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UM PAÍS FAMÉLICO E UM DOS MAIORES PRODUTORES DE ALIMENTOS DO MUNDO

Nossos contrastes e paradoxos estão visíveis em todas as partes no campo político, social, econômico e educacional. A começar, somos uma país rico de um povo historicamente pobre e desigual. As riquezas naturais são imensas e belas, mas estão sendo destruídas, casos específicos dos nossos biomas pantanal e amazônico, sem falar do cerrado, da caatinga, da mata atlântica e dos pampas.

O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o vice-campeão, mas é também um país de gente famélica de cerca de 50 milhões de habitantes que têm profundas deficiências nutricionais. Uma grande parte populacional vive à base do feijão com arroz, isto quando consegue comprar esses produtos, agora os vilões dos altos preços.

O Nordeste é a região que mais passa fome (só na Bahia quase um milhão), tanto que seu povo apresenta deficiências em sua estrutura física em termos de tamanho e massa corpórea. Morre-se mais cedo. É onde está o maior índice de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, que mal fazem uma refeição por dia. Nossas crianças já nascem sem futuro.

Tudo isso é muito irônico e vergonhoso quando o Brasil é o maior produtor de café, de soja e carne bovina do mundo.  É também um dos maiores na produção de frutas, hortaliças, milho, cana-de-açúcar, carne suína e avícola. Temos comida para abastecer parte do mundo.

Mesmo com essa grandeza, falta alimento na mesa de milhões de brasileiros, principalmente agora com a alta inflacionária que incide sobre esses produtos, a maioria com preços cotados no mercado internacional. O economista pode até explicar esse processo cambial do sistema capitalista da oferta e da procura que faz os preços oscilarem, mas não convence o pobre quando se trata de barriga vazia. Nas sinaleiras crescem o número de cartazes avisando “Tô com fome, ajude!

Além dessas matérias-primas agrícolas de exportação, onde o Brasil é autossuficiente, existem produtos, a exemplo do arroz, que o país é deficitário, isto é, o consumo é maior que a demanda, mas, mesmo assim, a preferência é exportar para o exterior. O contraste é que toda produção é vendida lá fora, e o governo é obrigado a importar o arroz de outros países asiáticos a um custo maior. Lá se vão nossas reservas cambiais.

A agropecuária no Brasil é altamente subsidiada, a começar pelo crédito a juros mais baixos, e quase tudo que produz é comercializado para fora, na cotação internacional. Então, o brasileiro de menor poder aquisitivo paga o mesmo valor de outro país, cujo povo possui melhores condições financeiras.

Outra ironia que pagamos por essa política de priorizar o mercado externo é que os produtores sempre se fazem de “bonzinhos”, dizendo que são responsáveis por colocar comida em nossas mesas, o que é uma mentira. Acima de tudo, o negócio deles são os dólares, e quem puder que siga o câmbio. Os outros que passem fome. Isso, no mínimo é desumano.

Existe também outra ironia e paradoxo. Para o exterior, os alimentos de melhor qualidade, como a manga, o mamão, o melão, a carne e outros itens, que são selecionados para esse fim. O consumidor brasileiro fica com a parte inferior, com o refugo e as sobras, pagando o mesmo valor. As frutas, principalmente, estão carregadas de agrotóxicos venenosos.

Quem ainda ameniza essa situação de penúria e não é reconhecido pelo governo, especialmente o atual, é o agricultor familiar que dá um duro danado, sem recursos para aumentar a produtividade e enfrentar as adversidades climáticas. Este ainda é roubado pelo atravessador; termina ficando praticamente sem nada; e passa necessidades também, inclusive fome.

O familiar ainda tem a virtude de preservar o meio ambiente. O contrário do agroindustrial que derruba e queima nossas florestas para plantar soja para a China. Para quem está distante dessa cruel realidade fica até com pena quando vê um empresário desse setor se queixando e derramando “lágrimas de crocodilo”. Eles não estão nem aí para quem está passando fome. É a lei do mais forte. Como educar um país famélico? Sem educação não existe desenvolvimento, e as desigualdades sociais só aumentam.

