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UM CENTRO CULTURAL NO “PAU DA BANDEIRA”

Na foto do jornalista Jeremias Macário, quase todos conquistenses conhecem muito bem a popular Praça “Pau da Bandeira” onde funciona uma feirinha com um amontoado de barracas de corredores apertados, uma área de artesanato, também nos mesmos moldes, algumas lojinhas nas laterais do quarteirão, e o Teatro Carlos Jheová. Nesses tempos de pandemia, é um local perigoso por ser muito fechado, de pouca circulação. Há uns cinco ou oito anos, no Governo do PT, se cogitou derrubar esse “monstrengo” de prédios, salas e barracas, para no lugar se implantar um Centro Cultural, só que houve resistência dos usuários com apoio de vereadores da Câmara Municipal. O projeto, na sua concepção, em parceria com o Banco do Nordeste, que bancaria todo investimento, era um presente para a cultura de Vitória da Conquista. Nele funcionariam espaços que iriam beneficiar todas as linguagens artísticas, como audiovisual, literatura, teatro, dança, artes plásticas, artesanato, oficinas de treinamento e um auditório multiuso para eventos diversos e cinema. O “Pau da Bandeira” é um local que só enfeia a cidade.  O projeto ficou no papel, mas ainda se fala nele, como ouvi de um amigo dia desses. No próprio Centro poderia ser construído um teatro em homenagem ao nosso saudoso Jheová. Uma obra desse porte marcaria a gestão de qualquer prefeito. Existe ainda o antigo Cine Madrigal que está lá se deteriorando com o tempo e nada se faz.

O ALUNO E O MESTRE

Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia o aluno pediu ao seu mestre

para que definisse o sentido do viver.

Respondeu que o enigma não importa,

e que o certo é aprender abrir a porta.

 

O aluno insistiu no Sou e para aonde Vou?

e que explicasse origem e fim do universo.

O mestre olhou perplexo e emendou sério:

Viva sempre cada verso e nada de mistério;

 

As florestas possuem seus próprios espíritos,

e o homem não suportaria viver sem conflito,

mas o jovem se intriga com o finito e infinito.

 

Por que uns ricos saudáveis e outros miseráveis?

Para o mestre, o homem tem a diferença imposta;

do nada ao cósmico, nem a ciência tem resposta.

 

 

MAIS TRÊS CIGANOS SÃO MORTOS E SEUS CADÁVERES SÃO VILIPENDIADOS

Numa troca de tiros, de acordo com versão das polícias militar e civil, mais três ciganos da família Matos, suspeitos do assassinato de dois PMs, no dia 13 de julho último, no distrito de José Gonçalves, foram mortos ontem (dia 28/07) nas imediações do Rio Gavião, em Anagé.

Com essas baixas na ação policial, sobe para nove o número de mortos desde a caçada aos ciganos no dia 13 do mês, incluindo dois menores de 13 e 15 anos e um empresário, dono de restaurante, de nome Diego Santos Souza, de 39 anos, membro da Pastoral da Igreja Católica, sem contar a prisão, com ferimentos, do pai Rodrigo Silva Matos, de 58 anos, interrogado no Distrito Integrado de Segurança Pública.

VILIPÊNDIO

Sobre os mortos, o Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB) recebeu um vídeo e fotos dos corpos mostrando a voz de um homem e mais duas pessoas vilipendiando, ou seja, profanando, aviltando, desrespeitando e ultrajando os cadáveres.

Provavelmente, segundo a entidade, o local seria o Hospital de Anagé. O ICB enviou a gravação às autoridades competentes, para que o caso seja rigorosamente apurado, como crime previsto no Código Penal, artigo 212. Pede ainda que o servidor da Prefeitura de Anagé e todos que participaram do vídeo sejam identificados e punidos dentro da lei. O Instituto também requer que as circunstâncias das mortes sejam investigadas. “O vilipêndio causa dor e angústia às pessoas, cujas intimidades são expostas”.

O que se percebe nessas diligências dos policiais é que praticamente ninguém dos envolvidos chegou a ser preso para responder judicialmente pelos seus supostos crimes. O presidente do Instituto, Rogério Ribeiro, esteve em Vitória da Conquista, entre os dias 19 a 22 de julho e declarou que houve excessos por parte de membros da corporação militar, com torturas e espancamentos, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.

