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CULTURA NÃO É SÓ MÚSICA

Quem veio primeiro, o verbo ou a música? Dizem que a explosão de uma estrela na criação do mundo permitiu a propagação do som em forma de música, mas a palavra estava lá. A música é tão importante quanto a literatura, talvez esta última mais ainda. Outros que sem letra não existe música, mesmo que ela saia antes da composição.

Na verdade, não deixa de ser pontos de vista de cada um na sua interpretação filosófica. No entanto, essa não é a questão primordial, e a discussão pode ser infinita.  O que eu quero mesmo expressar é que a cultura não pode ser resumida apenas na música. Existe uma mentalidade impregnada nas pessoas no conceito de cultura, achando que artista é somente aquele que é cantor e músico.

Essa concepção advém da premissa de que a música tem mais visibilidade do que as outras artes por atingir o maior número de público. Ela é mais fácil de ser captada e atrai muito mais gente do que a literatura, a dança, o teatro, o cinema, as artes plásticas em geral, o artesanato, a oralidade e outras linguagens artísticas.

Aqui em Vitória da Conquista, por exemplo, onde não existe uma política cultural definida, mal ou bem, com raras exceções, só a música tem sido contemplada pela Secretaria de Cultura, principalmente nas festas de São João e Natal. As outras artes são sempre esquecidas, jogadas lá no fundo do baú, e ficam empoeiradas.

Há muito tempo não temos aqui um salão de artes plásticas, um festival de dança, teatro, poesia e audiovisual promovidos pelo poder público em conjunto com o setor privado. Uma cidade do porte de Conquista, a terceira maior da Bahia, com mais de 230 mil habitantes, nunca abrigou uma feira do livro, enquanto outras cidades menores têm realizado com sucesso.

Não estou aqui, de forma alguma, querendo tirar o pão da boca dos músicos por serem os mais beneficiados. Muito pelo contrário, até entendo que é muito pouco o que a Prefeitura Municipal faz pela classe. Só quero afirmar que as outras artes, tanto quanto a música, precisam ganhar seu merecido espaço na cultura.

Essa mentalidade de se trabalhar mais a área musical precisa ser mudada. A literatura, por exemplo, e aqui não estou puxando a sardinha para o meu lado, é a linguagem mais sacrificada, talvez pela grande perda do hábito da leitura e também por ser a menos compreendida pelo público. É a mais difícil de ser entendida.

Digo de mim mesmo que cheguei a publicar meus livros com muito sacrifício e dor, inclusive pensando em desistir no meio do caminho, como foi o caso de “Uma Conquista Cassada”, uma obra de pesquisa que exigiu muito trabalho e poderia ter sido melhor se tivesse tido apoio de recursos de fora. Felizmente, o seu lançamento foi possível graças a ajuda do deputado estadual Jean Fabrício que intermediou sua edição junto à Assembleia Legislativa.

Quanto aos outros, tive que correr atrás pedindo a ajuda de um e de outro para fazer a impressão, sem contar que fui obrigado a colocar dinheiro do meu bolso. Como não sou um Jorge Amado e nem um João Ubaldo da vida, as editoras não têm interesse, e aí o “bicho pega”, como se diz no popular. Por essas e outras, existem hoje muitos talentos engavetados que poderiam até ter virado grandes escritores nacionais.

JOSÉ DE ALENCAR-SUCESSO DE PÚBLICO (Final)

UM ESCRITOR MUITO CRITICADO E POLÊMICO

Como vimos na coluna anterior, além de advogado e escritor romancista, José de Alencar foi também político como deputado e ministro da Justiça. No Rio de Janeiro, como advogado a partir de 1851, Alencar foi convidado pelo seu colega Francisco Otaviano a colaborar no jornal “Correio Mercantil” onde escreveu sobre diversos assuntos numa coluna intitulada “Ao Correr da Pena”.

