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RIO RIACHO

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

O rio cheio no peito cura as mágoas,

Dos tempos em que era só riacho,

E foi casco seco nesse carrasco,

Onde até rasparam as favas do tacho.

 

O rio cheio no peito cura as mágoas,

Lava o suor e renova a palma de alma,

A lavadeira nele bate roupa e enxagua,

A boiada do boiadeiro cruza as águas,

Na toada avante do berrante do vaqueiro.

E a bela morena se banha sem anáguas.

 

O rio cheio no peito cura as mágoas,

Do velho cancioneiro poeta solitário,

E o sertão em cor volta a ser relicário,

Dos meninos que do troco do barranco,

Pulam e brincam nus em suas águas.

QUE DIREITO INDIVIDUAL É ESSE?

Milhares ou milhões de brasileiros, infelizmente, incorporaram o negacionismo do Bozó e deixaram de se vacinar, com um argumento imbecil de que têm o direito individual. Outros estão escolhendo a vacina, comparando que é a mesma coisa de um cardápio no restaurante. É de dar pena que ainda tem gente de nível tão ignorante em nosso país.

Que direito individual é esse quando se trata do coletivo? Ouviram o galo cantar, mas não sabem onde. Essas pessoas não têm a mínima noção de separar do que é direito individual e o do que é direito coletivo. Aliás, nem sabem o que é direito, e muito menos conceituar a palavra democracia. É uma barbárie sem limites!

Os números mostram que na Bahia, por exemplo, quase 300 mil estão com a segunda dose vacinal atrasada, isto é, não deram as caras para tomar o reforço. Desses, 43 mil estão em Salvador, comprometendo todo trabalho de imunização, com riscos de uma nova onda mais forte da pandemia por causa das variantes. E ainda falam em direito individual.

Quando se vive numa sociedade, até o suicídio deixa de ser um direito individual, porque o morto vai exigir o deslocamento de uma ambulância, perícia no IML, custos para o SUS e enlutar a família, sem falar em outros incômodos.

O mesmo caso é o uso de máscaras, que até o subserviente ministro da Saúde (um médico simples assim: um manda e o outro obedece) disse que se trata de um problema de consciência, para não melindrar o chefe negacionista. Há um ano e meio venho dizendo que o Brasil será o último a sair dessa pandemia, e ainda estamos longe de nos livrar desse maldito vírus.

Ainda com relação aos números dos bárbaros individualistas e egoístas, só em Salvador, 96 mil jovens se recusam a tomar a vacina. São os festeiros e adeptos das aglomerações, um bando de analfabetos que confunde direito individual com direito coletivo. Nem é preciso repetir aqui que o vírus é altamente contagioso.

Mesmo diante desse quadro assustador, as autoridades e os organizadores ainda falam na possibilidade de realizar o carnaval, dentro dos “protocolos”. Parece até uma piada de mal gosto falar em protocolos diante de uma multidão atrás dos trios elétricos, com milhares de visitantes de outros estados e até do estrangeiro.

Quanto a imbecilidade do direito individual, o governador do Estado da Bahia promete tomar medidas de punição contra os idiotas. Espero que venham logo, e que sejam pesadas, como corte de salários dos servidores que não querem se vacinar, demissão por justa causa, proibição de participar de concursos e impedimento de frequentar eventos como partidas de futebol nos estádios.

O setor privado, através de suas empresas, precisa também fazer sua parte, com demissões sumárias porque o elemento que não se vacina é uma bomba ambulante que pode carregar o vírus consigo e infectar os outros colegas.

Para o desempregado, numa entrevista, o interessado deve se apresentar com o cartão de vacinação. Além do mais, todos devem responder processos na justiça. Só assim esses indivíduos esquecem essa palhaçada de direito individual e correm para as filas de vacinação.

FÓRUM DE CULTURA SE REÚNE PARA ESCOLHA DE NOVOS CONSELHEIROS

Nesta quinta-feira (dia 19/08), das 9 às 17 horas, ocorrerá no auditório do Cemae, na Avenida Olívia Flores, uma reunião do Fórum de Cultural do Município para a escolha dos novos conselheiros, para o biênio 2021/2023, que irão decidir a política de ações e atividades para o setor.