Diante da violência, ainda segundo Rogério, vários ciganos tiveram que ser removidos de Conquista para outras cidades da região, no sentido de proteger essas famílias de mais represálias. Por intermédio de órgãos ligados aos direitos humanos, e com o consentimento das vítimas, cinco mulheres e sete crianças podem ser, em breve, incluídas no Provita (Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas de São Paulo), dependendo tão somente dos tramites burocráticos.

Na ocasião, no último dia 19, estiveram também em Conquista o secretário de Segurança Pública da Bahia, o comandante Geral da Policia Militar da Bahia e a delegada geral da Polícia Civil, quando negaram excessos dos policiais nos atos, e que tudo foi feito dentro da lei, o que foi negado pelo presidente do ICB, Rogério Ribeiro.

Disse que o secretário não foi transparente em nenhum momento. Em seu relatório, enviado para a Promotoria Pública Estadual, Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Conquista e do Congresso Nacional, defensoria pública e outros organismos, as fotos de espancamentos e torturas são chocantes. O documento faz um apelo para que providências sejam tomadas contra os responsáveis, e os crimes sejam punidos.

Esse fato em Conquista lembra os tempos do Brasil Colônia e Império quando os ciganos viviam em correrias, sendo empurrados de um estado para o outro, como corja de sujos, malandros, ladrões e marginais. Os bandidos aproveitavam a presença dos ciganos próximos a seus acampamentos para praticarem seus crimes, sabendo que eles levariam a culpa.

O BRASIL PRECISA CICATRIZAR SUAS FERIDAS QUE CONTINUAM ABERTAS

A história do Brasil é como a de um Velho Senhor que há séculos continua acamado porque não conseguiu cicatrizar suas feridas. Em seu divã de análise psicanalítica, Ele carrega marcas traumáticas do colonialismo escravocrata, do império oligárquico aristocrático burguês, da Velha República dos senhores coronéis, de uma Nova que se cansou no meio do caminho, de uma ditadura civil-militar que não fechou suas feridas, de uma redemocratização abalada pelas corrupções e o populismo de duas faces e agora por uma extrema de ódio às minorias excluídas, que está nos levando a uma caverna de trevas dos tempos primitivos.

Podemos nos ater às feridas mais recentes dos últimos 70 ou 80 anos, a começar pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, quando uma turba ignara tentou dar um golpe militar, mas foi interrompido por um general chamado Lott. Quando o ministro do Trabalho João Goulart propôs um reajuste de 100% sobre o salário mínimo, a elite gananciosa e egoísta, como sempre, mais a ala conservadora das forças armadas, mostraram suas garras afiadas. Nesse elenco, não podemos esquecer do caudilho Carlos Lacerda, como um Catilina venenoso na cata pelo poder a qualquer custo.

Na ausência de Getúlio, assumiu o vice-presidente João Café Filho que foi instigado a puxar o golpe. No ano seguinte, teve a candidatura de Juscelino Kubistchek e Jango. Mais uma vez, as forças armadas tiveram que engolir o osso, mas o rancor ficou ainda mais guardado nas entranhas malditas. Como fake news do passado, ligaram a eleição de Juscelino ao contrabando de armas para os comunistas, os inimigos satânicos da nação. JK foi eleito e aí veio a conspiração para que ele não tomasse posse.

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Foto do fotógrafo Evandro Teixeira e instalação do escultor Edmilson Santana

Mais uma vez, a tentativa de uma ditadura não colou, crescendo o ódio para uma revanche lá na frente. O golpe estava marcado para 10 de novembro de 1955. Queriam a cabeça do presidente interino Carlos Luz, substituto de Café Filho. O general Lott mobilizou seus oficiais, e a ave de rapina Carlos Lacerda fugiu a bordo do Cruzador Tamandaré. Nessa lacuna, Café Filho assumiu a presidência, mas ele também fazia parte da trama golpista e foi afastado.

