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A BARBÁRIE NO BRASIL

TENTO AQUI FALAR DE COISAS BOAS DO NOSSO BRASIL, MAS ESTÁ DIFÍCIL ENCONTRAR. SERÁ QUE SOU TÃO TRÁGICO COMO NAS NOVELAS GREGAS?

No momento mais complicado e difícil, com mais de 400 mil mortes pela Covid-19, que não é nenhuma “gripezinha”, faltando vacinas da CoronaVac em todos os estados para que as pessoas tomem a segunda dose, o cara volta a atacar a China, a maior fornecedora de insumos para o produto principal.

Isso é uma barbárie, e mais uma prova de que o capitão-presidente é contra a vacinação do povo e quer empurrar goela abaixo a cloroquina. Na “CPI do Fim do Mundo”, até a tropa de choque do governo federal fica de mãos atadas sem saber como defender o chefe.

A esta altura, o mandatário chinês deve estar dizendo que só vai mandar a matéria-prima quando o desastrado estiver sob controle. Não é o cara que está sendo punido, mas toda a população brasileira. Não dá mais para suportar tanta crueldade! Somos um povo que não nos indignamos contra o caos de um governo. Por menos, os nossos países vizinhos se revoltam.

A outra barbárie de Salvador onde dois rapazes que furtaram uns quilos de carne no Atacarejo e foram entregues aos traficantes para serem mortos, praticamente caiu no esquecimento. Cadè os movimentos negros, o Ministério Público, a OAB, a sociedade e outras instituições defensoras dos direitos humanos?

Não se comenta mais sobre o homem negro que foi espancado até a morte pelos seguranças do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre, e aqui quero pedir desculpas pelo equívoco que cometi em outro comentário sobre o assunto ao citar o Pão de Açúcar.

Além do rastro de mortes que o coronavírus está deixando em nosso país, por total negligência e estupidez do governo federal, estamos chocados e estupefatos com outras barbáries, como a do vereador Jairinho, com a cumplicidade da sua companheira (mãe do menino), no Rio de Janeiro, que tirou a vida de uma criança inocente depois de cruéis torturas.

O pior é que, em pouco espaço de tempo, uma brutalidade supera a outra no Brasil, como se estivéssemos numa comunidade amaldiçoada pela ira dos deuses. Em Santa Catarina, um bárbaro entrou com uma adaga numa creche e deferiu golpes fatais em três crianças e duas professoras. Um ato sanguinário que não se lê nos registros macabros das histórias de guerras.

Infelizmente, não temos coisas boas nos noticiários da mídia brasileira do dia a dia, que juntas superem as barbaridades. Ainda hoje estava lendo o livro “a guerra não tem rosto de mulher”, da autora Svetlana Aleksiévitch, onde num trecho de sua narração sobre as atrocidades da guerra, indaga onde está a fronteira entre o humano e o desumano? Mais na frente ela diz: Por que não nos espantamos com o mal; falta em nós o espanto diante do mal?

O BRASIL DO SISTEMA SANFONA

A impressão que temos é que a pandemia no Brasil é interminável, ou vai ser o último dos países a se livrar desse vírus maldito. Em nosso país, infelizmente, funciona o sistema sanfona do abre e fecha, como agora para comemorar o dia das mães. Todo mundo vai às compras com as lojas abertas normalmente e depois acontecem os almoços com as mães, avós, filhos e netos, como se tudo já estivesse acabado.

Interessante que as pessoas falam das comemorações neste ano com o sentimento de que no ano passado não houve, como se a situação agora fosse melhor. Pelo contrário, o número de mortes e casos aceleraram mais ainda. Os hospitais estão mais lotados e existe o agravamento de novas cepas e linhagens. Mesmo havendo o risco, vamos celebrar e se ajuntar em famílias.

Houve um fato que saiu na revista “Piauí” em que sete irmãs, depois de algum tempo ausentes, resolveram se encontrar num almoço. O resultado foi que depois quatro morreram de Covid-19. As prefeituras, a exemplo de Vitória da Conquista e Salvador, relaxaram as medidas. Mais quinze ou vinte dias, no final de maio pode vir outra pancada.

Logo depois entram as festas juninas e, como no ano passado, o nordestino, principalmente, não aguenta ficar sem as fogueiras e sem reunir os amigos e parentes para as bebidas e comidas típicas da época, mesmo que não haja o São João oficial nas prefeituras. Mais uma vez, ocorre o sistema sanfona do abre e fecha.

