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DA BARRACA AOS CARROS DE SOM

O vereador David Salomão protagonizou mais um discurso raivoso e arrogante em defesa do autoritarismo e contra a esquerda na sessão de ontem (quarta-feira) da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, sem muita reação de seus opositores.

Aos berros e aos gritos, em tom agressivo, como se estivesse num comício eleitoral, o alvo desta vez foi o ex-governador Jaques Wagner, investigado pela Polícia Federal por acusação de ter recebido propinas da Odebrecht no caso da construção da Fonte Nova.

O vereador em questão aproveitou para descer o “porrete” no PT, sem dó e compaixão e, ao mesmo tempo, apoiar a candidatura de Bolsonaro, colocando-o no pedestal como arauto da verdade e da honestidade que, na sua visão, devolverá ordem e seriedade ao país. Em sua fala, ele mistura arbitrariedade, preconceito e outros ingredientes indigestos com democracia, como se isso fosse possível.

Na sessão passada de quarta-feira (dia 21), Salomão defendeu, mais uma vez, a intervenção militar e fez críticas veladas aos professores e estudantes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb. Contra seus ataques, apenas o parlamentar Coriolano Morais (PT), de modo moderado, se pronunciou dizendo que os outros partidos não têm moral para apontar as mazelas de seus opositores. Destacou que na política existe também muita gente honesta, como é o seu caso.

Bem que David Salomão tentou roubar a cena da sessão, mas as discussões giraram em torno da derrubada da barraca de dona Eni Rocha de Souza pela Prefeitura Municipal, na localidade mais conhecida como Gancho, e os problemas dos carros de som que estariam cometendo uma série de irregularidades nos limites exigidos de decibéis e na circulação em locais e horários proibidos.

Os vereadores da oposição defenderam as duas causas em questão e, o mais estranho, é que os aplausos às falas do PT e do PC do B foram as mesmas para David Salomão quando atacou o ex-governador do PT. Sempre impera o individualismo em detrimento do coletivo.

Na verdade, existem muitos abusos por parte dos carros de som na cidade, e o centro, principalmente, está contaminado pela poluição sonora e visual, o que requer um código disciplinar para limpar o comercio e deixar a área mais agradável e humana. No geral houve um apelo no sentido de a prefeitura encontre um caminho viável para o funcionamento correto dos publicitários de carros de som, de modo que não haja prejuízo para os comerciantes, que reclamam perturbação da ordem pública e consequente afastamento dos consumidores.

Quanto a barraca de dona Eni, os vereadores alegaram injustiça social e arbitrariedade do poder público, argumentando que ela tem alvará, paga IPTU e está no local desde os anos 80, como sentenciou Coriolano. No mais, foi discutida a pauta da Câmara, como sempre recheada de indicações e moções de aplausos, sem projetos voltados em benefício da comunidade.

 

AINDA O CARNAVAL E OUTRAS PORCARIAS

Conversa descontraída de bar entre amigos adentramos nos nomes de ícones da música e da literatura baiana e brasileira das décadas de 50, 60 e 70 que se eternizaram com suas obras. No bate papo, concordamos que teríamos que esperar mais 100 anos, talvez um milênio, para repetir safra igual de bons frutos. Citamos uma enorme lista de papas das letras e dos sons.

Desastre total foi tentar comparar estas feras com os atuais dos carnavais degenerados e misturados do axé, do pagode, do arrocha e do sertanejo romântico. Concluímos que estes de hoje com suas músicas medíocres de exploração da sexualidade e do preconceito não servem nem para carregar as malas dos instrumentos das personagens daquele período de ouro.

É o mesmo que fazer um paralelo entre os jogadores de futebol da seleção de 1970 e os arranca toco pernas de pau da atualidade, com raras exceções, que mais serviriam na época como gandulas para repor a bola do jogo. Triste Bahia e Brasil de lamentável regressão na cultura e em outros setores das nossas vidas! Triste mídia que incensa e incentiva as porcarias e não questiona!

Sobre o carnaval, por exemplo, um leitor de um jornal da capital opina recordando os anos 50 e 60 das marchinhas de “Mulata Bossa Nova”, “Cabeleira do Zezé”, “Me dá um Dinheiro Aí”, “Piratas da Perna de Pau” e centenas de outras. Dos anos 80 e 90, ele aponta que a festa ainda apresentava conteúdo através de composições de Moraes Moreira, Caetano e de Gil, além das belas músicas de blocos, como Eva, do Jacu e dos Internacionais.