O PÂNICO DA ENTREVISTA DE EMPREGO

Dentre de muitas coisas nesse Brasil tupiniquim, uma que sempre me deixa encabulado e intrigado é quanto a etiqueta padronizada para a tão temida entrevista de emprego. Os consultores da área de recursos humanos, especialmente, criaram um pânico no entrevistado frente ao entrevistador.

A entrevista de emprego passou a ser mais difícil que um concurso, ou uma prova de conhecimento. A tal entrevista está acima até do que qualquer teste psicológico. É o bicho papão dos candidatos que já entram tremendo na sala do ilustre avaliador. Na véspera, o pretendente a uma vaga não consegue dormir à noite. O cara tem que ter um treinador especial no assunto, como o advogado faz com sua testemunha antes de se apresentar numa audiência judicial.

Para a entrevista, existe uma vestimenta apropriada, corte de cabelo adequado dentro das normas, unhas bem aparadas, perfume certo para a ocasião, maneira correta de se sentar, como pegar na mão (agora não pode por causa da pandemia), como piscar o olho, sapato impecável (nada de tênis), cores da camisa ou da calça (vestido ou saia se for mulher), gestos refinados, entre tantos outros infindáveis protocolos de conduta.

Jamais invente de ir de chapéu ou boné meu caro amigo interessado por um trabalho em qualquer empresa pública ou privada. Gostaria de saber desses orientadores de entrevistas se isso tudo identifica a verdadeira personalidade do indivíduo? Muitas vezes, o homem ou a mulher, seguem essas regras de certinhos, mas quando estão lá começam a mostrar realmente quem são.

Acho tudo isso uma babaquice inútil dessa fútil sociedade que só dá valor para a aparência do vestir e do se comportar falsamente. Afinal de contas, vivemos num sistema repleto de regras e, infelizmente, temos que seguir as normas para a própria sobrevivência do ganha pão. O mercado de trabalho está aí, e é ele quem dita como você deve se apresentar, senão terá a cabeça cortada.

Por falar em entrevista, queria aproveitar para deixar um recado para nossos coleguinhas jornalistas. A maioria deveria voltar a frequentar uma sala de aula na faculdade, para aprender como fazer uma entrevista que renda uma boa matéria. Essa entrevista de que estou falando, não tem nada a ver com a outra de emprego.

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS”

O livro “Intelectuais das Áfricas”, organizado por Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, é uma obra elaborada e comentada por várias cabeças intelectuais, inclusive conta com a colaboração do acadêmico e professor Itamar Pereira Aguiar, que nos adiantou já ser um sucesso de leitura, colocado como o 12º mais procurado no Amazon.

Não resta dúvida ser um trabalho inestimável em termos de contribuição para o conhecimento humano sobre o continente africano, e de grande valia para estudantes, professores, cientistas políticos e outros interessados pelo assunto, principalmente em salas de aulas.

Como o próprio título já diz, acadêmicos e estudiosos se debruçam em traduzir o pensamento de grandes intelectuais da África que abriram o desconhecido e construíram pilares culturais mais sólidos rumo a novas mudanças políticas continentais, especialmente no pós-colonialismo europeu.

“Intelectuais das Áfricas” é prefaciado pelo filósofo Renato Nogueira que abre o texto com Anta Diop, citando o professor Leakey na questão do povoamento do mundo onde viviam os primeiros seres na região dos Grandes Lagos. “Isso quer dizer que toda raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua” –

No quesito civilizações humanas, de acordo com Nogueira, a África é o continente mais antigo do planeta. Em referência aos intelectuais, objeto de abordagem do estudo, o filósofo destaca o senegalês Cheikh Anta Diop que, de uma forma ou de outra, influenciou o mundo acadêmico africano.

Para o prefaciador do livro, Diop foi o primeiro grande intelectual africano do século XX. Foi ele que deu voz em favor do protagonismo investigativo de africanas e africanos para contarem sua própria história, apresentando suas teses sobre os fenômenos filosóficos, sociais, artísticos, científicos e políticos – disse. Diop abriu caminho para todos os outros que vieram depois.

Em seguida, Nogueira aponta Achile Mbembe, Valentim Mudimbe, Paulim Jidneu, Malek Chebel, Fatema Mernissi (marroquina), Osmane Sembene, Fela Kute e o afrobeat Wole Soynka, Uanhenga Xitu, Mia Couto, Chimamanda Adichie (feminista nigeriana), Pepetela, Amílcar Cabral e Frantz Fanon. Todos eles “usam um sotaque africano para expor o que pensam”.