Do outro lado, a vacinação segue a passos lentos e faltando doses para a segunda imunização que não atingiu 8% da população dos 230 milhões de habitantes. As vacinas continuam chegando aos tiquinhos e no Ministério da Saúde é só confusão. Ora manda que as prefeituras reservem lotes para a segunda aplicação, ora sai uma ordem para que sejam usadas. É por isso que sempre digo que não basta falar que vai passar, como se essa graça fosse cair do céu.

Nos países da Europa onde a vacina está bem avançada, os governos estão abrindo as atividades, inclusive shows, eventos culturais e esportivos, e se preparando para receber turistas estrangeiros (menos brasileiros), isso depois de um longo período de isolamento social.

Aqui temos os negacionistas da ciência que não tiram férias para contrariar as recomendações dos especialistas. Será que o propósito é fazer uma seleção humana para eliminar os mais fracos e pobres? Tentaram até mudar a bula da cloroquina onde a droga seria também incluída no tratamento do coronavírus.

No Brasil, praticamente não houve isolamento social e nem uma política planejada de vacinação, mas como sempre o país adora imitar os outros, como os Estados Unidos, vá lá que resolva fazer o mesmo, liberando de vez o uso de máscaras e a realização de grandes eventos, como shows e festivais, sem primeiro fazer o dever de casa.

Por essas e outras é que estamos no mesmo caos da Índia, os dois países do mundo com os maiores índices de contaminação e mortes por dia. Os dois são parecidos nesse aspecto. Tanto lá como cá, a fome é outra pandemia que mata impiedosamente. O nível de educação e instrução é baixo e existe a cultura das aglomerações nas cerimônias religiosas que não são poucas.

Nesse sistema sanfona, vamos dançar de acordo com o ritmo da Covid-19, e o seu tom é de um forró ou de um samba bem acelerados onde muitos não conseguem ir até o final da festa por falta de ar nos pulmões. A maioria prefere subestimar o inimigo invisível e fazer de conta que está tudo n

UMA SOCIEDADE CRUEL E ESTÚPIDA

Os segmentos da sociedade pouco reagiram, somente as famílias foram às ruas protestar e a mídia apenas deu alguns registros do fato. Estou me referindo à brutalidade cometida contra dois rapazes negros que furtaram uns quilos de carne no Supermercado Atacarejo, em Salvador, na última semana.

Diante de tanta crueldade e estupidez de crimes hediondos, a nossa sociedade, de tão insensível, não reage mais, e ainda tem muitos que acham que eles deveriam mesmo era morrer nas mãos dos traficantes, conforme foram entregues pelos seguranças do estabelecimento.

A pergunta que não quer calar é se essa não é uma prática adotada pelo supermercado, ao invés de chamar a polícia para registrar o ocorrido na delegacia?  Como se trata de pobres negros, essa será mais uma atrocidade que irá cair no esquecimento e entrar na pasta dos arquivos mortos.

Não interessa se eles tinham ou não passagens na polícia e quais foram as intenções ao pegarem os pacotes de carne, se por motivo de fome ou se para fazerem uma farra. Enquanto isso, os corruptos de colarinho branco da falecida Operação Lava-Jato estão todos sendo soltos e inocentados pelos seus roubos aos cofres públicos.

Ao ver aquela cena dos dois sentados num canto ao lado dos pacotes, com semblantes de pavor, terror e medo de serem mortos, lembrei imediatamente quando eu e um colega inventamos de cometer um furto de doces, chocolates e biscoitos para comer no Supermercado Paes Mendonça, do Politeama, na mesma Salvador, no início dos anos 70.

Quando fomos pegos pelos seguranças e fomos ameaçados de serem entregues à polícia, ficamos aterrorizados e pedimos clemência. Nessa época a sociedade não era tão desumana, e os guardas tiveram compaixão de nós e nos liberaram. Nessa época estávamos atravessando aquele aperto de passar fome por falta de dinheiro. Foram tempos duros na vida.

Poderíamos ter sido mortos também por causa de uns pacotinhos de comida, mas tivemos a sorte da piedade dos vigias, que contou a nosso favor. Os dois do Atacarejo foram entregues aos algozes que certamente receberam algum benefício parta eliminar duas vidas humanas, coisa que não se faz isso nem com os bichos.

A selvageria e a violência tomaram conta dessa sociedade podre e hipócrita que não mais se abala com os crimes mais primitivos e aterrorizadores. Tudo é encarado como normal, comum e legal. As instituições não mais reagem como como deveria. A imprensa apenas se presta a noticiar o factual, e logo ninguém mais comenta a crueldade, como no caso do homem negro que foi espancado até a morte no Pão de Açúcar de Porto Alegre.