Dentre os candidatos representantes da sociedade para compor os novos membros do Conselho Municipal de Cultura, o jornalista e escritor Jeremias Macário é um dos nomes que pode ser votado na área da literatura.

Os trabalhos devem ser abertos pelo secretário de Cultura, Xangai, numa mesa ainda composta pela poetisa e acadêmica Stella Maris e o professor Edgar Larry. De acordo com a coordenação da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer, durante o dia haverá mesas temáticas de discussões envolvendo as mais diversas linguagens artísticas.

Mesmo com pouca divulgação na mídia, a participação de segmentos culturais da sociedade no evento nos debates e na votação dos novos membros, é de fundamental importância para a nossa cultura que vem sofrendo um período de desgaste pelos atuais governantes do país, sobrevivendo a duras penas na base da resistência, principalmente agora com a pandemia.

Além de jornalista profissional há quase 50 anos de sua vida como repórter, editor e chefe da Sucursal A Tarde de Vitória da Conquista, Jeremias Macário já publicou vários livros, inclusive sobre a ditadura civil-militar de 1964, intitulado “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”.

É um dos fundadores do “Sarau A Estrada” que no ano passado completou 10 anos, e conta com outros trabalhos de textos poéticos audiovisuais e letrista de várias músicas com artistas compositores locais e do Nordeste.

Uma das suas propostas como membro do Conselho é tentar simplificar o acesso da cultura aos artistas através da redução da burocracia em editais e concursos, bem como dar mais voz à literatura no apoio aos escritores da terra e na descoberta de novos talentos.

 

 

INSTITUTO PEDE FEDERALIZAÇÃO PARA APURAR MATANÇA DOS CIGANOS

Como as apurações das oito mortes de ciganos e os atos de violência da polícia militar não tiveram andamento em Vitória da Conquista e na Bahia, inclusive alguns processos foram arquivados, como já era de se esperar, o Instituto dos Ciganos do Brasil-ICB está solicitando da Procuradoria Geral da República (PGR) a federalização das investigações dos crimes.

A informação é do presidente do ICB, Rogério Ribeiro, que se mostra indignado como os fatos foram tratados pela polícia civil e pelo Ministério Público Estadual. Nesse sentido, o Instituto encaminhou o oficio n° 097A/ICB para a Procuradoria Geral da República PGR, datado de 12 de agosto, dirigido à subprocuradora Eliana Peres Torelly. O caso também está sendo levado ao conhecimento de organismos internacionais ligados aos direitos humanos.

Elogio às mortes

Rogério Ribeiro e o vice-presidente do ICB, José de Paulo enumeram vários pontos em que acham absurdos, como o elogio individual feito a policiais militares por três mortes de ciganos, em Anagé. Afirmam que não está existindo uma investigação desarticulada entre a polícia civil e a militar, sem contar a fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa Provita/São Paulo.

Os representantes do ICB destacam ainda que o Ministério Público Estadual está sendo leniente com os abusos policiais (rapidamente arquivou investigação). “Policiais justiceiros querem matar, não querem prender”. Eles indagam por que ainda o governador da Bahia continua calado sobre o ocorrido. Na ótica do Instituto, está havendo corporativismo local, existindo ainda riscos de novas execuções.

No documento, o presidente do ICB argumenta que existem fortes evidências de que os órgãos do sistema estadual não mostraram condições de seguir no desempenho das funções de investigações, como na morte do menor de 16 anos onde se constatou que da sua arma nenhuma bala foi deflagrada. A versão na polícia, no entanto, foi que houve confronto, como nas outras sete mortes.

Ainda na solicitação, o presidente Rogério faz um apelo para que haja o direito à reparação pelas mortes e pelos danos causados aos ciganos que foram escorraçados do município e hoje vivem escondidos, passando necessidades, sendo assistidos com cestas básicas porque perderam todos seus bens.

Segundo o presidente, eles também precisam de assistência psíquica e médica. “Isso se traduz numa política pública de reparação pelos transtornos causados à família, sem falar na perda de suas vidas. Não está havendo nenhuma segurança para proteger as testemunhas que foram vítimas de espancamentos”.