Nesse interim, o Congresso Nacional aprova o estado de sítio até a posse de Juscelino, em 31 de janeiro de 1956, adiando um novo golpe. Vieram as eleições de 1960, e o destrambelhado Jânio Quadros é eleito contra o general Lott. Na vice tem o João Goulart, aquele demonizado perlo militares. O maluco renuncia no mesmo fatídico mês de agosto. Pela Constituição, o vice tem o direito de ocupar a cadeira, mas, novamente, as forças armadas, que diziam ser de ocultas, peitam sua posse. Os grupos de resistências, comandados por Leonel Brizola, furam o cerco. O homem senta no trono, mesmo enfraquecido por um parlamentarismo arranjado de última hora. As cicatrizes permanecem abertas.

Os generais recuam, guardando o revanchismo ditatorial no baú dos quartéis, com apoio de segmentos conservadores de alas civis, para 1º de abril de 1964. A promessa era ter eleições em 1965, mas em seu lugar nos mandaram um carrasco chamado Ai-5 (Ato Institucional), em 1968. No pacote de serpentes peçonhentas, vieram os anos de chumbo que assassinaram as liberdades individuais, censuraram, cassaram parlamentares, políticos, torturaram, esquartejaram, mataram e deram sumiço aos corpos dos adversários ao regime.

Foram quase 30 anos de repressão com cinco generais no governo, cometendo atrocidades, atos arbitrários e de terror até que veio uma tal de anistia tupiniquim que não puniu os torturadores, os que cometeram crimes hediondos de lesa-humanidade. As feridas do Velho Senhor, cansado de levar pancadas, não foram cicatrizadas. O Brasil continuou no divã psiquiátrico tomando doses cavalares de antidepressivos, remédios pesados para curar suas dores mentais traumáticas.

Pulamos mais 30 anos de turbulências, populismos, tramas e truques ilusionistas, e os poderosos de uma casta nababesca mandando no poder. Veio a polarização da intolerância entre o “nós e eles”, e ai se elege outro maluco, tipo psicopata, incarnado numa personagem histórica que espalhou desgraça e matança pelo mundo, com fins de selecionar uma raça pura.

Em seu governo de militares oficiais da reserva e da ativa (generais e coronéis), ávidos por vaidades, status e dinheiro, eles apoiam a linha arbitrária de um desequilibrado que também arma para implantar no Velho Brasil outra ditadura.

As investidas já foram várias, como fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (em maio do ano passado). As raposas e as hienas rondam o nosso terreiro, com carabinas e metralhadoras. Elas não desistem e querem repetir a história através da mão de ferro. Afinal de contas, são carniceiras da democracia.

Agora, o obcecado da extrema, que nos deixou sem vacina em plena pandemia da Covid-19, diz que o sistema eleitoral é fraudulento e quer, a todo custo, o retorno do voto impresso. Dá um ultimato que, caso contrário, não haverá eleições, o que significa um golpe. Como outrora, é um general que também lhe dá voz e manda um recado para o Congresso. A intenção é preparar terreno para uma intervenção militar. De legítimo, só se as urnas do próximo ano lhe derem a vitória.

Nesse jogo estão as polícias militares estaduais que são estimuladas a fazerem um motim. Elas são responsáveis pela segurança do pleito. Será que vamos ter um general Lott, como em 1955/56? Perceberam que em todas as tentativas e as consolidações de golpes nesse nosso Velho Senhor Brasil têm o rastro das forças armadas conspirando nos bastidores? Tudo isso tem uma razão de ser: As cicatrizes das feridas desse Senhor continuam abertas.

CIGANAS TENTAM ENTRAR NO PROGRAMA DE PROTEÇÃO A TESTEMUNHAS

Cinco mulheres ciganas e sete crianças, vítimas das perseguições policias de Vitória da Conquista após a morte de dois soldados, no distrito de José Gonçalves, no último dia 13, estão tentando entrar no Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita), conforme informou o presidente do Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro.

No desenrolar dos acontecimentos e, durante a busca dos criminosos dos PMs, houve várias mortes, e outros ciganos foram espancados e torturados, sinalizando atos de vingança. Como forma de proteção, o Conselho Tutelar e outros órgãos ligados aos direitos humanos conseguiram, entre os dias 15 e 16 de julho, encaminhar essas ciganas e crianças para outra cidade da região, no sentido de preservar a vida dessas testemunhas.