Como jornalista estreou com sucesso em 1854, tanto que no ano seguinte torna-se redator-chefe do “Diário do Rio de Janeiro” onde publica seus folhetins de fatos variados. Em 1856, o poeta Domingos Gonçalves de Magalhães, que oficialmente lançou o romantismo no Brasil”, com o livro “Suspiros Poéticos e Saudades”, publica o poema “A Confederação dos Tamoios”, sem o consentimento do Imperador D. Pedro II.

CONTRA E A FAVOR

No “Diário do Rio de Janeiro”, Alencar faz uma série de críticas ao poema de Gonçalves, fazendo com que várias pessoas se manifestassem contra e a favor. Um dos defensores foi o próprio imperador com quem Alencar travou vários conflitos. Em 1856, o advogado e jornalista escreve “Biografia do Marquês de Paraná”, “A Constituinte Perante a História” e seu primeiro romance “Cinco Minutos”.

No ano seguinte começa a publicar “A Viuvinha” e logo depois o famoso “ O Guarani” que primeiro apareceu em folhetim no “Diário” e depois virou livro. Foi um total sucesso lido por boa parte do Rio de Janeiro. Os leitores logo se comoveram com os amores entre Ceci e Peri, envolvidos com os perigos dos bugres selvagens.

Em São Paulo os estudantes e demais interessados pela literatura ficavam na expectativa de receber o “Diário do Rio” para ler em voz alta os folhetins de “O Guarani”. O sucesso da obra levou Alencar a experimentar a área teatral e escreve a opereta “Noite de São João” e mais duas comédias “Verso e Reverso” e “O Demônio Familiar”.

Em 1858 ele tenta o drama com a peça “As Asas de um Anjo”, que é proibida pela censura por ser considerada imoral por ter como heroína uma prostituta. Em 1860 estreia o drama “A Mãe”. Logo depois segue para o Ceará onde tenta a carreira política do pai que havia falecido.

Naquele estado nordestino, candidata-se a deputado pelo Partido Conservador e é eleito, deixando um pouco à sua atividade literária. Em 1861 estreia na tribuna como parlamentar e, em 62, escreve “Lucíola”, bem como o primeiro volume “As Minas de Prata”.

No ano de 1864 casa-se com Ana Cochrane da mesma família do Almirante que foi herói da luta pela independência. Nesse mesmo ano, sai a edição de “Diva” e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de “As Minas de Prata”. No ano seguinte faz “Iracema”, seu segundo maior sucesso, e no final de 1865 começa a publicação de “Cartas de Erasmo ao Imperador”.

Aos 39 anos de idade, em 1868, Alencar torna-se ministro da Justiça. No mesmo ano o “Correio Mercantil” publica uma carta de Alencar apresentando Castro Alves a Machado de Assis. Em 1869 candidata-se ao Senado e é eleito em primeiro lugar. Deixa o Ministério e retorna à Câmara para fazer oposição ao imperador, que veta seu nome ao Senado.

Sobre os conflitos entre esses dois personagens, Taunay escreve que D. Pedro teria dito ao político e romancista para ele não se apresentar ao Senado por ainda ser moço. Alencar teria respondido: “Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal”. O veto do imperador encerra a carreira política do escritor.

Com 41 anos ele já se considera velho, mas tenta retomar a literatura, tanto que em 1870 publica “A Pata da Gazela” e o “Gaúcho”, com o pseudônimo de Sênio. Sobre as fortes críticas que recebe redige “Advertência Indispensável Contra Enredeiros e Maldizentes”, incluída no primeiro volume de “Guerra dos Mascates”, uma sátira à personalidade do Império.

Em 1871 publica “O Tronco do Ipê” e, em 72, “Til e Sonhos d´Ouro”. Ele sofre pesadas críticas, mas continua a escrever, tanto que em 1873 nasce “Guerra dos Mascates e Alfarrábios” que reúne: “O Garatuja”, que se passa no Rio colonial, e o “Ermitão da Glória” e “Alma de Lázaro”. No mesmo ano estreia a peça “O Jesuíta” que foi um fracasso de público. Em “O Globo”, Alencar critica a indiferença do público que, segundo ele, tem desinteresse pelo texto nacional.