De forma enfática, o ICB pede uma postura imparcial por parte da polícia civil e do Ministério Público na apuração dos crimes que começaram no dia 13 de julho quando um tenente e um soldado foram mortos por ciganos, no distrito de José Gonçalves, em Conquista. De lá para cá, foi desencadeada uma série de operações que resultaram em oito mortes, inclusive de menores.

O Instituto considera que houve violação flagrante dos direitos humanos. Somente o pai dos ciganos, de 58 anos, foi ferido e se encontra preso. Disse Rogério que houve ações truculentas e desnecessárias por parte dos policiais.

O pedido é que todas as ameaças, perseguições e formas de violência contra os ciganos sejam consideradas violações dos direitos humanos e, consequentemente, investigadas pela polícia federal. “O respeito à integridade física e à dignidade humana não podem ser afrontados sob pena de colocar em desvalia à prevalência universal dos princípios dos direitos humanos, em sua plenitude”.

“Assim, quando a norma constitucional diz que o Estado brasileiro tem como um dos seus fundamentos a dignidade da pessoa humana (Art.1º, III), ou que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (Art.5º, III), não está cuidando de algo teoricamente inaplicável, mas sim de uma efetiva exigência da preservação dos direitos do homem, sem a qual a arbitrariedade, a insegurança e o medo se generalizariam, e a vida em sociedade voltaria a um estágio de barbárie”.

O ofício de pedido de federalização também foi levado ao conhecimento de instituições internacionais de direitos humanos, à Rede dos Gitanos da Espanha; Procedimentos Especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Representante Especial do Secretário Geral da ONU para a prevenção de Genocídio, Relatora Especial dos Direitos das Pessoas de Origem Africana e Contra a Discriminação Racial, Representante do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos no Brasil; CIDH no Brasil, para OAB, MPF, MPE e Comissão dos Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Vitória da conquista.

A OLIMPÍADA DA PANDEMIA

Carlos González – jornalista 

Criados em 1894 pelo francês René de Fredy, o Barão de Coubertin (1863-1937), os Jogos Olímpicos nesses 127 anos foram desestabilizados e manchados por acontecimentos com perfis bélico, terrorista, ideológico e por corrupção. Pela primeira vez o maior evento esportivo do planeta foi ameaçado por um vírus letal, que já havia provocado o adiamento por um ano da XXXII Olimpíada da Era Moderna, realizada entre os dias 23 de julho e 8 de agosto, na populosa cidade de Tóquio, no Japão.

Contrariando a opinião da maioria dos moradores da capital japonesa, as autoridades locais e o Comitê Organizador, pressionados pelas empresas patrocinadoras, realizaram os Jogos, mesmo sem a presença de público, numa decisão similar recente adotada por alguns brasileiros indiferentes à vida humana, capitaneados pelo presidente Bolsonaro, quando da promoção da Copa América. Sob estado de emergência – somente no dia 31 ocorreram 4.058 novos contaminados pela Covid-19 – o Japão recebeu 12.500 atletas de 206 países.

A partir do próximo dia 24 a população de Tóquio vai ser submetida a um novo período de tensão, com a abertura dos Jogos Paralímpicos, que se estenderão  até 5 de setembro, com possibilidade de aumento de infectados  – na última Olimpíada foram 246 casos, incluindo 26 atletas, nenhum brasileiro. O  motivo para preocupação é muito simples: o competidor (deficiente físico ou mental) não tem a mesma estrutura músculo-esquelética e metabólica do atleta profissional.

Esta semana encerrou a quarentena de 14 dias, submetida as 52 membros, sendo 27 atletas, da representação brasileira à Paralimpíada, cuja viagem foi antecipada ao Japão para adaptação ao fuso horário e aos locais das provas. As autoridades sanitárias japonesas determinaram o isolamento depois de detectar dois casos de Covid-19.

Potência olímpica

O 12º lugar (sete medalhas de ouro, seis de prata e oito de bronze) atingido pelo Brasil nos Jogos de Tóquio foi a nossa melhor campanha desde 1920 quando fomos representados por 22 atletas nos Jogos de Antuérpia, na Bélgica, mas ainda estamos distantes do que qualificamos de potência olímpica.  Com 10.950 km de litoral e a maior reserva de água doce (rios e lagoas) do planeta, o Brasil contou apenas com um representante no remo; o basquete (masculino e feminino) não foi a Tóquio. Como justificar o fracasso das duplas de vôlei de um país com mais de 7 mil quilômetros de praias?