Nogueira fala de Isabelle Christine de Castro que faz um retrato de Fatema como uma das pioneiras no projeto de fazer uma tradução sociológica e jurídica do lugar feminino no mundo do islamismo, com uma crítica do lugar patriarcal.

Outro que fez uma incursão na cultura árabe-islâmica foi o argelino Chebel, ao argumentar que o islã  não se opõe ao ocidente. Nesse capítulo do livro, quem faz a apresentação de Chebel é o acadêmico Murilo Sebe Bon Meihy. Quem traduz o pensamento do filósofo Valentim é Regiane Augusto de Mattos. Na sua visão, Valentim é um intelectual feito no mundo colonial, herdeiro de uma tradição cultural africana, formado pela cultura católica beneditina.

Na obra aparece o professor Itamar Aguiar que descreve o pensamento do costa marfinense Paulim Jidenu. “Aguiar tem a felicidade de fazer uma bela radiografia da trajetória e interesses intelectuais de Jidenu”. Trata-se de “um filósofo influente que abriu várias linhas de investigação, incontornável quando o assunto é história da filosofia africana contemporânea” ´ressalta Nogueira.

Do nigeriano Soynka, o autor do prefácio cita seu livro “O Leão e a Jóia”. Para ele, é um trabalho onde a modernidade e a tradição disputam protagonismo na África do presente. Quem fala da literatura de Soynka é Divanize Carbonieri.

Sobre Antônio Emílio Leite Couto, Mia Couto, muito conhecido no mercado literário de língua portuguesa, Tânia Macedo abre seu texto tecendo comentários sobre uma entrevista dado pelo intelectual moçambicano onde declara que deixou a militância política para continuar fazendo política através da sua escrita.

Quem também passou a fazer militância política através da literatura foi o angolano Uanhenga Xitu. Quem se debruça sobre ele no livro é Washington Nascimento. Xitu esteve ligado às missões cristãs, inicialmente ligadas à Igreja Católica, e depois acolhido por grupos protestantes. O intelectual chegou a ser membro do Movimento Popular de Libertação de Angola.

O historiador Silvio de Almeida Carvalho Filho escreveu sobre o escritor angolano Artur Carlos Maurício dos Santos, conhecido como Pepetela. O capítulo escrito por Amilton Azevedo apresenta Fela Kuti, um dos grandes nomes da cena musical mundial, “uma reinvenção da África imersa no contexto daquilo que passou a ser chamado de renascimento africano”

Amílcar Cabral, de Guiné-Bissau, foi uma figura marcante no processo político de descolonização africana. Fábio Baqueiro deixa explícito que Cabral, apesar de ter vivido pouco (assassinado aos 48 anos), foi um ativista e líder político que influenciou todo o continente.

Muryatan Barbosa escreve sobre Frantz Fanon, que viveu apenas 36 anos, mas que foi um divisor de águas para os estudos pós-coloniais, segundo Renato Nogueira. Fanon foi um pensador muito lido pelo Movimento Negro no Brasil, nos anos 70.

E, finalmente, José Rivair Mecedo, apresenta o camaronês Achile Mbembe, um dos maiores intelectuais públicos do mundo contemporâneo. “Este livro cumpre o papel de provocar com a devida qualidade, mobilizando leitoras e leitores para descolonizar a África, abandonar ficções míticas sobre o continente, injetando em nossos corações e mentes, doses largas de elementos críticos para releitura da realidade” – finaliza Nogueira.

 

 

SUAS “EXCELÊNCIAS” SÃO DIPLOMADAS E FAMÍLIA DE CIGANOS FOGE DE ABRIGO

Esse enredo ainda não teve um final conclusivo, e não terá, que seria a apuração rigorosa dos fatos que já resultaram na morte de oitos ciganos de uma mesma família (um menor não está na conta).

Pelas informações da Polícia Civil, eles e o pai, de 58 anos, que se encontra preso, participaram, no último dia 13 de julho, no distrito de José Gonçalves, em Vitória da Conquista, do duplo assassinato do tenente Luciano Libarino Neves e do soldado Robson Brito de Matos.