No mesmo jornal, Joaquim Nabuco faz uma série de artigos sobre a obra de Alencar, criando uma longa polêmica entre os dois. Em 1874 escreve “Ubirajara”, o segundo volume de “Guerra dos Mascates” e “Ao Correr da Pena”. No ano seguinte aparecem “Senhora” e “O Sertanejo”, últimos livros de sua vida até o seu falecimento, em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, deixando um grande legado para a literatura, sobretudo “O Guarani” que se tornou ópera de autoria de Carlos Gomes, que percorreu meio mundo.

PASSAR O CHAPÉU

 

 

Não é nenhuma humilhação o artista, por decisão própria dele, seja qual for a sua linguagem, passar o chapéu em lugares públicos para angariar algum dinheiro para o seu sustento, mas é um grande desrespeito quando se trata de um secretário de Cultura mandar em público que ele faça isso para se virar, quando pouco faz para ajudar aqueles que produzem cultura para o povo. É um atestado que o poder público não tem projetos para amparar e fortalecer a nossa cultura. O próprio rei do baião passou o chapéu nas feiras de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, quando saiu do sertão para lançar suas cantorias e composições no sul. Uma coisa, senhor secretário, é o artista se exibir nos metros de Londres, nas praças de Paris e em outros países europeus. A outra é um secretário, ou ministro da Cultura mandar passar o chapéu. São atitudes diferentes. Na Europa, muitos são de outros países que estão de passagem apresentando seus shows e espetáculos e estão até trabalhando de forma clandestina. Mandar passar o chapéu nada mais é que uma humilhação nessa circunstância específica da fala do secretário. Aliás, senhor secretário, muitos artistas estão atravessando uma situação tão difícil e carente que nem têm dinheiro para comprar um  chapéu. Já que a Secretaria quase nada oferece em termos de apoio à classe, e mandou que se passe o chapéu, posso ajudar fazendo uma doação para a pasta, pois possuo uma coleção de mais de 150 peças. Pelo menos a Secretaria entraria com um chapéu para cada um. Como se trata de uma ofensa, creio que os músicos, malabaristas, atores e outros que lidam com a arte não vão aceitar esse desrespeito. Por falar nisso, a OAB está entrando com uma ação judicial contra o desmonte da cultura no país praticado pelo governo federal. O mesmo poderia ser feito com relação a Vitória da Conquista, cuja Prefeitura Municipal abandonou a nossa cultura.

ANDANÇAS

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário, que leva o mesmo nome do seu livro

Oh quantos feixes de lembranças!

Daquela terra estéril e árida,

De gente sofrida de alma cálida,

A esperar algum agito do vento,

Para farfalhar as folhas da plantação,

Quando nessa travessia do tempo,

Resolvi partir em minhas andanças.

 

Como viajante dessas histórias,

Fui rasgar todas as divisórias,

Deixei meus pais e o meu amor,

Com lágrimas bateu no peito a dor,

Cortei pelo cemitério dos anjos,

Bem longe vi as meninas de tranças,

E segui com a mochila das andanças.

 

A noite na roça é fechamento de porta,

Aí fui girar mundo nas andanças,

Passei fome nas esquinas das vidas,

Entrei em muitos becos sem saídas,

Levei rasteiras, tropeços e foras,

Roguei por todas Nossas Senhoras,

Voltei como agrônomo doutor,

Para reanimar essa natureza morta.

 

As estrelas e a lua voltaram ao cio,

Meu amor me beijou quando me viu,

Do chão criamos filhos e bonanças,

Mas meus pais não resistiram o verão,

E se foram durante minhas andanças.

A NOSSA ABANDONADA CULTURA

MANDAR OS ARTISTAS PASSAREM O CHAPÉU NAS PRAÇAS E FEIRAS LIVRES É NO MÍNIMO UMA FALTA DE RESPEITO COM A CLASSE. É UM ATESTADO DE QUE A PREFEITURA MUNICIPAL ABANDONOU A CULTURA E NÃO TEM NENHUM PROJETO PARA ELA.