Pula para o tempo atual e classifica como de péssimo gosto as músicas tocadas no carnaval baiano, visando somente a baixaria e a exploração da sexualidade. Para o leitor, estas pseudos músicas podem ser ouvidas apenas no sanitário e levadas para o esgoto no puxar da descarga. Diria eu que nem na latrina elas se salvam.

A respeito da festa momesca, o advogado e compositor Walter Queiroz critica o gigantismo dos trios, “mastodontes sonoros que agridem nossos ouvidos, com músicas medíocres cultoras da baixa sensualidade e que acabam estimulando a violência, sobretudo contra as mulheres e homossexuais”.

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NOTÍCIA DEFASADA DO AEROPORTO

A coluna “Tempo Presente” do jornal A TARDE, na sua edição do último dia 25 (domingo), deu uma notícia totalmente defasada, com atraso de quase dois anos, sobre a conclusão da pista de pouso, alguns acessos e do centro do Corpo de Bombeiros do novo aeroporto de Vitória da Conquista que se chamará de Glauber Rocha.

Um tremendo equívoco, dando a impressão ao leitor de que a obra está dentro do cronograma previsto, quando isto não é verdade. Diz a nota que o novo aeroporto “concluiu sua primeira etapa de obras, dentro do cronograma que prevê a conclusão ainda no primeiro semestre deste ano. Já estão prontos a pista de pouso e decolagem, a subestação elétrica, o balizamento noturno, os acesso viários internos e a seção contra incêndio”.

Ou o repórter se confundiu, ou quem passou a informação teve a intenção maldosa de fazer marketing político mentiroso. Na realidade, estes equipamentos foram finalizados há cerca de dois anos, sem o lançamento do edital do terminal de passageiros, que só saiu no ano passado, e cujos serviços estão lentos por falta de recursos federais e estaduais.

Para ser mais realista, a obra do novo aeroporto de Conquista se assemelha em tempo de duração com a primeira etapa do metrô de Salvador, o calça curta, que levou doze anos entre o início e o término, com superfaturamento. A nota da coluna do A Tarde dá a entender que a primeira etapa do aeroporto foi concluída recentemente, um grande erro.

Duvido que o aeroporto, como informa o secretário de Infraestrutura do Estado, Marcus Cavalcanti, seja inaugurado agora em junho, incluindo todos os equipamentos. Pode até ser, mas sem nenhuma condição de pouco e decolagem. Enquanto isso, o antigo aeroporto, mais parecido com um galpão, continua funcionando em precárias instalações. É uma vergonha para a cidade!

Por falar em matéria equivocada, o redator-chefe do jornal A Tarde e sua equipe precisam ter mais cuidado e atenção com certas notícias divulgadas, principalmente do interior. O seu corpo redacional também tem deixado escapar manchetes, títulos e textos truncados e trocados.

“AS TRÊS MORTES DE CHE GUEVARA” (I)

“(…) ELE NÃO FOI APENAS UM REVOLUCIONÁRIO, UM PENSADOR E UM INTELECTUAL, MAS O MAIS COMPLETO SER HUMANO DA NOSSA ÉPOCA” – Jean Paul Sartre

FOI EXCLUÍDO, ALIJADO, TRAÍDO E PARTIU EM BUSCA DA IMOLAÇÃO NO CONGO E NA BOLÍVIA.

Por discordar de Fidel Castro, seu companheiro-amigo-irmão mais fiel de luta, quanto a forma de ocupação dos soviéticos na Ilha, Ernesto Guevara de la Serna, o Che, que combateu bravamente em Sierra Maestra para derrubar o regime de Fulgêncio Batista, em 1959, teve que se afastar das decisões do comando do governo comunista, colocando a revolução acima de suas ideias.

Sua fuga desesperada, angustiada, improvisada e às pressas começou logo no final de 1964 quando passou três meses longe de Cuba em viagens pelo Egito, Tanzânia e Argélia, para combinar sua ação guerrilheira no Congo, num caótico ambiente de indisciplina e desorganização entre os soldados  que se recusavam receber ordens.