Na ocasião estiveram em Conquista o presidente do ICB e o secretário Nacional do Ministério dos Direitos Humanos, Paulo Roberto, que acompanharam a saída desse pessoal da cidade. Agora, o objetivo está sendo incluir essas vítimas no Provita, mas o programa, como explicou Rogério, tem seus tramites e burocracias. O que se sabe é que a matriarca dos ciganos aceitou ser incluída nesse esquema de proteção.

O Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita /SP), de acordo com pesquisa, é um instrumento atuante de acesso à justiça e combate à impunidade no estado de São Paulo. Esse programa funciona desde 1999 e é vinculado às Secretarias da Justiça e da Defesa da Cidadania e da Segurança Pública. O Provita/SP faz parte do Sistema Nacional de Proteção a Vítimas e Testemunhas, gerenciado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal.

O programa tem a missão de proteger vítimas e/ou testemunhas que estejam sofrendo ameaças sérias, graves e iminentes, em virtude de colaboração em inquérito policial, ou processo criminal.

O caso pode ser encaminhado por autoridades policiais, Ministério Público, Poder Judiciário, órgãos públicos ou entidades que trabalham na defesa dos direitos humanos, e até mesmo por meio de contato do próprio interessado com o Provita/SP.

Após o pedido, o(s) interessado(s) poderá(ão) ser acolhido(s), provisoriamente, até que o caso seja analisado pelo Conselho Deliberativo da entidade,  instância máxima e órgão competente para a decisão final sobre o ingresso, ou não de uma pessoa no programa (e, se o caso, também a sua família) no Programa de Proteção.

O período de proteção é de dois anos e pode ser prorrogado por até dois anos ou, caso seja necessário, pelo tempo de duração do processo. O Programa de Proteção Paulista está fundamentado na Lei Federal nº 9.807/1999 e nos Decretos Estaduais nº 44.214/1999 e nº 56.562/2010.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (v)

O JARÊ, O GARIMPEIRO E OS DIAMANTES EM LENÇÓIS

“O Jarê é uma religião de base angolana, bastante influenciada pela cultura jeje e com muitas faces das aquisições que compõem as encantarias, entre as quais destacamos a caboclarização dos orixás” – ressaltam os autores da obra, Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que descrevem a formação histórica do município de Lençóis, que contou com a colaboração cultural do garimpeiro, a grande maioria vinda das Minas Gerais.

Na introdução desse capítulo, os acadêmicos dão ao leitor uma visão político-administrativa sobre o município de Lençóis, antes pertencente a Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu), tornando-se cidade em 20 de maio de 1864, e comarca das Lavras Diamantinas até 31 de dezembro de 1937.

Em seguida, citam os nomes dos intendentes e prefeitos, inclusive do famoso coronel Horácio Queiroz de Mattos, dentre outros que contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico do município, hoje uma referência no turismo, tanto no âmbito nacional, como internacional.

Falam da grande presença dos católicos na formação religiosa da população, assinalando, no entanto, que muitos também eram adeptos do Jarê, incorporando orixás, caboclos e encantados. Essas pessoas sempre evitaram declarar dupla pertença religiosa.

Por outro lado, conforme pesquisadores figurados no livro, existia também essa dupla pertença do povo de santo ao catolicismo e ao culto dos orixás, responsável pelo sincretismo afro-brasileiro. Segundo os professores, esse referencial procede, pois “na realidade é uma composição de crenças tribais africanas, que se dividem em nações, que indicam a procedência do culto e o tipo de deus que o rege” (Epega, p. 160).

Ao localizar a área onde o Jarê viceja, Ronaldo e Itamar observam que ela foi constituída por brasileiros vindos de diversos lugares, como Minas Gerais, principalmente da região do Grão Mongol, e da cidade de Diamantina, como também do Vale do São Francisco e da Zona do Recôncavo. Contou ainda com a presença de estrangeiros árabes, judeus, franceses e africanos.

Na comparação com a agricultura e a pecuária, mais ou menos de previsibilidades, os autores dizem que a garimpagem de gemas orienta-se, na realidade, por regras do jogo, sendo o próprio garimpo um jogo. Mais adiante falam sobre a prospecção e o comércio.

Nesse quadro tem o dono da serra (proprietário de um trecho de terra), o dono do garimpo que arrenda a área por uma quantia fixa anual, ou faz um acordo com o dono da serra pela subdivisão do quinto, e o capangueiro, que é um tipo de comprador. Existe ainda o chamado meia-praça, a parte dividida entre o garimpeiro e o fornecedor (o empresário).