Enquanto a tragédia, com requintes de violência, escorraçou os ciganos de Conquista, suas “excelências” foram diplomadas com elogios pela atuação, como o 1º cl Cleonildo Silva Lima, lotado no 3º Pel/Anagé pela diligência que culminou na apreensão de três armas de fogo e auto de resistência de três ciganos que, de acordo com a própria corporação, fizeram parte dos assassinatos, no dia 13 de julho.

A diplomação não fala explicitamente em mortes, cujos cadáveres foram vilipendiados (profanados) no Hospital de Anagé). A condecoração lembra coisa de período de guerra contra um inimigo externo. Será o caso dos ciganos? Devemos comemorar operações que resultam em mortes de seres humanos? Ou eles não são?

Nessa “guerra” de violências, doze pessoas da etnia cigana fugiram de um abrigo do Programa de Proteção a Vítimas de Testemunhas (Provita/SP) porque descobriram que o dono da casa alugada para protegê-las seria de um policial militar, segundo informações do presidente do Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro. É o mesmo que colocar a raposa no galinheiro. Se é verdade, que proteção é essa?

Entre essas pessoas está a matriarca de 52 anos que teve oito filhos mortos em confronto com as guarnições da polícia militar, conforme notas divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Outros dois filhos estão foragidos. Com a mulher estão ainda quatro noras viúvas e sete crianças (seis netos e uma filha). Sabe-se que uma outra filha também se encontra em local ignorado, com três filhos.

Segundo Rogério, o grupo que fugiu apavorado do abrigo foi resgatado em uma rodoviária, com ajuda de outras famílias ciganas, e encaminhado a outro local mais seguro. Disse que essas pessoas precisam de ajuda, pois saíram de Conquista sem nada levar, como nos velhos tempos das correrias ciganas.

Ainda muito abalada, a matriarca da família divulgou um áudio onde implora que os filhos foragidos se entreguem à Polícia Civil. Ela se dirige, principalmente, ao mais jovem, afirmando que está sofrendo muito com a morte de seus oito filhos e teme pela vida dos demais.

Em matéria no jornal “A Tarde”, edição de ontem (dia 5/08), a assessoria da Polícia Civil confirmou que o procedimento com relação ao duplo homicídio dos policiais militares foi concluído na semana passada pela DH-Conquista, e está sendo encaminhado para a Justiça. Diz a nota que os detalhes do caso não estão sendo divulgados nesta fase das investigações.

 

“OS MASCARADOS”

Há mais de um ano e meio que fazemos o papel de “os mascarados” (nem todos), como se fossemos guerrilheiros de alguma facção política ideológica, criminosos, testemunhas que não podem ser reconhecidas ou policiais em missões de risco de vida, tudo por conta da pandemia da Covid-19, que já ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros. Hoje as máscaras estão por todas as partes, em farmácias, lojas de materiais de saúde e nas esquinas sendo vendidas até por camelôs, como na foto do jornalista Jeremias Macário. É uma forma de proteção contra o perigoso vírus que mata e deixa sequelas no ser humano. É altamente contagioso, mas, infelizmente, ainda tem muita gente negacionista da ciência que se recusa usar a máscara, que já faz parte da nossa indumentária. Essas pessoas, que não respeitam a vida dos outros, são as mesmas que escolhem qual vacina tomar, e desclassificam outras como imprestáveis, ou que são apenas água. Para a Covid, temos a vacina como saída única para a cura, mas para tratar a mente dessas pessoas, não há vacina que cure e salve.

O GARIMPEIRO E O DIAMANTE

Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

“Quem não aguenta subir serra,

Não arranca candombá”,

Para extrair o diamante da mãe terra,

Consulta Curador Jarê caboclo orixá.

 

O garimpeiro da Diamantina Minas Gerais,

Cortou morro estrada até Mucugê Sincorá,

Das grunas dos olhos d´água, feras animais,

O pedrista lapidário faz do diamante colar.

 

Reza a lenda, todo diamante tem seu dono,

E o garimpeiro entra no túnel da encantaria,

Na Chapada Diamantina sonha em seu sono,

Encher de luxo brilhante sua amada Maria.

 

De Andaraí, Lençóis e das Palmeiras,

Nasceram bravos coronéis das Diamantinas,

E o garimpeiro no bambúrrio das cascalheiras,

Vendeu ao capangueiro suas amantes meninas.

