janeiro 2020
D S T Q Q S S
« dez    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  


O NATAL NUM PAÍS DESIGUAL

Carlos Albán González – jornalista

A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, revela sua fisionomia em todos os dias do ano, mas é no período natalino que o abismo entre ricos e pobres se mostra tão profundo. Contraria o ensinamento do homenageado na noite de Natal, cristianizado há 2.000 anos, na parábola do mendigo Lázaro, segundo a qual, os privilegiados com bens materiais têm a obrigação de ajudar os mais necessitados.

“A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis”, afirma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em nota divulgada recentemente.

Em dois cenários distintos resumimos o quê podemos definir como desigualdade social:

Na alegre noite de Natal, os privilegiados, embriagados pelo uísque e champanhe importados, celebram, unicamente, as vitórias conquistadas no dia-a-dia daquele ano que está findando. Nem por um instante, o pensamento de um dos presentes se volta para Jesus Cristo, o aniversariante do dia.

No outro extremo das grandes cidades, nas favelas e palafitas, onde há sempre espaço para um singelo presépio, 13 milhões de desempregados, vivendo abaixo da linha da pobreza, desprovidos dos benefícios básicos ao ser humano, como saúde, saneamento, educação escolar, trabalho e lazer, cansaram de esperar pelo Papai Noel dos governantes.

No irrefutável artigo, que teria espaço nas páginas de “Opinião” da grande mídia, publicado neste blog, sob o título “No tempo da roda consumista e as tristes desigualdades sociais”, o colega e amigo Jeremias Macário expõe o desencanto das crianças pobres deste país neste “período festivo”, como assim se refere o comércio

Com a finalidade de aumentar suas vendas, o comércio promove sorteios, distribui brinquedinhos, e até apela para o ineditismo (ou seria hipocrisia), como fez um shopping de Salvador, contratando um Papai Noel afrodescendente, para ser abraçado, tirar fotos e ouvir os pedidos das crianças bem alimentadas.

Nas áreas das nossas metrópoles “administradas” pelo tráfico de drogas,  crianças, abandonadas pelo poder público exibem armas de fogo em vez de brinquedos inocentes.“Botei meu sapatinho/na janela do quintal/Papai Noel deixou/meu presente de Natal/seja rico ou seja pobre/ o Velhinho sempre vem”. Os versos da canção “Velhinho”, de autoria do poeta Octávio Babo Filho (1915-2003), são apenas uma lembrança para os mais velhos.

Quais as previsões, nos campos político e ideológico, que podem ser feitas para o brasileiro até o Natal? Contaminado pelos movimentos populares no Chile e na Bolívia, e com a oposição desperta pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem apontado sua metralhadora para todos os lados, principalmente para o Palácio do Planalto, subiu o sentimento de ódio entre lulistas e bolsonaristas. Oficial da Arma de Artilharia, Jair Bolsonaro já dispôs os seus canhões na linha de tiro.

Antes de começar a gozar os 60 dias de férias e de planejar as festas de fim de ano em Nova Iorque ou Paris, os ministros do STF concederam uma espécie de indulto de Natal para 1.500 condenados em segunda instância. Essa decisão veio aprofundar ainda mais a discórdia no seio das famílias, no ambiente de trabalho e nas escolas. Lula, José Dirceu e os que tiverem polpudas contas bancárias para contratar, a peso de ouro, os mais famosos escritórios de advocacia penal, gozarão de liberdade até o fim de suas vidas. O mesmo tratamento não terá o sentenciado que furtou um pacote de leite para atenuar a fome de sua família.

Eu não queria encerrar este texto sem fazer alusão a um fato, ocorrido nesta cidade, que passou despercebido, por falta de uma maior divulgação. Como estamos sendo governados por religiosos fundamentalistas, não me causou estranheza um pastor ser absolvido, há poucos dias, por um júri popular. O réu assassinou, a sangue frio, uma pastora, sob o argumento de que ela estava “roubando suas ovelhas”. Uma testemunha do crime também foi morta. O corpo de jurados deve ter sido formado por maioria evangélica.