Itamar e Ronaldo detalham o papel de cada um dentro da garimpagem, e afirmam que o garimpo pode ser classificado como seco ou molhado, isto é, aquele em que os garimpeiros têm de deslocar água até o seco. No caso dos molhados, são garimpos de grunas de olhos d´água, ou leitos dos rios.

Existem também os garimpos equipados com infraestrutura de tanques. Neles ocorrem várias formas de pagamento e relações entre as partes, terminando no lapidário que transforma a pedra num brilhante, o qual é revendido a outros comerciantes, como ourives e joalheiros.

Quanto a decadência, descrevem que esta fase motivou o comportamento de não pagar o quinto, sob alegação de não ser roubo. Houve também a época de pagamentos de diárias por donos de garimpo e garimpeiros, relação que dispensa o fornecedor. Isso era muito usado nos tempos da florescência (corrida do diamante).

“O passado é uma referência constante; o presente, um lamento impregnado do sentido de perda; e o futuro, algo difuso, confuso, ausente como projeto, fugidio” – assinalam os autores do livro, fazendo pontuação sobre as lutas políticas dos coronéis e jagunços, durante a República Velha.

 

CIGANOS FOGEM EM CORRERIAS DEPOIS DE AMEAÇAS E PERSEGUIÇÕES

Com uma introdução de que a cidade de Vitória da Conquista abriu guerra contra os ciganos, o presidente do Instituto Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro, encaminhou um relatório à Procuradoria Geral da República, Defensoria Pública da União, ao Ministério Público Estadual, Câmara Municipal de Vereadores de Conquista (Comissão de Direitos Humanos), à OAB nacional e a outros órgãos ligados aos direitos humanos onde detalha os fatos ocorridos na semana passada que resultaram na morte de dois policiais militares, e repudia as consequentes violações contra o seu povo, com a prática de atos cruéis de tortura, perseguições e mortes (seis).

Rogério, que também é membro consultivo de Promoção da Igualdade Racial da OAB/Ceará, esteve em Conquista entre os dias 19, 20, 21 e 22 /07, mantendo contatos com órgãos, entidades e setores da polícia civil da cidade e em Itambé, no sentido de acompanhar os desdobramentos dos crimes e, ao mesmo tempo, prestar apoio logístico às famílias ciganas vítimas de atos de violência por parte de policiais locais. O comando da Polícia Militar nega que tenha havidos excessos por parte de seus subordinados, e que ainda deu proteção às famílias em fuga.

Repúdio contra as perseguições

Na ocasião, o presidente do ICB concedeu uma entrevista ao nosso blog www.aestrada.com.br onde demonstrou seu repúdio contra as perseguições e se disse decepcionado com a falta de respostas concretas por parte das autoridades militares. Rogério fez um forte apelo para que o Estado da Bahia apure todas as mortes e torturas, com o propósito de que os culpados sejam punidos. No Distrito Integrado de Segurança Pública/Vitória da Conquista foi recebido pelo coordenador delegado Roberto Júnior que se dispôs averiguar os fatos com imparcialidade.

Em sua fala, ele se referiu, principalmente, à coletiva prestada pelo secretário de Segurança Pública e o comandante Geral da Polícia Militar da Bahia, no dia 19/07 que, de acordo com ele, não foi nada transparente e deixou um rastro de dúvidas e negações quanto as ações truculentas de agentes da corporação local, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.

No relatório, Ribeiro cita os locais em Vitória da Conquista, como no distrito de José Gonçalves, onde se deram as reações dos policiais contra os ciganos, como a invasão na casa de uma moradora, matando o filho Adenilson Almeida, de 15 anos, por volta das 22 horas do dia 13/07 (não era cigano).

Conforme os relatos do presidente do ICB, foi no mesmo dia 13 de julho que o soldado Robson Brito de Matos, 30 anos, e o 1º tenente Luciano Libarino Neves, 34, morreram na troca de tiros na zona rural de José Gonçalves. Depois do acontecido, o cigano Rodrigo da Silva Matos, 58, pai dos suspeitos dos assassinatos foi ferido e encaminhado para o presídio. No Distrito Integrado de Segurança Pública, no dia 15/07, foi interrogado de forma humilhante.