Por um bom espaço de tempo, a pandemia da Covid-19 ainda vai ser o assunto mais comentado. Está difícil essa tragédia se apagar das nossas cabeças, embora conheça gente que tem feito todos os esforços para não ligar mais o controle nos noticiários dos meios de comunicação. A doença veio entrelaçada com atos bárbaros de violência e odor de angústia, ansiedade e depressão.

Nesses tempos que já eram tão difíceis, ninguém imaginava que o nosso Brasil e o mundo iriam receber mais essa pancada de um inimigo invisível que parece não desistir do seu fogo cruzado e bater em retirada, mesmo depois de ter feito tombar milhões de vidas nesse planeta já tão castigado pelo homem.

ESQUECIDOS ARTISTAS

Terminei por fazer um “nariz de cera” no jargão jornalístico para entrar no assunto propriamente dito que é sobre a nossa esfarrapada cultura, principalmente aqui em nossa Vitória da Conquista. Sobre ela, existe um certo silêncio. No início do ano passado apareceram aí uns editais para dar alguma ajuda aos abandonados artistas que sempre estiveram na trincheira da resistência em defesa da nossa cultura.

Fala-se muito da pobreza que passa fome e precisa de socorro das doações, dos microempresários que estão falidos, dos informais que penam para sobreviver, das milhares de filas nas portas dos bancos para receber a merreca do auxílio emergencial, dos desempregados e desvalidos, mas pouco sobre a cultura e dos que sempre batalharam para dela tirar o parco sustento.

Os nossos cantores, compositores e músicos, os que fazem literatura, os poetas da vida, os pintores e escultores, os atores e atrizes, os dançarinos, enfim, os que estão inseridos em todas as linguagens artísticas já fazem um tremendo malabarismo para botar comida em suas casas e até passam fome. É a sociedade dos esquecidos, principalmente agora que o governo federal resolveu exterminar os fazedores de cultura como se fossem a escória do país.

No caso específico de Conquista, agora aparece o secretário de Cultura e manda os artistas passarem o chapéu nas ruas, como se dissesse se virem. Fora aqueles editais, inclusive um deles de origem federal (para não dizer que não fez nada), não vejo ações concretas para amparar a nossa cultura e seus produtores.

Infelizmente, a cultura não faz parte da política do governo municipal, e nem a Câmara de Vereadores tem tomado iniciativas concretas para criar um programa permanente nesse sentido, sobretudo nesse momento agudo da pandemia.

É mais que sabido que muitos estão atravessando necessidades, sobretudo músicos que tiravam um dinheirinho nos bares e restaurantes da noite, porque os shows nos calendários de festas (Natal e São João) são escassos e não estão acontecendo por causa da Covid-19. Mesmo assim, esses eventos são pagos com atrasos. A situação ainda é mais grave quando se refere às outras linguagens artísticas que são desprovidas de programas de apoio.

Quanto ao setor privado, os empresários de Vitória da Conquista (sei que serei execrado por isso), com raras exceções, ainda têm aquela mentalidade coronelista de não investir em cultura e esportes.

Suas rendas são carreadas para aplicações em imóveis (os empreendimentos imobiliários estão bombando), fazendas de café, criação de bois e cavalos, e muitos ainda botam o dinheiro debaixo do colchão, ou nos cofres na era moderna.

Um exemplo disso é a triste situação do time de futebol profissional do Vitória da Conquista que por pouco não foi rebaixado do campeonato baiano por falta de recursos para investir em melhores jogadores. Poucas empresas são patrocinadoras, e só recebe alguma coisa quando a equipe está numa boa posição no certame. Ai fica a pergunta: Quem vem primeiro? O ovo ou a galinha?

UM BRASIL QUE NÃO SE CONHECE

UM PAÍS SEM O CENSO É COMO O INDIVÍDUO SEM IDENTIDADE, SEM NENHUM DOCUMENTO.

Estamos sendo arrastados e destruídos por uma avalanche de coisas ruins que vai ser difícil juntar os cacos quando esse capitão-presidente do mal deixar o mandato. Por um lado, o povo brasileiro é submisso e conformado, mas é resistente para atravessar as intempéries das chuvas, do sol e do frio.