 

 

EXPOSIÇÃO “AUTO DA CAMELA” APRESENTA A VIDA SERTANEJA

Dois gigantes das artes de Vitória da Conquista e de renome nacional, o escultor e instalador Edmilson Santana e o artista plástico Silvio Jessé se uniram para montar a exposição baseada no “Auto da Camela”, uma obra de Carlos Jheovah e Ezequias, que pode ser vista e apreciada na entrada do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Com seus quadros que retratam de uma forma simples e verdadeira a vida do homem e da mulher sertaneja, o árido da caatinga, a fauna e a flora desse bioma, como o mandacaru e a barriguda, os costumes e hábitos, Sílvio Jessé deu um mergulho intenso na obra dos autores de o “Auto da Camela” que já foi também descrita em peças teatrais e declamada com sucessos em vários eventos culturais.

Soube captar a mensagem

A montagem da exposição ficou por conta do instalador artístico Edmilson Santana que também soube captar a mensagem do tema e deu ainda mais brilho e vida na mostra, com textos do trabalho literário de Jheovah e Ezequias. Foi um “casamento” que deu certo porque tanto Santana como Jessé têm suas raízes fincadas no sertão e entendem, como ninguém, o agreste nordestino e sua vida cotidiana.

Com seu estilo próprio de pintar desde menino na zona rural de Conquista, vendo a lida do homem do campo, o trabalho de Sílvio tem um vivo realístico, e quem para, para observar, termina por entrar dentro do quadro e vira um personagem dos seus pinceis e tintas da cor da terra, das ferramentas, dos animais e das roupas usadas pelos sertanejos.

A opção pelo tema foi outro “casamento” perfeito entre a linguagem literária e as artes plásticas, e os dois artistas souberam mostrar isso na exposição, cada um exercendo a sua função. A visitação é imperdível, principalmente para quem não conhece muito bem como é a vida no sertão. É uma leitura fácil de ser interpretada, mesmo quem não entende do gênero artístico.

 

NO TEMPO DA RODA CONSUMISTA E AS TRISTES DESIGUALDADES SOCIAIS

A roda girou outra vez tão rápida no gigante Brasil das profundas desigualdades sociais, que só fazem aumentar, com mais gente pobre e na extrema linha da pobreza, e chega o impetuoso tempo consumista das compras supérfluas e dos banquetes comedeiras de final de ano! É o Natal com suas cores alegres e tristes, das lojas enfeitadas de presépios e papais noéis que não são nossos, dos garotos arrumados fazendo seus caros pedidos e de outros maltrapilhos de pés no chão que descem de seus casebres e ganham o asfalto para angariar uns trocados na desigual realidade da vida.

Será por isso que muitos entram em depressão e dizem que a festa natalina é triste, e outros nem curtem a data? Acho que não seja tanto por este motivo. Por que, então, ela bole com os sentimentos pessoais e é o período das campanhas de doações, de se pedir desculpas e perdão; ter compaixão e de ser mais gentil com os outros? Não é uma hipocrisia, remorso, ou uma forma de se redimir de seus erros e pecados contra seus semelhantes? Não poderíamos ter o lado bom durante todo o ano e sermos mais humanistas?

Certa tristeza na alma

Nesta época do ano, gostaria de fazer um texto falando de coisas boas e agradáveis, mas a situação em que se encontra o nosso país, com os desastres ecológicos, mais de 13 milhões de desempregados e um governo de extrema direita que pouco respeita os direitos humanos e a liberdade de expressão, só me permite que eu sinta, como tantos, certa tristeza na alma nesta data de trenós carregando presentes no gelo, ou melhor seria de velhas carroças neste sol tropical.

As notícias são más, como o julgamento do Supremo Tribunal Federal que vota contra a prisão dos corruptos de “colarinho branco” quando condenados em segunda instância e leva os processos para recursos “ad infinitum” até a prescrição, e ainda vem de lá o IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, justamente neste templo consumista do Natal, nos dizer que nos últimos quatro anos as desigualdades sociais no Brasil só fizeram crescer.

Nos informa que a Bahia, em termos absolutos, é o pior estado da Federação neste item, com mais de sete milhões de habitantes, dos mais de 14 milhões, “vivendo”, ou vegetando com menos da metade de um salário mínimo, o qual não alcança os mil reais mensais. A mídia faz sua média e ganha com a fome e a fartura do comprar.

Num país tão injusto, de enorme concentração de renda, que só faz aumentar através do seu capitalismo selvagem e devorador, onde poucos têm em abundância e muitos não têm quase nada, como falar de um Natal feliz cheio de realizações e sonhos conquistados? Como falar de amor, de poesia doce e de felicidade onde prospera a fome, a falta de educação, de saúde, de habitação digna e de igualdade social para todos?