Ainda na tarde do dia 13/07, a polícia matou Ramon da Silva, o Ramonzinho, de 23 anos. No Bairro de Lagoa das Flores houve um confronto dos militares com dois ciganos.  Na fuga para a cidade de Itiruçu, onde foram mortos por policiais, no dia 14 de julho, eles bateram na porta de uma cigana de 82 anos e seus três netos adolescentes, pedindo para guardar uma arma 380.

Narra o documento que policiais da Rondesp torturaram e ameaçaram de morte a idosa e seus netos de 15, 16 e 17 anos, no período de 16 horas à meia noite e 40 minutos. “Não quero nenhum pé de cigano em Conquista, senão a gente desce o laço” – disse um deles.

Nas torturas para que essas pessoas abrissem a boca, foram usados vários instrumentos de intimidação, como marreta, palmatória, canivete, cassetetes de borracha, sufoco com sacolas plásticas e água de QBOA, incluindo puxões pelos cabelos de uma cigana adolescente.  Depois dessas agressões, os policiais deram duas horas para que as vítimas sumissem.

O ICB, segundo o seu presidente, prestou apoio logístico na transferência de três famílias para outros estados, sendo seis adultos e três crianças, no dia 17 de julho.  No dia seguinte, outro caso de violência ocorreu no povoado de Boa Sorte, em José Gonçalves, onde uma picape foi incendiada com o corpo do empresário Diego Santos Souza, de 39 anos. Cidadão de bem, ele era dono de um restaurante, em Algodão, e membro do Apostolado da Misericórdia. A Igreja Católica não deu nenhuma nota de pesar e solidariedade sobre o acontecido.

O presidente Rogério, em seu relatório, ainda postou uma nota de repúdio a uma mensagem de ofensas no perfil de um policial fardado. Em contestação ao conteúdo da postagem, afirmou que o Instituto sempre tem lutado pela dignidade humana, a favor da igualdade racial e contra o discurso de violência, preconceito, discriminação, ciganofobia e sexismo.

Destacou também que repudia as operações policiais motivadas por vingança, com seis mortes, deixando um rastro de impunidade. Em seu desabafo, ressaltou que o medo tomou conta de Vitória da Conquista, com torturas, incêndios em veículos e casas.

Lamentou que não teve acesso aos inquéritos e nem aos laudos das perícias das mortes. Sobre a presença de policiais em acampamento cigano, Rogério indaga o que mesmo eles estavam investigando? No entanto, reconheceu que as investigações no Distrito Integrado estão sendo conduzidas de forma imparcial, e que o Instituto pede rígidas apurações sobre as abordagens nas casas dos ciganos e na rua.

Por fim, o relatório cita a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da Organização das Nações Unidas e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos onde estabelecem deveres do Estado de não empregar forças que violem os direitos humanos e a liberdade dos grupos desiguais.

Esses organismos recomendam o combate a qualquer tipo de discriminação, inclusive praticada contra ciganos por organizações do Estado. Rezam em seus artigos, prevenir abusos policiais e garantir medidas judiciais em caso de violações.

 

UMA NAÇÃO EM CORRERIAS

Uma nação milenar, alegre e dançante, como da fotografia de arquivo, que como os mouros, influenciou a criação da dança flamenga, em Andaluzia, na Espanha, sempre viveu em correrias pelo mundo a fora, desde antes de Cristo. Na Europa foi perseguida por reis, nobres e imperadores, vista com preconceito como ladrões, trambiqueiros, sujos e marginais. Na Romênia, por exemplo, por quase um século, foi escrava como os negros, e eram vítimas de atrocidades. Muitos usavam de malandragens, e até cometiam crimes para a própria sobrevivência do seu povo e de suas famílias.  Pela Espanha e Portugal, a partir do século XVI, foram deportados em navios como criminosos. No Brasil, os calons e o rum (romeni –senti) viviam em correrias e sendo empurrados pela polícia de estado em estado. Bandidos aproveitavam para cometer seus crimes e colocar a culpa nos ciganos. Acossados e encurralados, muitos revidavam na troca de tiros e ocorriam matanças dos dois lados. Bem, o que muitos não sabem é que o Brasil teve um presidente cigano, o boêmio JK – Juscelino Kubistchek, que governou o país de 1956 a 1960.