Pela primeira vez, depois de quase um século, a população não vai ser recenseada, uma pesquisa essencial para se conhecer um país por dentro, o número de seus habitantes, seus problemas socioeconômicos, o nível de saúde e educação, como se vive, sua cultura, entre outros itens para realização de políticas públicas, mas ele não tem interesse nisso.

O censo já existia desde as civilizações antigas organizadas, inclusive na véspera do nascimento de Cristo quando o Império Romano ordenou que todo seu reino fosse recontado. Existia também na Grécia antiga, no Egito e até entre os Sumérios. Aqui já se fazia essa pesquisa desde o Brasil Império, mas ele veio para destruir tudo que tenha cheiro científico.

Aliás, todas as instituições de planejamento, de preservação do meio ambiente, de observação do clima, de distribuição de recursos às famílias mais pobres, as fundações, como a Palmares, as agências nacionais, como a Ancine ligada à produção audiovisual, as bibliotecas, os museus, as universidades e os conselhos de pesquisa e ciência estão sendo sucateados.

Ele não quer o censo; detesta o conhecimento e o saber; nega a ciência, as estatísticas, a história (diz que não existiu ditadura); odeia os negros, os indígenas, os homossexuais, os pobres; é misógino; e ainda quer derrubar a floresta Amazônica e acabar com o Pantanal. Sua intenção é extinguir de vez com as licenças ambientais e abrir a porteira para a boiada passar. Para ele, toda esquerda é comunista, e todo comunista é o satanás.

Em sua cabeça, todo brasileiro deve andar com uma ou duas armas nas mãos, de preferência um fuzil ou uma metralhadora de última geração. Em sua ótica, só o armamento vai por fim à violência, e o policial tem que executar o indivíduo antes de render e prender. Tudo que é de maldade está nele, e mesmo assim tem um monte de seguidores.

Ele e o Congresso Nacional deixaram o IBGE “pelado”, sem dinheiro, para não fazer o censo e sobrar grana para dar para seus deputados e senadores comprarem tratores, máquinas agrícolas e abrirem estradas em seus municípios, como se fossem prefeitos ou governadores. Essas emendas parlamentares estão entre as maiores excrecências desse país.

As pessoas do saber intelectual, da cultura, da ciência, da tecnologia, da pesquisa, da medicina e de outras áreas do conhecimento foram execradas como inúteis e idiotas. Grandes cientistas partiram para outros países onde ocupam posições de destaque mundial. Ele optou por se cercar de generais e brucutus da Idade Média que ainda acham que a terra é plana.

O Brasil hoje é um desconhecido como se fosse uma terra de bárbaros, sem liderança, organização e coordenação onde a pandemia encontrou território fértil para se proliferar. A maioria das nações, principalmente na Europa, não querem ver brasileiros em suas terras. Somos os renegados.

Lá fora somos vistos como párias. A vacina se arrasta na lentidão de uma tartaruga porque ele também negou a imunização, como sempre condenou o isolamento social e promoveu as aglomerações. Agora, sem o censo nacional o Brasil acaba de perder por completo sua identidade.

A COVID-19 TEM CLASSE SOCIAL SIM

Ouço muita gente dizendo por aí que a Covid-19 não escolhe raça, cor, religião e classe social. Quanta a essa última categoria, eu discordo, não que o vírus por si só faça uma opção, mas a grande maioria de vítimas é o pobre que vive num estado vulnerável em termos de nutrição e saúde. Além do mais, precisa se virar para conseguir sobreviver e termina se aglomerando. Não estou me referindo aos imbecis das festas.

Infelizmente, das mais de 420 mil mortes, entre 80 a 90% são pobres. É certo que ricos, celebridades e famosos também se vão, mas em bem menor quantidade. Alguém já viu algum rico nas intermináveis filas dos bancos, na linha de frente do comércio ou nas vacinações tomando chuva e sol nos pontos fechados? Pelo menos em nosso país de profundas desigualdades sociais, essa danada está matando os mais fracos.