Os russos, ressentidos por sua preferência pela presença da China em Cuba, continuaram em seus calcanhares, e o Che só pode continuar no Congo até meados de 1965. Tentou adiar seu retornou a Cuba ficando uns tempos na África e em Praga onde aproveitou para se refazer fisicamente dos desgastes sofrido no Congo. Estava muito debilitado na época.

Em solo cubano onde não mais lhe pertencia por sentir-se fora dos destinos do povo, não demorou muito e rumou, com pouca preparação, para as selvas bolivianas onde foi abandonado e esquecido por Fidel, sob pressão da União Soviética que não aceitava mais um trotskista em suas fileiras. Depois de ferido num acidente, foi impiedosamente executado pelo exército boliviano, em 8 de outubro de 1967.

Toda sua trajetória, desde sua viagem de motocicleta pela América do Sul e Central como recém-formado em medicina, seu relacionamento familiar, seu encontro com Fidel no México, sua ida para Cuba, seu auge como ministro e sua decadência são contados pelo jornalista e escritor Flávio Tavares, no livro “As Três Mortes de Che Guevara” – o disparo em Cuba, a agonia no Congo e a execução na Bolívia.

No seu livro, de atraente leitura, o jornalista fala também do seu primeiro encontro com o Che em 9 de agosto de 1961 em Punta del Este (Uruguai), na abertura da Conferência da OEA. Sobre sua vida, cita suas andanças de motocicleta com o amigo Alberto Granado pelo Chile, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guatemala e outros países até o México, em 1952. Da viagem, destaca os escritos e impressões do Che em “Diários de Motocicleta”.

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A INVASÃO DOS ESTRANGEIROS

Carlos Albán González – jornalista

Especialistas em linguística vêm afirmando que o português falado no Brasil está destinado a morrer, diante das deturpações que o idioma herdado dos nossos descobridores são acolhidas nas redes sociais e em muitos meios de comunicação. O artigo “País sem cultura é país sem alma”, publicado neste espaço pelo meu colega Jeremias Macário, levou-me a acreditar que o brasileiro está sofrendo de uma doença que eu chamaria de estrangeirado, termo dado pelo “Aurélio” aos que têm “modos, fala, usos e costumes de estrangeiro, ou que prefere o que é estrangeiro”.

Antes de continuar a abordar esse tema, muito bem comentado por Jeremias, gostaria de ter o dom de prever se o estrangeirismo ou estrangeirado teria criado raízes se a Espanha tivesse marcado presença em terras brasileiras, antes da chegada de Pedro Álvares Cabral, em abril de 1500. Dois navegadores espanhóis, em janeiro e fevereiro de 1500, Vicente Yañez Pinzón e Diego de Lepe, com as bênçãos dos reis católicos Fernando e Isabel, percorreram mais de 120 quilômetros do litoral do Nordeste, navegando até a foz do rio Amazonas. Pinzón, que já havia comandado uma nau de Cristóvão Colombo na primeira viagem à América, chegou a fincar numa praia uma cruz de madeira com o brasão do Reino de Castilla.

Uma coisa é certa: na condição de morador de vasta extensão desse “condomínio” chamado América do Sul, o brasileiro sente dificuldade de “bater um papo” com seus vizinhos, por causa da diferença de idiomas.

O comércio varejista e o mercado imobiliário estão entre os principais “hospedeiros” do vírus do estrangeirado. Alguns vocábulos estrangeiros, pelo constante uso, já deveriam ter sido incluídos nos dicionários de português, os consultados pelos brasileiros. O mais popular deles é o “off” (fora), divulgado pelos lojistas dos ramos de calçados, vestuário, eletrônicos, e outros, sempre que promovem liquidações, prometendo descontos nos artigos oferecidos à clientela.

Na mesma linha de pontuação estão o “for rent” e “for sale”, usados por imobiliárias e locadoras de carros. Já constatei em jornais de grande circulação, nas páginas dos classificados, anúncios de imóveis, totalmente em inglês. Provavelmente, seus proprietários não desejam alugar seus apartamentos ou casas a patrícios, preferindo os gringos. Concurso e moda para gordinhas mudou para “plus size” (tamanho mais).

Ao entrar nos shoppings center das principais cidades do país você tem a impressão de que está num centro de compras de Nova Iorque ou Londres, diante dos nomes fantasia colocados nas portas das lojas. Para não ficar atônito sugiro levar um dicionário inglês-português, para poder traduzir, por exemplo, “shoes and bags” (sapatos e bolsas). Há casos interessantes, em que o comerciante junta palavras em duas línguas, como “drink água”, pintado na frente de uma revendedora de bebidas, aqui em Vitória da Conquista.