BALANÇA PARA LÁ…

Poema do jornalista e escritor jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”.

Olha o balanço das árvores,

Que o vento dá,

Balança pra lá, balança pra cá,

Depois começa tudo,

Como nas ondas do mar.

 

Olha o tempo passando,

Ligeiro e devagar;

Olha a morte chegando,

Com a benção de Alá.

 

Parte rasgando o avião,

Lotado de gente zumbi;

Criaturas saem da terra,

E aparecem como saci.

 

Olha a dança das folhas,

Girando pra lá e pra cá,

Levando saudades no ar.

 

Na avenida zunem os tiros;

Balas voam perdidas;

Criança tomba no asfalto,

No ataque dos vampiros.

 

Carnaval de sunga suada;

Empurra pra lá e pra cá;

Pula, pula a pipocada,

No axé do arrocha cambada.

 

Vadia a bela, ou a feia,

Na orgia da bundada;

Balança pra lá e pra cá,

Pra gringo e nativo

Namorar sua sereia.

 

No sol do meu sertão,

Balança o pau-de-arara,

Cortando o cinzento chão

De espinho, fogo e vara,

Na poeira da estrada.

 

Virgulino, meu capitão,

Que diz dessa nossa vida,

E da traiçoeira morte,

Sem aviso e sem razão;

Que diz da canção,

De Vandré que chora,

Mandando fazer a hora.

 

AUXÍLIOS, BOLSAS E DOAÇÕES SÃO ESMOLAS QUE ESCRAVIZAM O CIDADÃO

“Uma esmola envergonha o cidadão”. Quem não se lembra desse verso na canção do rei do baião Luiz Gonzaga? Pois é, por mais que seja duro, é uma verdade em nosso país, principalmente nesses tempos de pandemia quando houve um grande aumento da pobreza e, consequentemente, da fome. Segundo pesquisas, uns 30 milhões vivem nessa linha da miséria.

Claro que também existe o ditado de que a fome não espera e tem pressa. Não estou aqui para condenar os auxílios emergências, as bolsas famílias e as doações incentivadas e praticadas por grupos isolados, pessoas e organizações do terceiro setor. O que argui é que há 30 anos, ou mais, existe o chamado bolsa família e, de lá para cá, a situação só tem piorado.

Todos os dias acompanhamos nos noticiários os atos de solidariedade ou caridade (muitos evitam falar nesse termo por achar pejorativo) na forma de doações de alimentos, roupas, agasalhos de frio, sapatos e brinquedos para as crianças nas épocas de Natal, mas pouco se ouve em mutirões de emprego e oportunidades no mercado de trabalho para que o nosso cidadão se sinta digno como gente partícipe da construção social.

O Brasil precisa criar pessoas amadurecidas para que vislumbrem novos horizontes, e não que fiquem a vida toda dependentes de doações, bolsas e esmolas.  Achar que elas só necessitam de pão e água, é o mesmo que escravizar suas dignidades. Só a educação, a saúde, a segurança e o emprego podem tirar a população desse abismo da pobreza.

Nem é necessário dizer que o papel dos governantes é fundamental para que o ser humano resgate sua dignidade e se livre de uma vez por todas das esmolas escravizantes. No entanto, o que temos é uma política do assim é melhor em nome do poder.

Enquanto grande parte da sociedade se mobiliza para socorrer a fome dos mais necessitados, eles lá de cima cada vez mais se acomodam e cruzam os braços. Na urgência de matar a fome, o cidadão acaba duplicando o seu papel social porque ele já paga escorchantes impostos que deveriam ser revertidos em benefício das camadas mais carentes.

Como não há reação, cobrança, conscientização política e mobilização daqueles mais esclarecidos que poderiam atuar nesse sentido com relação aos poderes públicos, esse ciclo vicioso das doações e auxílios em forma de esmolas nunca termina. No fundo, estamos também contribuindo para que essa camada tão baixa e tão pobre continue escrava do próprio poder por ela constituída. Por incrível e irônico que pareça, é desse fel que se banqueteiam os governantes e políticos para se manterem no poder. E assim caminha o nosso Brasil.





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