 

Fantasias, cânticos, ritos, rituais e cultos,

Deuses sagrados e oráculos dos profanos,

Ainda se vê nos rios e vales alguns vultos,

Piçarras e mosquitos, perdas daqueles anos.

 

Um diamante apareceu no fundo da bateia,

Santo vaqueiro do eito, atabaque da magia,

Como nas bonanças das Lavras uma sereia,

Da Poíesis grega brotou do humano a poesia.

 

Senhor dos Passos dos mineiros padroeiro,

No enlace místico religioso afro-brasileiro.

ALÉM DO IPTU, PREFEITURA QUE COBRAR TAXA DE LIXO DO POVO

A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista voltou ontem (dia 4/08) do recesso parlamentar (haja recesso no ano!), com uma extensa pauta de requerimentos, indicações, moções de aplausos e alguns projetos-de-lei do executivo municipal, dentre os quais, a malvada taxação do recolhimento do lixo dos moradores que já pagam um caro IPTU.

A princípio, esse projeto representa um duplo imposto, tendo em vista que o povo já arca com o pesado IPTU todos os anos, e poucos benefícios recebem. Muitas ruas e bairros periféricos de Conquista continuam, há muitos anos, sem calçamento e serviços de esgoto. O brasileiro em geral já não suporta mais tantos impostos, num Estado que recebe o máximo e retribui o mínimo para a população.

O pior de tudo isso é que a maioria dos 21 vereadores (uma bancada que poderia ser reduzida pela metade se vivêssemos num país sério) aprova o projeto da prefeita. Então gente, prepare o bolso para mais um escorcha contra o contribuinte que já sofre com os preços dos combustíveis (Conquista tem os mais altos da Bahia), do gás e da ascendência inflacionária dos produtos alimentícios.

Para não dizer outra palavra, ou palavrão, é um absurdo, e uma falta de respeito contra o eleitor que deu seu voto, acreditando que os vereadores fossem lhe representar e lhe defender no legislativo. Nessa primeira sessão, depois do recesso, o conquistense recebe uma porrada traiçoeira.

Por causa da segunda onda da pandemia no início do ano, quando as sessões estavam sendo praticamente virtuais, ontem os trabalhos foram abertos à população, mas dentro dos protocolos recomendados de distanciamento entre as cadeiras, com álcool gel e máscaras, entre outros cuidados.

 

NÃO TRAUMATIZE MEU CHAPÉU!

Antes uma peça que fazia parte da indumentária do homem e da mulher, com toda sua elegância nas ruas, restaurantes e eventos festivos, o chapéu é por muitos visto hoje de forma discriminatória e com preconceito. Em tempos passados, ele desfilava soberano, inclusive pela nobreza, reis e rainhas.

Para o homem, por exemplo, ele não é aceito em determinados lugares solenes, reuniões, seminários, e nunca numa audiência judicial em frente ao um juiz. Numa entrevista de emprego, nem pensar! O cara que se atrever a ir de chapéu, será logo eliminado.

Lembro ainda menino que meu pai me obrigava a usar o chapéu na roça e quando ia à cidade, sob o argumento de proteção contra o sol. Com seu jeito matuto catingueiro de ser, ele dizia que o sol “cozinhava o juízo”, o que não deixa de ter certa razão. Livrei-me dessa exigência quando fui estudar, mas voltei ao hábito nos finais de semana nos anos 70, porque como repórter de redação, o jornal não admitia no trabalho.

No entanto, passei a adotar o chapéu, com maior frequência, quando vim assumir a Sucursal do “A Tarde”, em Vitória da Conquista, em 1991. Nos últimos anos, ele passou a ser minha marca registrada e não saio sem ele, embora impedido, ou autocensurado quando raramente entro num templo religioso, como na Igreja Católica.

Podem me criticar e até me chamarem de ignorante, mas não consigo entender o porquê consideram ofensa entrar numa Igreja de chapéu! Ele é tão imoral que constitui uma profanação à Santíssima Trindade? Na Igreja ele é um excomungado! Não posso falar com o Senhor Cristo com o meu chapéu? Será que Ele deixa de me atender por isso?