Os culpados serão mais uma vez premiados pela impunidade, e não tarda muito a acontecer outra estupidez. Aqui em Vitória da Conquista ninguém mais recorda da chacina cometida por um grupo de policiais num bairro da periferia, que agora não me vem o nome na cabeça.

Vários jovens de uma mesma família foram assassinados friamente porque um militar havia sido morto por um bandido. Promotores foram ameaçados de prosseguir com a investigação. Como membro da ABI (Associação Bahiana de Imprensa) dei uma nota de apoio ao trabalho da Justiça. Fui repreendido por um “cidadão” ao afirmar que as vítimas tiveram o merecido e que deviam ser mortos mesmo.

Temos hoje um Brasil tipo faroeste bang-bang dos filmes norte-americanos onde o episódio, como o dos rapazes da carne, se resolve na tortura e na bala. Só faltou arrastarem as vítimas pelas ruas, não puxados por cavalos, mas por carros, com uma placa “esses furtaram uns quilos de carne, que o castigo sirva de exemplo”.

RUBEM BRAGA – O MAIOR CRONISTA BRASILEIRO EM CONSTANTE ATIVIDADE

Conterrâneo do cantor e compositor Roberto Carlos, o cronista Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, véspera da I Guerra Mundial. O menino travesso era filho de Francisco Carvalho Braga e Raquel Coelho Braga. Começou seus estudos no colégio de dona Palmira Wanderley.

Sua biografia, história e crítica são contadas em “Literatura Comentada” por Paulo Elias Allane Franchetti e Antônio Alcir Bernardez Pecora. Tempos depois de muita curtição no interior, de férias na fazenda e na praia, Rubem Braga foi morar em Niterói onde terminou os estudos secundários em 1928.

No ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, mas em 1931 transfere-se para Belo Horizonte onde concluiu o curso. Trocou a advocacia pelo jornalismo. Seus primeiros ensaios literários foram em “O Itapemirim”, no Grêmio do Colégio.

Em Cachoeiro, manteve uma crônica regular o “Correio Maratimba”, no Correio do Sul, jornal fundado pelo seu irmão Armando.   Em Minas, ainda como estudante, entra em contato com a imprensa e faz suas crônicas na redação do “Diário da Tarde”.

Em 1932, no Governo de Getúlio Vargas, ele já tinha 19 anos e enfrentou uma aventura durante a revolta dos paulistas. Com a Revolução Constitucionalista, Braga é enviado pelos “Diários Associados” para fazer uma reportagem na frente de guerra da “Mantiqueira”, do lado getulista.

Como o jornal era favorável à Revolução, o repórter foi preso em Manacá, sob suspeita de espionagem e enviado de trem para Belo Horizonte onde foi libertado. As notícias referentes às vitórias paulistas eram censuradas e as que expunham insucessos eram barradas pelo jornal.

De Belo Horizonte, Rubem Braga foi para São Paulo e, em fins de 1933 torna-se cronista e repórter do “Diário de São Paulo” onde estavam Alcântara Machado e Mário de Andrade. Segundo um jornalista, “há plantas que nascem e crescem depressa; outras que são tardias e secas”.

A amizade de Rubem com Antônio se assemelha às primeiras, e a com Mário às últimas. Quando Alcântara foi para o Rio de Janeiro, em 1935, convidou o amigo para trabalhar no “Diário da Noite”. Rubem também escreveu para “O Jornal”.

Depois da morte de Alcântara Machado, ainda em 1935, Rubem vai para Recife onde dirige a página policial do “Diário de Pernambuco”. Pela primeira vez consegue publicar uma notícia de suicídio, contrariando a filosofia do jornal. Com o desentendimento, funda a “Folha do Povo”, apoiando a Aliança Nacional Libertadora.

Em setembro vai para Porto Alegre e depois para o Rio onde trabalha no jornal “A Manhã”. Com a reação à tentativa de golpe comunista, o jornal é fechado, e o repórter desempregado. Braga deu a volta por cima. Em 1936, a editora José Olympio edita “O Conde e o Passarinho”, o primeiro livro do jornalista com as melhores crônicas, com boa aceitação.

No mesmo ano retorna a Belo Horizonte e trabalha na “Folha de Minas”. Logo que se casou, voltou ao Rio e depois São Paulo onde fundou a revista “Problemas”. Em 1937, em 10 de novembro é decretado o Estado Novo. Ele acompanha a notícia pelo rádio da casa de Oswaldo de Andrade com o amigo Sérgio Buarque de Holanda.

