o crime. Não vamos ser hipócritas para não enxergar que a raiz do problema está na miséria. As políticas públicas são sempre populistas com o sentido de angariar votos para que o sistema perpetue assim.

 

 

O PRECONCEITO RACIAL INTERROMPE OS ESTUDOS DE UM MENINO ESCRITOR

Não fosse o preconceito racial, o menino Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, quando o mulato Machado de Assis lança, no Rio de Janeiro, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e Aloísio de Azevedo publica “O Mulato”, tinha tudo para ser um grande aluno. Isolado e excluído, o único consolo eram as leituras na Biblioteca Nacional e as visitas à capelinha do Apostolado Positivista.

Em “Literatura Comentada”, da Abril Educação, o crítico Antônio Arnoni Prado fala do grande escritor que foi Lima Barreto, cujas obras foram marcos de uma literatura realista/naturalista de transição para o modernismo entre os séculos XIX e XX. Seu pai, João Henriques era tipógrafo nas oficinas do Jornal do Comércio e do Jornal A Reforma, e sua mãe, Amália Augusta, professora que contraiu tuberculose e morreu em 1887.

Lima Barreto tinha mais quatro irmãos e veio numa época muito difícil para a família quando sua mãe faleceu. Com seis anos frequentava a escola pública, quando o pai ingressou no movimento de resistência liberal e publicou uma tradução do “Manual do Aprendiz Compositor”.

Dedicado, Lima Barreto passa com brilho pelo curso primário e pelos exames da Instrução Pública que lhe deram condições para entrar no Liceu Popular Niteroiense. Internado, o menino só vê a família aos sábados. Deprimido e solitário pela discriminação, pensa em se suicidar aos 15 anos.

Em 1895 transfere-se para o Ginásio Nacional. No ano seguinte conclui os preparatórios no Colégio Paula Freitas para o ensino superior. Em 1897 ingressa na Escola Politécnica. Em 1902, ainda na Faculdade, começa a colaborar em “A Lanterna”, órgão da mocidade das escolas superiores. Assinava como Alfa Z e Momento de Inércia.

Na escola, Lima Barreto era perseguido pelo professor Licínio Cardoso, com constantes reprovações injustas, e sofria de forte discriminação racial. “Seu sentimento de revolta, suas atitudes pessimistas e seu complexo de inferioridade aumentam”. Nessa época, seu pai enlouquece. Para cuidar dos irmãos e da saúde do pai, abandona a Faculdade.

Em 1903 ingressa como amanuense na Secretaria da Guerra. Frustrado com a situação, ele começa a beber e a frequentar cafés, livrarias e redações de jornais do Rio de Janeiro. Era o fim do período áureo da boemia literária. Dos encontros nos cafés, conhece Domingos Ribeiro Filho, Lima Campos, Gonzaga Duque e outros. Desses contatos com o meio intelectual, passa a colaborar na “Quinzena Alegre” e em “O Diabo” (revista de troça e filosofia). Depois conseguiu um trabalho na redação de “O Pau”, com Crispim Amaral.

O ingresso no jornalismo profissional se deu em 1905 no Correio da Manhã. Divide seu trabalho com a militância política no comitê do Partido Operário Independente. Em 1907 funda a “Revista Floreal”, para combater os formulários de regras literárias que impediam a projeção de novos talentos.

Finalmente, em 1909, Lima Barreto publica, em Lisboa, seu romance de estreia “Recordações do Escrivão Isaias Caminha”. No ano seguinte, o livro é elogiado por José Veríssimo. Em 1911, o Jornal do Comércio começa a publicar em folhetins seu segundo romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, numa linguagem despojada e inconformista.

O escritor aproveita o sucesso para colaborar com a Gazeta da Tarde e publica o romance “Numa e a Ninfa” (relatos folhetinescos). Esta fase, porém, é marcada por penúrias e desgostos familiares. Entrou em depressão e terminou sendo internado no hospício, em agosto de 1914.

Ao sair, intensificou mais seu vício ao álcool e passou a perambular pelas ruas. Certa vez, seu amigo Monteiro Lobato o vê bêbado numa mesa de bar e evita falar com ele por se sentir constrangido. Em 1916 precisa fazer um tratamento de saúde para curar uma anemia profunda, mas continua participando do jornalismo militante de esquerda, apoiando a plataforma do movimento anarquista que desencadeia em 1917, em São Paulo, uma das maiores greves da história operária brasileira.