Por que o tabaréu, principalmente, quando fala em Deus tem que tirar o chapéu? Por que não se pode orar ou rezar com o chapéu? Ele é tão pecaminoso e símbolo de heresia?  Esses conceitos não entram em minha cabeça que sempre está coberta pelo meu querido companheiro chapéus.

Outra discriminação é quando se entra num restaurante. Na hora de comer, o sujeito tem que tirar o chapéu para não ser julgado como mal-educado e desrespeitoso com o ambiente. Existe alguma explicação plausível para isso? Se o argumento for bem lógico, quem sabe, poderei acatar, mas meu chapéu não vai gostar nada disso, e nunca vou abandoná-lo. Vai ficar magoado e com traumas para o resto da vida, mas ainda do que ele já sofre.

Bem, tenho uma pequena coleção de cerca de 160 a 170 chapéus, e sempre digo a eles que tudo isso não passa de mais um preconceito. Quando vou sair, é uma gritaria danada para me acompanhar. Para agradar a todos, costumo sempre sair com um diferente, muitas vezes de acordo com as estações do ano.

Tenho procurado, com meu jeito de conversar, contentar a todos e dar uma de psicólogo para que não se sintam rejeitados ou frustrados por essa gente preconceituosa. Só pediria que deixem meu chapéu viver em paz. Não incomoda, e nem fala mal de ninguém.

A MATANÇA DOS CIGANOS

Desde o dia 13 de julho foram mais de 15 dias de perseguições, espancamentos, torturas e mortes de oito ou nove ciganos, inclusive de menores, todos, segundo informações da polícia. em confronto. De preso mesmo só o pai Rodrigo, de 58 anos, que foi ferido e hoje se encontra preso. Essa pessoa até agora, que eu saiba, não foi ouvida e entrevistada pela mídia, para contar a verdadeira história. Teve gente que nem era cigano.

Trata-se de mais um caso nos moldes de uma chacina que logo cairá no esquecimento, ou como se diz, vai para o rol dos arquivos mortos de Vitória da Conquista, como tantos outros, como dos assassinatos do marinheiro numa cadeia de uma delegacia, do prefeito de Manuel Vitorino, do massacre num bairro periférico da cidade, do dono do jornal, João Alberto, do menino Maicon alvejada com uma bala numa operação policial e de tantos outros.

Tudo começou no dia 13 de julho quando dois soldados foram mortos por um grupo de ciganos, no distrito de José Gonçalves. O comando da PM e o próprio secretário de Segurança Pública sempre insistem em dizer que eles sofreram uma emboscada quando faziam uma investigação, o que não bate. O fato está envolto em mistério e em vários pontos cegos do esclarecimento. Não houve transparência, conforme apuração do próprio Instituto dos Ciganos do Brasil. É subestimar a nossa inteligência”

Além das mortes, sempre em confronto, como já se costumou propalar nesses crimes que têm a marca da vingança, houve uma generalização com fortes sinais de preconceito, que o próprio povo cigano sempre sofreu desde as eras antes de Cristo. A violência de soldados da corporação foi tão brutal que muitos ciganos foram obrigados a deixar a cidade em debandada, em correrias, como nos tempos passados desde Brasil Colônia.

Foi, por assim, dizer, um arrastão nesse rastro de matança e sangue. Ameaçados e aterrorizados, um grupo de mulheres e crianças teve que ser acolhido pelo Programa de Proteção a Vítimas de Testemunhas (Provita/SP). O relatório do Instituto, encaminhado para vários órgãos ligados aos Direitos Humanos, estampa cenas chocantes de pessoas torturadas. A maior parte de mulheres que sofreram espancamentos para dizerem o paradeiro dos supostos assassinos.

Diante de todo esse quadro de violência e barbárie, como sempre, nenhum segmento da sociedade conquistense (Ministério Público, Justiça, Câmara de Vereadores, Sindicatos, Associações e outras entidades) se pronunciou, pelo menos para pedir uma apuração rigorosa para punir os verdadeiros responsáveis. Não se ouviu uma voz para se colocar ao lado da lei, e em defesa dos direitos humanos. Para mim, que aqui moro há 30 anos, não é nenhuma novidade.