A Rede Globo, dona dos direitos exclusivos de transmissão da Olimpíada, tentou mostrar o contrário. Seus narradores e comentaristas, como torcedores arrebatados (o G1 publicou várias fotos de Galvão Bueno fazendo “caras e bocas”)  bem que se esforçaram durante as madrugadas, instalados numa cabine em São Paulo.

O fuso horário foi um dos fatores determinantes do pouco interesse dos brasileiros pelos Jogos. Também não se pode ignorar que o povo vive apreensivo com as atitudes absurdas que chegam de Brasília, idealizadas por um psicopata.

Até o torneio de futebol, nosso esporte mais popular, passou despercebido. O título ganho com ajuda da arbitragem ficou em segundo plano diante da atitude dos jogadores, violando um acordo feito com o COI, relacionado à empresa patrocinadora da delegação brasileira. No pódio, Daniel Alves e seus companheiros exibiram a marca usada pela CBF. A transgressão disciplinar vai parar na Justiça.

Mesmo sendo considerado como emergente no concerto das nações com maior potencial olímpico, o Brasil ainda está muito distante dos Estados Unidos, China, Japão, Rússia, Canadá. Fora das escolas (Fernando Scheffer admitiu que a medalha de bronze ganha em Tóquio foi resultado de preparação numa universidade norte-americana), e dos  clubes sócio-esportivos, o esporte nacional carece da implementação de políticas públicas, tanto do governo federal quanto de estados e municípios; do investimento de empresas privadas, sem priorizar, por exemplo o futebol e o basquete, que têm maior visibilidade na televisão, ou optar por um atleta de ponta.

Dois programas bancados pela União ajudam no treinamento de centenas de atletas que estão nas melhores posições nos rankings de modalidades esportivas, de acordo com as respectivas confederações. O Bolso Atleta, administrado pela Secretaria Especial de Esportes, destina uma verba mensal de 370 a 3.100 reais a jovens candidatos a vagas em Olimpíadas e Mundiais.

O programa do Ministério da Defesa, o PAAR, com recursos de 38 milhões de reais anuais,  incorpora nas Forças Armadas, nos postos de recruta a 3º sargento, com soldo máximo de 4.000 reais, atletas de alto rendimento, com uma única obrigação: o aprimoramento nos locais de treinamento  militar. O Time Brasil em Tóquio contou com 91 militares, entre os quais os medalhista Kahena Kunze (vela), Ana Marcela e Fernando Scheffer (natação), Hebert Conceição e Beatriz Ferrreira (boxe), Alison dos Santos e Abner Teixeira (atletismo) e Daniel Cargnin.

O COB premiou os medalhistas individuais com 250, 150 e 100 mil reais. Nos esportes coletivos, o futebol recebeu 750 mil e o vôlei feminino 300 mil reais.

A conclusão a que chegamos é que o Brasil esportivo trabalha a médio prazo, sem lançar a vista para o futuro, na esperança de quer suja um atleta-exceção, como a skatista paraense Raissa Leal

O Nordeste, particularmente a Bahia, comemora, com todos os méritos, as medalhas conquistadas por seus filhos em Tóquio.  São chamados de “atletas exceção”, como os alunos do mestre Luís Dórea, que há mais de 40 anos forma campeões em sua academia no bairro periférico da Cidade Nova, em Salvador. De lá saíram Popó e Robson Conceição, e agora Hebert Conceição, medalha de ouro em Tóquio.   No mesmo bairro, Raimundo Ferreira ensinava a arte do boxe a um grupo de garotos, sendo observado por sua filha Bia, que, com o passar do tempo tornou-se aluna do seu pai, e hoje, no seu currículo são mais de 100 lutas, muitas delas fora do país. A medalha de prata na Olimpíada a tornou conhecida dos seus conterrâneos.

 

 

 

 

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS” (Final)

Este livro conta com a participação do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Itamar Aguiar.

“África tem uma História”. Esta frase está no volume I de “História Geral da África”, de Joseph Ki-Zerbo. Era fins da década de 1970.

Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, organizadores da obra, nos oferecem um apanhado geral sobre as ideias dos grandes intelectuais da África que interpretaram os conceitos do Pan-Africanismo e da Negritude do continente pré-colonial e pós-colônia.

Frantz Fanon foi um dos primeiros pensadores desse povo que por séculos viveu sob o jugo dos dominadores – assinalam.

Para elaborar o livro “Intelectuais da África”, por intermédio dos autores convidados, Silvio e Washington adotaram o significado de intelectual como indivíduo que reflete, teoriza, projeta e produz sobre as sociedades, imaginando novas formações sociais, políticas e econômicas.

Os intelectuais foram hábeis na arte de representar, seja na escrita, no cinema ou na música, como Fela Kuti, Sembène, Soyinka, Fatema e outros – escreveram.

O termo intelectuais, de acordo com os expositores do assunto, tem sua origem em fins do século XIX, na França, por conta do caso Dreyfuss, condenado injustamente por traição à pátria.

Como dizem os autores do capitulo da obra, os estudos sobre os intelectuais entraram em descrédito após a década de 1920. No entanto, o papel deles na França foi fortalecido durante a guerra da Argélia (1954-1961). Eles interferiram na história, em especial Jean Paul Sartre.

Textos de Anta Diop, Senghor e Fanon eram divulgados no bojo do Pan-Africanismo ou da Negritude, como forma de resistência à argumentação de que a África não tinha história, e seu pensamento era atrasado e selvagem – acusam os acadêmicos.

Silvio e Washington afirmaram que o surgimento dos intelectuais está ligado a três origens, como o universo (ancestral), o isolamento e a escolarização europeia. Esses processos se misturaram e se divergem em algumas regiões – afirmaram.

Formados no período do colonialismo europeu, um traço comum entre eles foi o engajamento frente a todos os problemas nacionalistas, nas lutas pela a emancipação e nos direitos das mulheres, contribuindo para a transição de descolonização do conhecimento.

Nos textos do livro, existem fortes influências de matrizes pré-coloniais. Esses pensadores, conforme apontam, foram tragados pelo Pan-Africanismo e a Negritude. Como estrangeiro, Fanon escreveu sobre os efeitos do colonialismo na África e participou da luta pela independência da Argélia. Essa intelectualidade viveu o processo do fim da colonização, da descolonização e da emergência dos novos Estados.

O Pan e a Negritude foram dois importantes movimentos de resistência político-ideológico. O primeiro foi na questão da ancestralidade que levaria a um sentimento racional gerador da solidariedade entre os povos.

A Negritude tratou da questão específica do orgulho de ser negro e adoção da sua cultura. Esse movimento surgiu em fins da década de 30 no poema lírico “Diário de um Retorno ao País Natal, do antilhano da Martinina Aimé Césare. Senghor desenvolveu essas ideias em diferentes obras, servindo de base para outros intelectuais.

O orgulho da África, a luta, não contra o sistema, mas seus abusos, foram marcas do Pan, segundo Silvio e Washington. Somente depois do Congresso Pan-Africano (1945) e da invasão da Etiópia por Mussoline, em 1935, a luta pela independência entra na agenda dos intelectuais – relatam.

Tudo isso contribuiu para a obra cinematográfica do senegalês Sembène. A partir daí, formou-se uma rede de solidariedade contra o colonialismo. Dentro dessa ideia de coparticipação, o pan-africanista Amílcar Cabral, líder da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, na década de 60, postulava que a libertação na África não poderia caminhar apenas na linha da independência de cada colônia, mas de toda África.

Esse Pan-Africanismo passou a estimular a unificação de toda a África em um único Estado, mas esbarrou nas divergências e nos sentimentos de soberania de cada território. Nkrunah, líder de Gana (1957 -1966) foi um dos difusores da ideia. O Pan também foi prejudicado pela xenofobia entre os estrangeiros africanos, pelas distâncias geográficas, pela a esquerda e direita, pelas prioridades econômicas e interesses de cada governo.

“Os dirigentes africanos se dividiram em dois grupos, os que queriam uma união política forte e os que desejavam uma confederação com soberania. A ideia caminhou para uma união entre os estados independentes, visando combater o imperialismo. Dessa forma, surgiu em 1963, a Organização da União Africana (OUA).”