A EVOLUÇÃO DO MAIS FORTE

Isso já era previsível. Como já acontece em todas as catástrofes e tragédias, sempre sobra para a pobreza que mora em favelas, morros e barracos apertados com cinco e dez pessoas num amontoado. Como na teoria da evolução darwinista, quem tem dinheiro e poder consegue se safar bem melhor. É a lei do mais forte.

Tem gente endinheirada dando um jeito de sair do Brasil e se vacinar nos Estados Unidos. Nem sonhando, o pobre pode fazer isso. Ainda temos um governo desajustado e suicida que dificulta o andamento da vacinação quando abre a boca para xingar e debochar a China, maior fornecedora do principal insumo para fabricar as doses.

Aqui em Vitória da Conquista, por exemplo, tem falecido uma média de três pessoas por dia, o que é muito, e sempre observo que mais de 90% são moradores dos bairros mais periféricos. Assim tem sido em todo Brasil. Quando morre uma celebridade, a grande mídia, principalmente, faz um estardalhaço, politiza a questão e capitaliza audiência.

Do outro lado, a impressão é que temos um governo nitidamente voltado para eliminar os mais fracos quando chama os brasileiros de “maricas” e ainda faz vídeos mostrando o cancelamento de CPFs, sem falar em outras barbaridades ditas pelo chefe mandatário que insiste no receituário da cloroquina.

Existe aqui um genocídio da pobreza que, além da pandemia, está sendo morta lentamente pela fome. É fatal quando o vírus pega uma pessoa nessa situação. Toda essa mortandade de uma classe social desprotegida poderia ter sido evitada, e o que está ocorrendo é um crime de lesa-humanidade, do qual também somos culpados porque somente poucos ficam indignados.

Sabermos muito bem que existe em nosso país um grupo de neofascistas e nazistas seguidores da morte que desejam a eliminação dos mais fracos. Quando se fala isso, muita gente acha exagero, como não acreditavam que a extrema-direita ia tomar o poder no Brasil, e isolar nosso país do resto mundo.

Por essas e outras é que não recebemos ajuda dos países ricos que têm vacinas e equipamentos de proteção sobrando. O brucutu do ex-ministro das Relações Exteriores disse numa reunião que ser pária também é bom. A população é quem paga por todas essas consequências de um governo descompensado, e os pobres são levados ao sacrifício do alta da morte.

 

JOSÉ DE ALENCAR – SUCESSO DE PÚBLICO (I)

Filho do ex-padre José Martiniano de Alencar, casado com a prima Ana Josefina, o escritor José de Alencar nasceu em 1º de março de 1829, em Mecajura – Ceará. Seu pai torna-se senador em 1832 e presidente da província do Ceará entre 1834 a 37, seguindo depois para o Rio de Janeiro no ano seguinte. Alencar, então, contava com apenas nove anos de idade.

A viagem do menino por terra, do Ceará até a Bahia, causou profunda impressão no futuro escritor, conforme relata o biógrafo e historiador, José Luiz Beraldo, em “Literatura Comentada”.  Por volta de seus 45 anos, José de Alencar faz referência a essa viagem em seu livro “O Sertanejo”.

No Rio de Janeiro, Alencar completa sua instrução primária, em 1840, e em 1844, aos 15 anos, inscreve-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, no mesmo ano da publicação de “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo.

O adolescente ficou bastante impressionado com o primeiro romance brasileiro de sucesso. Como estudante, começou a ler os clássicos Balzac, Alexandre Dumas, Alfredo de Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo. Foi em São Paulo onde ele começou a lançar seus primeiros escritos e funda a revista semanal “Ensaios Literários”, na qual publicou um artigo de crítica “Questões de Estilo” sobre o índio Camarão.

Seu primeiro romance “Os Contrabandistas” saiu em 1848, aos 18 anos. Tempos depois o escritor conta que os originais da obra foram destruídos por uma colega que usava suas folhas para acender o cachimbo, na república dos estudantes. Ainda aos 18 anos transfere-se para a Faculdade de Direito de Olinda, e a literatura continua sendo sua principal preocupação, além das leis e dos estudos de Direito.