Conquista sempre foi uma cidade famosa nesses casos de matanças, desde os tempos dos coronéis. Aqui ainda impera a prática antiga de se fazer justiça com as próprias mãos. É quando os justiceiros entram em ação, sabendo de antemão que não serão punidos.

Existe uma falsa ideia de que o brasileiro é uma gente com o DNA de solidariedade ao outro. Confundem solidariedade com caridade quando a pessoa se prontifica a dar um quilo de feijão, arroz, óleo, açúcar, uma camisa, uma calça, uma jaqueta ou um coberto para aquecer o frio.

Quando se fala em agir em defesa dos direitos humanos, do respeito ao ser, sem preconceito e discriminação, todo mundo se esconde em sua pele de lobo. Nem estão aí! Os outros que se lasquem. Vá chamar alguém para se juntar a uma manifestação quando um semelhante é morto injustamente! Todos somem, mas aparecem para dar uma cesta básica. Vivemos sim numa comunidade individualista e egoísta.

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (Final)

A COMUNIDADE DE REMANSO

Os autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopoético e identificam o povoado de Remanso, em Lençóis, não como um quilombo, mas como uma comunidade de Jarê, com duplo pertencimento religioso católico e do candomblé orixá caboclo indígena-afrodescendente.

Trata-se de um grupo com profundas marcas, vistas como tribais, envolta na ambiência cultural das Lavras Diamantinas, miscigenada, com suas crenças, símbolos e rituais peculiares.

Narram os escritores e professores, que Remanso nasceu de uma propriedade localizada às margens esquerdada dos Marimbus, no município de Andaraí, na primeira metade do século XX. Essas terras pertenciam e ainda pertencem a membros da família Gondim que consentiu a instalação de um grupo negro de etnia angolana, isto a julgar pela quantidade de vocabulário banto. Eles nasceram nas Lavras Diamantinas.

A comunidade, conforme pesquisadores, foi fundada em 1920, habitada por aproximadamente 350 pessoas. As habitações eram simples choupanas feitas com paredes de barro (sopapo) e cobertas com folhas secas de palmeiras e tabuas. Esse quadro se modificou nos tempos atuais com o uso de paredes de tijolos de cerâmica, tetos de telhas, energia elétrica, água encanada e fogão a gás (antes era a lenha).

Os moradores de Remanso ainda praticam uma agricultura de subsistência (mandioca, feijão e milho), um pouco de pecuária e pesca. Esses produtos servem para o sustento das famílias, e a outra parte que sobra é vendida nas feiras. A área está localizada no Parque da Chamada Diamantina, criada em 1985, e é uma APA Marimbus Iraquara, fundada em 1993 por decreto estadual.

Ronaldo e Itamar chegaram a entrevistar o seu Anísio, de 83 anos, na data, sócio da Sociedade União dos Mineiros, nascida em 1930. Ele era filho de garimpeiro e informou que do outro lado do Marimbus (Andaraí) vivia um grupo de pessoas já organizado em comunidade, sob a liderança do negro “Manezim do Remanso”.

Disse seu Anísio que, do lado de cá, em Lençóis, existiu um terreiro de Jaré, cujo curador se chamava de “Manezim Bumba”. Lembra que, quando ainda menino, ia a mando do pai, à casa desse Manezim abrir “revista” e buscar remédios que ele fazia quando era procurado por garimpeiros que desconfiavam estar enfusados. ou seja, não conseguiam extrair pedras.

Seu Anísio confirmou que a casa de “Manezim Bumba” era um terreiro de Jarê onde existia festa todas as semanas, batia atabaques, tinha filhos de santo, abria revista, reza para mordida e espantar cobras do pasto e fazia remédios.

O pesquisador Gonçalves, em seu livro “Garimpo, Devoção e Festa”, em Lençóis, cita no capítulo Medicina, receitas usadas pela comunidade para curar doenças, como hortelã miúdo, das dores, Imburana, batata de purga, quebra pedra, capim lanceta, fedegoso, arruda do mato, raízes de caiçara e xiquexique, dom bernardo, dentre outras plantas. Destaca ainda a pele de sapo, usada para curar vários tipos de câncer.