Em 1938 já está no Rio de Janeiro escrevendo para o jornal “O Imparcial”. Com Samuel Wainer e Azevedo Amaral, funda a revista “Diretrizes”. Perseguido pelo regime Vargas, se refugia no sítio de Carlos Lacerda. Quando Ademar de Barros é nomeado interventor em São Paulo, é para lá que Braga vai. Irrequieto, de lá segue para Porto Alegre, em 1939, onde trabalha no “Correio do Povo” e na “Folha da Tarde”.

Quando começa a II Guerra, Braga entrevista um membro da colônia polonesa que, com júbilo comemora o episódio, entendendo que dessa vez a Polônia teria a oportunidade de esmagar a Alemanha e a Rússia, mas só que ocorreu o contrário. Como comentarista político, chegou a ser preso e enviado de navio para Santos. Acontece que ele consegue desembarcar em Paranaguá, no Paraná, e de lá vai para São Paulo onde trabalha em “O Estado de São Paulo”.

Braga deu uma grande guinada em sua vida e, entre 1941 e 42, passa a vender pedras semipreciosas e a trabalhar em publicidade. Foram épocas de amarguras, ameaças, censuras e temores. Em 1943, Rubem ocupa o cargo de chefe de publicidade do Serviço Especial de Saúde Pública. No ano seguinte publica, em São Paulo, pela Editora Brasiliense, sua segunda coletânea de crônicas “O Morro do Isolamento”.

Nesse ano o Brasil envia tropas para a Itália, para combater os nazistas. Braga foi designado pelo “Diário Carioca”, para fazer a cobertura das atividades da Força Expedicionária Brasileira e seguiu para o front em setembro. Todos acontecimentos foram anotados para suas crônicas de guerra. No final, Rubem volta para o Brasil e publica “A FEB na Itália”, reunindo as melhores crônicas enviadas ao “Diário Carioca”. Com essa obra, Braga se torna um sucesso na nossa literatura moderna.

Em 1946, no “Correio da Manhã” e em “O Estado de São Paulo”, Rubem vai a Buenos Aires cobrir a eleição de Peron. Em 1947 trabalha ao lado de José Lins do Rego no jornal “A Manhã”. Depois, como correspondente de “O Globo”, foi por alguns meses correspondente em Paris.

Rubem escreve seu terceiro livro “Um Pé de Milho”, em 1848. No ano seguinte veio “O Homem Rouco”. Em 1950 retorna a Paris como correspondente do “Correio da Manhã”. Na volta ao Brasil, em 1951, escreve “50 Crônicas Escolhidas”. Em 1952 funda “Comício”. Faz mais uma escala em Paris. A partir de 1953 escreve para a “Manchete”. Em 1954, ano do suicídio de Vargas, o Serviço de Documentação do Ministério da Educação edita o livro de Braga, intitulado “Três Primitivos” (vida e obra de três pintores).

Em 1955, Braga é nomeado chefe do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil, no Chile, cargo do qual desiste logo cedo. No mesmo ano publica “A Borboleta Amarela”. Em 1956 é enviado aos Estados Unidos pelo “Diário de Notícias” e “Manchete”, para cobrir as eleições do general Eisenhover. Entre 1957 e 60 publica mais três livros “A Cidade e a Roça”, “100 Crônicas Escolhidas” e “Ai de Ti Copacabana”.

Nessa época, torna-se embaixador e vai para Marrocos onde permanece até 1963 quando pede sua exoneração do cargo. Dois anos mais tarde viaja para Índia. Em 1967 funda com Fernando Sabino a Editora “Sabiá” que publicou seu livro “A Traição das Elegantes”. No ano seguinte trabalha no “Diário de Notícias” e “Última Hora”.

Em 1977 escreve “Crônicas Escolhidas” e colabora na coletânea “Para Gostar de Ler”, com Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Nesse ano começa a atuar na Rede Globo de Televisão.  Morre em 19 de dezembro de 1990, depois de um câncer, como o maior cronista brasileiro de todos os tempos.

 

 

 

AS MORTES E A VACINAÇÃO

 

Infelizmente, em decorrência de um monte de fatores negativos que todos os brasileiros estão cansados de saber, chegamos na fúnebre cifra de mais de 400 mil mortes no país vítimas da Covid-19, enquanto falta vacinas em vários lugares para imunizar a população. Muitas mortes e poucas vacinas. Desde o início do ano que os estados e municípios recebem os tiquinhos de lotes de doses que logo se acabam, sem contar o gasto astronômico que o país tem para transportar pequenas quantidades quando seria menos dispendioso se fossem grandes volumes em poucas vezes. Somente nesses quatro primeiros meses de 2021 foram mais de 200 mil mortes, um pico que coloca o Brasil como o segundo do mundo em número de vidas que se foram, sendo apenas superado pelos Estados Unidos, que estão em declínio por causa da vacinação em massa. Mesmo assim, o Brasil tem as portas abertas para a entrada de pessoas vindas de fora, sem medidas de restrição, enquanto nação nenhuma quer receber brasileiro em seu território, e quando entra, é obrigado a entrar em quarentena. Na “CPI do Fim do Mundo”, que não vai resultar em nada, batem boca, e o povo que se lasque.