Sobre este ângulo, a escritora nigeriana Adichie faz um de seus personagens lembrar de que o negro é uma criação branca, impregnada de autoritarismo e corrupção. Com as bandeiras do combate ao racismo e da negritude, o Pan obteve a simpatia de vários intelectuais africanos. Os dois se caracterizaram por sua face racial, de provar a não inferioridade da raça negra.

Adichie em seu livro Meio Sol Amarelo (2006) fez uma personagem sustentar que os negros foram e são emparelhados pela mesma opressão branca. Porém, a crítica à branquitude teve suas reservas nas falas de Pepetela, Soyinka e Mia Couto. O próprio Soyinka propôs uma valorização das culturas do continente, sem a negação de qualquer porte. Pepetela e Mia também não defenderam uma idealização da raça negra, se colocando abertos às misturas das culturas, não acreditando numa raiz pura e intocada.

Um Rio Chamado Tempo e Uma Casa Chamada Terra, Mia narra numa conversa entre família onde um membro se espanta que nela haja tantos mulatos. “Nesse mundo, todos somos mulatos”. “Ao longo dos séculos, as culturas africanas sempre se aproveitaram de traços culturais entre si e de outras fora do continente.”

Na década de 60, o músico Fela-Kuti propôs uma arte voltada para a solidariedade negra. Tanto Amílcar Cabral, Sembène e Adichie rejeitaram a ideia homogeneizante de uma única identidade africana, Admitiram a existência de uma pluralidade cultural. Adichie fez um personagem sua declarar que o negro era em grande parte uma criação branca.

Para Mbembe, o importante não é a volta ao passado, mas a autocriação e a auto explicação realizadas pelos africanos em cada lugar da sua história através de seus instrumentos, como a religião, a música, a literatura e das artes em geral.

“Em linhas gerais, os intelectuais africanos procuraram exercer influencias sobre a opinião pública em relação a fatos, como o colonialismo, a descolonização ou os Estados e as questões sociais emergentes no pós-independência, interpretando as realidades do continente”.

Os autores desse capítulo citam a nigeriana Adichie que questiona a subalternização das mulheres africanas, testemunhas das injustiças que, diante das quais, as mulheres se calavam. Ressaltam também a luta de Soyinka contra as ditaduras nigerianas, sendo preso durante a guerra da Biafra (1967-1970).

“Alguns desses intelectuais participaram de governos, como Senghor que foi presidente do Senegal (1960-1980) e Pepetela vice-ministro da Educação angolana (1976-1982). “Tiveram de lidar frequentemente no mundo ocidental com um desconhecimento ou uma visão estereotipada dos problemas africanos. Levantaram questões embaraçosas para o colonialismo ou para os regimes autoritários ou sociedades conservadoras em África. Lutaram contra diversas formas de poder, suas estruturas estatais autoritárias no período colonial e nos pós-independência”.

“Uns engendraram no campo político e outros, como Pepetela, na literatura após deixar a cena político-partidária. Enfim, lutaram pela promoção da liberdade dos africanos e pelo conhecimento crítico das realidades vivenciadas pela África. Muitos acreditaram que a independência era o início do processo de emancipação, chegando alguns, a pensarem realidades novas, às vezes, utópicas, enquanto outros acharam que era a sua conclusão”.

“Em geral, permaneceram críticos do poder, marginais ou exilados, não sendo cooptados por governos e empresas. Poucos renegaram essa vocação. Muitos, ao assumirem governos, abandonaram a posição extremamente crítica mais fácil aos intelectuais de oposição, tendo de justificar regimes ao lado dos quais passaram a assumir a liderança ou a defesa, traindo, consequentemente, companheiros”.

“Muitos, após a independência, com o assumir de regimes autoritários e corruptos, passaram a denunciar que todas as dificuldades atuais da África, tais como ditaduras, guerras, genocídios, machismo, fanatismo e poluição não podiam ser só atribuídas à colonização. Entre estes, “podemos apontar Soyinka, Pepetela e Fatema Mernissi”.