Lima Barreto aproveita o ensejo e lança o “Manifesto Maximalista”, publicado nas páginas do seu semanário A.B.C., com informações sobre a Revolução Russa. Mesmo fraco, continua sua atividade literária e escreve para a revista “Brás Cubas” e a “Lanterna”. Publica “Os Bruzundangas”, um perfil das mazelas nacionais. Em 1918 é aposentado da Secretaria da Guerra por invalidez. Foi ainda diagnosticado como portador de epilepsia tóxica.

Sua melhor obra para muitos críticos foi “Vida e Morte da M. J. Gonzaga de Sá”, em 1919. Foi novamente recolhido ao hospício e só volta de lá em 1920. Candidata-se por duas vezes à Academia Brasileira de Letras, mas não é eleito. Suas últimas manifestações de rebeldia intelectual foram registradas no romance “Clara dos Anjos”, crônicas sobre o folclore e publicações de suas experiências no hospício, contidas nas páginas do “Cemitério dos Vivos”.

A miséria e os delírios do pai louco esgotam suas forças para escrever, e Lima Barreto morre de colapso cardíaco, em 1º de novembro de 1922, nove meses depois da realização da Semana de Arte Moderna. Ele nasceu no realismo/naturalismo e viveu no simbolismo. Na verdade, foi um precursor do modernismo, numa autêntica literatura, “voltada para os problemas existenciais do indivíduo em face da sociedade”.

Em nosso próximo “Encontro com os Livros” vamos comentar uma das suas importantes obras da literatura brasileira.

UM CICLO VICIOSO DE CONTAMINAÇÃO

NÃO É JUSTO, OS JOVENS QUE VÃO PARA AS BALADAS ESTÃO TENDO PRIORIDADE NOS LEITOS DE UTI.

Sai uma festa de tradição cultural e entra outra, e tome comemoração, numa pandemia que já ceifou a vida de mais de 325 mil pessoas, uma população inteira de Vitória da Conquista. No Brasil, principalmente na Bahia, os eventos se sucedem numa progressão proporcional da doença através das aglomerações. É um suicídio coletivo! “Gente estúpida”!

Esse ciclo vicioso de contaminação indica que a pandemia ainda vai perdurar por alguns meses, e só pode baixar com a vacinação em massa, que sofreu atrasos e continua num ritmo lento. Ninguém quer cortar sua tradição, como bem vimos no São João passado com uma multidão comprando ingredientes nas feiras e mercados para festejar com as famílias, amigos e parentes.

Depois do São João vieram as eleições, e depois as comemorações de final de ano. O ritual de estupidez é sempre o mesmo, seguido de um aumento nos índices de infecção, superlotação nos hospitais e mais gente morrendo. No início de fevereiro tivemos os carnavais clandestinos incentivados pelas lives da turma do axé baiano.

Agora é a Semana Santa e os Ovos de Páscoa, com as peixarias, feiras e supermercados cheios de consumidores ávidos para fazer mesas fartas com vatapá, caruru e outras comilanças. Como no Natal, a Sexta da Paixão é o tempo que as pessoas mais se empanturram com comidas e bebidas quando deveria ser o contrário, como recomenda a religião. A tradição da festa, carregada de comidas, ultrapassou a religiosidade.

Esse quadro de insensatez serve para estampar um dos maiores paradoxos brasileiros. De um lado, uma camada mais pobre se aglomera nos mercados para comprar peixe, camarão, dendê, quiabo, castanha e outros ingredientes para a festança. Do outro, vemos imagens de casebres famintos, de geladeiras e panelas vazias, com crianças e adultos que mal fazem uma refeição por dia.

Não dá para entender esses absurdos de desigualdade social de uma pobreza, que ainda consegue um dinheirinho para cumprir a tradição de uma Semana Santa, dentro de outra ainda pior de extrema pobreza que passa fome e não vai ter o peixe na mesa para seguir o preceito.

Dentro de mais 15 ou 20 dias vamos ter outro avanço da doença, praticamente coincidindo com o São João de junho, para completar o chamado ciclo vicioso da contaminação. Enquanto isso, as vacinas chegam aos tiquinhos, numa velocidade de uma carroça.

 





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