O DESERTO E O MAR

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O deserto é o mar de mortais poeiras,

O mar é o deserto de águas traiçoeiras,

Eu sou o deserto rasgante incerto,

Você é o mar nas ondas a cortar.

 

Cada um com seu mistério profundo,

O Saara africano é o maior do mundo,

O deserto é o mar seco árido infértil,

Que um dia já foi Crescente Fértil.

 

Temidos pelo viajante aventureiro,

Os dois são muralhas contra invasão,

E o poeta escreveu “Navio Negreiro”,

Em alto mar condenou a escravidão.

 

Novas rotas uniram ilhas e continentes,

Numa procissão de veleiros imponentes,

Com suas surpresas de armadilhas de teias,

Como o deserto com suas nuvens de areias.

 

Os faróis da era acendem seus pavios,

As caravanas de camelos são como navios,

Com suas cargas escravas, virgens e marfim,

Nos horizontes de ouro das linhas sem fim.

 

Engolem vidas e escondem piratas,

Com seus oásis e montanhas de pratas,

O deserto da sede cria visões e miragens,

E o mar a balançar nas galeras selvagens.

 

Sacudidos pelo calor dos testes atômicos,

O deserto foi dos peregrinos islâmicos,

Vias de mercadorias para levar o Alcorão,

E pelo mar, o jesuíta fez o nativo cristão.

 

 

 

E TOME MAIS TRAPALHADAS!

Um diz que tomou a vacina escondida, certamente com receio do chefe saber. O outro ataca novamente a China de quem tanto precisa para comprar medicamentos e insumos químicos. Confunde uma vacina alemã com americana.

O capitão-presidente sai de Brasília com sua tropa para uma cidadezinha, na Bahia, gastando o dinheiro do povo para inaugurar uma estrada de apenas 22 quilômetros que durou quatro anos para ser concluída.  Para provocar o Governo do PT, faz aglomerações para disseminar o vírus e visita um batalhão da polícia.

ESPETÁCULO DANTESCO

Sem máscaras, os seguidores da morte aplaudem, tiram selfies, salivam entre eles, cospem e fazem festas. Que espetáculo dantesco nesses tempos de pandemia de quase 400 mil mortes! Só no Brasil se vê essas cenas bizarras, enquanto o povo passa fome e não tem vacinas para combater a Covid-19.

Todos os dias tem mais trapalhadas no placo Brasil. Na Câmara dos Deputados começam a armar o circo de uma “CPI do Fim do Mundo”, com discursos mentirosos de que estão empenhados em esclarecer e punir os culpados por esse genocídio.

O Renan Calheiro, o homem beneficiário das propinas da Lava-Jato (foi sepultada), com pose de ético e moral, condena os negacionistas, as negligências contra a pandemia e os absurdos cometidos na área da saúde. Pela primeira vez, o filho do Bozó se mostra preocupado com a aglomeração da CPI. Coisa inusitada, merecedora de registro jornalístico. Ele agora não é mais negacionista da ciência!

Tudo não passa de um filme desgastado com mais umas pitadas de horrores, de bruxarias e suspenses. Os feiticeiros são praticamente os mesmos, e os enredos seguem um roteiro macabro com alguns ingredientes extraídos dos ossos de cadáveres que a terra já consumiu.

Cada vez mais o circo vai ficando mais pesado, com apresentações recomendadas só para adultos sem problemas coronários ou de pressão. Zumbis, lobisomens, fantasmas do mal, monstros e outras criaturas dos infernos travam uma batalha entre si onde depois todos se abraçam. É só uma simulação com efeitos especiais como em filmes de ficção.

A plateia ignara e desmemoriada aplaude os personagens atores, como se fosse uma peça nova, e acreditam que novos tempos virão. “A caravana passa enquanto os cães ladram”. Outros nas arquibancadas de madeira, debaixo da lona suja e rasgada, xingam, jogam pedras, atiram cascas de bananas e promete morte aos construtores do circo. Na saída, cada um segue para suas casas, destilando raiva e prometendo vingança. Uns mais otimistas dizem que tudo vai passar, tudo vai melhorar, mas as trapalhadas continuam e parecem não terem fim.