Em Olinda interessa-se pelas crônicas do período colonial, como fonte de personagens e enredos. Nessa época começa a redigir dois romances “A Alma de Lázaro” e “O Ermitão da Glória”. Em fins desse mesmo ano (1848), manifestam-se nele os primeiros sinais de tuberculose e retorna para São Paulo onde se forma em 1850.

Aos 22 anos (1851), Alencar inicia-se na profissão de advogado exercida até o final da sua vida, com raras interrupções. O escritor chegou a viajar para Europa, para tratamento de saúde, em 1877, mas de volta ao Rio morre aos 48 anos, em 12 de dezembro do mesmo ano.

Na literatura ele é muito conhecido pelo seu gênero indianista, como “O Guarani”, marca do seu maior sucesso. Em sua vida, também atuou como jornalista. Chegou a ser deputado e ministro da Justiça. Desiludido com a política, passou a se dedicar à literatura quando aumentou seu sucesso, mas também sofreu terríveis ataques da crítica.

 

OS CILINDROS DA VIDA

Foto do jornalista Jeremias Macário. Flagrante de um descarregamento de cilindros em frente de um hospital da cidade

 

Nunca eles foram tão protagonista nesta pandemia da Covid-19 como meio de salvar vidas intubadas para devolver ar aos pulmões afetados nas UTIs dos hospitais. São os cilindros da vida que em Manaus, com sua escassez, provocaram dor, choro e lágrimas de muitos parentes que estavam com seus entes queridos à beira da morte. Eles são essenciais para o respirar. A mídia sempre está falando neles quando existe uma ameaça de falta nas unidades de saúde. Sem eles, talvez o número de mortes no Brasil, mais de 417 mil, poderia até ser o dobro. Em Manaus, inclusive, e outras cidades, muitos vieram a óbito quando as fábricas não conseguiram atender a grande demanda. Quem não viu as cenas de gentes desesperadas nas filas lutando para adquirir esse valioso tubo de oxigênio? Infelizmente, no lugar dos cilindros, o insensível governo federal mandou cargas de cloroquina. Eles não são usados para tratar um “gripezinha” qualquer. Já imaginou se o Brasil dependesse do fornecimento da China, que está irritada com as declarações desastrosas de um capitão-presidente que nem está aí para as mais de 400 mil mortes? A impressão que temos é que em nosso país temos um governo com a intenção de fazer uma seleção humana, eliminando os mais fracos, ou todos aqueles que não são assintomáticos. Está havendo um genocídio, e um dia a história vai nos punir por termos sido omissos e tolerado tantas barbaridades dos negacionistas da ciência. Ainda bem que temos os cilindros da vida.

AS ESTAÇÕES PERDEM SUAS CORES

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por Deus, Alá e por Jheová!

Deixem de atanazar a natureza,

E sugar de cada Estação,

O vigor sublime da sua beleza.

 

Os deuses da tecnologia e da ciência,

Estão poluindo o ar, a terra e o mar,

E do humano a consciência escravizar.

 

Lá se vão os contrastes das Estações,

A noite virou um clarear do dia,

Com a energia da luz artificial,

Que tirou a magia do espaço sideral,

 

No Nordeste, o verão chicoteia no reio,

Com um fino outono e rala primavera,

Na era do escasso inverno que não veio.

 

O céu noturno, nosso templo sagrado,

De lua e estrelas no infinito universal,

Que previam o futuro com o ritual,

De fartura das colheitas do arado.

 

As bruxas voadoras em suas vassouras,

Cortavam as noites como os cometas,

Para anunciar as mudanças nos planetas.

 

As Estações não eram preguiçosas,

Cada qual exibia suas cores,

Os pastores tinham o tempo certo,

Do rebanho curral e das colinas viçosas.

 

Existia o limite entre frio e calor,

Com o toque dos tambores dançantes,

E o sopro nas orgias dos berrantes.

 

No Brasil já devastam os ciclones,

Queimam as florestas do Xavante,

O Pantanal vai perdendo seus clones,

E a Estação faz sua mudança rasgante.

 





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