A última reforma ortográfica da língua portuguesa “ressuscitou” o “k”, “w” e “y”. Nesse retorno, derrubaram letras tradicionais, como o “q”, “v” e “i”. Palavras como o “disque” foram abreviadas para “disk”, que, em francês, significa “disque”.

Conselhos relacionados ao meio ambiente (“Conserve a Serra de Piripiri”), saúde, educação, trânsito, violência urbana e limpeza das cidades, deveriam estar estampados nas camisetas, bastante vendidas nos shoppings e no comércio popular. Essas blusas evelam, lamentavelmente, a preferência pelo estrangeirado, como “I love New York”. O comprador, muitas vezes, nem tem a preocupação de fazer a tradução, e sai pelas ruas exibindo frases como “Girls like girls” (Meninas gostam de meninas) ou “Normal people scare me” (Pessoas normais me assustam). A frase “Great rapers tonight” (Grandes estupradores noturnos), impressa numa camisa, repercutiu negativamente recentemente nas redes sociais, levando uma rede de lojas de confecções a suspender sua venda.

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CULTURA COM DITADURA: UMA MISTURA INDIGESTA

Depois de acompanhar o relançamento do projeto do Centro de Cultura do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), em Vitória da Conquista – programa foi anunciado há dez anos – pelo ex-gerente do banco, Jonas Sallas, na última sessão da Câmara de Vereadores do dia 21(quarta-feira), foi duro ter que ouvir o discurso do vereador David Salomão em defesa da ditadura militar, com rasgos de elogios à intervenção federal das forças armadas no Rio de Janeiro.

Pois é, o homem voltou a fazer apologia ao regime de 1964 onde milhares de brasileiros foram torturados, mortos e desparecidos numa clara censura e opressão à liberdade de expressão. Aproveitou a ação no Rio para atacar, de forma grosseira e raivosa, os estudantes e professores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, chamando-os de pseudos-intelectuais. por terem os mesmos, segundo ele, destruído seus outdoors em apoio a uma intervenção militar no Brasil.

O vereador alegou, em tom agressivo, que teve sua liberdade de expressão cerceada pelo corpo docente e discente da universidade estadual, conforme reza a Constituição, só que sua liberdade vai de encontro à própria liberdade e a vida, o mesmo que apoiar o nazifascismo. No seu conceito, a intervenção resolve de vez com a violência, que no país é fruto da ausência social do Estado.

Bem, deixando os horrores de lado, o destaque maior da sessão da Câmara foi o retorno da proposta do BNB de construir, em Conquista, um Centro Cultural, projeto este que não vingou há dez anos por causa das futricas e politicagens regionais. Uma pena que não frutificou, senão hoje toda classe artística, intelectuais e a população em geral estariam hoje se beneficiando, tirando da cabeça de muita gente imbecil a ideia e a mentalidade absurda de uma ditadura.

A iniciativa de instalação de um Centro de Cultura desse porte, numa cidade hoje tão carente de equipamentos dessa natureza (há quatro que o “Camilo de Jesus Lima” está fechado), deve ser abraçada por todos porque só traz benefícios. De acordo com Jonas, o Centro está orçado em mais de 5 milhões de reais, e a intenção é investir mais de um milhão por ano em projetos artísticos, contemplando variadas linguagens.

Na ocasião, Jonas Sallas enumerou vários equipamentos que farão parte do Centro, ainda a ser localizado no antigo Clube Social, como auditório, sala de audiovisual, biblioteca, espaços para teatro, dança, cinema, exposições, artes plásticas, música, dentre outros itens da área cultural.

Outro ingrediente, de cunha mais político – partidário, foi o discurso forte do vereador Dudé, que aproveitou o espaço de vários parlamentares, com o consentimento do prefeito Herzem Gusmão, para lançar o nome de Nilo Coelho na chapa majoritária de ACM Neto nas próximas eleições.

Este é um projeto equivocado, de difícil ressurreição. Teria que apelar para Cristo fazer outro milagre. De certa forma é até compreensível na política atual brasileira onde predomina total escassez de lideranças políticas com credibilidade. Precisamos sim, de renovação presente, e não de ressuscitar um passado que não merece mais ser repetido.