Parece fora de contexto, mas não é. O autor do livro “Uma Breve História do Mundo”, Geoffrey Blainey, cita no final da sua obra, que a religião floresce quando a vida corre perigo e quando existe dor. Ela continua a florescer nas enchentes, nas catástrofes, quando a fome bate nas portas e a morte precoce é expectativa da maioria das pessoas. A religião floresce quando uma colheita é arrasada por pestes, secas e exaustão do solo ou tempestades.

“Monarcas poderosos ganhavam muito ao sustentá-la. A religião oficial lhes permitia proclamar que eram mesmos descendentes de deuses”. Portanto, desobedecer ao rei significava desobedecer aos deuses. No século XX, segundo o autor, ela enfraqueceu por causa da prosperidade e da longevidade. No entanto, ela retorna forte quando ressurgem os flagelos, como agora em nosso país.

MAIS UMA VEZ LÁ SE VAI O NOSSO ENCANTADO E POPULAR SÃO JOÃO

Pela desorganização e bagunça dos nossos governantes, principalmente o federal, pelo negacionismo da ciência, pela falta de consciência do nosso povo, pela falta de uma cultura do distanciamento e isolamento social, por falta de disciplina dos brasileiro e respeito aos outros, mais uma vez vamos ficar sem o nosso encantado e popular São João dos encontros com os amigos e familiares distantes.

É lamentável viver num país sem estratégia, sem planejamento e uma liderança para conduzir seu povo pelo caminho certo. Quando o mau exemplo desce lá de cima, cá embaixo se perde o equilíbrio, a sensatez e a decência. Cada um passa a fazer o que bem entende, com aquele papo furado do direito do ir e do vir, mesmo que se trate de perdas de vidas. É uma imbecilidade. Estamos numa verdadeira nau dos insensatos.

UMA TERAPIA DE VIDA

Tudo indica que mais uma vez vamos ficar nas lembranças das festas juninas da minha querida Piritiba da Bahia, que nos deixam felizes. Pelo menos por uns dias nos sentimos livres de todos os problemas cotidianos da vida corrida. É uma terapia para a mente e o espírito, que supera todas as outras recomendadas por médicos psiquiatras.

Quando lá estou em minha terrinha, me faz lembrar dos tempos do trem cruzando a estação todos os dias, descendo para Iaçu e subindo para Senhor do Bonfim (não propriamente nessa ordem), trazendo e levando passageiros e cargas das mais variadas mercadorias. E o telégrafo com seu tic-tac traduzindo as palavras! As pongas nos vagões e a molecada gritando!

Saudades dos amigos e parentes, como o primo e irmão Roque (já se foi, mas continua entre nós), Leucia, Rossia, Luane e seu marido Dadai, da “diretoria”, Roniere, Diltão, do “dançar pode, fumar não”, Roquinho e sua esposa, Dalmário, João Rico, do poeta, músico e cantor Wilson Aragão, do grande poeta e teatrólogo Carlos Sampaio (meu colega que também se foi), Mirinho, Agamenon, Lane e Margá Barreto e de tantos outros picotando o tempo, jogando conversa fora e tomando umas biritas e geladas.

Minha Piritiba querida onde me fez moleque jogando bola de gude, baba na Praça de terra da “Getúlio Vargas”, esconde-esconde, chicotinho queimado, corridas de cavalo; tomar banho no açude; “furtar” melancia e frutas; andar nos trilhos do trem groteiro; trocar gibis; assistir filme de cowboys; e inventar outras estripulias nas folgas da escola primária da “Almirante Barroso”, ou quando não estava vendendo água em garotes, doces de leite nas ruas e feixes de lenhas nos jumentos. Naquela época ainda era uma Piritiba de terra batida, com luz de motor até às 22 horas, onde poucos tinham o fogão elétrico.

Minha querida Piritiba dos meus pais que possuíam uma terrinha na localidade de “Calderãozinho”, e aos sábados lá íamos nós em tropas para vender a melhor farinha da região na feira. Ela me deu regra e compasso quando fui para outras bandas estudar e ser seminarista, mas sempre lá estava para rever o meu povo; contar os causos; e curtir o melhor São João. Minha querida aldeia da tapioca gostosa de lamber os beiços.

Pois é, tudo leva a crer que mais uma vez (no ano passado não teve festa), essa pandemia da Covid-19 vai adiar nossos encontros memoráveis de muita tranquilidade e curtição, para contar as histórias e as estórias. Não podemos também deixar de citar a pinga catingueira misturada, as corridas de jegues na praça e as quadrilhas que mantém viva a nossa cultura popular.