 

 

ATLETAS NÃO PRECISAM DE COMENDAS E SIM DE UMA POLÍTICA DE INCENTIVOS

MAIS UMA VEZ ESSAS OLIMPÍADAS SERVIRAM PARA MOSTRAR A FORÇA DE VONTADE E A CARA DE POBREZA DO NOSSO POVO. O BRASIL CONTINUA UM GIGANTE ADORMECIDO EM BERÇO ESPLÊNDIDO.

Com todas as dificuldades financeiras de sempre, choros, suor e lágrimas, os atletas brasileiros nas Olímpiadas de Tóquio, no Japão, conseguiram arrancar na tora e na garra 21 medalhas, superior que a última, no Rio de Janeiro. O número reflete a falta de políticas públicas para os esportes. A mídia faz estardalhaços com berros e sensacionalismos, mas esconde a realidade do corte de verbas para a formação e treinamento, que neste ano foi de 47% (dois bilhões de reais).

Os representantes da Bahia, de origens pobres, saídos das miseráveis periferias, se destacaram no evento, e o governo, mais uma vez, promete implantar um programa de incentivo com centros de treinamentos, que depois são esquecidos (acabaram com as piscinas olímpicas). Na apresentação da medalha, político quer posar ao lado do campeão, especialmente se for de ouro.

Para fazer sua média política, a Assembleia Legislativa da Bahia aprova a criação de comendas aos atletas que conquistaram medalhas. Isso é um engodo! Faltam investimentos na base para desenvolvimento de novos esportistas, inclusive nas escolas públicas.

Em 2020 liberaram emendas parlamentares de 30 milhões de reais para quadras e estádios, mas no final falta verba para alambrado e outros equipamentos. A obra fica inacabada e termina sendo depredada. As estatais nacionais não mais dão ajuda para os esportes.

Conforme saiu na coluna de José Medrado (edição do A Tarde, dia 11/08), a senadora Leila Barros, ex-jogadora de vôlei da seleção, fez um pronunciamento no Senado Federal onde apontou que dos 309 atletas, 131 não têm patrocínio (empresas pouco investem em cultura, esporte e lazer), 36 realizaram permutas, 41 promoveram “vaquinhas” para arrecadar recursos (uma vergonha!), 33 conciliam esportes com o emprego e 78 nem sequer estão inclusos no programa Bolsa Atleta.

É triste ver um atleta como o Darlan Romani, que conquistou o quarto lugar no arremesso de peso, treinar no quintal da sua casa, com um técnico lhe orientando por telefone. Existe uma lei, a chamada “Pelé”, mas até hoje o governo não apresentou o Plano Nacional de Desportos. No lugar, aparecem os oportunistas para darem comendas.

Falta também da parte dos nossos atletas uma consciência política (negaram também a educação a eles) para nesse momento botarem a boca no trombone e denunciar essas mazelas. Deviam se recusar a sair nas redes sociais ao lado desses políticos e governantes que só querem capitalizar o voto nesses momentos de pódio. São verdadeiros caras-de-pau!

Pelo tamanho e riqueza do nosso país, pelos talentos adormecidos que existem, pelas modalidades praticadas com afinco, persistência e força de vontade, e se nossos atletas tivessem total apoio, o Brasil já teria superado o dobro de medalhas nas olimpíadas. Vinte e uma medalhas são poucas frente a outros países até menores. Não vou aqui fazer comparações com os Estados Unidos, China, Japão e Rússia.

“BRASIL: NUNCA MAIS”

Fotos de Evandro Teixeira

Entre milhares delas pelo mundo a fora, essas duas fotos do meu amigo e grande fotógrafo Evandro Teixeira são também marcantes e históricas que dizem tudo da ditadura civil-militar de 1964, e que essa maldita nunca mais volte como está registrado no livro “Brasil: Nunca Mais”, organizado pelo arcebispo de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns, em conjunto com igrejas protestantes.  Nesta semana, nos causou calafrios ver aqueles tanques desfilando na Esplanada dos Ministérios, num ridículo circo armado para entregar um convite ao capitão-presidente e intimidar a Câmara dos Deputados que votou contra a volta do voto impresso. Mais ridículo ainda foi ver aqueles generais de pijama subservientes ao “chefe”, envergonhando a imagem das forças armadas brasileiras. Não deveriam se prestar a esse papel de oportunismo barato. Ficaram feios na foto e se foram calados. Foi uma passagem melancólica, mas devemos ficar vigilantes 24 horas para que ela nunca mais no Brasil. Não vamos mais deixar passar essa boiada de carrascos que prenderam, torturaram e mataram.  Todas essas ameaças ainda acontecem porque as feridas da ditadura ainda continuam abertas, quando a anistia de 1979 não puniu os torturadores, como fizeram nossos países vizinhos. O dia dele vai chegar, sem intervenção militar como quer um grupo de nazifascistas que há anos viviam no armário porque não tinham ninguém para dar voz a eles, e nem havia espaço para tanta loucura.