Vamos ser bons só agora e fazer de conta que tudo vai bem daqui pra frente, dando uma cesta básica, uns brinquedos para umas criancinhas sujas e meladas, uma camisa, um vestido, um sapato ou um cobertor, para apaziguar nossa consciência de tanta indiferença no tempo da competição e da ganância? Poderíamos ter sempre durante todo ano o mesmo olhar e a mesma mão estendida que se abre mais emotiva no Natal do empanturrar e beber.

Em suas castas de panças cheias

Só um tempo de doações e solidariedades não basta para reduzir as mortais desigualdades sociais. No outro dia a barriga volta a roncar, se os homens malvados e capitalistas burgueses lá de cima só pensam em encher suas panças, encastelados em suas castas. Noites de festejos piscinais, banhados aos vinhos, uísques e aos champanhes, enquanto lá fora uma massa ignara lambe os restos das migalhas numa noite quente de suor e lágrimas.

Feliz Natal e uma boa entrada de ano novo, meu amigo camarada! Já comprou o seu presente de papel? É sempre assim todos os anos até que a morte nos separe. E assim segue a roda do consumismo estonteante do jogar mais lixo e sujeiras no planeta; do comprar e comprar, para o mais produzir e produzir sem parar.

O maior presente seria o desconstruir para construir um amanhã mais limpo, mas ninguém quer saber disso. Coisa de idealista utópico, ou poeta sonhador da distopia. Um dia pode não haver mais Natal e fim de ano para comemorar. Só o tempo e o vento num deserto de poeiras, sem gente, sem vida, sem flora e sem fauna, numa eterna escuridão. Não é nenhum filme de terror.

OS MORTOS E OS VIVOS

Existem os vivos mortos que passam a vida sem ser vivida e nem sabem que já morreram. Existem também os mortos vivos que nunca são esquecidos pelos seus feitos e que deixaram exemplos para serem seguidos pelos passageiros dessa chuva. Os caminhos podem ser  diferentes, mas todos se encontram lá, em algum lugar que cada religião tem sua explicação. Acreditar nas versões diferentes não é importante. O que mais importa é definir o seu existir e continuar vivo, mesmo depois de morto. Foi tudo isso que as lentes do jornalista Jeremias Macário flagrou no Dia de Finados, no Cemitério da Saudade, que o próprio nome já diz tudo.

O SOL ESTÁ CAINDO

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

Vê lá no pé da serra, moço!

No infinito do horizonte,

No rasante cor de sangue,

Duelo bang-bang de gigante

Onde uma morte cai na terra,

No beijo da noite com o dia,

Vadia o sol dourado na penedia.

 

O sol está caindo na flora,

Bailando ao som da viola,

Sem o barulho infernal da cidade,

Viola que chora a dor da saudade.

 

O sol está caindo despedaçado,

E a escuridão abrindo seu portal,

Para entrar os anjos e os fantasmas

Dos filósofos andantes e poetas

Nessa lida de tantos nós pra desatar,

De tantos profetas a nos avisar

Que o nascer traz a morada mortal.

 

O pôr-do-sol está caindo

Para quem fez a sua jornada,

Na poeira dessa longa estrada

Entre canções, açoites chicotadas,

Na aurora traz raios de luz a clarear

As veredas das intrincadas ciladas

Que as estações chamam de amor

No espiar do tempo, nosso senhor.

 

 

 

“ANDANÇAS” É UMA OBRA QUE MISTURA REALIDADE COM FICÇÃO

Com causos, contos, histórias e poemas, muitos dos quais musicados por artistas locais e até do Ceará (Fortaleza), o novo livro “ANDANÇAS”, dois em um, do jornalista e escritor Jeremias Macário, mistura realidade com ficção e foi lançado em ´várias cidades da região, incluindo Vitória da Conquista, entre em junho e julho deste ano, com previsão para Salvador.

Em Conquista, o livro pode ser encontrado nas livrarias Nobel e na Banca Central, na Praça Barão do Rio Branco, bem como “Uma Conquista Cassada-cerco e fuzil na cidade do frio”, que fala sobre a ditadura civil-militar de 1964 e está sendo recomendado por professores de história do ensino médio e universitário.