Alimentam o nosso viver tomar um quentão; comer uma feijoada ou uma carne assada; e até “encher a cara”, sem nenhuma preocupação com o horário de retornar, mesmo andando na fresca do amanhecer. Ah, não posso esquecer da sagrada farofa de Leucia que só ela sabe fazer! Como é bom passar o São João em Piritiba!

UM BRASIL ANSIOSO E DEPRESSIVO

Hoje eu amanheci com o sentimento de que roubaram nossa primavera de flores, de que surrupiaram nossa dignidade e que a nossa pátria não tem zelado bem de seus filhos, os quais se sentem órfãos de pais. Acordei com aquele gosto amargo na boca de quem tem sede de justiça, com a sensação de que o nosso povo tem um futuro incerto num país tão rico e tão pobre onde existe uma exclusão e um extermínio acelerado dos mais fracos.

Levantei com aquele pesar de um Brasil doente, ansioso e depressivo, justamente de uma gente que sempre foi alegre, cheio de criatividade e orgulhoso da sua terra, da sua aldeia e povoado. Vi tribos divididas e se guerreando. A divisão só faz enfraquecer, e a história das nações está aí para comprovar isso.

UM POVO COM MEDO

A fé e a esperança não são as mesmas de anos atrás, e o nosso amanhã não nasce tão sorridente e radiante como antes, por mais que nos esforcemos para disfarçar a tristeza de uma vitória perdida. O nosso povo tem mais medo do que poderá acontecer no outro dia. Com tantas humilhações, não andamos mais nas ruas e nas multidões com cabeças erguidas, com a certeza de um futuro melhor e menos desigual.

Acordei com as imagens embaçadas como se estivesse numa ressaca e vi crianças de pés descalços a andar pelas favelas e morros maltrapilhos em plenos esgotos a céus abertos. Vi senhoras e senhores a chorar por nada ter o que comer meio dia com seus filhos.

Com a cara feia e estômago roncando, vi a danada da fome bater nas portas dos casebres de quase 20 milhões de nossos brasileiros. Vi jovens subindo e descendo os becos das violências com armas e drogas nas mãos, frutos de um sistema das brutalidades.

Nessa manhã, apareceu em minha mente os mais de 14 milhões de desempregados desiludidos por não encontrar um serviço para o sustento de suas famílias. É uma dor que parece não passar. O que mais ainda nos revolta é essa escravidão do trabalhador. Os oportunistas empresários aproveitam essa situação deplorável para explorar essa mão-de-obra faminta, pagando migalhas de até metade de um mísero salário mínimo.

Foram tantas coisas que passaram em minha cabeça nesse acordar, como de brasileiro que aos poucos vai perdendo seus sonhos. Vi os sindicatos esmagados por uma reforma trabalhista tirana capitalista que prometeu mais empregos, mas só fez escravizar os nossos operários que são obrigados a aceitar qualquer oferta na lida de mais e mais horas de trabalho

Como num pesadelo, foram fleches do passado, do presente e do futuro numa manhã nublada de nuvens carregadas. Vi com muita mágoa as chamas arderem e avançando em nossas amadas florestas, escorraçando e matando nossos animais e toda biodiversidade. Vi madeireiros derrubarem as matas de árvores sagradas.

Rezei para que a nossa Amazônia um dia não se transforme num grande campo de pastagens para bois, ou num deserto. Vi garimpeiros com suas pesadas máquinas escavando a terra à procura de ouro, jogando mercúrio no solo e contaminando os rios. Vi um cenário de escombros e de extermínio dos nossos índios, filhos da terra que sempre aqui estiveram há milhões de anos.

Muita gente pode não gostar, mas meu amanhecer foi um lamento que muitos preferem esquecer e não ficar remoendo, mas só os covardes fogem da realidade para não enfrentar a luta. Como gostaria de ver uma educação de qualidade para todos, com pessoas bem instruídas para termos um Brasil desenvolvido, mais igual e mais livre no amanhã.

Vi uma saúde em estado terminal com nossos irmãos sendo jogados como objetos nos corredores dos hospitais, sem o merecido cuidado e tratamento, principalmente nessa mortal pandemia que tarda a deixar o nosso país onde muitos negam a ciência. Por nossa desunião, falta de estratégia e organização, ódio e intolerâncias, ela aqui encontrou terreno fértil para se proliferar.

Em minhas recordações, depois dessa tormenta que parece não se acabar, vi um futuro, não muito próximo, de um Brasil renascido e renovado, como a fênix ressurge das cinzas, como no dito popular de que depois da tempestade vem a bonança. Assim como a Idade Média foi uma passagem para o Renascimento, assim caminha o nosso país para o porvir das novas ideias.