O HOMEM QUE CHORA

Versos inéditos do jornalista e escritor Jeremias Macário

O homem em seu interior chora,

E lá fora bate o vento atrás do monte,

Até no horizonte onde secou toda fonte.

 

Nuvens anunciam tempestade de chuva,

Foguetes voam nesse espaço de engaço,

Da terra que produz da mandioca a uva,

Mas morre de fome a criança sem nome.

 

No infinito solitário da eternidade,

Náuseas desse falso existir solidário,

O homem perdeu seu sonho e o amor,

E só lhe restou a dor da tirana saudade,

Na espera de um verde no calendário.

 

Repente, repentistas desse Nordeste,

Cantam esse chão cauboy faroeste,

Do retirante a vagar com sua viola,

A solar a canção do homem que chora,

Nas noites frias a pedir uma esmola.

 

Sou a voz desse homem que chora,

Que perdeu a fé até em Nossa Senhora,

Sou a voz desse homem que chora,

Por justiça social que virou pedra de sal.

“CARRO-PIPA PRECISA DEIXAR DE SER TROCA DE MOEDA NA POLÍTICA”

A questão do abastecimento de água em Vitória da Conquista foi um ponto de destaque nas falas dos parlamentares na sessão de ontem (dia 11/08), na Câmara de Vereadores, cuja plenária continua com o péssimo hábito das conversas em paralelo quando alguém está discursando. O assunto foi abordado quando muitos locais urbanos e na zona rural convivem com a escassez do precioso líquido tão vital para as pessoas.

Em seu pronunciamento, o vereador Augusto Coutinho foi enfático quando disse que o “carro-pipa precisa deixar de ser troca de moeda na política”, ao citar que uma mulher esteve em seu gabinete para que ele intercedesse junto às autoridades do município por um desse serviço de oferta de água. Há anos que o carro-pipa faz parte do cenário de seca no semiárido baiano, inclusive na região sudoeste.

Isto me fez lembrar dos tempos em que fazia coberturas jornalísticas sobre estiagens no sertão. O carro-pipa sempre foi objeto de troca de voto e, por incrível que pareça, ainda continua sendo. O parlamentar bradou que isso tem que acabar através da prometida construção de uma barragem, para ele sobre o Rio Pardo, próximo a Inhobim, que atenda toda demanda da população, com água encanada na cidade e no campo. Essa barragem seria o dobro da capacidade das atuais Água Fria I e II.

Outro que mirou o problema da falta de água foi o parlamentar Admilson Pereira, apontando também a urgência de implantação de outra barragem, antes que se corra em outro risco de racionamento, levando em consideração que ainda vamos ter um período extenso sem chuvas, além do inverno seco que ainda estamos atravessando.

O tenente Muniz criticou a situação das estradas vicinais da zona rural, as quais se encontram intransitáveis, como no povoado de Muritiba. O colega Dinho dos Campinhos tratou dos problemas da saúde no município, cuja população mais carente não tem tido o devido acesso.

Alexandre Xandó mostrou a precariedade dos transportes coletivos em Conquista, e disse que testemunhou o quadro numa van que ele mesmo usou para se deslocar até a Câmara.  Não é de hoje que este tema da mobilidade urbana tem sido o carro-chefe nas discussões entre os parlamentares e os usuários que dependem do transporte para o trabalho e a realização de outras atividades cotidianas.

A Tribuna Livre ficou por conta de representantes jovens da Ordem Demolê, que explicaram sobre papel da instituição na comunidade, principalmente de assistência educacional, de esportes e lazer para a juventude mais pobre. Falaram do Dia da Juventude e reivindicaram mais políticas públicas voltadas para as crianças e os jovens.





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