Obras indicadas

“Andanças” é também uma obra que está sendo bem aceita pela sua linguagem acessível a todos, e também pelo seu realismo fantástico que fala de ódio, de amor, emoção, paixão, sentimentos e comentários de fatos que aconteceram em Conquista, na Bahia e no Brasil, como da ditadura de1964, mas com outra abordagem bem mais leve e curiosa. Dentro do livro tem ainda a parte “Na Estrada” que são poemas da lavra do autor que fala de diversos temas.

O livro esteve presente na solenidade comemorativa dos 100 anos de emancipação do município de Guanambi (14 de agosto), e foi sucesso de público e depois comentado pelos leitores que adquiriram o trabalho do jornalista Jeremias Macário. Ambos os livros receberam moções de aplausos da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista.

Além das livrarias Nobel (rua Otávio Santos  e Shopping Conquista Sul) e na Banca Central, a obra pode também ser adquirida diretamente do autor através do telefone 77 98818-2902, ou pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br. Vale a pena conhecer suas histórias, causos, contos e poemas, muitos dos quais musicados por artista

QUEM VAI REEDITAR O AI-5?

Há 51 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, o Brasil fervia com os movimentos políticos encabeçados pelos estudantes (a UNE), em conjunto com lideranças da reforma agrária, professores, uma ala mais progressista da Igreja Católica e operários, contra o regime ditatorial militar implantado com o golpe de 1964. O clima era tenso nos quartéis (generais da linha dura) e nas ruas, com prisões, torturas e cassações de parlamentares. O Rio de Janeiro pegava fogo com a “Marcha dos 100 Mil” depois da morte do estudante Edson Luiz, no restaurante Calabouço.

Naquele dia fatídico, a cúpula do governo Costa e Silva se reuniu com seus principais ministros e resolveram decretar o Ato Institucional número 5, o mais perverso e o pior de todos, significando um golpe dentro do golpe de 64, com o fechamento do Congresso Nacional, mais cassações, censura dura contra a imprensa e às artes em geral, proibição de reuniões e outras medidas opressivas contra a liberdade de expressão. Foi o início dos anos de chumbo quando logo mais o general Médici assumiu a presidência da República.

O resto não é preciso dissertar porque muitos já sabem da história, especificamente os mais velhos (a maioria dos jovens, infelizmente, desconhecem os fatos). Ao completar 51 anos, aparece um deputado maluco de extrema, antidemocrático, de ideias retrógradas, pregando a reedição do AI-5 num Brasil já arrasado, dizendo que se a esquerda engrossar o caldo com manifestações do tipo chilena, a história pode se repetir.

Quem está por trás disso tudo?

Uma pergunta que não quer calar: Quem está por trás do recado ameaçador feito à nação pelo deputado Eduardo, filho do capitão-presidente, que já disse de certa feita que para fechar o Supremo Tribunal Federal bastaria um soldado e um cabo?  Ele mesmo vai reeditar o AI-5, dando um golpe no próprio pai, ou tem um grupo linha dura ligado à presidência, na espreita para decretar o terror no país?

A sua fala dá a impressão que ele é o porta-voz de um grupo carrancudo, carrasquento que não vai tolerar uma convulsão social no nível do Chile que reuniu nas ruas mais de um milhão de pessoas. Soa como se fosse um aviso aos brasileiros para que não se atrevam a fazer o mesmo, porque senão o pau vai comer. Soa também como uma afronta às instituições que já não são tão sólidas assim.

Muita gente, principalmente os nossos jovens de hoje, pouco entendeu do seu recado atrevido, porque não sabe o que foi esse tal sujeito tirânico AI-5 de 1968, daí a importância de que cada um deve conhecer sua história passada para que ela não se repita. Quem acha que a terra é plana, que o homem não pisou na lua, também não acredita que houve ditadura, nem inquisição e nem tortura.

É muita ousadia o cara pregar em público a volta do AI-5, e num tom como se ele estivesse sendo respaldado por uma ala golpista, tendo em vista que o pai quando era deputado declarou que se fosse eleito presidente da República fecharia o Congresso. Vale salientar, e é bom que se leve em conta, que hoje os generais, coronéis, majores e capitães ocupam os maiores cargos do governo.