Para que as novas gerações desfrutem dessa mudança, temos que começar a renovar nossos espíritos para a escolha de um grande guia que una toda a nação em torno de um objetivo comum de acabar com as desigualdades sociais e nos libertar desses grilhões que tentam arrancar de nós a liberdade, o dom mais preciso.

Não basta apenas dizer que dias melhores virão e que tudo vai passar, como se uma graça fosse repentinamente cair dos céus. A divisão só faz nos levar à destruição como está ocorrendo nos dias atuais como o nosso Brasil. Será que estamos sendo testados a atravessar esse padecimento, como uma prova para o nascimento?

O LIVRO IMPRESSO NUNCA VAI MORRER

Há 20 anos os “profetas” da internet anunciaram o sepultamento do livro impresso com o advento do chamado e-book pelo tablete e pelo computador. Até agora quebraram a cara, e vão continuar assim porque o livro impresso nunca vai morrer, muito pelo contrário.

Neste 23 de abril, “Dia do Livro”, o que podemos lamentar é que no Brasil, devido ao baixo índice educacional e cultural, se lê muito pouco em relação a outros países, inclusive se fizermos uma comparação com nossos vizinhos da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru e outros. É até uma covardia colocar aqui nesta lista Estados Unidos e nações europeias.

Uma prova do baixo índice de leitura é a pequena quantidade de editoras e livrarias brasileiras. Nos últimos tempos, as maiores foram fechadas. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo em nossa casa, em Vitória da Conquista, uma cidade de 230 mil habitantes, só temos dois estabelecimentos, se não me engano, dessa natureza. Para quem quer um preço mais em conta, felizmente ainda temos “ Sebo o Livreiro”, de Rai, no centro (Beco dos Artistas), com 60 mil exemplares. Esperamos que nunca venha a fechar as portas.

PÚBLICO REDUZIDO

Do início da computação para cá, podemos dizer que o livro emagreceu e tornou-se mais enxuto porque o seu público é cada vez mais reduzido. Além da baixa qualidade na educação e o surgimento do sistema eletrônico (redes sociais), outros fatores de valor menos relevantes, como a baixa aquisição financeira da nossa população e a falta de investimentos dos setores público e privado em novos talentos de escritores, influenciaram para a queda na produção literária.

No entanto, o livro vai continuar em seu devido lugar na preferência daqueles que adoram viajar pelo mundo da leitura, não importando se impresso ou na forma do e-book. Quando falavam que o impresso iria desaparecer, sempre respondia que aquele que não desenvolveu o hábito de ler não usa nenhum dos dois formatos.

É verdade que em nosso país o livro já teve seus bons tempos e era um veículo até citado em mesas de bares. Conheci um colega que lia até nos botequins quando estava só. Foi a saudosa época da nossa efervescência cultural, entre os anos 50 e 60, onde não somente o livro estava na onda, mas também outras linguagens artísticas, como o teatro, a boa música, o cinema, as artes plásticas e a escultura.

Nesse meio tempo de acentuado crescimento intelectual, veio o regime ditatorial com suas censuras, prisões e supressão da liberdade de pensamento e expressão. Toda aquela evolução foi interrompida. Não fosse esse triste episódio, talvez teríamos outro Brasil bem mais desenvolvido e menos desigual. Naquele tempo, muitos livros tiveram como destino a fogueira.

Depois disso, veio uma nova geração com outra mentalidade de não dar muita importância para o saber e o conhecimento. A isso, muitos deram o nome de alienação. O baixo nível de ensino também colaborou para essa decadência. Hoje, todo mundo só faz correr atrás do capital e esquece de alimentar o espiritual.

Os estilos e gêneros mais procurados são os livros de autoajuda, os infantis e de ficção. Ainda bem que muitas crianças têm pegado o gosto pela leitura. Nessa pandemia de muitas mortes e incertezas, a ansiedade e a depressão poderiam ser mais aliviadas se as pessoas ocupassem mais o seu tempo com um bom livro na mão, colocando a imaginação para voar. Tenho certeza que o livro é um bom remédio para a mente e o corpo, principalmente nesse período tão conturbado em que estamos atravessando.

Nesse “Dia do Livro” (23 de abril) quero aqui prestar uma homenagem aos grandes escritores brasileiros e estrangeiros, como Jorge Amado, Euclides Neto, João Ubaldo Ribeiros (baianos), Machado de Assis, José Lins do Rego, Lima Barreto, José de Alencar, Suassuna, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, George Orwell, Jack London, Ernest Hemingway e os brilhantes russos Vladímir Maiakóvski, Leon Tolsltói, Dostoiévski, dentre muitos outros.





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