O vereador Cori falou da situação falimentar da Viação Vitória e do consequente sofrimento da população com as constantes paralisações dos ônibus pelos funcionários da empresa, que estão com seus salários mensais sempre em atraso. Há muito tempo Cori vem alertando para o problema crítico dos transportes públicos em Vitória da Conquista, cobrando providências da Prefeitura Municipal.

OS ESPANCADORES DO FUTEBOL

Basta o apito inicial da partida para todos saírem em debandada atrás da “redonda” dando pancadas de qualquer jeito, sem dó e compaixão. Das chuteiras começam a sair lasca e faíscas nas pernas dos adversários. Todos estão ali com seus músculos treinados e marombados para espancar e chutar, menos para jogar cadenciado como ela pede.

Na disputa de “arranca toco”, ela é imprensada, sufocada e voa desnorteada e tonta de tanto apanhar. Na maioria das vezes procura os braços das arquibancadas para com alguém se consolar. Não temos mais craques para tratar a “senhorita” com todo carinho e zelo. Em poucos segundos o juiz apita falta, e já nervoso, adverte a rapaziada truculenta para ter mais calma. Dai em diante, o apito não para mais de apitar.

Nas laterais do campo, berram os técnicos com palavrões que não se pode escutar. A torcida fanática grita “treinador burro”, “pernas de pau”, “juiz filho da puta” e outros impropérios e xingamentos de se arrepiar. O caldeirão vai esquentando e fervendo até a raiva escura transbordar.

O nosso querido futebol, tão decantado em prosas e versos, poético, cheio de lendas, histórias, craques, diversão, fascinação, dos manés e pelés, não merecia tudo isso na Bahia e no Brasil. Infelizmente, a “rainha bola”, de tantas alegrias e emoções, já não rola mais redonda, como antigamente, mas quadrada e torturada. Ela anda “murcha” de tristeza nesses pés pesados.

O cenário não é nada prazeroso e divertido para se relaxar e curtir, mas, lamentavelmente, é hoje em dia a cara do nosso futebol, feito de pancadarias, no campo, e fora dele, com murros, socos, pauladas, mortes e sem punições severas e duras. Não foi isso que vimos no último domingo entre o Ba x VI, no estádio do Barradão? Não existe mais espetáculo!

Existe sim, o espetáculo do horror. No chamado clássico pela mídia, que não tem mais nada de clássico, e sim de monstruoso, os trogloditas deixaram a “penada” de lado presenciando tudo e avançaram irados uns contra os outros. O sangue começou a escorrer como na arena romana dos gladiadores dos tempos antigos de Calígula e Nero.

Poderiam, pelo menos, se envergonhar da “moça bonita” largada lá num canto do gramado a ver aquelas cenas proibidas para menores. Se serve de consolo, o futebol maltratado, esmurrado, tão feio e violento, não é exclusividade somente da Bahia. Está em todo Brasil, e o mal prospera porque não existe punição como em outros países civilizados.

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INTERVENÇÃO CHEIRA COM DITADURA

Precisamos de uma reforma estrutural e competente no policiamento e não de estrategistas de guerra. Talvez tenha sido a voz mais sensata para retratar o caos a que se chegou a segurança no Rio de Janeiro, resultante dos desmandos, dos desvios de recursos públicos, das trapalhadas e da incompetência da turma que governou e mandou no estado nos últimos anos.

Bateram cabeça todo tempo, anunciaram planos de integração que não existiam e, por último, abandonaram literalmente a capital fluminense, tanto o governador corrupto como o prefeito pastor. Não foram capazes de controlar a situação de violência e, como ficaram desmoralizados, apelaram para o artigo 34 da Constituição que justifica intervenção das forças armadas por quebra de ordem, o que cheira a ditadura e quebra da lei.

Os verdadeiros culpados por todo este quadro de desordens, bandidagens e de quadrilhas organizadas sitiando ruas, praias, avenidas e bairros da cidade maravilhosa, que se tornou bárbara e feia por dentro, vão continuar impunes e donos dos seus “postos” como “salvadores da pátria”.

Começaram tontos com as GLOs (Garantias das Leis e da Ordem) que não solucionaram o problema, e agora o mordomo de Drácula e seu bando de vampiros recorrerm às tropas intervencionistas de guerra. O que deveria ter sido feito antes, não foi feito. No sufoco de morte, a maioria aplaude e poucos contestam.