Atentos e vigilantes

Entre esses militares, não há dúvida que muitos pensam como o deputado, e outros mais sensatos não comungam da mesma ideia malvada e tirânica. Diante disso, todos, especialmente as entidades e instituições, devem sempre estar vigilantes e não subestimar, deixando de levar a ameaça a sério, ou afirmando que não passa de uma fantasia da cabeça dele. Pouca gente também acreditava que a extrema-direita chegaria ao poder, e que o Bolsonaro seria eleito.

Culturalmente, o povo brasileiro sempre foi submisso, cordeiro e de pouca reação e, no momento, está dividido entre vermelhos e os de camisas amarelas, que se odeiam entre xingamentos e intolerâncias de todo tipo. Essas ideologias desorganizadas se revezam e se alternam nas manifestações, tornando até monótonas e chatas, com os chavões de sempre. Não existe um alinhamento, e cada um, de cartaz na mão, se apresenta com seu pedido individual, sem agir e penar coletivamente.

É uma realidade bem diferente de outros povos latinos, se bem que com sofrimentos e injustiças sociais do mesmo quilate e, em algumas questões, até pior. Tudo já aconteceu aqui nos últimos anos para que houvesse uma convulsão social, mas tudo na vida tem o seu limite, e uma panela com muita pressão pode explodir a qualquer hora. Não há tampa que resista e tudo pode ir aos ares,

 

CULTURA NO ESPAÇO

O maluco quer reeditar o tenebroso AI-5 dos anos de chumbo, com o fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e criar o belzebu da censura contra as artes e à nossa combalida cultura, que divulgamos e aprendemos nos encontros do nosso Sarau Espaço Cultura. Quem vai reeditar o abominável AI-5 do dia 13 de dezembro de 1968? Querem tocar fogo nos livros e proibir reuniões. São os inimigos da cultura, que devemo estar vigilantes e combatê-los com todas as nossas forças. Não podemos deixar a volta desses malignos nazifascistas. Não vão mais tirar a nossa liberdade de expressão. Esses psicopatas têm que passar pelos nossos cadáveres. Reage Brasil!

SENHORA PARTEIRA

Poema do jornalista Jeremias Macário. Promete ser musicado.

Está praticamente no ponto.

 

Pelas mãos com cheiro de chão,

Da dona senhora nossa parteira,

Naquele rancho no pé da serra,

No aboio lamentoso do sertão,

Mirrado nasci de mãe roceira,

De um pai a lavrar a seca terra;

Sou filho do ventre nordestino,

E também destino certo da morte

Que ronda a vida e sempre vem.

 

Minha senhora mãe parteira

De muitos compadres rezadeira

Que já pegou na vida mais de mil

Sem do pobre cobrar o metal vil.

 

Vixe mãe Santa Nossa Senhora!

Geme a mulher na cama de dor!

Vai homem chamar dona parteira!

Que meu filho não morra de sete dias

Da fome tirana levar Josés e Marias;

Vai homem buscar nossa parteira

Que já viu cabra crescer trabalhador

E muita gente que virou até doutor.

 

 

 

Ave! mãe senhora parteira

De todos caminhos estradeira

De espinhos, veredas e poeiras;

Dia e noite das cancelas e porteiras;

Boa de prosa que ora rir, ora chora,

Pra no bom parto a mulher parir

Abençoar mais a luz desse existir;

E também reza uma reza penosa,

Na rasa cova angelical que partiu.

 

 

 

 

RESISTÊNCIA NA AMÉRICA LATINA E UM PAÍS A SE ISOLAR NO CONTINENTE

Com uma ideologia ultraconservadora de surtos agressivo, onde todo o contraditório virou um monstro de esquerda comunista, em sua estreita visão, o governo do capitão-presidente caminha para um isolamento do Brasil na América Latina, especialmente na região Sul. As resistências de convulsões sociais no Chile, no Equador, na Colômbia, Paraguai, na Bolívia; e as eleições na Argentina, onde a linha peronista saiu vencedora, e logo mais no Uruguai, sem contar o acirramento com a Venezuela, estão levando a esse isolar-se.

De tanto criticar o Maduro de ditador do socialismo e destilar sua raiva contra Cuba, o Brasil pode se transformar numa Venezuela ao contrário, num regime autoritário de extrema-direita. Agora mesmo, o capitão se acha um leão conservador da pátria, acossado por hienas e ataca as instituições (Supremo Tribunal Federal -STF, a imprensa, os partidos de oposição e até a ONU).