Quando foi mesmo que a comunidade de Remanso mudou-se para o lugar onde se encontra hoje? Seu Anísio respondeu que foi em 1950, acreditando ter sido por causa do terreiro de seu “Manezim Bumba”, e para ficar mais perto de Lençóis. Afirmou que a comunidade vivia mesmo da pescaria e das roças que plantava. Também, muitos trabalhavam no garimpo, inclusive o Manezim, como o do Calderão, e o de  Cabaá – nome popular porque quando aprendia a ler sempre colocava o polegar na letra “A” que, com o tempo, se apagou.

Seu Anísio chegou a ser presidente da Sociedade União dos Mineiros por várias vezes quando trabalhava por conta própria no garimpo. Ela foi fundada em 1920 quando a Sociedade de Socorros Mútuos foi extinta. O velho Anísio informou que umas das atividades da Sociedade era organizar a festa em louvor a Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, cuja imagem chegou em 1855, trazida do Rio São José.

“Então o coronel Filisberto Sá reuniu os garimpeiros mais fortes, pegaram Nossa Senhora do Rosário, que é a padroeira da cidade (para as autoridades eclesiásticas é Nossa Senhora da Conceição), fizeram uma procissão e foram pegar Bom Jesus dos Passos lá no porto.  Tempos depois uns portugueses doaram um terreno onde foi construída uma igreja. Daí nasceu a relação entre Senhor dos Passos e os garimpeiros”.

Contam Itamar e Ronaldo que, no ano de 2014, o pároco da cidade entrou em desentendimento com os filiados da Sociedade União dos Mineiros, boa parte da população e o poder público municipal. O sacerdote julgou que a Sociedade não tinha o direito de participar da organização da festa, tentando modificar uma tradição centenária. Foi um embate jurídico movido pelo advogado Alexandre Aguiar onde a comunidade saiu vitoriosa. As pessoas de Remanso sempre participavam da festa com reis e marujadas.

O Hino dos Garimpeiros foi trazido de Mato Grosso por Samuel Salles, avô do cineasta Orlando Senna, segundo seu Anísio, que também apontou o nome do sr. Isaias Malaquias da Ressurreição, um grande comprador de diamantes. De acordo com os autores do livro, a letra do hino foi feita por Sá de Carvalho, com música composta por J. Toledo, de Uberlândia. A canção foi executada pela primeira vez em 1º de fevereiro de 1927, na Festa do Senhor dos Passos, e reconhecida pela Prefeitura como hino municipal, em 2010. Quanto ao hino de Senhor dos Passos, foi elaborado por Dilson Cunha, em 1954.

A comunidade se localiza à margem direita dos Marimbus, formado pelo encontro das águas dos rios Utinga, Santo Antônio e seus afluentes. Esses rios desembocam na margem esquerda do Rio Paraguaçu. O povoado é circundado por uma grande mata secundária, fronteirizada pelos Marimbus e pelos rios Roncador e São José, afluentes da margem direita do Santo Antônio.

O Remanso dista 18 quilômetros da cidade de Lençóis e se constitui no que se pode chamar de comunidade afrodescendente, num sistema tribal.  Entre os personagens do povoado, os autores da obra citam Nusenço, Aurino (músicos) e Salvador do Remanso, ator de cinema, cantador de chula, rezeiro e marujo, um típico Griô.

Existe ainda a Associação dos Pescadores de Remanso, criada em 1959, e registrada em cartório de Lençóis em 1969, sob orientação de Paulo da Silveira, que nos anos 70 foi eleito prefeito. Os moradores da cidade ainda participam da festa em louvor a São Francisco de Assis e Divino Espírito Santo, em Andaraí. Também frequentam terreiros de Jarê.

“ A julgar pelos ritos religiosos, Remanso seria uma comunidade católica semelhante a inúmeras outras existentes no sertão brasileiro, levando em conta a descrição dos aspectos físicos da comunidade. O que solta aos olhos são os símbolos do catolicismo”.

Remanso fica dentro da Área de Proteção Ambiental dos Marimbus Iraquara, na junção dos rios Utinga e Santo Antônio, onde existe uma grande variedade de peixes, como a piranha, a traíra, piaba, crumatá, tucunaré, apanhari, o martim pescador, dentre outros, sem contar os animais silvestres, como o quati, veado e tatu. Além da pesca, a comunidade também extrai mel de jataí, mandaçaia, uruçu, tubi, arapuá e italiana.

 





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