Nesta hora de tormento e desespero, a sociedade apoia, tornando a intervenção numa medida consentida pela grande maioria civil, inclusive pela maior mídia do país que já foi baluarte e colaboradora da ditadura de 1964. Poucos sabem que o artigo da Constituição de 1988 que fala de possível intervenção militar foi posto lá na Carta por pressão dos generais linha dura da época.

Esta ordem através das forças que têm a função de combater inimigos externos pode gerar também quebra da lei, com arbitrariedades, opressão, prisões ilegais e até num regime de exceção. Alguém ai deve estar achando que é exagero demais da minha parte, mas a história do Brasil, por falta de conhecimento dela, costuma se repetir.

Por se tratar de imediatismo, a intervenção, no momento, pode conter a violência, mas não se acabar de vez, porque ela virou, há muito tempo, um monstro, criado pelos próprios governantes que se desviaram de suas missões de dar educação, saúde, habitação, saneamento, emprego e assistência social digna para a população.

Tudo isto ai que estamos presenciando é consequência da falta de políticas públicas e das injustiças sociais praticadas ao longo dos anos. No lugar disso só fizeram roubar, aprontar corrupções, desprezar e fazer pouco do clamor do povo. Preferiram se fartar em seus banquetes com guardanapos nas cabeças. Estes que faliram o estado e o país também fazem parte da bandidagem e da violência. São bandidos falantes de discursos mentirosos.

Não é agora com a força bruta, com tanques, fuzis, metralhadoras e estratégias de guerra que vão criar ordem e paz duradoura. Pode até conter e controlar a violência por uns tempos, mas sem a moralização da política, a presença do estado nas comunidades, justiça e igualdade social com distribuição de renda, ela voltará mais tarde com mais força e brutalidade.

PAÍS SEM CULTURA É PAÍS SEM ALMA

O BRASIL É UM PAÍS SEM ALMA QUE A VENDEU AOS OUTROS

Por que as nossas crianças e até os adultos ficam fascinados com as estampas coloridas dos super-heróis norte-americanos nos cadernos escolares e não valorizam nossas personagens da cultura local? Por que preferem mais festejar o dia da bruxa nos Estados Unidos que o saci, a caipora, a lenda do boto, a mula sem cabeça ou o bumba-meu-boi? Por que de tantos nomes em inglês nas vitrines das lojas do que o uso de letreiros em nossa língua portuguesa? Nos eventos promocionais do comércio lojista, não temos uma data ou uma criação de festejo, exclusivamente nosso.

Antes era a França o nosso espelho da moda, da etiqueta, da gastronomia e das ideias revolucionárias, e o Brasil adorava e idolatrava tudo que vinha da terra de Victor Hugo, Voltaire, Lavoisier, Rousseau e outros tantos intelectuais, pensadores e filósofos. Da colônia ao império, os brasileiros imitavam tudo o que chegava de lá, até talheres, pratos e xícaras. Começamos a partir dai a vender nossa alma cultural e a negar nossa identidade.

Depois vieram os Estados Unidos para ditar a sua cultura e roubaram a nossa maneira de pensar e de viver. Até hoje ficamos deslumbrados com seu cinema, seus super-heróis enlatados, filmes de “arrasa quarteirão”, sua política capitalista neoliberal, suas escolas de pensamento egocêntrico e prepotente de donos do mundo e suas criações de endeusamento do consumismo como forma de incentivar as vendas e o poder de compra.

O consenso de Washington, da América dos norte-americanos, impregnou em nossas peles. Como subalternos e pobres coloniais sofrendo do complexo de inferioridade, esquecemo-nos da nossa cultura e ficamos sem alma. Deixamos que eles impusessem suas políticas, seus costumes e ficamos eufóricos em visitar seu país, mesmo sendo constrangidos e humilhados nos aeroportos como clandestinos. Perdemos a autoestima, e tudo que vem de lá é bom, é o melhor e deve ser imitado.

Continuamos pobres, inclusive de espírito, apesar de possuirmos um grande caldeirão cultural recheado de diversidades, com uma riqueza enorme em todo território. A mistura de povos entre índios, negros e brancos ibéricos expandiu o leque cultural multifacetado. Temos grandes músicos, artistas, escritores e matéria-prima suficiente para cultuarmos o que é nosso, mas destruímos como vândalos nosso patrimônio.

Com um sistema perverso que privilegia as elites burguesas, desde os tempos do coronelismo e dos senhores de engenhos, em detrimento das camadas desfavorecidas que foram ao longo dos últimos anos escravizadas na miséria, a nossa cultura foi se diluindo e perdendo sua real identidade. A própria oligarquia se rendeu ao produto de fora, e os governantes entreguistas incentivaram a criação externa.

Damos muito mais valor aos cadernos de Batman, do Homem Aranha, do Homem de Ferro, da Mulher Maravilha, do Huck e outros heróis estrangeiros do que os personagens do desenhista Maurício de Souza. Não cuidamos bem do que é nosso como o Bumba-Meu-Boi, o Maracatu, a Capoeira, o Reisado, o Samba, o Forró e outras expressões, como é o caso do Carnaval.

A festa momesca, por exemplo, foi infestada de batuques, rebolados e músicas de baixo nível. A estupidez das cantorias invadiu as ruas e aniquilou nossa cultura. Na Bahia, os banzêros, “os gigantes” as falsas rainhas e príncipes são os nossos “representantes culturais” nas vozes de trios e bandas do nível de “É o Tchan”. O mesmo vem acontecendo com o nosso Forró, cada vez mais descaracterizado e emporcalhado pelo estrangeirismo.

A mídia submissa e idiotizada abre largos espaços para estes artistas das letras sem sentido que nada dizem. Cada gesto e atitude de um deles são acompanhados como grandes acontecimentos e feitos. O nascimento de um filho ou filha torna-se um espetáculo e um show à parte, com manchetes de páginas e imagens de bajulações carregadas de elogios baratos.

Cada veículo quer sair na frente com mais sensacionalismo que puder, para angariar mais simpatia, audiência e adesão dos súditos do “tira os pés do chão”, ávidos por notícias de seus “ídolos e heróis”. Tudo isso é estampado numa sociedade de profundas desigualdades sociais de filhos abandonados, desnutridos e incultos onde muitos morrem nos corredores sujos dos hospitais.

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VITÓRIA DO SAMBA DE PROTESTO

Carlos Albán González – jornalista

“Meu Deus! Meu Deus!

Se eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social”

Versos do samba enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, cantado com emoção e acompanhado dos gritos de “Fora, Temer”, pelo público das arquibancadas, no Sambódromo do Rio, durante a passagem da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, vice-campeã de 2018.

Tomei emprestado os versos dos compositores da escola Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, para ilustrar o meu comentário sobre seu oportuno artigo “Misturas de protestos, alegrias e tristezas”, publicado hoje no blog “aestrada”.

Como não se via desde os últimos anos da ditadura militar, as agremiações carnavalescas do Rio e São Paulo aproveitaram as crises nos modelos social, político e religioso do Brasil para levar seus protestos, através de alegorias, alas de passistas, samba enredo, fantasias e carros alegóricos.

Enredos batizados de “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, levado à avenida pela “Beija-Flor de Nilópolis”, campeã do desfile deste ano; versos como “Pecado é não brincar o Carnaval”, “Oh! Pátria amada, por onde andas/ seus filhos já não aguentam mais”. “Me chamas de irmão/ e me abandonas ao léu/ troca um pedaço de pão/ por um pedaço de céu”, reforçaram os clamores contra a corrupção, o desgoverno, a intolerância, o desrespeito, a violência, o desprezo ao menor abandonado, ao trabalho escravo, aos desempregados, às vítimas da seca no Nordeste, à desigualdade social, aos moradores de rua e às reformas trabalhista e da Previdência.

O bloco das ratazanas, de terno e gravata, carregando malas de dinheiro e dólares dentro das cuecas, se reportaram aos políticos, frequentadores da Casa de Mãe Joana (as casas legislativas do país); lobos em pele de cordeiro representavam magistrados corruptos. Destaques, respectivamente, das escolas “Beija-Flor de Nilópolis” e “Mangueira” e “Paraíso de Tuiuti”, o presidente Michel Temer, como um perfeito vampiro, com dólares presos na roupa, e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, dependurado com uma corda no pescoço, no papel de traidor do Carnaval carioca, por ter reduzido, como evangélico, as verbas das escolas de samba.

 



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