A família (pai e os três filhos) detesta a democracia, e isso vem sendo revelado desde a década de 1990. É uma maluquice, ou uma psicopatia pela volta da ditadura? Muita gente não tem levado a sério o que está acontecendo, e até acha graça dos impropérios e afrontas à democracia e à liberdade de expressão. Antes, ninguém acreditava que ele seria eleito com o seu discurso conservador e de discriminação às minorias.

A favor da tortura e retrocessos

Ele e os filhos já se posicionaram a favor da tortura e até da arcaica prática do pau-de-arara, e que tem que matar 30 mil. Em 1990, o clã chegou a afirmar que se fosse eleito presidente da República mandaria fechar o Congresso Nacional e daria um golpe. O filho Eduardo falou, há pouco tempo, que para fechar o STF bastaria um soldado e um cabo. Com relação aos movimentos no Chile, disse, na Tribuna da Câmara, que se essas manifestações chegarem ao Brasil, a história irá se repetir, referindo-se ao golpe ditatorial de 1964.

Cabe aqui assinalar, dentro deste quadro de distanciamento, a diplomacia desastrosa com os governos do continente sul-americano, bem como da Europa (caso do fogo na Amazônia). Em nossa recente história, saímos de um ciclo conflituoso ruim, de escândalos vergonhosos, do raivoso “nós contra eles”, para um outro pior de retrocessos e fechamentos no âmbito interno e externo (censuras às artes), onde o nosso país intolerante, ora dar um passo para frente e dois para trás.

O mais perigoso aqui é estourar uma convulsão social do nível do Chile onde mais de um milhão de pessoas foram às ruas protestar, no início pelo aumento nas tarifas do metrô, mas logo se alastrando para reivindicações salariais e outros benefícios, visando reduzir a desigualdade na distribuição de renda que lá ainda é grande, mesmo se tratando de um país estável em sua economia.

Uma realidade dividida

Ouve-se comentários por aí que o Brasil corre o risco de também acontecer uma convulsão social. Não que não exista clima propício para tanto, como as injustiças e as profundas desigualdades sociais (as maiores do mundo), com a educação e a saúde em farrapos, mas, trata-se de uma realidade diferente no que concerne o nosso povo.

Primeiro é um país dividido, onde há uma aferrada disputa ideológica entre as partes (vermelhos e amarelos), com manifestações alternadas de xingamentos e ódios entre si, sem um sentido coletivo, unidos e de bem-estar para todos, em defesa de uma pátria melhor. Segundo, o Brasil tem um povo culturalmente submisso que carrega a pecha colonial do complexo de inferioridade, ou de vira-lata, como dizia Nelson Rodrigues. Difícil de se indignar e se revoltar em rebeliões, fazendo uma revolução de verdade.

Terceiro, caso isso ocorra, como já foi visto acima nas palavras dos “bozonaristas”, existe um grande perigo de enfrentamento nas ruas entre civis e forças armadas (o país está praticamente sendo comandado por generais no poder e uma grande ala conservadora), culminando até num golpe militar, se bem que o Brasil ficaria numa posição mundialmente mais crítica do que já vive lá fora. O isolamento seria ainda mais profundo.

Como já está, com estes embates rústicos e grosseiros para um presidente destemperado no tratamento, num viés fascista, o isolamento do Brasil na América do Sul não seria uma verdadeira ruína apenas para a economia (a Argentina é um dos maiores parceiros comerciais do nosso país, inclusive com superávits na balança exportação x importação), como também nos relacionamentos interpessoais e culturais.

Desde o início do ano (10 meses) a imagem do Brasil lá fora, não somente na América Latina, principalmente com relação aos cuidados com o meio ambiente e os direitos humanos (xenofobia, homofobia, racismo, violência militar), nunca esteve tão chamuscada ou queimada em toda sua história, sendo alvo de chacotas e piadas.

A única saída para o Brasil, se o quadro de retrocessos permanecer e a incompetência se acentuar, é procurar intercâmbios somente com países ditatoriais de direita, com exceção dos Estados Unidos, de Trump (ameaçado ser cassado), que muito pouco têm a oferecer. Não acredito nesses bilhões dos árabes, que não se dão com Israel, e mudam rapidamente de direção. Vamos preferir ser um povo isolado do resto, com esse papo de soberania e pátria amada que, na verdade, está sendo maltratada e pisoteada, e que não sabe cuidar bem de seus filhos?





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia